1973: O Ano que Reinventou a MPB
Ecos do Bloco que Desbloqueou a Rua ... E Fez o País Cantar na Voz de Sérgio Sampaio
ECOS DO BLOCO QUE DESBLOQUEOU A RUA ... E FEZ
O PAÍS CANTAR NA VOZ
DE SÉRGIO SAMPAIO
EU Q UERO BOTAR MEU BLOCO NA RUA... − SÉRGIO SAMPAIO
Sérgio Natureza
uando eu conheci o bloco, ele j á estava na rua. O Brasil fazia coro em sua am bígua m archa carnavalesca − pelo caráter
Q tanto festeiro quanto libertário − transform ada em hino, válvula de escape, desafogo de quem vivenciou, com o eu, os duros tem pos de censura e repressão em nosso país. Ele era “o cara” da vez... o “m enino” de Cachoeiro que havia conseguido realizar seus sonhos de conquistar a cidade grande e, com o seus j á consagrados conterrâneos Rubem Braga e Roberto Carlos − dentre outros poucos, trazer o Rio Itapem irim para ser afluente do Rio de Janeiro e que, por tal súbita notoriedade, “sofria algum as
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felicidades” decorrentes do insuspeitado “susto-sucesso”. Não lhe fora fácil trocar o am biente da tam ancaria do pai durante a infância/adolescência na pequena cidade natal, os dias de precariedade na chegada à grande m etrópole... pelos hotéis m ultiestrelados, carros, viagens, m ega shows e dem ais benesses reservadas aos fam osos. Não perdeu o seu j eito interiorano, m as buscou m aneiras de elaborar o choque; e tenham sido elas quais fossem , não carecem de j ulgam ento − foram as que lhe serviram nas circunstâncias, m elhor explicadas se voltarm os um pouco no tem po, constatando que o com positor Sérgio Sam paio j á havia trabalhado com o locutor em Cachoeiro e continuou no ram o narrando com erciais, no Rio, m ais exatam ente em program a do radialista Abi-Rihan na Rádio Continental no final dos anos 1960. Tam bém não era exatam ente um estreante em disco, quando, em outubro de 1972, estourou nacionalm ente com a m archa-rancho “Eu quero é botar m eu bloco na rua”, apresentada no VII Festival Internacional da Canção (FIC). Contratado naquele m esm o ano pela gravadora Philips, do diretor André Midani e do produtor Roberto Menescal, Sérgio havia lançado anteriorm ente dois com pactos na CBS, am bos com produção de Raul Seixas, seu padrinho artístico, tam bém seu parceiro no controvertido LP Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta “Sessão das Dez” (1971) − que trazia ainda os cantores Miriam Batucada e Edy Star. O crescente sucesso da sua estourada canção autoral criou a natural expectativa, por parte da gravadora, de que o artista tivesse “outros Blocos na rua” para serem lançados, expectativa essa que acabou precipitando a gravação do prim eiro LP de Sérgio. E foi assim , um tanto às pressas, que, em finais de 1972, o artista entrou em estúdio, tendo a seu lado Raul Seixas, que produziu o disco, transou os arranj os de base com o próprio Sérgio e fez a direção m usical do trabalho. Na banda de apoio, Sérgio contou com seu fiel escudeiro Renato Piau (violão e guitarra), Alexandre Malheiros (baixo), os bateristas Ivan “Mam ão” Conti e Wilson das Neves e o tecladista Zé Roberto (José Roberto) Bertram i, que com Malheiros e Mam ão form ava o prestigiado/prestigioso grupo Azy m uth, tam bém o principal arranj ador do disco. A percussão ficou a cargo do grupo Crem e Cracker. Um ensaio fotográfico foi encom endado a Luiz Garrido e a arte da capa ficou a cargo de Aldo Luiz, todos profissionais de prim eira linha. No repertório, quase que totalm ente autoral (exceção de sam ba do pai, que Sam paio registrou), Sérgio se m ostra um versátil com positor e intérprete, indo da valsa pop “Leros, leros e boleros”, que abre o disco destilando aquele estranho lirism o tão seu, ao abrasivo conteúdo de “Film e de terror”, que consegue driblar “garrincham ente” a narrativa m etafórica da situação repressiva/ cruel/ aterrorizante vigente na época. Nessa últim a, há quem interprete que o citado Cine Im pério da Tij uca seria, na verdade, o Quartel da Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita, tristem ente lem brado com o o m ais atuante centro de torturas de presos políticos no Rio daqueles “anos de chum bo”. Algum as m úsicas m ostram preocupação sócio-ecológico-existencial com o “Labirintos negros” e “Viaj ei de trem ”, faixas em que a influência do rock se faz m ais presente, sendo que na prim eira há um quê de Rogério Duprat no arranj o, bem ao m odo tropicalista. O rock tam bém passa pelas lancinantes baladas “Eu sou aquele que disse” (em que o artista, entre declarações de princípios e posturas, cita Roberto e Erasm o de “quero que você m e aqueça nesse inverno” e “Pobre m eu pai”, onde Sam paio cita um dos seus poetas preferidos, senão o preferido, Augusto dos Anj os, para cantar e exorcizar seus traum as de infância na expressão “podre m eu pai”. Para a m ãe, com pôs “Dona Maria de Lourdes”, na qual Sam paio faz um a declaração de independência dos zelosos cuidados m aternos, nos m oldes de trechos de “Mam ãe coragem ”, canção referendada em Brecht, com letra de Torquato Neto, um a das m aiores referências e adm irações de Sérgio, assim com o Caetano, outro ícone para Sam paio, de “No dia em que eu vim m e em bora”. Fecha o disco com “Raulzito Seixas”, onde Sam paio declara sua adm iração, quase idolatria, pelo am igo/ parceiro/ avalizador/ produtor... não sem apresentar dois sam bas de ginga bem carioca: “Cala a boca, Zebedeu”, autoria do pai capixaba m aestro de banda, Raul Gonçalves Sam paio e “Odete”, (de Sérgio, em que tam bém são citados Jorge Ben(j or) e Toquinho em “Que m aravilha”) duas faixas bem executadas nas rádios, o que não foi suficiente para em polgar a crítica e puxar as vendas.
