Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 46 de 63

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Senhorita Aurora

Ato 3 - O Casamento

“Memory, All alone in the moonlight

I can smile at the old days

Life was beautiful then

I remember

The time I knew what happiness is

Let the memory live again”

Memory – Epica

 

Era para ser um ensaio como outro qualquer. Apenas isso, um ensaio.

Circulávamos em um grupo de cinco bailarinos, eu, a Nathalia, o John, a Daniele e a July.

Fazíamos o trajeto normal, até as salas de ensaio. Tudo estaria tranquilo, exceto pela movimentação de uma ópera que estava sendo desmontada.

Nós caminhávamos atrás do palco, em uma área tão grande que parecia uma cidade cenográfica. Empilhadeiras passeavam de um lado a outro, canhões de luz eram deslocados em cabos de aço, enormes caixas de metal eram transportadas por andaimes elétricos. No meio de tudo isso, funcionários de todas as empresas do mundo transitavam entre bailarinos, coreógrafos, marceneiros, engenheiros, eletricistas e estoquistas. Era incrível a quantidade de profissionais que passavam por aqui todos os dias. O tamanho dos cenários, o espaço e a logística que eram necessários para manter tudo funcionando.

Ao mesmo tempo que se desmontava uma ópera gigante, se montava um balé enorme — o Quebra-Nozes, que seria encenado por uma companhia russa.

Eu andava olhando para todos os lados, acho que podia viver uma vida ali e nunca me cansaria de admirar o tamanho das produções e o quanto de trabalho era necessário para se montar uma peça. Ninguém imagina.

Naquele momento, eu olhava para dois carrinhos elétricos que passavam com homens de terno e gravata,

— Opa, desculpa. — Distraída, Nathalia tinha acabado de tombar em um cara que carregava uma pilha de roupas do figurino.

Fui fechada por um dos carrinhos elétricos e fiquei alguns metros para trás do grupo. Ouvi um enorme estrondo em algum ponto à minha direita. Notei assustada os apitos sonoros de aviso de um carrinho de carga em movimento. Tudo se misturou entre estouros, sirenes, gritos de cuidado e explosões.

Caixas de metal caíam como blocos de brinquedo de cima de uma empilhadeira.

Estava perto, muito perto.

Tentei pular. Joguei o corpo com toda força para fora do mundo que desmoronava ao meu lado.

Ouvi gritos, sirenes, senti cheiro de fumaça e o meu corpo no chão.

Olhei rapidamente para cima a tempo de ver que as caixas continuavam a descer como um cachoeira de ferro, fui me arrastando batendo em coisas às minhas costas, sentindo o meu corpo se contorcer. Instintivamente, na tentativa de me proteger, impulsionava os braços e as pernas a fim de me jogar para longe de todo aquele caos que caía em camadas...

Ouvi estouros, estalos. Vi fumaça. Em seguida, cobri o rosto com os braços ao ouvir uma explosão enorme antes de tudo silenciar e sentir a maior dor da minha vida.

Tentei me mover, abrir os olhos, entender o que acontecia.

Ouvia zumbidos. Silêncio. E, em seguida, os sons foram voltando devagar.

Puxei a perna que doía em um movimento involuntário para cima; queria olhar, precisava ver o que tinha acontecido. Não consegui, algo a prendia no chão.

Ela parecia pregada.

O ar, que entrava e saía em uma velocidade frequente, queimava o meu pulmão.

As lágrimas não me deixavam respirar.

Tentei me erguer sobre os cotovelos, vi as caixas que caíram da empilhadeira formarem uma bagunça espalhada pelo chão. Olhei o que eu conseguia: uma caixa em cima do meu pé. A dor inundou os meus sistemas, os meus olhos e o mundo todo dentro de mim

— Ah, meu Deus, Nicole! — Acho que era a Nathalia, não tive certeza.

Tudo ficou preto, no escuro não tinha dor. Me deixei ser tragada pelo conforto, não vi mais nada, ou quase nada.

