1973: O Ano que Reinventou a MPB
O Auge em um Mundo que Se Modificou
O AUGE EM UM MUNDO QUE
SE MODIFICOU
ANTONIO MARCOS − ANTONIO MARCOS
Rafael Zapater
m 1973 o cantor Antonio Marcos lançou o seu 5º disco, que vendeu 400 m il cópias em duas sem anas, quebrando o recorde
E da RCA-Victor desde a sua fundação em 1929 e recebendo o Disco de Ouro na televisão das m ãos de Flávio Cavalcanti, titular de um dos program as de TV m ais populares do período.
Sob coordenação de Osm ar Zan (filho do fam oso
arcodeonista Mário Zan) e com direção artística e geral de
Wilson Miranda (conhecido cantor da década de 70), m ontava-se um LP gravado em São Paulo com arranj os e regência de Chico Moraes (m aestro que trabalhava com Roberto Carlos na época).
Nesse disco, o estilo m ais centralizado em suas interpretações vocais quase nada lem bra seus trabalhos solos no final da Jovem Guarda nos anos 60, quando com eçou a fazer seu nom e j unto ao grande público. As canções ingênuas j á não se m ostravam tão presentes no LP Sempre (RCA), lançado em 1972. Inédito em CD, o disco de 1973 leva apenas o nom e do artista.
Na capa deste disco cam peão, o rosto do artista desenhado em form a de rabisco e com um pequeno escorpião (seu signo) presente na parte inferior. Na contracapa um a foto em sépia de Toninho (com o era cham ado pelos am igos) com um olhar enigm ático, bem ao seu estilo. Doze faixas na m edida certa.
Em 1973, Antonio Marcos conquistava um a m udança considerável tanto em repertório com o tam bém em equilíbrio de letras e arranj os. Com boas críticas, contou novam ente com parcerias e com positores com quem j á havia trabalhado antes e obtido sucesso, com o Mário Marcos e Peninha.
Seguindo a ordem do lado A, tem os a abertura com a antiga m úsica “Boneca cobiçada” de Biá e Bolinha, orquestrada por um sim pático arranj o que é acom panhado por flauta, piano, cordas e um a nova interpretação. Um a aposta no passado que deu certo.
Entretanto, a verdadeira “prim eira faixa” do disco é a segunda pela qual a agulha do toca-discos passeia. O m aior hit na voz de Antonio Marcos em toda a sua carreira foi sem dúvida “O Hom em de Nazaré” que aparece nesse disco com o segunda faixa e que, sem sobra de dúvidas, é o título extraoficial do LP, pois assim ele é reconhecido pelos fãs e cham ado “com ercialm ente” em sebos e loj as especializadas em vinil.
A m úsica, de autoria de Cláudio Fontana, fala da m odificação do m undo com o passar dos anos, de am or, de ensinam entos e de fé. Apesar de parecer apenas m ais um a m úsica religiosa, o que nos dias de hoj e não seria novidade se fosse lançada num disco de um padre cantor, letra e m elodia m ostram um a força especial, que literalm ente im pulsionou a vinda de novos fiéis, ou m elhor, de novos fãs para o artista.
A terceira faixa não m uito lem brada foi “Meu segredo” de Hélio Matheus que inclusive ganhou um a versão em Espanhol com o a m aioria das m úsicas presentes nesse disco. A interpretação vocal aqui j á alcança notas m ais singulares, despertando um estilo m ais solto, novam ente um bom arranj o. Vale salientar que, Hélio Matheus, é autor de um super sucesso daquele ano, cantado por Luiz Am érico. “Cam isa 10”, de Matheus e do guitarreiro Luis Vagner, foi título do LP de Am érico em 1973, lançado pela Chantecler, e um a das m úsicas m ais cantadas pelos boleiros do país, com críticas ao atual cenário da seleção brasileira futebol.
Ainda no lado A, seguindo a ordem , tem os a quarta faixa “Minha am iga, m inha nam orada”, dessa vez um a parceria de Antonio Marcos com Cláudio Fontana. A m úsica fez certo sucesso nas rádios na época, m as raram ente aparecia em coletâneas editada nos anos posteriores.
A com posição m ais regravada de Antonio Marcos até hoj e foi a m úsica “Com o vai você” com posta em parceria com seu irm ão Mário Marcos, seu principal parceiro por quase 30 anos e ex-integrante do grupo Os Caçulas.
Gravada no ano anterior por Roberto Carlos sob o arranj o de Jim m y Wisner, a m úsica j á era conhecida do grande público, porém a popularidade de Antonio estava tão em alta na época que sua gravação, a quinta faixa desse LP, tam bém é lem brada hoj e em dia em sua voz (sob arranj o de Portinho, que tam bém é parceiro de Toninho em outras m úsicas).
“Com o vai você” tem pequenas variações nas gravações de Toninho e do Rei Roberto Carlos. Em determ inado trecho da letra, Roberto canta “razão da m inha paz j á esquecida” e Antonio canta “razão da m inha paz tão dividida”. A paz teve leituras diferentes.
Fechando o lado A, o disco nos traz a volta da parceria vocal de Antonio Marcos com Vanusa (cantora e sua esposa na época). A dupla interpretou a faixa “Valeu a pena” com posição de Eduardo Lages (que depois viria a ficar conhecido com o o m aestro de Roberto Carlos) e de Expedito Faggione. Letra rom ântica em balada em um arranj o que lem bra antigas baladas de rádio, m úsica calm a acom panhada por violão e orquestra.