Fato é que, após um com pacto que vendeu cerca de m eio m ilhão de cópias de “Eu quero é botar m eu bloco na rua”, se fazia im perioso, por parte da gravadora m ultinacional que o contratara, o desdobram ento para um salto m aior – oportuno sim , em bora talvez bem m ais oportunista, buscando auferir polpudos dividendos para a em presa fonográfica contratante, louros para seus m entores/diretores fonográficos (“ o gerente, o assistente ou o inteligente”, com o viria a ironizar Sergio em “Meu pobre blues”, dedicada ao seu ídolo m aior, Roberto Carlos). O disco, do ponto de vista artístico, m ostrou um artista m aduro em sua estreia. Entretanto, o plano em ergencial de gravação e lançam ento, com ercialm ente, não deu certo a despeito do investim ento no disco com título hom ônim o ao seu estrondoso hit − das estratégias de m arketing e plano de vendas para a indústria se desenhava o terrível estigm a do “com positor de um a m úsica só”, o m alfadado rótulo de “m aldito”. Assim o descartaram e, em seguida, o dispensaram , com o consequência da propalada irrascibilidade/geniosidade (por conveniência bem m ais relevada do que a genialidade) do artista, relutante em divulgar o trabalho, segundo desej avam /lhe im punham . Era um disco que, a bem da verdade, pode ter sido precoce, haj a vista a prem ência de sua realização, um certo açodam ento para reunir canções, não necessariam ente as que o artista poderia ter selecionado com m ais calm a/critério, quem sabe com m ais tem po para incluir novas com posições e form atar m elhor o repertório. A despeito de tudo isso, hoj e, quarenta anos passados, ouço novam ente o disco com um a sensação sim ilar à da prim eira audição, aliando prazer e adm iração raros, talvez observando m elhor alguns detalhes que m e fugiram na época. Além disso, com distanciam ento crítico, m enos guiado pela em oção e pela surpresa que m e tom aram quando de seu advento.
Ratifico m inha prim eira im pressão de estar diante de um disco cuj a particularidade, ousadia estética, concepção e talento dos envolvidos, pode/deve, do m eu ponto de vista (no caso, bem m ais de audição), ser considerado um m arco, dividindo relevo com outros estreantes no m ercado fonográfico: seu grande am igo Luiz Melodia, Fagner, Belchior, Ednardo, dentre outros aguardados lançam entos da época. Não entro no m érito da questão quanto à m agnitude qualitativa da trabalho, m as reputo um dos discos m ais significativos da MPB na época, quando se instalara um hiato pós-tropicalista (que interrom pera, em parte, o boom das cham adas “canções de protesto”). Esse disco possui cores sonoras que m esclam referências e citações, passando pela Jovem Guarda, pelo Tropicalism o e, por m ais inverossím il que pareça, sam bas da m elhor estirpe e baladas da m ais refinada artesania. A posteriori se superlativa em função do renovado frescor, da atem poralidade que o faz, m ais do que um item supervalorizado de colecionador, um a referência criativa para quem o conhecera desde o lançam ento, o conheceu posteriorm ente e se revelou um a gratíssim a surpresa para os que o ouvem pela prim eira vez – inclua-se neste contingente m uitos j ovens, em núm ero cada vez m aior, que se reúnem Brasil afora, no culto a Sérgio Sam paio, a partir da audição deste seu prim eiro/em blem ático/icônico LP Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua.
Outros poucos trabalhos gravados do artista, quase todos esgotados, foram felizm ente reeditados por louváveis iniciativas de Zeca Baleiro, Charles Gavin e Carlos Alberto Sion. O disco m ereceu análises críticas de variados m atizes em autorias de Paulo Henriques Britto, Em ílio Pacheco e Rodrigo Moreira – este últim o, biógrafo de Sam paio, decupando, por m eio de análises em basadas, os m eandros m elódico-poéticos da obra. Não coloco isso com o que um ponto final pois o universo das canções de Sérgio Sam paio, na sua peculiaridade, sem pre ensej a outra(s) leitura(s) / análise(s).
