Senhorita Aurora
Capítulo 32
“What a wicked game to play
To make me feel this way
What a wicked thing to do
To let me dream of you
What a wicked thing to say
You never felt that way”
Wicked Game – Stone Sour
Ivo já me esperava em cima do palco. Nos últimos ensaios dançaríamos com todo cenário, figurino... tudo. Era quase uma apresentação real, com exceção da orquestra, que só ensaiaria junto nos dois últimos ensaios, antes da estreia.
Quando cheguei ele já estava lá sentado com uma prancheta na mão e nem levantou os olhos. E não cumprimentou ninguém. O contato visual mantido nos outros ensaios, um sorriso de aprovação, ou qualquer gesto que demonstrasse que tinha um ser humano vivendo ali sumiram durante as quase três horas de peça.
Esse era meu último pas de deux, o ensaio chegava ao fim, o que significava que se fosse uma apresentação normal, a peça também estaria acabando. Algumas correções foram feitas pelo senhor Evans: tempo, posicionamento, pequenos ajustes corporais. Daniel permanecia mudo, vez ou outra rabiscava algo na prancheta. Ele e o vinco enorme entre as sobrancelhas, que era a única testemunha de que havia algo em sua mente.
No final do número, assim que os aplausos diminuíram, a voz do senhor Hunter fez quase todos se calarem e olharem na sua direção:
— Eu tenho algumas observações a fazer.
Ele caminhou até nós dois e disse com toda a calma que eu nem sabia que tinha:
— Não, senhor Florimundo, não está bom. Não é isso que as pessoas esperam ver de um casal apaixonado. Vocês estão apaixonados, não estão?
Senti o estômago gelar e vi o Ivo consentir com a cabeça.
— Ótimo — ele prosseguiu —, mostrem isso, pegue-a de verdade, ela é a princesa dos seus sonhos, vocês esperaram a vida inteira por isso... Certo?
Ele olhou para o senhor Evans que apenas concordou e fez algumas observações mais técnicas sobre o nosso número. Senhor Hunter voltou a falar:
— Sabe o que queria de vocês? Que mostrassem a mesma vontade e calor de sexta à noite, enquanto dançaram no bar, no aniversário do senhor Florimundo.
Os meus olhos quase saíram de órbita de tão arregalados e isso ficou claro pelo que Daniel disse em seguida:
— Não façam essa cara, mais da metade das pessoas aqui assistiram e devem concordar comigo. Ali, sim, foi perfeito, vocês devem ter saído de lá direto para a cama mais próxima... E é isso que se espera de um casal que expressa a paixão e amor através da dança, é aquela energia sexual que eu quero que vocês transmitam nas noites de apresentação, entenderam? — As sobrancelhas dele arquearam enquanto o ar subia e descia em meu peito.
Ele nos viu dançando na sexta?
É claro que viu, então ele esteve lá. A mão do Ivo apertou de leve a minha. O que o Daniel falou sobre cama? Ah, sim, que saímos de lá para a cama mais próxima.
Filho da puta!
Senhor Evans disse qualquer coisa a respeito, assim como Ivo, mas eu não conseguia ouvir mais nada.
Desgraçado!
Olhei para o senhor Evans e perguntei juntando o pouco de voz que consegui encontrar:
— Estou dispensada?
O diretor concordou e murmurei um “obrigada” para o Ivo e saí. Não olhei para o Daniel novamente. Senti os olhos dele queimarem as minhas costas enquanto me afastava
Eu me vestia para ir embora, quando Nathalia se aproximou.
— Que idiota louco! Nós estamos cercadas de malucos imbecis... Só que o seu consegue ser pior por ser nosso diretor de merda. — Senti a mão dela apertar meu ombro em um gesto de apoio.
— Vou ficar por aqui mais um tempo — disse, pegando minha mochila.
— Tem certeza? — Nathy perguntou.
— Sim... preciso dançar.
— Ok, se cuida, amiga.