Senhorita Aurora
Capítulo 22
“Oh, father of the four winds, fill my sails,
across the sea of years
With no provision but an open face,
along the straits of fear
Ohh.“
Kashmir – Led Zeppelin
Daniel veio me trazer em casa, ele fez questão de vir, mesmo eu dizendo umas trinta vezes que não precisava. Na trigésima vez que eu insisti para ele ficar, ele me olhou bravo, bravo de verdade, então concordei. Na parte final da viagem, eu tentei convencê-lo a ficar em Londres. Só que ele era uma das pessoas mais teimosas que conheci. Nós fizemos o caminho abraçados como um casal de namorados, vez ou outra ele passava a mão no meu cabelo, no meu rosto e nos meus lábios, e nossas respirações aceleravam e ficava difícil lembrar que éramos somente amigos, acho que sabíamos que essa era a despedida.
Despedida do quê?
Era o que ainda me perguntava dois dias depois que o vi pela última vez. Porque o que tivemos não podia ser considerado algo que caiba uma despedida.
Agora, explique essa teoria para o meu coração, porque ele não concordava e deixava isso claro.
Toda vez que eu pensava no Daniel e que eu achava que iria cruzar com ele no balé, o idiota do meu coração queria dançar um solo inteiro fora do meu corpo.
Tentei disfarçar com a Nathy, sei lá porquê. Não tinha encontrado ânimo de explicar minha situação: Daniel Hunter; amigos até depois das apresentações do balé; e quem sabe, se não fosse um assassino em série, a loucura dele pudesse ser algo mais.
Então, era para ela ter me deixado em paz e acreditado em mim, afinal, éramos melhores amigas. Mas ela tinha uma espécie de detector interno que sabia o que sentia antes que eu tivesse a chance de falar, por isso Nathy andava meio...
— Então quer dizer que o senhor Hunter mostrou um lado bom e generoso da personalidade dele?
Ela andava fazendo perguntas o tempo inteiro. Se estava com dificuldade de parar de pensar nele, ela não ajudava em nada. A cada cinco minutos, tinha uma interrogação nova.
— Aham — respondi e mordi a maçã que comia de sobremesa no jantar.
— E essa mudança foi do nada ou aconteceu alguma coisa que operou um milagre no homem das cavernas?
— Ele não é. — Parei, respirei fundo e disse: — Ele está diferente em todos os sentidos.
— Em todos? Como assim?
— Esquece, Nathy, pelo amor de Deus!
— Ah, não... Eu não acredito, você corou... Eu não lembro de ver você assim só de falar em um cara... Eu não acredito!
Virei para a geladeira, guardei a garrafa de suco e o que sobrou do jantar, arrumando as coisas na prateleira.
— Você está louca, eu não corei nada.
— Eu te conheço, Nicole Alves, você só fica assim quando está muito constrangida ou com muita raiva ou... Meu Deus! — ela quase gritou e deu uma gargalhada. — Eu não acredito! Você entregou seu coração inalcançável para o homem barbado?
Fechei a geladeira com um movimento mais seco do que gostaria.
— Eu vou dormir, amanhã cedo nós temos ensaio e, de verdade, pare de me olhar como se eu fosse uma centopeia gigante.
— Desculpe, é que eu... nunca acreditei que fosse te ver assim algum dia.
— Pelo amor de Deus, assim como? — eu disse mais alto, já entrando no quarto.
— Ou você me conta a verdade, ou eu vou ligar para a sua mãe para ter uma aliada.
— Você não seria louca a esse ponto — eu disse, a encarando do batente da porta, com as mãos na cintura.
— Sou sua melhor amiga e se você não pode ou não quer abrir seu coração comigo, acho mesmo que está precisando de ajuda.
Bufei e olhei-a, ela fez com uma expressão de martírio e eu me senti um pouco culpada.
— Está tarde, amanhã após o ensaio nós conversamos e eu te conto tudo, ok?
— Você está louca, louca, se acha que eu vou aguentar até amanhã... ainda mais agora que tenho certeza de que existe algo a ser contado.
Assim que ficamos em silêncio, nos encaramos com uma cumplicidade que ia além das palavras. Fechei os olhos resignada e disse:
— Nós nos beijamos e... foi bom, muito bom. — Merda, minhas bochechas estavam ardendo de novo!
— Só isso?
— Só, só beijo, Nathalia.
— E por que você está toda vermelha de novo?
— Ah, estou? Sei lá, deve ser o frio.
— Certo, aham, o frio. E por que você não me contou antes?
— Porque eu sabia que quando fizesse, você não me deixaria mais em paz até extrair tudo.
— Ahhh, então tem mais? — A Nathalia era realmente insuportável quando queria.
— Não, Nathy, foi só isso, e o fato de termos resolvido que vamos ser apenas amigos até o fim das apresentações.
Eu entrei no quarto e vesti o pijama. Não queria olhar para ela omitindo as coisas. Porque, no fundo, era só isso mesmo. Exceto pelo fato dele poder ser um assassino, ou um tipo de psicopata bipolar, ou... sei lá, já não tinha certeza de nada. Apaguei a luz e deitei na cama. Até que ouvi a Nathy entrar no quarto.
— Como assim, amigos e mais nada?
— Ele é nosso diretor, Nathy, não quis e eu também não quero misturar as coisas, não está certo.
— Hummm, sei não, isso está com um jeito de saída estratégica e educada de uma situação que ele não quer mais.
— Pode ser. Agora, de verdade, deixa eu dormir — disse disfarçando o desconforto que as palavras dela trouxeram. Era bem provável que fosse verdade. O senhor-louco-Hunter se arrependeu de ter me beijado e, como eu sou a bailarina da peça que ele rege e dirige, e como o pé na bunda grosseiro ficou muito chato, ele pode ter tentado... Ah, meu Deus, chega. Não vou enlouquecer.
— Como é beijar uma cabeça?
— O quê? — Eu não entendi.
— Ué, ele só tem cabelo no rosto, deve ser igual dar um beijo no cocuruto de alguém.
— Cale a boca, Nathy — disse depois de parar de rir. Não ia contar sobre a barba, não perderia a cara de besta da Nathalia amanhã no ensaio por nada. Meu coração saltou com a certeza de que nos veríamos pela primeira vez em quase três dias.