Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 20 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 17

“Stay with me

Let’s just breathe”

Just Breathe – Pearl Jeam

 

Tinha acabado de sair do banho e vesti a mesma roupa outra vez. Me recusei a fazer isso com a calcinha, que agora estava pendurada no boxe secando. Antes, falei com a Nathalia, ou melhor, briguei com ela, que continuava insistindo que o senhor Hunter queria me matar.

Depois que eu consegui convencê-la de que eu estava bem e fora de perigo, pude tomar o meu banho em paz. Sequei o cabelo com a toalha e liguei meu iPad. Queria ouvir um pouco mais de música.

Tentaria falar com a minha mãe. Sentei na cama e uma batida firme na porta desviou minha atenção.

— Pode entrar — disse tendo certeza de que era o senhor Clark, meu coração louco e o frio na barriga que seguiram à abertura da porta provaram que eu estava enganada. Era o senhor Hunter e ele segurava uma pilha de roupas.

— São minhas... Sei que vão ficar grandes, mas... — Ele estendeu o monte de peças dobradas em minha direção.

— Obrigada. — Eu levantei da cama e me aproximei, pegando-as.

— Eu me liguei quando você disse que ia tomar banho que estava sem roupas... Então... — Ele olhou para o monte de peças e continuou: — tem um moletom, camisetas, meias, uma malha e, desculpa, só não tenho calcinhas criativas para emprestar.

Antes de conseguir sentir vergonha, eu me diverti com a sua brincadeira.

— Vai lembrar disso para sempre, né?

— Difícil esquecer.

Coloquei as roupas sobre a cama e ouvi:

— O que dizia mesmo? Ah sim... “Você vai me ligar, ou me ligue”.

— Se quer me envergonhar, não vai conseguir — eu menti, já estava envergonhada.

— Isso funcionou alguma vez?

— O quê? — “Por favor, pare com isso!”, implorei mentalmente.

— Alguém te ligou por causa da calcinha?

— Senhor Hunter, não quero analisar as minhas peças íntimas essa noite, se o senhor não se importa — eu disse, sorrindo, enquanto tentava inutilmente disfarçar a vergonha em meu rosto.

— É que você fica linda quando está com vergonha... eu... não resisti.

Senti o ar ficar preso entre o meu sorriso desfeito e o olhar intenso que voltamos a trocar.

— O que é isso? — ele disse apontando para o meu iPad, em cima da mesinha de cabeceira,

Eu ainda estava tonta.

— Um iPad.

— Eu sei o que é um iPad, pergunto sobre a música.

Música, que música? Como ele conseguia ouvir qualquer coisa além do meu coração esmagando o peito? Inspirei o ar devagar e notei que realmente o som estava lá. Me esforcei para parecer natural.

— É forró, uma música típica brasileira.

— Follrrol? — ele perguntou com todo o seu sotaque britânico.

Eu achei graça.

— Na verdade, tem uma lenda urbana que diz que o nome original em inglês é for all. — Me senti satisfeita por lembrar.

— Para todos?

— Sim, para todos dançarem... Eu adorava dançar, às vezes ia em lugares que só tocavam isso e dançava a noite inteira.

— E como se dança essa música?

— É uma dança de dois — disse com o meu coração enlouquecendo outra vez.

— Você me mostra?

Eu assenti e me aproximei. Dei um passo, seguido de outro, enquanto meu coração seguia contra as leis da gravidade. Peguei a mão direita dele. Um choque percorreu toda a minha pele. Guiei a mão esquerda até a minha cintura e tudo passou a ser aquela mão forte tomando posse da minha vida. Coloquei a outra mão no ombro masculino.

— Me segue, são dois passos para cada lado — pedi com o pouco de voz que restava.

Ele arriscou e eu o segui sem deixar de conduzi-lo. Poucos passos meio perdidos depois, ele já tinha entendido e talvez, pelo excesso de ritmo que tinha no sangue, o senhor Hunter aprendeu muito rápido, parecia que havia nascido dançando em qualquer pé de serra. A música acabou e eu me afastei, sorrindo. Ele não soltou a minha mão.

— Só que no Brasil, a gente dança um pouco diferente — escapou, porque veio da minha parte meio louca, uma que eu nem sabia direito como usar.

— Como, diferente? — Ele me olhava sem deixar nenhum espaço de olho descoberto enquanto olhei para baixo.

— Mais próximo.

A mão do senhor Hunter me puxou até não restar espaço nenhum entre o meu corpo e o dele. Conforme nos encaixamos, eu perdi o ar dos pulmões pela boca de uma só vez.

