Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 31 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 28

“We are unstoppable

 

I just can’t escape the pull

We are unstoppable”

Unstoppable – Lianne La Havas

 

Na noite anterior, o Daniel foi trabalhar e eu dormi sozinha, em algum momento da madrugada o senti deitar junto a mim. Quando acordei estava sozinha outra vez. Tomei o café da manhã com o som do piano sendo minha companhia.

Peguei meu celular que estava em cima da mesa e abri o navegador em um dos maiores sites sobre o cenário cultural de Londres. A primeira notícia que pulou na tela era um vídeo do Daniel regendo em um concerto para convidados especiais da rainha. Sabia que esse concerto tinha acontecido alguns dias atrás, porque ele havia comentado comigo. Nunca tinha visto Daniel reger, então, abri o vídeo curiosa. Bastante curiosa.

Era a 7th de Beethoven, segundo movimento. A reportagem abaixo do vídeo era uma entrevista com ele, então a câmera tinha o maestro como foco principal.

As primeiras notas iniciaram e o rosto do Daniel estava turvo de emoções que pareciam variar entre a raiva e a dor. Ele dava uma bronca na música e não apenas em francês, mas em russo, latim, espanhol, alemão, italiano e em todas as línguas que existiam sobre a Terra. Daniel estava realmente muito assustador. Minha boca secou, enquanto as mãos dele ensinavam a música a se comportar. Então, outros instrumentos entraram e a melodia evoluiu, ele fechou os olhos e a nuvem negra que pairava em sua expressão suavizou, era como se as notas todas tivessem resolvido obedecê-lo e ele estava satisfeito. Agora, o maestro acariciava a música com as mãos, ela entrava no corpo dele o transformando em algo maior, mais complexo, mais bonito e inteiro. Conforme as escalas subiam, o rosto dele mudou outra vez, dando lugar a uma expressão de prazer, os olhos abriram pesados de... desejo? Parecia desejo. Ele e a música estavam em um tipo de ato sexual... meu corpo esquentou. Daniel despia a música com as mãos, com os olhos, com corpo e com a alma. Minha respiração acelerou e a sinfonia cresceu enquanto os movimentos dos braços dele se tornavam mais vigorosos no ápice do ato ou da foda, alguns fios do cabelo preso dele se soltaram, tinha certeza de que ele transpirava, assim como eu. Daniel respirava as notas com a boca entreaberta e eu nem lembrava mais o que era respirar. Deus, eu queria que ele fizesse sexo comigo, precisava que ele me possuísse como possuía a música e precisava disso agora. As notas foram diminuindo, ele fechou os olhos outra vez, tentando equacionar a respiração, se recuperando depois do orgasmo. A sinfonia por fim, acabou. Será que era assim que o rosto dele ficava depois de ter um orgasmo de verdade? Acreditei que sim. Eu tive que esperar alguns minutos ainda sentada na mesa do café até conseguir parar de tremer, suar e babar. O som do piano da sala de música voltou a preencher minha consciência. Por fim, um pouco menos abalada, levantei e resolvi ir ao encontro do maestro fodedor de sinfonias.

Cruzei o corredor e entrei na sala, ele me chamou com a cabeça para que eu avançasse. Aproximei-me com passos um pouco tímidos até o banco do piano. Ele parou a composição que tocava e começou uma música que eu logo reconheci: I want hold your hand.

A música que me levou até ele naquela noite no balé. Na verdade, as notas responsáveis pela minha ida até ali, quase um mês atrás.

Só que, dessa vez, ele não apenas tocou, ele cantou e fez isso olhando para mim. Ele estava calmo e sua expressão era serena, como se não tivesse acabado de foder durante quinze minutos com uma orquestra inteira. Eu ainda me sentia abalada demais com o que tinha assistido, com a intensidade dele no vídeo e toda vez que a letra que Daniel cantava dizia: “Quando eu te toco, me sinto feliz e você tem esse algo, eu acho que você entende...”, eu sentia o meu coração acelerar. Meio boba? Pode ser, eu não controlava isso faz tempo.

A música acabou.

— Acho que foi essa música que trouxe você até aqui. — Ele riu e negou com a cabeça

Quis perguntar se ele tinha orgasmos enquanto regia, mas em vez disso, respondi:

— Acho que sim.

— Minha mãe cantava ela para eu dormir... É uma das únicas lembranças que eu tenho dela.

— Eu sinto muito. — Minha garganta secou ao pensar no Daniel pequeno tendo que lidar com a ausência da mãe e do pai que ele nunca conheceu. Ele ficou órfão com seis anos e essa realidade triste foi capaz de tirar o sexo da minha cabeça.

— Está tudo bem. — Daniel fechou a tampa do piano.

