Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 36 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 33

“Now the muse she was his happiness

And he rhymed about her grace

And told her stories of treasures

Deep beneath the blackened waves

The Poet and The Muse – Poets of the Fall

 

Liguei a música do meu iPad, tinha acabado de sair do teatro onde aconteceu o primeiro ensaio geral e onde o psicótico do Daniel, me humilhou outra vez.

Meu Deus!

Não com o balé. Não com ele sabendo o quanto eu lutava para estar onde estava.

Como ele pôde fazer uma coisas dessas? Quem ele achava que era para me tratar daquele jeito na frente de todos? Ai que ódio!

— Senhorita? — Olhei para a porta e vi um dos seguranças do prédio. Eu o conhecia, era o senhor Harrison.

— Está tudo bem, senhor Harrison, vou treinar mais um pouco hoje.

— Ok, deixe a chave da sala na portaria quando sair.

— Está bem, obrigada.

Abri minha mochila e tirei as sapatilhas, as mesmas que usei há pouco. Sentei para calçá-las. Reforcei o esparadrapo em volta dos dedos e fiz uma careta de dor. Precisava de uma bacia de gelo. Precisava dançar até ficar inconsciente. O ar entrava e saía dos meus pulmões. A música começou. Minha pele passou a respirar o som. Era uma versão clássica de The Unforgiven, do Metallica.

Eu, o piso, meu corpo e a dança.

Eu, o céu, os movimentos e a música.

Eu, o êxtase, a entrega e a melodia.

Eu, o suor, a liberdade e a alma.

Não sei quanto tempo passou. Podiam ser horas ou dias. Fechei os olhos e outra música começou. Quantas foram? Já não contava. Era One, do U2. Meu cabelo estava molhado. Não sentia mais o corpo. O ar me mantinha em pé. Ou era a música? Tinha tirado as sapatilhas e o coque. Fiz movimentos no chão e em pé entremeados de arabescos e piruetas. Eu precisava colocar tudo para fora. Não pararia até a raiva e a dor irem embora. Só o balé podia tirar essa obsessão do meu sangue. A raiva por ter entregue... Um jeté, um entrechat, algumas piruetas e um cabriole... Por ter entregue meu coração para um idiota. Eu seria perfeita na estreia. Nada iria estragar isso. Braços para cima, uma volta com todo o corpo e dois braços na minha cintura me segurando.

— Pare, Nicole, pare! — Abri os olhos e encontrei Daniel com a boca meio aberta, a respiração curta. Ele olhava pálido para o chão. Abaixei o rosto e o motivo: sangue. Meu sangue, dos meus pés. Passei as mãos nos olhos, tudo estava embaçado. Lágrimas ou suor, eu já não sabia.

— Pare! — ele voltou a repetir me apertando em seus braços. Então o mundo esquentou e derreteu. Queria muito bater nele e bati: no peito, nos braços, no peito de novo. Várias vezes, mas Daniel nem se mexeu. Não sentia o corpo, não tinha mais forças para ficar em pé. Ele me ergueu no colo.

— Me solta! — exigi entredentes.

— Estou atrás de você há horas, fui no seu prédio, andei em todos os bares e restaurantes vizinhos, te enviei umas cem mensagens... até que resolvi voltar para cá. Estou há um tempão rodando neste maldito prédio.

— Me solta! — Ele já me levava para fora.

— O que você pensa estar fazendo, Nicole? Olhe para você... olhe seus pés.

Olha o meu coração, seu idiota. Olha o que você fez. Olha para mim e me enxergue de verdade. Era o que eu ia dizer, mas estava exausta como nunca me senti na vida e me deixei apoiar no colo dele.

Saímos do prédio, nos aproximamos do carro. Daniel abriu a porta e me colocou no banco do passageiro.

— As minhas coisas — consegui dizer.

— Eu peguei.

