Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 23 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 20

 

“We took your rights,

And your mother’s home

I turned but your tomb

Can be your pick

Not pawned

Poisons, blood”

The Wolf – Fever Ray

 

Já estávamos na cozinha há uns quinze minutos, Daniel havia me falado que a empresa que retirava a neve iria trabalhar pela manhã na estrada que dava acesso à sua casa. Então, se tudo desse certo, eu poderia ir embora no início da tarde.

Demonstrei um exagerado alívio por causa disso. Teria ensaio no outro dia muito cedo. Ele não falou nada diante do falso entusiasmo que eu quis mostrar.

— Você sempre cozinha? — perguntei tentando quebrar o silêncio chato que se instalou entre nós depois que eu comemorei minha saída da mansão.

— Eu adoro cozinhar, mas não é sempre que tenho tempo.

Eu cortava alguns tomates, enquanto ele temperava dois medalhões de carne. Vermelhos, gelados e macios, os tomates são frutas, difícil de acreditar. Lembrei da maneira profissional com que minha avó deslizava a faca enquanto cortava os ingredientes.

— Quando eu era criança, eu gostava de ficar na cozinha. Enquanto minha mãe e minha avó faziam experimentos com massas e bolos, eu adorava ajudar a misturar tudo.

— Eu cresci no meio de partituras, aulas e ensaios de balé.

— A sua tia... Como ela é?

— Como mãe? — Ele desviou os olhos da carne para os meus. — Ela foi uma boa tia.

— Hum... eu... — Queria perguntar tantas coisas, mas achava que a infância dele não era um assunto fácil de ser digerido antes do jantar.

— Na verdade, não tenho do que reclamar, ela me proporcionou as melhores oportunidades para que desenvolvesse meu talento com a música.

Ele voltou a trabalhar nos medalhões, eu voltei a cortar os tomates.

— Ela é uma ótima pessoa — Daniel continuou —, muito justa e honrada, foi uma tia carinhosa e tentou, da maneira que conseguia ou sabia, suprir a ausência dos meus pais.

— Eu também não tive pai... quer dizer, eu tenho pai, só que o vi tão pouco, que ele como pai... — Suspirei. — foi um bom tio ausente... Ele mora em uma cidade distante da que eu cresci.

— Onde você cresceu?

— Rio de Janeiro.

— Rio de Janeiro — Daniel disse em um tom pensativo. — Eu estive lá uma vez há alguns anos.

— E gostou?

— Tem como não gostar? Aquela cidade é maravilhosa, não sei como você não morre de saudades.

Eu sorri ao ter uma ideia boba.

— Mas eu morro de saudades, na verdade, morro de saudades mesmo é do Jean. — Soltei o ar de uma maneira exagerada e condoída. — Achei que não fosse aguentar no começo... eu estava acostumada a ficar com ele sempre junto a mim.

Olhei para o lado, o Daniel continuava a trabalhar impassível como se não tivesse ouvido.

Me senti uma tonta ao tentar provocar ciúmes nele. E achei que ele não só deve ter percebido o que fazia, como também certamente me achou uma menina imatura, talvez até convencida. Continuei cortando os tomates em um silêncio constrangedor.

Fui surpreendida pelas mãos do Daniel, que envolveram a minha cintura. Minhas pernas amoleceram quando a boca dele colou na minha orelha.

— É impressão minha ou você estava me provocando?

— O quê? Não... — menti porque na medida em que ele soprou as palavras no meu ouvido, os braços exerceram uma pressão desconfortável na minha cintura e aquilo me desnorteou.

— Eu não gosto de ser provocado, senhorita Aurora, e vou ter que lhe castigar para que você aprenda a nunca mais repetir isso. — A voz, ao contrário da pressão que todo o corpo dele exercia sobre o meu, era suave e controlada. Percebi que estava tremendo de... medo? Excitação? Ou seria de expectativa ou nervoso?

— Era o gato. Jean é meu gato. Meu bicho.

Os braços dele aumentaram um pouco a pressão e eu perdi parte do ar dos pulmões.

— Tarde demais, eu tinha decidido que não jantaria você, mas depois da sua brincadeirinha, vai virar o acompanhamento para a massa.