O OUTRO LADO
Abrindo o lado B, o disco nos apresenta a faixa “Conversa de j ardim ” de Alberto Luiz e Marcos Durães. Alberto foi com positor de um dos grandes sucessos de Antonio Marcos, “Oração de um j ovem triste”, gravada inicialm ente por Antonio Marcos em com pacto sim ples em 1971 e depois incluída em seu LP de 1972.
“Conversa de Jardim ” tem aquele toque de m elancolia e tristeza tão bem cantadas pelo talento de Toninho e que serviam com o parte de suas digitais. Na segunda faixa do lado B, “Mensagem de um planeta perdido”, m úsica de Taiguara, um dos com positores m ais perseguidos pela censura na época. No ano anterior Toninho havia gravado outra canção de Taiguara: “Am anda”.
Com grande im pressão surrealista de instrum entos m isturados, “Mensagem de um planeta perdido”com eça com um a interpretação gritante, variada em cum plicidade com o arranj o que se destaca pela guitarra cortante.
Talvez sej a o m om ento do disco em que Antonio Marcos tenha provado que, além de com positor, era realm ente um cantor de vanguarda, que poderia arriscar. Aos 28 anos de idade, ele provava que podia m uito m ais do que o j ovem que estreou em disco em 1969.
Isolda, autora de “Outra vez”, um dos m aiores sucessos da carreira de Roberto Carlos, está presente na terceira faixa do disco, num a parceria com seu irm ão, Milton Carlos. A terceira faixa “Quando o am or m uda de casa” rem ete a abandono e solidão, coerente com o repertório de Toninho.
Na m úsica “Era Sábado”, quarta do lado B, a letra se confunde com a traj etória de Antonio Marcos. Um hom em sai pelo fim de sem ana sozinho, sem rum o certo, dando voltas para se encontrar. De autoria de Antonio Marcos, Totó e Peninha, j á prenunciava o talento de Peninha em cantar o tem a, afinal de contas é dele o super sucesso “Sozinho”, m úsica gravada pelo próprio com positor, por Tim Maia, Sandra de Sá e Caetano Veloso.
O lado B tende a ter m úsicas que ficam escondidas, tanto nos LPs com o nos com pactos. No caso deste disco, a m úsica suprim ida se cham a, ironicam ente, “Você m e disse adeus”. A canção fez certo sucesso na Argentina gravada pelo próprio Antonio Marcos tam bém em castelhano, com com posição de Nenéo.
Hélio Matheus aparece no repertório tam bém na faixa que fecha o Lado B: “Ninguém vai chorar por ninguém ”, a única que teve clipe gravado um ano antes para o film e Com a Cama na Cabeça, de Mozel Silveira, no qual Antonio, ao lado de Vanusa, faz um a aparição, sem ser protagonista ou até m esm o atuar.
Falecido em 1992, Toninho lançou em 25 anos de carreira solo, treze LPs em português e cinco em castelhano, além de com pactos e gravações realizadas no exterior. Foi, sem dúvida, um dos cantores m ais populares de sua geração. Vinte anos após sua m orte, com idealização da filha Aretha Marcos, e com m inha contribuição nas pesquisas, foi produzido um disco, oferecido gratuitam ente online, Tributo Amor Maior. Foram 17 faixas com diversos intérpretes. A m úsica “Sonhos de um palhaço”, de Antonio Marcos e Sérgio Sá, ficou sob responsabilidade de Zeca Baleiro; “Coração am ericano”, de Fagner e Antonio Marcos, com Vanusa; e “Você pediu e eu j á vou daqui”, de Zairo Marinoso e Antonio Marcos, com a idealizadora da hom enagem , Aretha.
Antonio Marcos (RCA-Victor – 103.0079)
Coordenação Geral: Osm ar Zandom eneghi Coordenação Artística e Direção de Estúdio: Wilson Miranda Arranj os e Regência: Chico de Moraes e Portinho (“Com o vai você”) Arranj os de Base: Conj unto Com unicaSon
Gravação e Mixagem : Estúdio A da RCA em São Paulo (16 Canais) Técnicos de Som : Stelio Carlini e Joãozinho
Fotos: W. Chum bo
Arte: Tebaldo
Participações Especiais:
Vanusa (“Valeu a Pena”)
Grupo A Transa (“Mensagem de um Planeta Perdido”)
Maestro Lincoln Ollivetti (piano e órgão)
Lado A
1. Boneca Cobiçada (Biá e Bolinha)
2. O Homem de Nazareth (Cláudio Fontana)
3. Meu Segredo (Hélio Matheus)
4. Minha Amiga, Minha Namorada (Antonio Marcos e Cláudio
Fontana)
5. Como Vai Você (Antonio Marcos e Mário Marcos)
6. Valeu a Pena (Eduardo Lages e Expedito Faggioni)
Lado B
1. Conversa de Jardim (Alberto Luiz e Marcos “Baby ” Durães)
2. Mensagem de Um Planeta Perdido (Taiguara)
3. Q uando o Amor Muda de Casa (Isolda e Milton Carlos)
4. Era Sábado (Antônio Marcos, Totó e Peninha)
5. Você Me Disse Adeus (Nenéo)
6. Ninguém Vai Chorar Por Ninguém (Hélio Matheus)