Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 34 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 31

“Oh don’t don’t don’t get out

I can’t see the sunshine

I’ll be waiting for you, baby

Cause I’m through

Sit me down

Shut me up

I’ll calm down

And I’ll get along with you”

You Only Live Once – The Strokes

 

Semana da estreia.

Adrenalina solta no sangue.

Concentração, equilíbrio e disciplina.

Ao menos era como deviam funcionar as coisas dentro de mim. A estreia da minha vida. O dia mais importante do universo a apenas alguns passos de distância. E me sentia meio torta por dentro.

Há duas noites não dormia direito, meu apetite foi reduzido ao de uma formiga bulímica.

Queria e precisava ficar sozinha, então quando Nathalia estava em casa, eu deitava na cama fingindo dormir, ou me trancava no banheiro com algum livro durante um tempo. Nathy tentava dizer coisas para me acalmar, trocávamos incentivos e tentávamos parecer duas amigas normais.

Mas nada parecia normal.

Ela também estava ansiosa com a estreia. Então, nos conhecendo e entendendo nosso humor volátil, mantivemos uma distância saudável e necessária naquele momento.

Eu me sentia meio doente, não era uma doença física. Nada tirava o ar do meu sangue e a alma da pele, enquanto eu pontilhava qualquer piso. Afinal, dançaria em um palco enorme, iluminado, um teatro para três mil pessoas. O maior e mais bem preparado teatro de Londres. Talvez do mundo. O piso que as minhas pontas iriam esmagar era perfeito: camadas de texturas anti-impacto, cobertas por uma lâmina especial que tornava desnecessário o uso da parafina era... incrível. As sapatilhas que sustentariam meu corpo eram as melhores do mundo.

Nem sempre tudo pareceu tão certo, tão dentro do lugar e mesmo assim... não estava certo, meu mundo estava errado.

Por quê?

O nervoso extraordinário com a estreia, claro, mas tinha também meu coração masoquista e idiota que escolheu esse momento para experimentar o que era estar apaixonado. Detalhe: o objeto dessa experiência, também conhecida como Daniel, a levava ao limite do suportável. Há exatamente três dias, o senhor-louco-Hunter ignorava minha existência.

O final de semana passou, eu enviei dez, vinte... Perdi a conta de quantas mensagens enviei e não foram respondidas.

Hoje é terça-feira, o nosso antepenúltimo ensaio antes da estreia, marcada para sábado. Era assim que funcionava: três ensaios gerais, com um dia de descanso e estreia. Não tinha nada de errado com o calendário antes da estreia, mas meu mundo virou do avesso porque eu não conseguia entender o que diabos poderia ter acontecido com aquele homem, com aquele louco, com aquele... Deus! Precisava me concentrar, senão...

Ele viria no ensaio de hoje.

Eu andava nos corredores do balé com um café quente nas mãos. Lutava para manter os dedos longe daquela parte do copo sem proteção. Olhei para a Nathalia que caminhava ao meu lado, ela brigou com o Paul no dia da festa do Ivo. Minha amiga ficava de péssimo humor quando isso acontecia. Aquele imbecil do Paul deu um show de ciúmes no meio do bar.

Idiota! Gritou com ela na frente de todo mundo.

Então a briga com o Paul, ou a bebida, fizeram Nathy esquecer ou não dar o grau de importância que ela dava à minha vida amorosa. Ela não tocou mais no assunto do que tinha contado para ela na noite da festa sobre o Daniel.

Eu nem tive coragem de dizer que o maluco do nosso diretor resolveu brincar com meu controle emocional uma semana antes da estreia. Ela iria querer matá-lo. Se isso acontecesse não seria legal, não, não antes das apresentações.

Devia estar exagerando.

Nós éramos o que, afinal?

Nada.

Ou quase nada.

Uma amizade indefinida.

Coloquei o café em cima do balcão do vestiário.

— Você não vai mais tomar seu café? — Nathy perguntou.

— Acho que não.

Peguei o celular de dentro da bolsa. Ele estava desligado desde ontem à tarde. Achei que era melhor fazer isso do que morrer de ansiedade. Eu vinha olhando para aquela maldita tela de dez em dez minutos, esperando que Daniel desse algum sinal de vida. No domingo fiquei tão preocupada que liguei para a casa dele. Senhor Clark atendeu com toda a educação britânica. Disse que estava tudo bem, mas que o senhor Hunter, psicótico dos infernos, estava em Londres. Ele estava muito ocupado tentando ferrar com a minha cabeça.

— A senhorita quer o telefone dele em Londres?

— Não, obrigada — respondi.

E foi aí que resolvi desligar o aparelho.

Respirei fundo e apertei o botão. Precisava checar se tinha alguma mensagem antes do ensaio... Minha mãe poderia ter ligado ou... ridículo. Queria ver se ele tinha resolvido dar algum sinal de fumaça. Meu coração comprometido disparou. A tela acendeu alguns segundos depois e... o sinal verde subindo a entrada de uma nova mensagem. Era dele. Ontem à noite, só.

 

“Oi. Boa noite, desculpe, estive ocupado e não consegui te responder, depois conversamos melhor.”

 

Pronto, era isso, sem beijos, sem saudades. Sem merda nenhuma. Ao menos era algum sinal. Me olhei no espelho ao passar.

Concentre-se, porcaria!