Sérgio Sam paio ainda gravou alguns com pactos, o LP Tem que Acontecer (Continental Discos, 1976) e um disco independente Sinceramente (1982). Infelizm ente, apesar de algum as m úsicas dos dois trabalhos terem ainda chegado a certas rádios, não houve m aior repercussão de crítica e vendas. O estigm a acom panhou Sam paio até seu precoce falecim ento em 1994. A j ustiça, tardia, m as infalível, com eçou a ser feita a ele post-mortem, através das releituras e gravações de inéditas feitas por artistas am igos e apreciadores da obra de Sérgio em shows − tributo e no CD do proj eto que capitaneei Balaio do Sampaio (1998). Além disso o resgate do artista se constrói através da biografia Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua, de Rodrigo Moreira (Ed. Muiraquitã, 2000), dos relançam entos dos discos Tem que Acontecer e de um a coletânea de canções gravadas, algum as em participações do artista em proj etos especiais que não de sua própria discografia autoral, do CD de inéditas de Sérgio Sam paio (algum as delas gravadas por outros no Balaio do Sampaio), com a voz do artista / cantautor rem asterizada e com arranj os produzidos e dirigidos por Zeca, adm irador confesso de Sérgio, cultor e seguidor de seu estilo, respeitadas às particularidades de am bos. Zeca lançou, pelo seu selo Saravá, o CD póstum o, de nom e Cruel, o qual Sam paio se preparava para gravar quando foi acom etido pelo m al que o vitim ou. Ainda por este selo, m ais recentem ente saiu um a reedição de Sinceramente, seu LP independente, agora em CD (fato que tanto alm ej ava Sam paio), além de algum as participações, não reeditadas, em proj etos de sua prim eira gravadora com m úsicas de carnaval, Phono 73, entre outros...
Muito ainda há de ser revelado da obra de um criador tão particular com o Sérgio Sam paio, um artista que, na sua rica sim plicidade inspirada de m elodista, dem onstra riqueza em seus versos m ovidos quer por sua natureza poética intuitiva, quer pelo espelham ento e culto a poetas do porte de Fernando Pessoa, Augusto dos Anj os, Drum m ond, Bandeira, Gullar, dentre outros. Sérgio foi ouvinte fiel/cultor dos grandes da “época de ouro do rádio”, am ante do canto de Orlando Silva, Silvio Caldas, Altem ar Dutra, Nelson Gonçalves e outras vozes sem inais em nosso cancioneiro, com o Cy ro Monteiro, João Nogueira, Roberto Ribeiro, Roberto Silva, Paulinho da Viola e João Gilberto que, j unto com João Saldanha, em outro segm ento, botafoquense com o Sam paio, o levaram a colocar o nom e de João em seu filho.
Fato inconteste é que a obra de Sam paio evidencia um artista de raro talento criador, personalíssim o, um hom em que pôs toda um a nação no m esm o bloco, na m esm a rua, no m esm o sentim ento cívico, m esm o clam or, m esm a festa. Sérgio Sam paio, um a personalidade artística invulgar, rara... única... um ser único, que soube m esclar seus dotes e idiossincrasias, seus hum ores e suas contradições ao seu dom inato de cancionista, dos m ais notáveis surgidos (e preservados pela qualidade) na história recente de nossa m úsica popular. O Bloco do Sam paio vai continuar sem pre passando na rua da nossa m em ória!
* Este texto foi escrito com a colaboração de Rodrigo Moreira, biógrafo de Sergio Sampaio.
Eu Q uero Botar Meu Bloco Na Rua... (Philips − 6349 057) Produção: Raul Seixas
Técnicos de gravação: Ary e Luigi
Fotos: Garrido
Capa: Aldo Luiz
Estúdio: Phonogram (Rio de Janeiro, RJ)
Violão e vocal: Sérgio Sam paio
Violão solo e guitarra: Piau
Bateria: Ivan Mam ão e Wilson das Neves
Baixo: Alexandre
Piano e m oog: Zé Roberto
Percussão: Conj unto Cream Cracker
Participação indispensável: Paulo “Chocolate” Sérgio
Arranj os: Zé Roberto, Raul Seixas e Sérgio Sam paio
Lado A
1. Leros e Lero e Boleros (Sérgio Sam paio)
2. Filme de Terror (Sérgio Sam paio)
3. Cala a Boca, Zebedeu (Raul Sam paio)
4. Pobre Meu Pai (Sérgio Sam paio)
5. Labirintos Negros (Sérgio Sam paio)
6. Eu Sou Aquele Q ue Disse (Sérgio Sam paio)
Lado B
1. Viajei de Trem (Sérgio Sam paio)
2. Não Tenha Medo Não (Rua Moreira 65) (Sérgio Sam paio)
3. Dona Maria de Lourdes (Sérgio Sam paio)
4. Odete (Sérgio Sam paio)
5. Eu Q uero é Botar Meu Bloco Na Rua (Sérgio Sam paio)
6. Raulzito Seixas (Sérgio Sam paio)
5.A expressão “sofria algum as felicidades” é de autoria do poeta Salgado Maranhão, am igo do artista.