Fizemos a viagem curta em silêncio. Me sentia confusa, dolorida e com tanta raiva, que tinha medo de explodir se falasse alguma coisa. Ele parou o carro.

— Você precisa cuidar do seu pé, colocar no gelo.

Seu idiota bipolar, eu sei o que preciso. Coloquei a mão na trava da porta. Ele segurou meu ombro.

— Nicole... — Daniel sacudiu a cabeça. — eu...

Minha respiração voltou a ficar curta, mas não era pelo esforço físico e sim pela raiva. Pelo ódio de tudo aquilo.

— É um filho da puta! — explodi e resolvi falar o que tinha vontade. Ele iria ouvir.

Vi as narinas dele inflarem conforme puxava o ar com força.

— Sim, talvez, mas...

— Qual é a sua? Qual o seu problema? Você some três dias e então surta no ensaio, seu cretino imbecil! — Virei de lado para poder encará-lo. — Se você tem merdas na sua vida, parabéns, eu também tenho, só que não as jogo na cara de todos aqueles que respiram na direção diferente da que eu quero.

Ele ergueu a mão como se fosse me tocar.

— Nicole... me desculpe.

— Estou cansada, Daniel, estou realmente esgotada de tudo isso que tentamos fazer, eu nem sei o que tentamos, se é que tentamos alguma coisa.

— Eu surtei de ciúmes. Ele, aquele idiota do Ivo, estava no banheiro masculino falando que queria te comer e depois da dança que vi no bar... Porra, Nicole, eu...

— Não quero saber! Você não tem o direito de surtar em cima da minha vida, o balé é tudo, entendeu? Tudo para mim! Está vendo isso daqui? — disse apontando para os meus pés. — Isso é o que eu entrego para o balé e ele me dá tudo de volta... enquanto você... você não me dá nada, nem a porcaria da verdade.

— Eu... eu... acho que você está exagerando, eu...

Saí do carro batendo a porta com força. Ele veio atrás de mim.

— Me escuta, Nicole, me deixa falar, vamos conversar. Eu quero, quero te contar tu...

— O quê? Você o quê? Faltou me chamar de puta na frente de todo o corpo do balé.

— Não, eu não...

— Você não sabe nada da minha vida. Você acha que tem problemas? Que sofreu, que sofre? Eu enfrentava duas horas de viagem por dia pela chance de dançar... Eu não tinha dinheiro para comprar sapatilhas, então minha mãe dormia em cima da máquina de costura para que eu pudesse trocar o máximo de pares possível... dancei com roupas remendadas e sapatilhas estouradas — ofegava e tremia de raiva e por toda a revolta que sentia por ele ter, mais uma vez, me humilhado, me machucado. — Sabe por que eu resolvi fazer balé? Bonito dizer que foi o Fred Astaire, né? Sim, eu queria dançar como eles, mas sabe por quê?

Ele negou com a cabeça.

— Porque minha mãe dizia que eles eram como anjos. Eu queria ser um anjo para ela, não porque eles são seres celestiais e sim porque a única lembrança que guardo do meu pai e dela juntos, é ele batendo na cara dela com tanta força que ela caiu no chão... Depois disso, ele saiu, ela me pegou no colo e fugimos de casa. Eu não tinha nem cinco anos. Nós não tínhamos para onde ir e dormimos uma noite na rua... Eu só me lembro dela chorando e pedindo aos anjos que nos protegessem. Foi ali, naquela noite, que eu quis mais do que nunca ser o anjo... Por isso, resolvi que dançaria para sempre.

Tomei o ar pela boca, Daniel me encarava com os olhos enormes.

— No dia seguinte — continuei exaltada —, nós viajamos para o Rio, onde a família da minha mãe morava. Eu nunca tive uma tia rica que sustentasse os meus sonhos. Eu lutei muito, dei tudo o que podia para o balé, tudo.

Senti as lágrimas descerem pelo rosto.

