Senhorita Aurora
Capítulo 12
“I hope you have found a friend
Closing time, every new beginning
Comes from some other beginning’s end”
Closing time – Semisonic
Já estávamos há mais de dez minutos dentro do carro. Os pneus gritavam contra o asfalto e derrapavam a cada meio metro que descia. O senhor Hunter xingava em francês e em inglês toda vez que o carro derrapava. E nos últimos quinze minutos contei uns trinta palavrões. Minha respiração estava curta e eu lutava contra a vontade de chorar.
— Me desculpe — pedi pela décima vez, mas o senhor Hunter não respondeu.
Olhei para fora e o dia começava a fugir do céu. No inverno na Inglaterra, quatro horas da tarde já era noite. Que depressão. A neve só piorava, o asfalto já estava praticamente coberto de branco.
— Se você... — comecei com a voz falha, respirei fundo e acrescentei mais decidida: — Se você preferir, podemos voltar e eu espero a neve passar para conseguir um táxi.
Dessa vez, ele me olhou e ficou me encarando emputecido em silêncio por uns dois minutos.
— Pode demorar dias até essa estrada ser liberada — ele afirmou entredentes.
— Ainda bem que não temos ensaio pelos próximos quatro dias — tentei trazer algum humor para a conversa.
Ele deu uma risada horripilante.
Não funcionou.
O senhor Hunter voltou a tentar descer com o carro devagar. O pneu derrapou e fez um barulho alto, como um grito, e tudo passou muito rápido. Em um abrir e fechar de olhos estávamos girando uma, duas, três vezes... até o carro parar. Tirei os braços de cima do rosto e abri os olhos: além da neve, vi fumaça da borracha e senti cheiro de queimado. Toquei no meu corpo em um gesto instintivo. Eu estava bem. Olhei para o lado. A cabeça do senhor Hunter estava apoiada no volante. Gelei.
Ele havia desmaiado?
Ele estava bem?
Cheguei a erguer a mão trêmula no intuito de tocá-lo, o senhor Hunter levantou a cabeça e a fúria que vi dentro dos seus olhos azuis era capaz de derreter toda a neve do mundo.
— Entendeu agora por que ninguém dirige em uma tempestade dessas, sua desmiolada?! — ele gritou.
Eu me encolhi.
— E agora? — ele continuou enfurecido. — Como você vai embora?
Mordi os lábios por dentro, nervosa, machucada e irritada. Afinal, qual era o grande problema se eu não pudesse ir embora naquele momento? O que tinha de tão errado em ter que esperar algumas horas, até a tempestade de neve diminuir? Ele me tratava como se o fato de ter que ficar no mesmo espaço que eu — apesar de ser uma casa enorme, aliás — fosse o fim do mundo, a coisa mais insuportável ou até mesmo um tipo de tortura.
Coloquei a mão na maçaneta da porta, abri e saí do carro sem pensar. Comecei a descer a ladeira a pé. Não ficaria dentro daquele carro nem mais um minuto. Preferia descer a pé até a cidade, chegar lá congelada, ou nunca chegar, do que ter de aguentar as grosserias daquele homem.
Ouvi a porta do carro batendo, porque ele saiu também.
— Onde você pensa que vai? — ele esbravejou.
— Eu vou embora.
— Você vai congelar.
Senti as lágrimas escurecerem os meus olhos e virei para ele.
— Eu não dou a mínima.
— Sabe o que eu acho? — Ele cruzou os braços. — Acho que a senhorita não tem maturidade e nem controle emocional para assumir o papel que lhe foi confiado. Eu sou o primeiro a insistir com o senhor Evans para tirar você do elenco principal e lhe colocar em uma ponta qualquer, que é onde os bailarinos inexperientes e desequilibrados devem estar, mas ele insiste em mantê-la em destaque.
Quando percebi, as palavras dele já tinham causado o estrago e eu provava para ele que não tinha mesmo inteligência emocional, já que senti o meu rosto ensopar de lágrimas.
Resolvi falar tudo, já não aguentava mais, não tinha mais nada a perder.
— Você quer saber por que eu vim? Quer? Vim porque ontem fui buscar meu celular esquecido e não a minha correntinha, como te contei, e fui atraída para o teatro de ensaios pelo som da releitura mais linda dos Beatles que eu já tinha ouvido sendo tocada em um piano.
O olhar dele aumentou, eu continuei sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
— Então, quando a música acabou, ouvi o choro mais doloroso que já presenciei em toda a minha vida... Acreditei que talvez tenha uma dor tão grande aí dentro e que por isso afasta as pessoas do seu lado, por medo dessa dor. — Abaixei o olhar e suspirei devagar antes de acrescentar: — Fui uma boba mesmo, ao achar que o senhor precisava de um pouco de calor humano e se sentir acolhido. Mas sabe de uma coisa?! Acho que o senhor realmente merece viver isolado do mundo e das pessoas e sei que eu vou me arrepender até a morte por ter achado que você merecia qualquer gesto de bondade.
Levantei o rosto e olhei-o da maneira mais profunda que consegui e que ele me permitiu alcançar. Ele apenas me encarava mudo e, pela primeira vez desde que eu o conheci, acho que alguém o deixou sem palavras.
— Agora, eu vou embora. — Virei o corpo e comecei a descer outra vez. Porém, em seguida, senti a mão dele fechar no meu braço.
— Espere! — disse ele. — Isso é uma loucura, você não pode descer embaixo dessa neve e... e... Me desculpe — sussurrou. — é só que a sua presença nessa casa é errada, eu sou seu diretor e não é certo.
Ele tinha razão. Sabia que ele tinha razão.
— Me desculpe, eu não queria. Eu não pensei que...
— Tudo bem — ele me interrompeu e puxou o meu braço. — Vamos, a neve está piorando e estou gelado, você deve estar também.
Concordei com a cabeça.
— E se... — Parei de andar e olhei para ele. — E se a neve não melhorar logo?
— Você pode ficar aqui pelo tempo que for preciso.
Senti as bochechas arderem e olhei para baixo.
— Mesmo que isso demore mais de um dia. — Ele sacudiu a cabeça.
— Mais de um dia? — murmurei nervosa.
— Vai ficar tudo bem.
Voltamos para casa sem o carro, voltamos o mais rápido que conseguimos, a nevasca estava tão forte que não conseguia nem enxergar direito. O senhor Hunter tinha razão, seria impossível ir embora dali com aquele tempo. Meu coração disparou diante dessa certeza, minha respiração também. O que eu pensava fazer quando fui até lá?