Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 43 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 40

“Come on, keep me where the light is

Away from all the dark

Keep me where the light is

Keep me where, keep me where the light is”

Gravity – John Mayer

 

Nós gastamos o dia passeando pela cidade. Conheci os banhos romanos, almoçamos em um restaurante centenário e depois ele me levou para comer fudge de chocolate, que Daniel jurava ser o melhor doce do mundo. Eu achei meio enjoativo. Pouco satisfeito por não ter me agradado, ele entrou em três chocolaterias e comprou uma dúzia de barras. Experimentei meia dúzia delas e já não aguentava mais lembrar do meu vício.

Continuamos o nosso tour pela cidade, ainda sentia o chocolate na boca.

Entramos no prédio histórico da assembleia com ele segurando a minha mão. Olhei com atenção para ele: Daniel parecia estar cheio de expectativa. Aquela expressão de criança que espera o Papai Noel.

Percorremos parte do local e a cara dele não mudava. Notei que era uma construção imponente, cheia de sancas de gesso em tetos tão altos, que elas nem precisariam estar ali. Vez ou outra lançava um olhar para ele tentando entender o porquê da sua aparente ansiedade. Entramos no salão principal e a voz do Daniel tirou minha atenção do enorme lustre central:

— Foi nesse salão que a senhorita Austen dançou alguns bailes, muitos bailes.

— Como? — O meu coração fez uma pausa.

— A senhorita Jane Austen, ela morou aqui em Bath durante alguns anos.

Levei a mão à boca, o coração dava piruetas no meu peito.

— É sério? É sério mesmo? A Jane Austen, minha Jane, escritora?

— É sério. Se você quiser, depois podemos passar na frente da casa dela.

— Você... lembrou, me trouxe em Bath de propósito — era uma confirmação em voz alta, o meu coração já sabia.

— Sim, senhorita Aurora... você me daria a honra da próxima valsa ou do próximo forró?

Ele era incrível. Eu me apaixonei por um cara incrível.

— Sim, senhor Hunter, será uma honra — imitei uma genuflexão da melhor maneira que lembrava dos filmes antigos, ele se curvou e começou a murmurar o ritmo do forró que dançamos juntos, na casa dele, há mais de um mês: Numa sala de reboco, do Luiz Gonzaga. Sorri com os olhos, com o corpo e com a alma.

— Você lembra do ritmo? — perguntei entre admirada e surpresa.

— Eu sou um maestro, senhorita Aurora — ele retrucou entre os passos —, você está me ofendendo.

— Desculpe, senhor — respondi com uma forçada seriedade.

E sem avisar, ele mudou o ritmo e começou a cantarolar o Danúbio azul enquanto girava comigo em seus braços e o mundo girou dentro de um par de olhos azuis.

Eu parei ofegante e o abracei.

— Já cansou? Ainda nem falamos sobre o tempo, ou sobre como está adequada a iluminação de velas, ou sobre qualquer outra trivialidade que os nobres ingleses falavam ao dançar no século XIX.

— Obrigada — eu disse perdida dentro dos olhos dele e entre as risadas que trocávamos.

— Você me fez muito feliz. — E ele me beijou, não foi um beijo longo e provocador, foi uma carícia com os lábios.

— Eu te amo — afirmei, ainda tonta pela valsa. Só podia estar tonta porque, como eu pude dizer isso? Da onde saiu isso? Senti os músculos do braço dele enrijecerem e achei que ele fosse sair correndo do salão, apavorado. Mas ele veio na minha orelha do jeito que eu já conhecia, e meu corpo também, e disse com a voz rouca:

— Agora vamos voltar para a cama. Se a senhorita não se importar, eu me sentiria muito honrado em estar dentro de você mais uma e muitas, muitas, muitas vezes e, ainda hoje, com o seu obséquio — ele disse forçando o sotaque inglês como um nobre arrogante.

E eu corei até os dedos dos pés como uma donzela afetada do século XIX. O “eu te amo” ficou esquecido embaixo do calor das minhas bochechas.