1973: O Ano que Reinventou a MPB
A Música que Ultrapassa Fronteiras Estéticas e Geográficas
BETO GUEDES / DANILO CAYMMI / NOVELLI / TONINHO HORTA BETO GUEDES, DANILO CAYMMI, NOVELLI E TONINHO HORTA
Maurício Gouvêa
icava no centro do Rio de Janeiro, m ais especificam ente no Edifício São Borj a, na Av. Rio Branco, o estúdio da Odeon que
F testem unhou a gravação de discos absolutam ente fundam entais para a m úsica brasileira. Com suas paredes im pregnadas pela arte de diferentes estilos e conceitos m usicais, ele foi, entre o final dos anos 60 e o início dos anos 70, um dos principais veículos para a expressão artística de um a nova geração de m úsicos e com positores vindos de diferentes partes do país.
Além do sucesso da Bossa Nova e da efervescência m usical carioca daquele período, um a das razões inequívocas para o Rio de Janeiro provocar tanta sedução além de suas divisas foi a era dos Festivais da Canção. Em grande parte concentrados no eixo Rio-São Paulo, os Festivais foram , sem dúvida, im portantes vetores na divulgação do trabalho de m uitos artistas brasileiros naquela época, além de provocarem , nos bastidores e nos palcos, a com unhão entre m úsicos, com positores, arranj adores e produtores. Isto foi exatam ente o que ocorreu com os m ineiros Beto Guedes e Toninho Horta, o pernam bucano Novelli e o carioca, de alm a baiana, Danilo Cay m m i, para quem os Festivais foram verdadeiros am plificadores de seus talentos.
A partir destes encontros e das transform ações m usicais pós-Bossa Nova, suas com posições ganharam voz em outros intérpretes. Os cam inhos dos quatro se cruzaram cada vez m ais, em especial os de Toninho, Novelli e Danilo Cay m m i, j á estabelecidos no Rio de Janeiro. Instrum entistas virtuosos, todos eram presenças constantes em shows e estúdios de gravação, enquanto, fora deles, possuíam um a clara identificação pessoal e m usical. Interessante perceber que a prim eira com posição gravada de Danilo, “De brincadeira”, está no disco Mario Castro Neves & Samba S.A., de 1967, grupo do qual fazia parte o baixista Novelli. Já Toninho, ao lado do m esm o Novelli, foi m em bro do grupo A Tribo, com Joy ce, Nelson Angelo e Naná Vasconcelos. O grupo gravou um com pacto duplo creditado a Joy ce, no ano de 1971, no qual um a das faixas, “Caqui”, foi com posta por ... Danilo Cay m m i!
Nesta época, Beto Guedes ainda m orava em Belo Horizonte, vindo ao Rio só para tem poradas ao lado de Milton Nascim ento. Participou, j unto com Toninho, do antológico Clube da Esquina, de Milton e Lô Borges, e do prim eiro disco de Lô, o fam oso “Disco do tênis”, no qual Novelli tam bém teve atuação destacada. Mas em 1972, as sessões de gravação do LP Nelson Angelo e Joyce reuniram os quatro m úsicos nos estúdios da Odeon. Nos bastidores desta produção estava Ronaldo Bastos que, j unto a Nelson Angelo, acabou tornando-se um dos articuladores do disco que expôs os quatro artistas ao grande público. Na im possibilidade de um LP individual para cada um , a Odeon propôs algo nos m oldes do que foi feito no álbum Posições, de 1971 que reuniu os grupos A Tribo, Módulo 1000, Equipe Mercado e Som Im aginário: um disco dividido por quatro. E assim nasceu Beto Guedes / Danilo Caymmi /Novelli / Toninho Horta, trabalho sem inal em suas carreiras.
O disco im pressiona, até hoj e, pelas suas qualidades artísticas e técnicas. De instrum entação básica e linguagem direta, sem digressões, o resultado vigoroso e encantador deve-se à total liberdade criativa e ao senso colaborativo vivenciado em estúdio, aliado à qualidade excepcional dos m úsicos e das canções. As harm onias e m elodias continham sabor de novidade, aliadas a letras que trilharam cam inhos instigantes, entre um viés sublim inarm ente político e tem as inusitados, retratos da inquietude ideológico-m usical tão com um na época. A sinergia ali obtida im prim iu tal unidade ao trabalho que desfez, se é que havia, qualquer fronteira estética entre cada um dos artistas.
