Senhorita Aurora
Capítulo 48
“I used to be the man for you,
Did everything you wanted me to,
So, tell me, baby,
What did I do wrong...”
Too Many Tears – Whitesnake
Os dias passaram. Eles eram engolidos entre a fisioterapia, as sessões de análise e a minha espera pelos vídeos do Daniel. Dia a dia eu me sentia um pouco menos morta por dentro. E depois do primeiro “obrigada”, eu sempre enviava a mesma e única palavra para ele. O Daniel sempre respondia: “Eu te amo”.
Estava lendo com o celular na barriga. Sim, eu voltei a ler. Pouco, no começo não conseguia ter ânimo ou vontade de me fixar em nada. Mas, com o passar dos dias, a leitura voltou a preencher parte do meu tempo e a ocupar minha mente com outras coisas que não fossem caixas caindo, mundo despencando, dor e desilusão. Lia apenas aqueles romances melosos, que de certa maneira me traziam... esperança. O celular vibrou com a chegada de uma mensagem. Eu sabia que era o vídeo do dia. Então abri:
Vídeo 41
A voz do Daniel preencheu o meu quarto:
— Estou com muitas saudades, estou com muitas saudades mesmo. Queria falar com você, saber como está, ouvir sua voz porque... sem você, meu coração vive em um eclipse total.
Notei que o lugar em que o vídeo foi gravado era diferente. A câmera tinha mais distância e movimento. Ele tocou os primeiros acordes no piano e eu reconheci: Total eclipse of the heart. Logo a voz de uma mulher encheu o meu quarto, não uma voz qualquer, e sim a da Nathalia. Então, entraram bateria, guitarra e uma banda inteira. A câmera alternava de foco, ora na Nathalia, outras no Daniel que tocava piano, mas quando os backing vocals entraram, eu solucei. Tinham umas vinte pessoas: era parte do corpo do balé cantando e dançando para mim. Era uma superprodução. No final, eu ria e soluçava. Segurava o aparelho com tanta força que os nós dos meus dedos estavam brancos.
Minha mãe entrou, o rosto estampava a surpresa que ela devia sentir.
Eu ainda chorava, ria e soluçava. Ela cruzou o quarto em três passos e me abraçou. Pela primeira vez, em mais de noventa dias, eu me deixei ser abraçada por alguém. Nós sabíamos que talvez fosse um passo em direção à cura de tudo o que me consumia.
— Me perdoa, mãe, me perdoa porque eu...
— Shhhh... Obrigada, Nicole — ela disse me apertando com mais força.
— Eu não sei se algum dia vou conseguir... mas eu... eu quero tentar.
— Vamos tentar juntas.
Eu concordei. Ela soltou os braços devagar e deu um beijo na minha testa .
— Eu vou ser grata e amar o Daniel pelo resto da vida pelo que ele está fazendo.
Concordei com a cabeça. Ela me encarou em silêncio com lágrimas nos olhos e pouco depois saiu do quarto.
Sozinha outra vez, eu deitei na cama e, movida por toda aquela explosão de emoção, digitei no celular, dessa vez mais de uma palavra:
Nicole: Obrigada, você fez com que eu me sentisse dentro de um episódio de musical brega, obrigada de verdade.
Um minuto depois recebi resposta:
Danie l: Estou me recuperando aqui. Foi você quem escreveu tudo isso mesmo? Sou eu quem agradeço e, sim, as saudades têm feito o meu
gosto musical e atitudes ficarem um pouco comprometidos, você vai ser responsável se eu virar um diretor brega de musical mela cueca.
E aí, eu gargalhei e chorei em seguida por estar gargalhando.
Nicole: rsrsrs. Daniel, você me fez rir e... obrigada.
Danie l: Sério? Você está mesmo rindo? Eu posso chorar agora? Deixa eu voltar a respirar e aí eu continuo a escrever... Como você está?
Meu Deus, que saudades!
Respirei fundo, limpei as lágrimas e digitei com os dedos trêmulos. Vencida a barreira do somente “obrigada”, escrever para ele era quase um alívio.
Nicole: Eu não estou bem.
Danie l: Eu sei, minha Aurora, eu sei que não...
Nicole: Mas... eu quero tentar.
Danie l: Eu farei o impossível para isso.
Nicole: Obrigada.
Danie l: Eu te amo.
Nicole: E você, como está?
Danie l: Não estou bem, mas acho que vou ficar, também. Agora, por exemplo, eu estou sorrindo de verdade, pois há mais de noventa dias que
eu não me sentia assim.
Nicole: Eu sinto muito, sinto mesmo... por tudo.
Danie l: Não faça isso, não me peça desculpas, pelo amor de Deus! Não vou aguentar se você pedir desculpas, eu vou desmontar. Sou eu,
meu amor, quem sinto, sinto tanto por tudo. Eu te amo.
Eu não respondi. Ele não insistiu. Entretanto, pela primeira vez em mais de três meses senti algo que não fosse um buraco negro e vazio dentro de mim. Talvez houvesse alguma esperança pela qual valesse a pena continuar tentando. Talvez valesse a pena tentar voltar a ser feliz.