Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 55 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 52

“But my dreams, they aren’t as empty

 

As my conscience seems to be.

I have hours, only lonely

My love is vengeance

That’s never free”

Behind blue eyes – Limp Bizkit

 

Há mais de dois meses, eu dava quatro horas de aula todos os dias.

E um mês atrás voltei a vestir uma sapatilha de ponta.

Conseguia dançar cerca de duas horas diariamente, meu corpo dava os sinais da hora de parar, através da dor. Eu sabia que não poderia mais dançar oito ou nove horas seguidas, mas toda vez que subia sobre as pontas eu reconstruía um pedaço de mim que tinha sido quebrado.

Cada aula que dava, eu caminhava um pouco mais, não para onde tinha sonhado, mas para um novo horizonte interior.

As conversas com o Daniel continuaram, mas aumentaram. Nos falávamos todos os dias por cerca de duas horas ou mais. Fazíamos isso pelo Skype. Foi incrível voltar a vê-lo ao vivo, através da tela do computador. Meu coração achava isso ainda mais incrível, já que ele continuava fazendo eu me sentir apaixonada. Talvez até mais do que um dia fui, ou achei ser.

Olhei o computador, era o horário em que nos falávamos sempre. Tinha acabado de ligar e o quadrinho da chamada acendeu.

— Oi, maestro — atendi animada.

— Olá, vamos ligar as câmeras?

— Sim.

Vi Daniel preencher todo o computador, o quarto e meu coração.

— Você está linda.

— Obrigada.

— Como está se sentindo hoje?

— Um pouco melhor que ontem.

— E você?

— Bem melhor do que há cinco minutos.

Meu coração disparava toda vez que ele falava algo parecido.

— Hoje estou com o Jean no meu colo — eu disse.

— Jean? — O cenho dele se aprofundou.

— Diz oi para ele, Jean. — Levantei meu gato e mexi a patinha dele imitando um cumprimento.

— Oi, Jean. Tudo bem? — Daniel falou com a expressão mais suave. — É, meu amigo, você é um gato de muita sorte.

— É mesmo?

— O mais sortudo do mundo.

— E por quê?

— Como assim? Por poder estar no seu colo! Nunca achei que fosse sentir ciúmes ou pior... inveja de um gato.

— Estou com saudades — eu disse aconchegando o Jean entre as minhas pernas outra vez.

— Eu também. — Ele fechou os olhos. — Muita.

— Fui almoçar na casa da minha tia Lu hoje. Lembra aquela amiga da minha mãe que eu te apresentei outro dia?

— Sim, claro que lembro.

— Se um dia você vier para cá, você tem que comer a feijoada que ela faz, é a melhor do mundo.

— Hmmm, vou cobrar, hein?

— Vamos ver Breaking Bad hoje? — perguntei mudando de assunto. Não falávamos sobre o futuro. Como se houvesse medo de estragar o que restava de bom se esse assunto fosse trazido à tona.

Pelo menos, eu tinha um pouco de medo dessa conversa, mesmo sabendo que um dia ela seria inevitável. Nós construíamos um vínculo cada vez mais forte e uma cumplicidade cada dia mais viva. Falávamos sobre tudo. Daniel contava o que fazia, eu mostrava fotos das minhas turmas de balé. No dia em que subi sobre as pontas, liguei para ele pelo FaceTime e dividi aquele momento, ele fez parte de todo o caminho até ali. Compartilhávamos fotos e mensagens o tempo inteiro. Sentia que o amava um pouco mais a cada hora.

— Tudo pronto por aqui. — A voz do Daniel me trouxe de volta para o Skype. — Vamos começar a ver?

— Sim.

Nós víamos séries e filmes com o Skype ligado e comentávamos um com o outro.

Quando acabou o episódio, apesar daquele ter sido um dos mais tensos, eu sentia sono.

— E aí, gostou? — Daniel perguntou.

— Muito — bocejei e respondi.

— Você está bocejando?

— Sim, acho que estou com sono.

— Como você consegue ficar com sono vendo um episódio desses?

— Não sei. — Eu sorri.

— Vou tocar para você, pode ser?

— Vou amar... mas você sabe que...

— Sim, sei que você vai dormir.

Vi a câmera em movimento, ele estava indo para o piano.

— Boa noite, senhorita Aurora, eu te amo — ele disse e começou a tocar.

— Também te amo, maestro.

Os acordes de Ain’t no Sunshine, de Bill Withers, embalaram o meu sono naquela noite.