Considerando que, no início dos anos 70, a gravação ainda era feita praticam ente ao vivo devido à pouca quantidade de canais disponíveis, tecnicam ente o som do disco é deslum brante. Todos os artistas envolvidos ressaltam a com petência dos técnicos da Odeon, em especial Toninho, Dacy e Nivaldo (gravação) que trabalharam especificam ente nestas sessões. A verdade é que os poucos recursos da época não im pediram que os discos gravados naquele período m antivessem um a sonoridade tão envolvente m esm o nos dias atuais.
Em “Viva eu”, parceria com Wagner Tiso, Novelli m ostra ecos do intenso contato m usical que teve com o Beco das Garrafas, Grupo Manifesto, Música Nossa, Trio 3D, entre outros. Ouve-se claram ente na faixa um a flauta não creditada, provavelm ente gravada por Danilo Cay m m i, enquanto Novelli assum iu os vocais e Toninho tocou piano. “Meio a m eio”, só de Novelli, é um tem a instrum ental m oderno e provocador, com um violão fantástico de Nelson Angelo, cheio de suingue e harm onias inventivas, além de boas intervenções do baixista Fernando Leporace. Desta vez Novelli foi o baterista, m ostrando grande desenvoltura. Sua últim a contribuição com o com positor é “Luiza”, belo tem a instrum ental que traz um interessante duo de guitarras (Toninho e Nelson), um a linha de flauta docem ente executada por Danilo e as intervenções sem pre m ágicas do saudoso Tenório Jr. no piano elétrico. A diversidade m ostrada nestas três com posições foram prenúncios da opulência criativa que Novelli consolidou nos anos seguintes, não apenas com o m úsico obrigatório em vários grandes discos da m úsica brasileira, m as tam bém com o com positor, tendo em Cacaso seu parceiro m ais constante.
Toninho trouxe para o disco duas canções que o acom panham até hoj e em sua carreira. A versão de “Manuel, o audaz”, parceria dele e Fernando Brant que conta a estória do j ipe Land Rover m odelo 1951 de Fernando, é contem plativa, lenta e delicada, com flautas de Danilo e Paulo Guim arães que cruzam a m elodia, entrecortadas pelo vocalise de Fernando Leporace e desenhos da guitarra de Nelson. Em seu segundo LP, de 1980, contando com as participações do guitarrista am ericano Pat Metheny e de Lô Borges, ele regravaria esta canção de form a definitiva, m as é interessante perceber que, na essência, am bas as versões têm m uito em com um .
“Meu canário vizinho azul”, letra e m úsica de Toninho, m ostra toda a sua verve de com positor diferenciado: a notória influência da Bossa Nova é turbinada com incursões harm ônicas surpreendentes a partir de seu violão único. O contracanto da flauta de Danilo ao longo da canção, de beleza rara, e o acom panham ento de Tenório Jr. (piano elétrico) são dois ótim os exem plos do potencial criativo destes m úsicos no pouco tem po que tiveram para as gravações. Am bas as faixas j á sinalizavam na época, de m aneira indiscutível, o m úsico inovador que é atualm ente considerado um dos m aiores e m ais influentes violonistas e guitarristas do m undo, além de com positor de inspiração singular.
Danilo trouxe para o disco duas pequenas j oias. “Ponta negra”, dele com João Carlos Pádua, tem um a levada irresistível, sob a condução do violão delicioso de Toninho, o piano elétrico de Tenório e o baixo preciso de Novelli, tudo em oldurado pela flauta inebriante do próprio autor. Nana Cay m m i traz sua luz própria à faixa, pontuando m om entos com sua voz inconfundível. Interessante perceber que esta m esm a gravação teve boa repercussão nas pistas de dança europeias nos anos 90, a partir do resgate da m úsica brasileira naquele continente. Outra contribuição de Danilo, “Serra do m ar”, que fecha o Lado B deste LP, tem letra de Ronaldo Bastos e alterna lirism o com a tensão harm ônica dos versos finais, até desaguar calm a na suspensão do verso “qualquer dia desse...”. Danilo tocou violão nesta faixa, um trabalho conj unto com o piano de Novelli, e deixou a flauta a cargo de Paulinho Jobim . Além de m úsico e com positor sofisticado, Danilo cham ou a atenção por seu tim bre vocal peculiar, que se notabilizou ao longo de dez anos com o integrante da Banda Nova de Tom Jobim . Seu prim eiro e ótim o LP, Cheiro Verde, de 1977, traz, intrinsecam ente, o espírito destas faixas gravadas em 1973.
