1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 11 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

Quase que Chico Não Canta

CHICO CANTA (CALABAR, O ELOGIO DA TRAIÇÃO) CHICO BUARQUE

 

Nilton Pavin e Sílvio Atanes

 

écim o álbum de carreira de Chico Buarque, Chico Canta ou Chico Canta Calabar, ouvido 40 anos depois ainda é um disco

 

D enigm ático. Lançado depois dos arrasa-quarteirão de público e crítica, Construção (1971) e Caetano e Chico − Juntos e ao Vivo (1972), Calabar resistiu à prova do tem po, é m uito m ais que um libelo contra a opressão e o regim e m ilitar (1964-1985). Musical, poética e esteticam ente, é um a obra sem arestas. Bonito e com um a aura especial. Assim com o Milagre dos Peixes, de Milton Nascim ento, lançado tam bém em 1973, o disco teve várias de suas letras censuradas, parcial ou integralm ente.

O título Chico Canta Calabar foi proibido pelos censores. O nom e do disco foi reduzido para Chico Canta. Na verdade, quase um a falácia. Em Chico Canta, praticam ente não foi perm itido a Chico Buarque cantar. Em entrevista ao j ornal Opinião, publicada no livro Nada Será como Antes - MPB nos Anos 70 – 30 anos depois (Senac Rio), da j ornalista Ana Maria Bahiana, Chico avaliou seu disco de 1973. Para ele, no fundo, aquele não era um bom disco. Não por falta de qualidade. Mas pela form a com o acabou chegando ao público:

“Bem , eu estive pensando, no final das contas, olhando bem , não é um bom disco. Quer dizer, é um disco cuidado, com arranj os lindos do Edu (Lobo). Mas quem vai com prar um disco em que m etade das m úsicas não tem letra? Vale com o docum ento, m as você não pode obrigar as pessoas, ninguém está inform ado de nada. Não estão inform adas, com o é que vão com prar um disco de capa toda branca? O título do disco é Chico Canta, quer dizer, não tem nada a ver, é a capa que não é capa. Um a porção de m úsicas sem letra e, aí sim , m uito m ais presas a um a peça que não houve.”

A capa branca de que Chico fala na entrevista na verdade foi a segunda capa que o disco teve, j á que a prim eira foi censurada. Os censores do governo m ilitar não gostaram da palavra “Calabar” pichada com tinta branca num m uro preto. Era afronta dem ais. A capa branca foi um a resposta política. Mas com ercialm ente foi um erro, que se refletiu na baixa vendagem do disco. A Philips, gravadora de Chico, decidiu recolher o álbum , para relançá-lo algum as sem anas depois com um a terceira capa, agora com um a foto de Chico de perfil, com o título Chico Canta. Essa é a capa que ficou conhecida pela m aioria das pessoas. Na Coleção Chico Buarque, lançada em 2011 pela Editora Abril com vários de seus discos, o disco apresentava a capa original do m uro pichado.

A censura não era só contra Chico ou Milton Nascim ento. Vários nom es da MPB sofreram com ela, com o Luiz Gonzaga Jr. ou Taiguara. Mas, com Francisco Buarque de Hollanda a tesoura foi m ais im placável. Depois de conseguir silenciar Geraldo Vandré, que não podia m ais falar em flores, nem seguir cantando a canção em sua “Cam inhando”, Chico foi o alvo preferencial escolhido. E, convenham os, não com eçou em 1973. Esse “am or” j á era antigo, e com eçou j unto com a carreira de Chico. Conform e recordou o j ornalista Tiago Faria na m atéria “Com o a MPB driblou a censura”, publicada no Correio Braziliense de 26 de abril de 2010: “no período que durou a censura e o regim e m ilitar, Chico Buarque foi o com positor e cantor m ais censurado. Sua obra sofreu respingos da censura em todas as vertentes, tanto nas canções de protesto quanto nas que feriam os costum es m orais da época. Os problem as de Chico Buarque com a censura com eçaram j unto com sua carreira. Em 1966, a m úsica ‘Tam andaré’, incluída no repertório do show Meu Refrão, com Odete Lara e MPB4, foi proibida após seis m eses em cartaz, por conter frases consideradas ofensivas ao patrono da Marinha. Era o com eço de um longo nam oro entre a censura e obra de Chico Buarque.”

Diretor de produção do disco e um dos executivos da Philips no período, quatro décadas depois Roberto Menescal recorda o episódio. “Esse disco veio depois de Construção, com produção artística m inha e que foi o grande pulo de vendagem na carreira fonográfica de Chico, pois ele tinha um a venda m édia de 30 m il discos e passou para dez vezes m ais. O disco Chico Canta ou Calabar consolidou a caça às bruxas pela censura ao Chico. Eu vivia na censura lutando para a liberação das m úsicas vetadas, às vezes com o Chico m udando um a palavra, um a capa, um título.