— Você e ninguém mais tem o direito de me enlouquecer, de tentar tirar isso de mim, apesar de você tentar, como você mesmo disse que insistia para que o senhor Evans me tirasse do papel principal.

Ele abriu a boca para falar, mas eu gritei impedindo-o:

— Eu não vou falhar, vou ser muito mais, muito mais perfeita do que você acredita ser possível, vou te provar e provar para todos que eu mereço estar onde estou.

— Nicole — a voz dele saiu quebrada —, eu nunca disse que...

— Chega, merda, chega! Nós estamos há poucos dias da estreia e eu não quero ouvir mais nada... estou exausta.

Fechei os olhos e senti o coração afundar antes de dizer:

— Acabou, Daniel, o que quer que estávamos tentando fazer acabou. — Voltei a encará-lo.

Vi-o assentir com o olhar baixo.

— Está bem, boa sorte na estreia, eu sei que você conseguirá ter o sucesso que merece. — Ele virou o corpo e saiu.

Conforme Daniel andava, levava junto pedaços da minha alma, parte de tudo o que eu acreditei ser a minha paz e aquilo que batia dentro de mim. Ali no peito, restou só uma coisa: vazio.

 

Quando entrei em casa, Nathalia veio correndo até a porta.

— Nicole, graças a Deus, que demora! Está tudo bem?

— Acabei tudo e...

— Ah, meu Deus, Nicole! — Nathy olhou para os meu pés. Sem dizer mais nada, ela foi até a cozinha e voltou com uma bacia com gelo e água. Sentamos no sofá e mergulhei os pés na água gélida. Senti muita dor e, então, aos poucos, alívio.

— Ele me encontrou enquanto eu dançava — disse olhando para baixo. — Eu não o deixei nem falar... Terminei tudo.

Ouvi a Nathalia suspirar.

— Talvez tenha sido melhor assim.

Estava tão confusa que já não sabia.

— Talvez...

Ela me abraçou de lado.

— Você vai ficar bem, minha amiga.

— E você e o Paul? — queria mudar o assunto, precisava, na verdade.

— Ele veio aqui... e... — Ela encolheu os ombros. — não aguentei, nós voltamos.

— Fico feliz por vocês terem se entendido.

Eu não estava feliz... o mundo do avesso não me deixaria ficar feliz com nada.

Depois de me ajudar a fazer os curativos nos pés, nós fomos para a cama. Quando Nathy dormiu, me permiti chorar. Não queria preocupá-la. Também não gostava de chorar na frente dos outros. Lembrei do Daniel e da expressão dele quando o mandei embora: os olhos cheios de lágrimas.

Eu nem ao menos o deixei falar.

O balé era minha vida, meu mundo, tudo.

Nunca era o bastante. Nunca bom o bastante.

Nunca o suficiente, mais horas de treino, mais perfeição.

Nunca errar, não podia, não era permitido errar.

Daria tudo, extraía tudo. Morreria se fosse preciso, mas não deixaria de dar tudo.

Dor nos pés, nos músculos por dentro e por fora.

O balé era o meu mundo. Por quê?

Eu só queria ser o anjo. As lágrimas e os soluços abafados pelo tecido e pela espuma, agora estavam mornos. Eu amava a minha mãe. Ela sempre quis que eu fosse perfeita, por quê?

— Ser alguém, conquistar o mundo — ela dizia —, brilhar de algum jeito.

Perfeita. Horas de treino. Horas de vida.

Me perdoa, mãe, eu não sei se vou conseguir. Solucei.

Tudo parecia tão certo antes.

Por que ele tinha que entrar na minha vida?

Agora era ele quem exigia a perfeição.

Toda a minha equilibrada disciplina descia em uma umidade quente pelo rosto. Eu já não sabia se o balé poderia remendar qualquer coisa. Dormi sem encontrar o conserto para a dor. Ele queria falar. Era eu quem precisava ouvir. Essa era a única certeza que eu tinha naquele momento.