A música que tocava era um forró um pouco mais lento. O senhor Hunter me conduzia por completo. Todo o meu corpo respondia através da presença dele. E senti-lo assim, ter ele inteiro em mim daquele jeito, foi demais em todos os sentidos. Ali, naquele quarto, com a neve branqueando tudo lá fora, ao som de um xote, eu tive certeza: nada nunca pareceu tão certo. Nem o balé, nem a dança, nem Fred Astaire ou Jane Austen. Entendi, e já não sabia ou entendia nada.

A música acabou e a que começou em seguida foi Night and day. Meu corpo não queria me desfazer do dele e talvez ele sentisse o mesmo porque continuamos juntos, ainda dançando. Dançando? Não, o mundo é que dançava aos meus pés e tudo existia pelo centro daqueles olhos azuis em cima dos meus. Deixei minhas pálpebras fecharem, me sentia muito afetada. Acho que foi isso que fez a realidade voltar. Devagar, ele se afastou. Voltei a encará-lo. Ele parecia sem graça, eu estava desnorteada. Ofegante e abalada demais para raciocinar.

— Frank Sinatra — ele disse e apontou para cima, talvez querendo devolver a razão para o mundo.

Não funcionou.

— Você gosta? — O senhor Hunter já tinha dado alguns pessoas para trás, aumentando a distância entre nossos corpos.

— Fred Astaire e Ginger Rogers — saiu automaticamente da minha boca. — Eles dançando essa música foi o que me fez querer dançar. — Meu coração disparava tão rápido que precisei sentar na cama às minhas costas. Tinha certeza de que se não fizesse isso, eu cairia.

— É sério? — Ele parecia inabalável, isso era um pouco irritante.

— Sim, assisti tantas vezes esse número de dança que sei de cor os passos até hoje.

Sorri com a lembrança e finalmente consegui voltar a respirar. Me sentindo um pouco mais calma e controlada, continuei:

— Sonhava um dia dançar com alguém, igual aos dois... Minha mãe sempre dizia que eles pareciam anjos. Eu era criança, tinha uns quatro anos quando vi pela primeira vez... Acho que ensaiei mais esse número do que qualquer outro até hoje.

O senhor Hunter aproximou-se para sentar na beira da cama, ao meu lado.

— Posso? — ele perguntou.

— Sinta-se em casa.

E o sorriso dele preencheu o meu coração.

— E realizou seu sonho?

— O de dançar? É claro, o balé é a minha vida.

— Não o de dançar balé, mas o de dançar com alguém, igual ao Fred Astaire e a Ginger.

— Ainda não. — Curvei os lábios soltando o ar pela boca. — Na verdade, acho que nem sonho mais com isso, é claro que sou louca por eles, tenho até pôsteres dos dois no meu quarto.

Vi os olhos do senhor Hunter se arregalarem. Seria de surpresa? Imaginei que sim.

— Você é muito... — ele fez uma pausa antes de acrescentar: — curiosa.

— Curiosa?

— Sim, não é comum meninas da sua idade gostarem de Jane Austen e Fred Astaire.

— Eu também gosto de rock.

— Como disse, é uma menina curiosa.

— Menina? Falando assim, você parece que tem o dobro da minha idade.

— Às vezes, é como me sinto.

— Velho?

Ele respirou fundo.

— Não... cansado.

— Você ficou bonito sem a barba. — Merda! O. Que. Eu. Acabei. De. Falar?

O olhar intenso do senhor Hunter estava em mim outra vez.

— Ahn, quer dizer... ficou jovem, parece jovem, não que seja velho, mas agora...

— Sou bem mais velho do que você, senhorita, não tem problema você ter notado isso.

— Ah vai, você tem o quê? Vinte e cinco anos? É claro que se sente cansado, fala como se tivesse cinquenta e cinco.

— Tenho vinte e seis.

— Bem mais velho. — Usei um tom irônico. — Até parece.

Com o silêncio, a música no iPad ficou mais alta.

— Você está com fome? — ele perguntou.

— Não, comi um pouco antes de subir.

Ele concordou com a cabeça.

— Você não se sente muito só aqui? — perguntei olhando ao redor.

— Quando estou com a música, eu não estou sozinho.

— Eu te entendo. — Entendia mesmo, porque quando eu dançava, nunca sentia nada a não ser a dança.

— E você, sente muitas saudades do seu país?

— Sinto saudades, mas não muita, a dança não deixa.

Ele olhou para o livro da Jane Austen na cabeceira.

— Desde quando você gosta de ler clássicos?

— O primeiro livro que li dela, tinha uns doze anos.

O maestro me lançou um olhar divertido.

— Alguns anos lendo e você só lê romances?