“Chegou a um ponto em que o Chico não queria gravar m ais nada, pois bastava um a m úsica sua chegar à censura, que j á seria cortada. Pelo sim ples fato de ser de sua autoria. Pouco m ais tarde, sabendo que Chico tinha perdido o tesão de com por e gravar, devido ao excesso de censuras, eu lhe propus gravar um disco som ente com m úsicas de outros com positores. De um a m úsica do Paulinho da Vila, ‘Sinal fechado’, sugeri o título do disco seguinte ao Calabar, o que seria um protesto claro contra a censura de suas m úsicas. Chico topou e acabou gravando um a de suas m úsicas com o pseudônim o Julinho da Adelaide, com um parceiro tam bém fictício, Leonel Paiva. A m úsica era ‘Acorda am or’. E, m ais um a vez, dem os um a volta na censura”, ironiza Menescal.

Em 1973, a censura do governo m ilitar estava em seu ápice e Chico Buarque era seu alvo predileto. Naquele ano, após m eses de ensaios e altas som as investidas, a peça Calabar – O Elogio da Traição, um a parceria de Chico Buarque com o cineasta Ruy Guerra, foi proibida de ser encenada a poucos dias de sua estreia.

Bárbara e Ana de Am sterdam são as protagonistas da peça. Bárbara é a viúva de Dom ingos Fernandes Calabar, pernam bucano que passou para o lado dos holandeses, quando estes invadiram o Nordeste, no século XVII. Na época, a Holanda disputava com Portugal o dom ínio e a exploração do cultivo da cana-de-açúcar naquela região. Capturado pela Coroa Portuguesa em 1635, Calabar foi enforcado e esquartej ado com o traidor. A prostituta Ana de Am sterdam é um a das m ulheres que vieram ao Brasil com a Com panhia Holandesa das Índias Ocidentais. Seu nom e era Ana Ferro e, de fato, era francesa.

O que m ais irritou os censores do regim e m ilitar, que não eram bobos nem nada, foi a sutil referência ao capitão Carlos Lam arca, que em 1969 desertou do Exército e passou para a guerrilha. A peça e o disco discutem a conveniência da traição, bem com o a relatividade do term o “traidor”.

Musicalm ente, o disco, nascido em função da peça, é obra fundam ental em qualquer discografia básica da MPB. Em suas 11 faixas, há canções antológicas, com o a rom ântica ao extrem o “Tatuagem ”, a quase panfletária e irônica “Fado tropical”, a em blem ática “Bárbara” e a libertária “Não existe pecado ao sul do Equador”.

No início e no fim do texto censurado para o teatro, Bárbara, a heroína da peça, propõe um desafio aos espectadores:

“Se os senhores quiserem saber por que m e apresento assim , de m aneira tão extravagante, vão ficar sabendo em seguida, se tiverem a gentileza de m e prestar atenção. Não a atenção que costum am prestar aos sábios, aos oradores, aos governantes. Mas a que se presta aos charlatões, aos intruj ões e aos bobos de rua.”

Até hoj e, o LP, com o toda obra plural, é obj eto de discussões acaloradas. Nesse álbum , a fem inilidade de Chico, sua extrem a habilidade para escrever do ponto de vista da m ulher, desabrocha de vez, algo inédito à época na m úsica brasileira. Não na escolha do tem a, m as, sim , por sua intensidade e na identificação com os ideais fem ininos. Isso, em conj unto com a fam a de bom m oço, do galã tím ido de olhos verdes, aj udou a consolidar de vez sua im agem com o queridinho entre as m ulheres. Um a espécie de porta-voz delas no então m aj oritariam ente m achista am biente da MPB.

Para tentar entender m elhor, a seguir um a breve descrição do disco, faixa a faixa:

Lado A

1. Prólogo – O Elogio da Traição (Chico Buarque e Ruy Guerra). Abertura instrum ental grandiloquente, com destaque para o prim oroso arranj o de Edu Lobo. É um resum o m usical do Brasil, que vai do clássico ao popular, da big band ao baião. O ouvinte tem a sensação de que o espetáculo vai com eçar, cheio de nuances, pirotecnias do arranj o e contrapontos dram áticos dos m etais. É o m om ento em que a luz se apaga e sobem a cortinas. Só faltou pôr os três toques de cam painha.