De Belo Horizonte, Beto Guedes trouxe um grupo de m úsicos conhecidos com o Fio da Navalha que atuavam em shows. A banda reunia, além de Beto, Flávio Venturini (no disco, Flávio Hugo), Verm elho (no disco, José Geraldo) e Lô Borges, entre outros. Esta rapaziada, bastante influenciada por bandas com o Genesis, Pink Floy d e Yes, gravou a faixa m ais curiosa do disco, “Belo Horror”, um rock progressivo com posto coletivam ente por Beto, Flávio, Verm elho e Márcio Borges. Nela, alternam -se sequências clássicas, barrocas e pesadas, com belas surpresas a cada m inuto. É a faixa m ais longa do LP, que m ostra toda a puj ança artística daqueles garotos cabeludos e talentosos. Danilo Cay m m i participou com o flautista no início da faixa, que tam bém trouxe a bem vinda guitarra de Fredery ko, do grupo Som Im aginário. “Caso você queira saber”, parceria com Márcio Borges, faixa que abre o Lado A, revela as características de m elodista instigante e m úsico m ultifacetado que m arcaram a carreira de Beto. Destacam -se na faixa o solo de flauta (não creditada, provavelm ente de Danilo Cay m m i) e as criativas linhas de baixo de Lô Borges. Dois anos depois, Beto regravaria “Caso você queira saber” com Milton Nascim ento e Som Im aginário em um com pacto sim ples, pouco antes do lançam ento do LP Minas, do próprio Milton, onde teve participação destacada. “Belo horror” foi regravada por Beto em 1998, no disco Dias de Paz, recebendo nova letra e o título de “Asas”, quando ele j á era um artista consagrado no cenário m usical brasileiro.
Já a foto da contracapa é um caso à parte. Num a pausa durante a m aratona de gravações, os quatro estavam j untos no banheiro da gravadora. Quando Cafi e Ronaldo Bastos se deram conta disso, pensaram na fam osa foto reunindo os artistas no m inúsculo reservado, com a tam pa do vaso sanitário aberta. Criativa para uns, de péssim o gosto para outros... O fato é que a foto ficou célebre e, m ais do que a capa, que traz o nom e dos quatro pichados num a parede, tornou-se, sem dúvidas, a m aior referência visual deste trabalho.
Depois de lançado, o disco não recebeu nenhum a divulgação da gravadora e sequer pensou-se em show de lançam ento. A vida seguiu e, anos depois, m inha adolescência foi tom ada pela m úsica de cada um deles. Tive o privilégio de encontrar este LP, hoj e um a raridade, em um sebo de discos, em algum dia e lugar dos anos 80. O im pacto da prim eira audição foi im enso, revelando os sinais daquela “transgressão” m usical tão m aravilhosa quanto natural, que deixaria m arcas profundas tanto em seus trabalhos posteriores quanto no m eu coração j uvenil. Preservado no âm bar m ais puro da m úsica brasileira, o disco continua provocando um verdadeiro fascínio a novos e velhos ouvintes. E com fôlego de sobra para encarar m ais quarenta anos pela frente.
Beto G uedes/ Danilo Caymmi/ Novelli/ Toninho Horta (Odeon − SMOFB 3777) Produção: Milton Miranda e Nelson Ângelo
Danilo Cay m m i: voz, flauta e violão
Beto Guedes: voz, bateria, violão e baixo
Toninho Horta: voz, guitarra, violão, piano e percussão
Novelli: voz, baixo, piano, bateria e percussão
Músicos convidados:
Frederiko: guitarra
Lô Borges: coro, piano e baixo
Fernando Leporace: baixo
Maurício Maestro: percussão e guitarra
Verm elho: órgão e baixo
Flávio Venturini: órgão
Everaldo Ferreira: tum ba e bateria
Lena Horta: coro
Nelson Ângelo: guitarra e vocal
Robertinho Silva: bateria
Tenório Junior: piano elétrico e órgão
Paulo Guim arães: flauta
Paulo Jobim : flauta
Lado A
1. Caso Você Q ueira Saber (Beto Guedes e Márcio Borges)
Intérprete: Beto Guedes
2. Meu Canário Vizinho Azul (Toninho Horta) Intérprete: Toninho
Horta
3. Viva Eu (Wagner Tiso e Novelli) Intérprete: Novelli
4. Belo Horror (Beto Guedes, Flávio Hugo, José Geraldo e
Márcio Borges) Intérprete: Beto Guedes
Lado B
1. Ponta Negra (Danilo Cay m m i e José Carlos Pádua)
Intérprete: Danilo Cay m m i (participação especial: Nana Cay m m i)
2. Meio a Meio (Novelli) Intérprete: Novelli
3. Manoel, o Audaz (Toninho Horta e Fernando Brant) Intérprete:
Toninho Horta
4. Luiza (Novelli) Intérprete: Novelli
5. Serra do Mar (Danilo Cay m m i e Ronaldo Bastos) Intérprete:
Danilo Cay m m i