Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 47 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 44

“Juliet, when we made love you used to cry

 

You said I love you like the stars above,

I’ll love you till I die

There’s a place for us, you know the movie song

When you gonna realize,

it was just that the time was wrong, Juliet?”

Romeu and Juliet – The Killers

 

Removeram meus ossos e me deram para comer, esse era o gosto ruim que estava na minha boca.

E essa era a dor que tomava meu corpo. Moído emocionalmente, destroçado, definiria melhor. Nada, nenhuma dor que eu senti na vida se comparava àquela. Não era física apesar de parecer, era puramente emocional. Sete horas, sete malditas horas foi o tempo que ela ficou no centro cirúrgico.

— Senta, Daniel, por favor — disse Nathalia, a irritante fada da alegria.

Ela não era irritante, é só que nós estávamos a ponto de explodir, ao menos eu estava. Já tinha andado aquele quarto, por não sei quantas vezes. Só sei que no chão dele tinham uns quarenta quadrados de piso emborrachado. Vinte centímetros cada um, em 16 m 2 de quarto. Já tinha contado os botões da parede, quantos passos eu levava para ir até a porta e, sim, 1610 era o código da recepção do centro cirúrgico, tinha ligado umas 385 vezes lá, nessas últimas sete horas infernais.

Me peguei barganhando, implorando, oferecendo tudo mentalmente a Deus:

Deus, por favor, leve tudo de mim, menos a minha Aurora.

Eu sabia que ela não corria risco de vida, mesmo assim barganhei sem parar. Entretanto, eu também sabia o que me fazia barganhar, era a tristeza da realidade à minha frente.

Uma bailarina não podia quebrar o pé. Não desse jeito.

Ouvi a porta do quarto abrir.

Era ela sendo trazida naquelas camas móveis.

Haviam ligado há pouco do centro cirúrgico dizendo que tinha corrido tudo bem e que logo ela estaria no quarto.

— Ela está acordada — falou uma das enfermeiras —, está sob efeito dos sedativos e tem falado bastante, não é mesmo, Nicole? — a mulher perguntou enquanto removiam ela da maca para a cama.

— Daniel, você voltou! — Nicole disse olhando para mim. Ela sorria, meu Deus, ela sorria. Senti meus olhos encherem de lágrimas.

— Nunca saí daqui, meu amor.

— Eu disse para a madame Vivan que você é meu namorado. — Ela apontou com a cabeça para a mulher que insistia ser a primeira professora de balé dela.

Nicole continuou:

— Ela me disse que você era bonito, todas acham você lindo de morrer, isso é muito irritante, na verdade.

Eu já segurava a mão dela, parecia tão pequena e frágil.

— Ainda bem que você é mais bravo do que bonito, isso mantém as mulheres longe de você.

— Não disse? — a enfermeira indagou com um sorriso. — Está assim desde que voltou da anestesia... Eu vou sair e logo volto para olhá-la — dizendo isso, a suposta madame Vivan deixou o quarto com os outros enfermeiros.

— Nathalia, você também está aqui? — Nicole perguntou outra vez.

— É claro que eu estou aqui, onde mais estaria?

— Essa é a melhor amiga que alguém pode ter na vida. — Os olhos dela caíram para o pé da cama. — Alguém avisou ao senhor Evans que eu me machuquei?

— Eu avisei, querida, ele e o Ivo também já estiveram aqui — Nathalia disse com a voz falha.

— Então, quer dizer que eu sou bravo? — Eu engoli o choro na garganta, queria distraí-la, precisava distraí-la.

— Não, você é o homem mais encantador, amigo, e irresistível que existe, mas deixe todas as outras mulheres do mundo sem saber disso, por favor.

Fechei os olhos para espantar as lágrimas, eu tinha que me controlar, Cristo!

— Você está com lágrimas nos olhos? — Nicole perguntou.

— Não, meu amor.

— Está sim, senhor Hunter, não minta para mim.

— Sim, estou.

— Por quê?

— Porque eu te amo.

E aí ela sorriu de novo. Eu tive certeza de que daria o meu mundo para que esse sorriso nunca desgrudasse dos lábios dela. Ela puxou minha camiseta.

E eu debrucei sobre ela.

— Eu te amo também... Você sabia que eu nunca tinha me apaixonado antes?

Neguei com a cabeça.

— A Nathy sabia, não é? — Ela buscou a amiga com o olhar.

— Sim, é verdade, a Nicole achava que o senhor Darcy era o melhor partido do mundo.

— Ele é o segundo melhor... e... eu quero um beijo do primeiro — dizendo isso ela me puxou ainda mais.

Beijei-a com cuidado.

— Não, Daniel — ela disse sobre os meus lábios —, um beijo de verdade.

Eu aprofundei o beijo ainda com cautela e ouvi ela gemer baixinho dentro da minha boca. Ela estava com gosto de remédio, mesmo assim aquela continuava a ser a melhor sensação que eu já tinha experimentado na porra da minha vida. Sempre foi, desde a primeira vez que nos beijamos. Eu me afastei devagar e toquei no rosto dela, o rosto da mulher que encheu meu mundo de calor, ar e de sentido.

— Eu me apaixonei por você desde que te vi naquele avião, só que naquela época eu não percebi isso — afirmei.

Ela suspirou, concordou com a cabeça, fechou os olhos e pouco depois voltou a dormir com um sorriso nos lábios.

— Meu Deus — comecei em silêncio olhando para ela —, sei que eu nunca fui alguém de rezar ou agradecer, parece que só lembramos de fazer isso nas horas difíceis. Mas também sei que não sou o único a fazer esse tipo de barganha não merecida. Porém, aqui, olhando para ela, entendo que eu devo ter feito algo de muito bom para merecê-la em minha vida. Por favor, meu Deus, pegue todos esse créditos que talvez eu tenha e transforme eles em força e em alegria para a minha Aurora. Toda vez que ela sorri, meu coração aquece. Não leve embora o sol da minha vida.