2. Cala a boca, Bárbara (Chico Buarque e Ruy G uerra). É a pungente declaração de am or de Bárbara a Calabar, seu m arido, que j á surge m orto no início da peça. Wagner Hom em , no livro História das Canções – Chico Buarque, publicado pela LeYa, identificou que a palavra “Calabar”, em bora não sej a pronunciada, está em butida na frase “CALA a boca, BARbara”, um belo j ogo de palavras repetido com o m antra ao longo da m úsica. Pancada estética e liricíssim a, a canção chega com a toda a pom pa que m erece um a obra-prim a. O refrão logo caiu no im aginário popular e tornou-se expressão. Nos tenebrosos anos 70, era com um ouvir um “cala a boca, Bárbara!” dirigido a algum am igo m ais alcoolizado, exaltado e tagarela na tribuna livre de um a m esa de bar. Com a censura com endo solta e dedos-duros a cada esquina, infiltrados em todas as cam adas da sociedade, poderia ser m ais seguro m esm o se calar. Lem bra outra palavra de ordem da década: “quem tem , tem m edo”.

3. Tatuagem (Chico Buarque e Ruy G uerra). Um a das m úsicas m ais m arcantes do disco, que tam bém foi gravada por Maria Bethânia no m esm o ano, no disco Drama – 3º Ato. Com a desfaçatez de um m estre, Chico encaçapa m ais um a obra-prim a, um sucesso instantâneo, nascido para ser clássico. Entretanto, a canção seria im ortalizada com o um dos grandes clássicos de Chico com a arrebatadora interpretação de Elis Regina. Por m eio de sua voz, versos com o “Quero ficar no teu corpo com o tatuagem / Que é pra te dar coragem pra seguir viagem / Quando a noite vem ” ficaram gravados para sem pre na MPB.

4. Ana de Amsterdam (Chico Buarque e Ruy G uerra). Nesta, a censura não deixou Chico cantar um verso sequer. Esta versão é toda instrum ental. Mas “Ana...” j á havia sido gravada no ano anterior, no disco que Chico dividiu com Caetano Veloso, Caetano e Chico – Juntos e ao Vivo. Gravado no Teatro Castro Alves, em Salvador, o LP incluiu outra m úsica do repertório de Calabar: “Bárbara”. A lúbrica Ana apresentava-se assim : “Sou Ana, da cam a / Da cana, fulana, bacana (sacana) / Sou Ana de Am sterdam .” Mais fem inista, im possível.

5. Bárbara (Chico Buarque e Ruy G uerra). Bárbara é a viúva de Calabar. Na peça, Ana de Am sterdam , lésbica, seduz a personagem principal com seus versos lascivos e úm idos de sexo: “Vam os ceder, enfim , à tentação / Das nossas bocas cruas / E m ergulhar no poço escuro de nós duas”. No disco ao vivo com Caetano Veloso, quando a letra diz “de nós duas”, o que deixa claro a relação hom ossexual entre as protagonistas, esse trecho é coberto por falsas palm as de estúdio. Em Calabar, a letra é silenciada em parte, sobra apenas um “uas” – e bastante abafado.

Lado B

1. Não existe pecado ao sul do Equador / Boi voador não pode (Chico Buarque e Ruy G uerra). Um a celebração da alegria e um convite a um “liberou geral”, um a década antes do “Vale tudo” de Tim Maia. Aqui, a brincadeira é escancarada em tom de frevo, com m úsicas de tom carnavalesco, que seriam cantadas alguns carnavais depois. Chico e Ruy pensaram em convidar um conhecido cantor de m úsicas de carnaval para gravá-la. Mas, com o j á fizera anteriorm ente, ele exigiu parceria na autoria da m úsica e Chico acabou cantando. Já “Boi voador...” solta farpas contra a censura: “Quem foi, quem foi / Quem falou no boi voador / Manda prender esse boi / Sej a esse boi o que for.” Enquanto Chico lançava versos, a censura continuava a lançar obj etos m alcheirosos sobre nossas cabeças.

2. Fado tropical (Chico Buarque e Ruy G uerra). Na m úsica – com o o título indica, um fado –, há um texto recitado por Ruy Guerra, com seu conhecido sotaque angolano. Porém , o trecho em que ele falaria “além da sífilis, é claro” foi proibido e não entrou. No livro História das Canções – Chico Buarque, Wagner Hom em ressalta que “em 1973, a com paração entre Brasil e Portugal, que ainda vivia sob o regim e fascista de Marcelo Caetano, foi tida com o ofensa aos dois países. A Revolução dos Cravos, que em 1974 depôs a ditadura portuguesa, ganhou um a conotação subversiva e am eaçadora para o regim e m ilitar que ainda vigorava por aqui”. De qualquer form a, o recado foi dado com a galhofa profética destes versos: “Ai, esta terra ainda vai cum prir seu ideal / Ainda vai tornar-se um im enso Portugal.”