Ele mordeu minha orelha e começou a mover os dedos nas minhas costelas como se dedilhasse o piano. Fui invadida por ondas incontroláveis de cócegas.

— Vou matar você de rir — ele disse com a voz divertida.

Tive certeza de que o Daniel era o mestre das cócegas no universo, nunca um ataque desses me deixou tão desesperada. Eu me debatia e lutava pelo ar...

— Pelo amor — pedi enquanto dava risadas incontroláveis. — me sol... — explodi novamente em gargalhadas, e ele me torturava enquanto detinha o meu corpo. Os dedos longos e insuportáveis continuavam a dedilhar as minhas costelas.

— SOLTA! — Busquei pelo ar e outra onda de risadas me invadiu.

Eu nem enxergava e nem sequer lembrei que estava com a faca que cortava os tomates na mão. Tentava me soltar e respirar de todas as formas possíveis. Contorcia o corpo e as lágrimas rolavam pelo rosto. Com desespero crescente lutava pelo ar entre as gargalhadas. Ouvi o barulho de algo cair no chão. E só então me dei conta de que era a faca que eu usava.

Ele não me segurava mais.

Apoiei as mãos no balcão da cozinha e tomei o ar tão necessário de volta aos pulmões.

Ouvi uma espécie de grunhido às minhas costas.

— Não! — ele rugiu. Girei o corpo e encontrei o rosto lívido do Daniel medindo cada centímetro do meu corpo. Em meio segundo, ele segurava as minhas mãos e olhava-as com uma expressão de horror.

Sentindo o coração enlouquecer e ainda ofegante pelo ataque de riso, eu notei o que tirou a cor do rosto do Daniel. Algumas manchas de... sangue?

Sim, era sangue.

Ele tinha um corte de alguns centímetros no torso da mão.

Eu me cortei também?

Merda! Eu que cortei ele, sem perceber.

— Desculpe, você... eu... te machuquei. — Senti meu corpo sendo puxado para o balcão em direção à pia. Ele abriu a torneira e disse com uma urgência que fizeram os pelos do meu braço se arrepiarem:

— Lava, lava agora!

— Eu... Você... quem precisa lavar — pedi sem entender nada.

— Agora!

Continuei olhando-o sem reação. Será que eu tinha me cortado também?

— Você é surda, Nicole? — dizendo isso ele pegou as minhas mãos e colocou embaixo da água corrente, agarrou o detergente e espremeu meio vidro em cima delas e em uma parte dos meus braços. Eles também tinham algumas manchas vermelhas.

— Mas você... você está machucado. — Olhei para ele enquanto eu me lavava com movimentos atropelados.

Vi o sangue gotejar da mão dele. Fechei a torneira com um nó na garganta e disse com a voz trêmula pela incompreensão:

— Deixa eu te ajudar.

— Você se cortou, você está machucada?

Neguei com a cabeça. A voz ficou presa entre a incredulidade e o nervoso.

— Acho que não... desculpe. Você precisa, deixa eu te...

— Não! — ele rugiu.

Olhei para o chão. Vários pingos desenhavam círculos vermelhos, enquanto outros se abriam conforme o sangue pingava.

— Desculpe, foi sem querer. — Ouvi ele respirar profundamente duas vezes e o encarei.

Daniel estava de olhos fechados. Dei dois passos em sua direção e estendi a mão querendo tocá-lo.

— Deixa eu te ajudar com o cort..

— Não. — Ele abriu os olhos cheios de raiva e culpa. Ele deu dois passos para trás, como se essa raiva fosse dirigida a mim, em primeiro lugar.

— Vá para o seu quarto, Nicole. — Seu tom de voz era baixo. Nunca alguém me deu uma ordem tão fria. Como se não pudesse existir ninguém capaz de contestá-lo.

Fechei os olhos sem entender como tudo podia virar de cabeça para baixo em poucos minutos.

Por que tudo aquilo?

Por quê?

— Está bem — disse, virei o meu corpo ainda trêmulo e saí da cozinha com a maior vontade de chorar que eu já tinha sentido na vida.