— Você toca ela sempre?

— Não, às vezes.

Ele levantou abruptamente e eu me sobressaltei.

— Venha, quero te mostrar uma coisa. — Ele me puxou pela mão para fora da sala de música e depois da casa.

Fazia vários dias que não nevava e a temperatura vinha subindo gradualmente. Ainda estava frio, mas a neve tinha baixado, deixando alguns lugares antes brancos mais vivos de terra e pedras. Caminhamos cerca de uns dez minutos pela trilha da propriedade, até chegarmos em frente a uma construção que eu reconheci na hora.

— Um estábulo?

— Sim, aí está, outra das minhas paixões.

— Cavalos?

— Isso mesmo, senhorita Aurora, aceita me acompanhar em um passeio?

Senti o rosto esquentar.

— Eu tenho medo.

— Medo?

— Sim, eles são enormes.

O Daniel achou graça.

— Enormes?

— E... e eles... não gostam.

— Como assim?

— Sei lá, só nunca subi em um, acho que eles não gostam. Bom... eu não gostaria que alguém montasse em mim.

Ele achou graça outra vez.

— Tem certeza, senhorita Aurora? Eu... não ligaria, contanto que fosse você a montar.

Abri a minha boca chocada com a brincadeira e a porta do estábulo foi aberta pelo Daniel. Fui empurrada para uma das baias livres e um beijo me deixou sem respirar.

Era assim, eu nunca sabia quando ele ia esquecer que éramos somente amigos até... até... as mãos dele subirem pelas minhas costas e o beijo se aprofundar, até eu estar tonta e mole e só pensando em sexo com ele outra vez.

— O que você está fazendo comigo? — perguntou ele ofegante e com a testa colada na minha.

— Correspondendo ao beijo?

— Isso também — ele afirmou e se afastou sem soltar a minha mão.

— Venha, quero te apresentar para um dos meus melhores amigos.

Alguns passos dados entre as baias, paramos em frente a uma específica. No interior dela vi um enorme vulto negro sair das sombras em direção à porta, em direção à mão estendida do Daniel. Meu estômago contraiu em um misto de nervoso e admiração: era um animal imponente. O pelo parecia lustrado. Era um cavalo preto com olhos que lembravam uma tâmara. Além do rastro da força e da vida, todo o resto se apagava naquele olhar. Ele fungou quando o Daniel tocou a crina de comercial de xampu estendendo a carícia pelo pescoço.

— Esse é o Mozart. Mozart, essa é a senhorita Aurora.

Entreolhei os dois, que eram dois machos impressionantes. Intuí que eles se respeitavam, como se reconhecessem o domínio e a força que um exercia sobre o outro. Daniel continuou acariciando o pescoço do cavalo.

— Às vezes, quando eu preciso falar algo, tirar algo da cabeça, quando estou triste, eu o monto e converso com ele, eu tenho certeza de que ele me entende... Quando o comprei, ele ainda era um potro. O Mozart me viu crescer — ele falou baixinho —, acompanhou um dos momentos mais difíceis da minha vida.

Estava tão perto dos dois, que escutava suas respirações alternadas e fortes.

— Quantos anos ele tem?

— Dezesseis anos.

— Isso é...

— Um adulto. Quer tocá-lo?

Senti meu coração ir na boca, queria? Neguei com a cabeça.

— Vamos, eu seguro a sua mão junto, não precisa ter medo.

E antes que pudesse responder, ele já levava minha mão até o pescoço do cavalo.

— Você está tremendo — Daniel disse junto a minha orelha.

— Estou? — Já não sentia nada, além daquele pelo quente e macio que se acomodava entre os meus dedos. Então, devagar, me encorajei e arrisquei uns movimentos circulares com as pontas dos dedos, até que algo mágico aconteceu: aquele animal enorme e poderoso soltou uma espécie de suspiro.

— Ai, meu Deus! — eu vibrei entre admirada e apreensiva.

— Sim, ele gostou de você. — Senti os braços do Daniel envolvendo minha cintura e me puxando sem aviso para longe do cavalo e mais junto dele.

— Nem se acostume, Mozart — ele falou com a voz divertida —, ela é minha.

Era? Era dele? Eu queria muito ser. Mas, ao mesmo tempo, eu não sabia. Seria capaz de ser dele, depois que ele me contasse o que o torturava? Ou o que me dava ainda mais medo, ele seria capaz de se entregar para alguém de verdade, de vencer o que quer que fosse que precisasse?

— Daniel — minha voz falhou e limpei a garganta —, o que te atormenta tanto? Do que que você tem tanto medo? Por que que você precisa vir para cá e conversar com o Mozart quando está triste?