Lembrei do livro que estava sobre a mesa dele, naquela tarde em que fui devolver o celular.

— Melhor do que ler diários de estripadores.

Ele me olhou novamente dessa vez, parecendo surpreso.

— Aquele dia, na sua sala, eu vi o livro sobre a mesa — expliquei um pouco sem graça e me acomodei recostando nos travesseiros. Era uma cama de casal com dossel, o senhor Hunter estava sentado com as pernas para baixo e as costas na cabeceira.

— Ah não — ele começou mais descontraído. — Mas eu também leio livros de outros tipos de assassinos e não apenas os que estripam e também de homens bombas e torturadores.

Olhei-o com um assombro forçado.

— Eu devo ficar com medo agora?

— Eu tenho uma coisa com a morte — ele disse com um sorriso contido.

Eu quis entrar na brincadeira, ignorando meu coração acelerado.

— Então, por isso a morte te ama, entendi, você é o garoto da morte.

Virei para o teto absolutamente sem graça. Acabei de lembrá-lo que eu tinha lido a agenda dele. Que estúpida! Olhei-o de lado e Daniel me encarava com um vinco enorme entre as sobrancelhas. Cobri o meu rosto com as mãos.

— É agora que você vai me tirar da peça? — perguntei sem descobrir os olhos.

Senti os dedos mornos e compridos dele tirarem as minhas mãos de cima do rosto.

— Está tudo bem — o senhor Hunter confirmou.

E eu voltei a respirar.

— Desculpa, eu realmente não sei o que me deu aquele dia... eu estava curiosa sobre... sobre você e...

— Naquela agenda não tem escrito nada de mais.

— Bom — tentei sorrir —, então se não é nada de mais, o que significa aquela história da morte?

Minha curiosidade sobre Daniel Hunter seria o meu fim. Eu já devia saber disso.

O maestro ficou me encarando por mais um tempo em silêncio, possivelmente pensando se me respondia ou se me mandava embora no meio da nevasca. E então, o impensável aconteceu: ele pegou uma mecha do meu cabelo entre os dedos e a colocou atrás da minha orelha.

— Ao contrário do que muitos acreditam, eu acho que a morte é uma mulher.

Precisava me esforçar para responder qualquer coisa, só queria fechar os olhos, abraçá-lo e ficar ali com ele em silêncio.

— E então, a morte se apaixonou por você.

Ele deu de ombros.

— Só que ela não sabe amar sem destruir — respondeu sombrio e desviou os olhos para o dossel.

— E você a ama de volta?

— Eu só acho que ela é o maior mistério com o qual temos que lidar e também o maior desafio... Às vezes, sinto que, enquanto não aceitarmos a verdade de que todos aqui morrerão um dia, nunca seremos capaz de vivermos sem medo — disse e continuou olhando para cima.

Tive que me segurar para não avançar em cima dele com um milhão de outras perguntas. Sabia que talvez se eu passasse do limite, ele iria se fechar e se afastar outra vez.

— Eu, por exemplo — comecei querendo descontrair o clima da conversa —, sinto que nunca poderia viver sem chocolate, nem sei para onde estou indo quando fico muito tempo sem chocolate.

— Chocolate? — ele perguntou com diversão.

— Sim.

— Qualquer tipo?

— Não, ao leite em primeiro e absoluto lugar.

— Então, chocolate nunca pode fazer mal?

— Nunca, na verdade acho que o governo devia distribuir uma cota diária de chocolate de graça que nem remédio.

— Sim, para as mulheres — ele provocou.

— Ai... que comentário mais óbvio.

— Que as mulheres devem tomar diariamente?

— Não, que os homens acham que somente as mulheres precisam disso para alívio mensal.

— Alívio dos homens?

Eu gargalhei.

— Não, seu idiota, alívio dos sintomas. — Prendi o ar horrorizada, tinha acabado de chamar o meu diretor de idiota?

— Vocês são muito sintomáticas, instáveis e talvez o governo devesse mesmo entregar chocolate de graça às mulheres para a saúde dos homens. — Ele pareceu não notar, porque continuava com a brincadeira.

— Olha quem fala! O homem que grita como uma louca em TPM eterna.

Pronto, agora me internem, passei de todos os limites e o senhor Hunter percebeu, pois ficou sério, apenas me olhando.

— Desculpa.

— Acho que eu vou pegar chocolate para você. — Ele forçou uma voz grave e raivosa. — Tem uma torta de chocolate com laranja lá embaixo, vou pegar agora.

— Ai meu Deus, que horror! — A frase pulou da minha boca.

— Oi?