 

Pão quente: torradas, baguetes, croissants. Essa era a única coisa capaz de despertar meu apetite pela manhã. Com geleia, manteiga ou ovos mexidos. Nunca importou o acompanhamento, pães sempre me deixavam com fome. Mas naquela manhã após a briga com Daniel nem a ideia da Nathy de comprar um pão recém-assado me animava. Minha consciência estava ocupada demais lutando: uma parte dizia que eu tinha feito a coisa certa, acabar tudo foi o certo a fazer. Outra parte — infelizmente a maior naquele momento — fazia eu me sentir triste e arrependida por não ter nem mesmo deixado ele falar. Eu devia ao menos o ter deixado falar.

— Vou buscar uma baguete quentinha para você — Nathy disse, já abrindo a porta —, você precisa comer alguma coisa e... — ela parou.

— O que foi?

— Meu Deus! — ela exclamou com um sorriso na voz.

— O quê? — Me ergui do sofá tentando enxergar.

Nathy virou para mim.

— Ele parece um bêbado ou um mendigo na sarjeta.

Me levantei.

— Quem?

Nathy saiu da frente da porta e eu enxerguei: Daniel estava sentado no hall com as costas apoiadas na parede, as pernas esticadas e a cabeça caída para o lado. Ele dormia.

Meu coração acelerou. Há quanto tempo ele estava ali?

Me aproximei devagar. Ele usava a mesma roupa que vestia ontem durante o ensaio, tinha a barba por fazer e olhos sombreados pelo roxo de olheiras. Abaixei junto a ele, estendi a mão incerta e toquei no seu ombro de leve a fim de acordá-lo.

Daniel abriu os olhos, a princípio lentamente, e então os arregalou de uma vez, parecendo assustado como se não soubesse onde estava. Olhou ao redor e depois para mim. Esfregou as mãos no rosto, inspirando o ar devagar. Tive vontade abraçá-lo. De dizer que tudo estava bem, que eu queria consertar as coisas, que o desculpava. Engoli as palavras junto com a vontade de chorar.

— Eu não consegui ir para casa — ele falou.

Concordei com a cabeça.

Ele deixou a mão escorregar pelo chão. Fechei os olhos quando ele cobriu a minha mão com a dele.

— Daniel — comecei sem saber como terminar a frase.

— Por favor, me deixe falar — ele sussurrou —, eu quero te contar tudo, você vai entender que tudo... tudo tem um motivo.

— Agora? — perguntei com um fio de voz e com o coração na boca.

— Sim, chega de fugir, chega de adiar.

Eu o encarei.

— Depois que eu falar tudo, nós... não... — ele se deteve antes de acrescentar: — eu te deixo em paz depois que te contar tudo, eu... só preciso que você saiba que tudo o que fiz, toda a minha fuga e até mesmo o meu ciúme tem um motivo para existirem.

Os dedos dele apertaram os meus e Daniel levantou me puxando junto com ele para cima.

— Por quê? — perguntei precisando entender.

Ele soltou o ar devagar.

— Porque eu sei... porque sei que você merece mais.

Franzi o cenho sem entender e olhei para a porta fechada. Nem percebi que a Nathy havia entrado.

— Você vai entender — ele afirmou triste e meu coração encolheu.

Sentia medo, dúvida, curiosidade, nervoso... Tudo misturado. E como se estivesse movida por uma corda, tipo um brinquedinho irracional, o abracei. Senti os lábios dele beijarem minha fronte e a sua respiração quente se aconchegar em meus cabelos. Ele se afastou devagar ainda segurando minha mão.

— Vamos, vou te levar para um lugar... Eu quero que você entenda e veja com os próprios olhos a história que vou te contar.

— Está bem... vou apenas avisar a Nathy que sairemos.

Ele concordou em silêncio.

Meus ouvidos reclamavam a ansiedade e o nervoso que fazia tudo em mim estalar diante da certeza da conversa que, enfim, teríamos.