Senti o corpo dele enrijecer atrás de mim. Ele ficou alguns momentos em silêncio e acreditei que ele pensava se iria me contar ou não.

— Confia em mim — eu o estimulei —, por favor.

Ouvi uma respiração profunda seguida de outra. Os braços que me seguravam afrouxaram. Perdi o calor do corpo junto ao meu. Virei e encontrei Daniel de costas, com os cotovelos apoiados na porta meio fechada do estábulo. Ele olhava para fora.

— Eu vou te falar... — ele disse. — Só não agora, não hoje.

Fechei os olhos. Meu Deus, que merda que aconteceu na vida dele? Eu queria convencê-lo a se abrir.

— Todos nós passamos por coisas difíceis em nossas vidas, todos nós nos sentimos sujos, ou errados em alguns momentos. Por isso, não se torture por suas escolhas ou por quem você acredita que é... Olhe para mim, Daniel.

Notei os sons naturais de um estábulo: cascos de cavalos em movimento, respirações, relinchos curtos e palha em atrito com corpos grandes. Muitos sons, menos a voz dele me convidando a entrar na sua vida.

— Você não sabe — foi mais um murmúrio do que palavras altas, ele ainda estava de costas.

— Não, não sei... Mas se você não me deixar entrar, nem eu e nem ninguém será capaz de ajudá-lo a sair de qualquer que seja o buraco que você abriu no coração e, pelo que eu posso sentir... tem tanta culpa aí, que parece que nem mesmo você lembra qual é a porta da entrada.

— Nós combinamos que conversaríamos no fim das apresentações. — Então, ele virou para me olhar. Os olhos estavam negros de tão azuis; dor, confusão e um rastro de culpa molhada, refletiam um turbilhão de emoções que eu não entendia.

— As pessoas falam como se soubessem — disse ele. — É muito irônico como quem nunca viveu uma merda de verdade, se sente no direito de tentar ajudar ou mesmo entender, ou acha que é capaz de lidar com o caos dos outros... Ninguém sabe de porra nenhuma, até que uma merda real lhe cobre a ponto de você achar que nunca será capaz de sair dela, sem sujar tudo a sua volta.

Senti a vontade de chorar envolver a minha garganta e engoli para poder falar:

— Eu nem sei do que estamos falando, como posso fazer qualquer coisa se eu não conheço quem...

— Você dançando o balé de um conto de fadas... isso é tão maluco — Daniel riu de maneira estúpida antes de acrescentar: —, porque você se parece mesmo com uma princesa: a Bela. Só que nessa vida, onde não somos um desenho animado.

E bateu no próprio pulso, para reforçar o que dizia.

— Nessa merda de vida de carne e sangue, existe um preço alto a se pagar por suas escolhas e, o pior, muitas vezes pagamos pelas escolhas dos outros também. Aqui nenhum milagre ou magia parece ser grande o bastante para nos libertar do peso do que carregamos.

— Me conta, me deixa entrar, Daniel — falei com as lágrimas descendo pelo rosto.

Ele venceu a distância entre nós e me abraçou com força, me surpreendendo.

— Para quê? Para você nunca mais me olhar do mesmo jeito? Quando eu te contar... Você... eu... eu não quero perder a luz que eu vejo nos seus olhos quando você me olha... Eu não quero, Nicole, que você tenha medo de mim — ele concluiu e me abraçou com tanto desespero, que algo dentro de mim quebrou.

Seja a ferida que for que ele carrega, ela é tão grande a ponto de ele acreditar que eu poderia ter medo dele. Nunca quis tanto sentir a dor no lugar de alguém. Nunca quis tanto que alguém dividisse a culpa por qualquer que fosse o erro ou o mal que o possuísse. Segurei seu rosto entre as mãos e, assim como o meu, o do Daniel estava molhado de lágrimas. Pensar no que poderia deixar aquele homem enorme e, aparentemente invulnerável, quebrado daquele jeito, fazia meu estômago gelar e as mãos suarem frio.

Ali, eu não quis que ele me contasse mais... porque... eu só queria consolá-lo.

Mentira, não quis que ele me contasse porque tive medo. Medo de verdade do que poderia ser. Por ele, por mim, por nós.

E então... eu entendi a fuga dele.

— Está tudo bem, nós conversamos quando as apresentações acabarem — concordei acreditando que só queria estar com ele, queria que nada tivesse a força ou a importância de mudar qualquer coisa entre nós. Entretanto, não sabia, não tinha mais certeza se seria assim, e somente por isso agradeci ao silêncio.

Ele respirou fundo e me beijou. Logo estávamos ofegantes e pedindo com os nossos lábios para que isso fosse o bastante, o suficiente para nos manter seguros e inteiros. Ao menos, durante aquele fim de semana.