— Quem é o assassino de chocolate que coloca laranja nele? Tinham que mandar prender! — A minha língua solta não atrapalhou o bom humor da conversa e eu começava a me questionar: “Será que ele era tão mal-humorado assim, como fazia questão de parecer? Acho que não, ou só profissionalmente como ele mesmo disse”.

Vi-o pegar o telefone e discar alguns números.

— Tome. — Ele me passou o aparelho. — Resolva isso direto com a senhora Evans, a cozinheira, ela só não é mais perfeccionista do que eu, acho que vai adorar ouvir a sua opinião.

Desliguei o aparelho o mais rápido que consegui. Mas, para fazer isso eu quase montei em cima dele, resultado: o senhor Hunter em grandes quantidades embaixo e eu em cima. Enquanto ele me olhava, eu ficava sem ar. Virei o corpo rapidamente e disse ainda sem graça.

— A minha avó fazia o melhor bolo de chocolate do mundo... E a tentativa de me deixar sem graça com a sua cozinheira não funcionou.

— Não?

— Talvez só um pouquinho — eu respondi com um fio de sorriso na voz, tinha me afastado dele, mas não fiquei tão longe como antes. Ele também não se afastou.

No iPad começou a tocar I can’t help falling in love, a versão da Haley Reinhart, fui surpreendida pelos dedos do senhor Hunter desenhando círculos na minha cabeça, entre o meu cabelo. As batidas do meu coração subiram alguns graus dentro do peito.

— Você gosta dessa música? — ele perguntou no meio dela.

— Amo... acho que é a minha preferida na vida

— Então você também gosta do rei?

— Elvis é o cantor favorito da minha mãe, ela me colocava para dormir cantando aquela música dele: Bridge over a...

— Troubled water — ele completou com um sorriso na voz.

— Sim, essa mesma, ela cantava especialmente quando eu me sentia triste com alguma coisa — disse e senti que os meus olhos começavam a pesar, pois o cafuné sempre foi o meu ponto fraco para o sono.

Acho que eu bocejei porque ele parou o carinho e se levantou da cama.

— Você está cansada, eu... vou deixá-la dormir.

— Não, não vá... não quero ficar sozinha.

Ele me olhou, parecendo pensar e eu insisti:

— Por favor.

— Está bem. — Vi que ele tirou o sapato e se recostou outra vez na cabeceira, dessa vez jogou as pernas em cima da cama e voltou a fazer o cafuné sem que eu precisasse pedir, eu suspirei com o conforto que isso trazia.

— Descanse, quando você dormir eu vou para o meu quarto.

— Obrigada.

Acordei com o quarto ainda escuro e com uma sonolência difícil de vencer. Senti um calor bom e um aconchego familiar. Fui devagar, meio torpe, recobrando a consciência. Notei o quente e macio do cobertor, o travesseiro morno subir e descer em um embalo...

Travesseiros não sobem e descem.

Claro que não.

Passei a mão ao meu lado, encontrei músculos relaxados que faziam parte de um... braço masculino?

Achei que sim.

Meu Deus, era...

Eu estava?

Ele estava?

Dormi abraçada com ele?

Não.

Ele dormiu aqui, isso era claro, mas por que a minha cabeça usava o peito do senhor Hunter de travesseiro?

Ai, meu Deus, a minha cabeça estava no peito do senhor Hunter e meu o corpo todo junto à lateral do seu corpo. Isso era tão certo mesmo parecendo proibido. Mesmo sendo errado. Tudo em mim encaixava nele de uma maneira mais do que perfeita. Era tão maravilhoso que eu queria ficar assim para todo o sempre possível, amém.

Por que que eu vinha sentindo essas coisas junto a ele?

Dane-se, eu não precisava entender nada disso.

Só precisava ficar um pouco mais ali e talvez... Eu passei o meu braço direito por cima do peito dele e fechei-o em um meio abraço. Isso fez com que ficasse ainda mais próxima. Ele tinha um cheiro bom de carvalho, de sabonete e... dele.

Como será que era a pele do rosto do senhor Hunter?

Eu só precisaria chegar um pouco mais perto e... fiz.

Levantei o rosto e deixei os meus lábios tocarem de leve no maxilar dele. Então... a respiração masculina ritmada acelerou. Em um movimento nervoso e instintivo, eu voltei o rosto para baixo encaixando-o novamente na curva do seu braço. Meu coração ia solto no corpo de tão rápido que batia. Será que ele notou o que eu fazia? Estava acordado? A respiração dele voltou ao mesmo ritmo profundo e relaxado. Suspirei e fechei os olhos, pouco depois o sono e aquela estranha sensação de estar em casa venceram a minha consciência e eu dormi.