As coisas começaram a passar em flashes esparsos, a Nathalia segurava minha mão, enquanto alguém mais segurava também,

Eu estava em uma espécie de ambulância?

Sim, dentro de uma ambulância.

A dor voltava quando eu saía do sono.

Eu queria o escuro, lá não tinha a maior dor que alguém pode suportar.

— Eu não vou aguentar — era só o que dizia. — Daniel, alguém chama ele. — Eu queria o breu de volta.

Nas idas e vindas do escuro, cheguei em um hospital.

— Eu preciso de algo para a dor — lembro de ter gritado ou murmurado, não sei. Nada tinha tempo, volume, ou limite. Quando vinha, a dor não tinha ponderação alguma.

Soube que a primeira coisa que me deram foi morfina e só depois dela é que eu vi o Daniel ao meu lado. Ele segurava a minha mão, eu estava em um quarto, um tipo de boxe de emergência.

— O que aconteceu? — perguntei para ele.

— Você sofreu um acidente, lembra?

Fechei os olhos e torci a expressão ao lembrar das caixas, o barulho do metal caindo.

— Eu estou dopada — falei sem sentir quase nada além de uma flutuação constante entre sonho e realidade.

— Te deram morfina... Descansa, minha Aurora — ele falou e me deu um beijo. Eu não tenho certeza se deu. Eu queria o beijo.

Em algum momento entre a flutuação e a realidade, eu vi um grupo de pessoas à minha frente: três delas de jaleco, o Daniel, a Nathalia e a minha primeira professora de balé, a madame Vivan, como ela gostava de ser chamada.

Mas o quê?

— Daniel! — gritei, tentei gritar.

Ele se aproximou em passos rápidos.

— Oi, meu anjo?

— O que a madame Vivan está fazendo aqui?

— Desculpe, meu amor, quem? — Eu o puxei pela camiseta e quando se aproximou reuni todo o esforço que eu precisava para falar:

— Ali, aquela senhora, é minha primeira professora de balé, o que ela está fazendo aqui?

Ele olhou para o grupo que conversava junto com a madame.

— Aquela ali é a enfermeira, querida.

— Não é, Daniel — Eu tinha certeza. — Essa mulher, ela, ela não devia estar aqui.

— Eu sei, meu anjo, agora descansa. — Dessa vez, ele beijou minha testa.

Tudo ficou escuro.

Voltei para a realidade outra vez, vi um homem de jaleco virando umas folhas de papel na minha frente, Daniel segurava a minha mão, Nathalia estava sentada em uma cadeira ao lado da cama e a madame Vivan já tinha ido embora.

— Meu amor — era a voz do Daniel, olhei para ele —, você será levada agora ao centro cirúrgico, esse é o Dr. Robert Cole. — Apontou com a cabeça para o médico. — Ele é o melhor cirurgião ortopedista da Inglaterra.

Senti minha boca seca, mas tão seca, que eu tinha certeza de que as minhas funções internas deviam estar comprometidas.

— Água.

— Desculpe... mas a senhorita não pode beber nada, entrará em cirurgia o mais rápido possível — falou o tal doutor Robert.

— Doutor, por favor — Daniel falou e esfregou os olhos com os dedos.

Eu o conhecia, ele só fazia isso quando estava para perder a paciência. Era uma tentativa de manter o controle.

— Está bem, apenas um gole.

Daniel segurou o copo para eu beber.

— Logo virão buscá-la para a cirurgia, eu vou indo me preparar, com licença — o médico afirmou e se afastou em seguida.

Somente então, a palavra cirurgia despencou na minha razão alterada.

— Minha mãe — foi só o que consegui dizer.

— Já liguei para ela. — A voz da Nathy saiu embargada, eu queria perguntar o porquê, mas o escuro me levou embora outra vez, mas antes de dormir, eu ouvi:

— Eu te amo, minha Aurora, tudo vai ficar bem. — Não sei porque, mas acho que sorri.