3. Tira as mãos de mim (Chico Buarque e Ruy G uerra). Nesta faixa, Bárbara repudia Sebastião do Souto, espécie de agente duplo que circulava entre portugueses e holandeses. Ele arm ou um a arm adilha para Calabar ser capturado, j unto com as tropas holandesas. O asco de Bárbara diante dos cortej os de Sebastião – o verdadeiro traidor – é destilado em versos com o: “Ele eras m il / Tu és nenhum / Na guerra és vil / Na cam a és m ocho.” Som ente o finado Calabar era o am ante ideal, provoca Bárbara, zom bando da parca virilidade do rival: “Tira as m ãos de m im / Põe as m ãos em m im / E vê se a febre dele / Guardada em m im / Te contagia um pouco.” A m úsica adquire um tom m ais dram ático, bem ao estilo de Maria Bethânia, que não por acaso gravaria a canção em 1974, no disco A Cena Muda (Philips).

4. Cobra de vidro (Chico Buarque e Ruy G uerra). Esta m úsica descreve o esquartej am ento de Calabar. Os versos tam bém são cortantes: “Aos quatro cantos suas tripas / De graça / De sobra / Aos quatro ventos os seus quartos / Seus cacos / De cobra.” Ao final, um coro fem inino recom enda: “Presta atenção / Presta atenção / Presta atenção...” Os ouvintes e autores captaram a m ensagem . E ficaram ainda m ais atentos à tesoura im placável da censura.

5. Vence na vida quem diz sim (Chico Buarque e Ruy G uerra). Nesta faixa, a letra foi integralm ente censurada. Aqui, Chico tam bém não cantou. No LP, só aparece a versão instrum ental. A canção só seria gravada de novo em 1980, no disco de Nara Leão Com Açúcar, com Afeto (Philips), em dueto com Chico. Diante da barbárie, Chico recom enda, com hipérbole, “dar a outra face” e seguir apanhando, conform ado com o um boi na fila do m atadouro: “Se te cham am vagabunda / Montam na cacunda / Se te largam m oribunda / Olha bem pra m im / Vence na vida quem diz sim .”

6. Fortaleza (Chico Buarque e Ruy G uerra). Com o clim a de anticlím ax decorrente da “não audição” da faixa anterior, a angustiante e sufocante “Fortaleza” fecha o disco. A letra descreve um a im ensa tristeza represada, um dique prestes a explodir. Os últim os versos resum em bem o clim a na época, a m utilação e a m udez causados pela censura do governo m ilitar: “Minha fortaleza é de um silêncio infam e / Bastando a si m esm a, retendo o derram e / A m inha represa.”

Apesar de tudo, contra tudo Calabar não se calou. Nem ele, nem Chico. E m uitas luas e m ares depois continuam a encantar...

 

Chico Canta (Calabar, o Elogio da Traição) (Philips − 6349 093) Peça teatral de Chico Buarque e Ruy Guerra

Música de Chico Buarque

Letras de Chico Buarque e Ruy Guerra

Coordenação geral: Ruy Guerra

Direção de produção: Roberto Menescal

Direção de estúdio: Sérgio Carvalho

Técnico de gravação: Luigi

Estúdio: Phonogram

Arranj os: Edu Lobo

Regência: Mário Tavares

Capa: Regina Vater

Foto capa: Gianfranco

Foto interna/encarte: Sérgio da Matta e Hugo Denizart

Lado A

1. Prólogo – O Elogio da Traição (Chico Buarque e Ruy Guerra)

2. Cala a Boca, Bárbara (Chico Buarque e Ruy Guerra)

3. Tatuagem (Chico Buarque e Ruy Guerra)

4. Ana de Amsterdam (Chico Buarque e Ruy Guerra)

5. Bárbara (Chico Buarque e Ruy Guerra)

Lado B

1. Não Existe Pecado ao Sul do Equador / Boi Voador Não Pode

(Chico Buarque e Ruy Guerra)

2. Fado Tropical (Chico Buarque e Ruy Guerra

3. Tira as Mãos de Mim (Chico Buarque e Ruy Guerra)

4. Cobra de Vidro (Chico Buarque e Ruy Guerra)

5. Vence na Vida Q uem Diz Sim (Chico Buarque e Ruy Guerra)

6. Fortaleza (Chico Buarque e Ruy Guerra)