1973: O Ano que Reinventou a MPB
Tentando Alcançar os Astros
DRAMA 3º ATO − MARIA BETHÂNIA
Thelmo Lins
prim eiro contato que tive com a obra de Maria Bethânia foi em 1976, aos 13 anos de idade. Até então, na m inha casa, em
O Itabirito, no interior de Minas Gerais, ouvíam os rádio, em especial a Atalaia, que praticam ente program ava o que hoj e cham am os de m úsica brega. E dá-lhe Paulo Sérgio, Ângelo Máxim o, Diana, Vanusa, Odair José, Jane e Herondy, Roberto Carlos (sim , naquela época, ele era um dos expoentes!), entre outros nom es. Não que fosse m inha em issora favorita, m as era o que ficava no ar na casa de m eus pais, num a época em que eu não sabia m uito de Bossa Nova, Clube da Esquina
ou Tropicalism o.
Pois é, nessa m esm a em issora “brega”, com eçam os a ouvir “Olhos nos olhos”, de Chico Buarque, com ... Maria Bethânia. No ano seguinte, em 1977, m eu pai com prou um a radiola bonita, daquelas de m óvel. Para ouvir, eu pedi um disco da Maria Bethânia cham ado Pássaro da Manhã. No LP, gravado em estúdio, tinha “Tigresa”, “Um j eito estúpido de te am ar”, “Teresinha”, entre outras canções, além de poem as de Fernando Pessoa e textos de Fauzi Arap e Clarice Lispector.
Aquele disco foi o m eu canal. A partir dali, queria saber tudo sobre esta cantora. Vale lem brar que não existia loj a de discos em Itabirito e, é claro, nem internet ou outros m eios de com unicação com o m undo. Tínham os o j ornal, a enciclopédia e a curiosidade.
Bethânia abriu m inha cabeça para grandes autores, m úsicas do passado, interpretadas por Dalva de Oliveira. Meu pai, que sem pre foi fã de Nelson Gonçalves, dizia: “Eu conheço esta m úsica, m as ela canta m uito diferente do original.” Eu achava isso o m áxim o. Era (eu poderia arriscar?) interpretação.
Eu era um adolescente nesta época e queria ser artista. Especialm ente, ator. O teatro, a televisão e o cinem a eram os m eus interesses. As m ensagens em itidas por aquele LP m e instigavam a conhecer outras facetas da obra da cantora, que tinha um j eito teatral de interpretar as canções. De repente, eu tam bém queria ser aquilo.
Daí, eu chego a Drama 3º Ato / Luz da Noite, de 1973. Muito m ais do que aquele conteúdo m usical e artístico interessante (em bora sem pre achasse a gravação com problem as técnicos), eu absorvia o estilo. Na capa, um a foto em preto e branco de Maria Bethânia retocada com gliter, que a fazia parecer um palhaço. Na parte interna do disco, um a foto do palco, com belas cortinas que lem bravam um circo. Estam pados na cortina, vários desenhos. Um deles, de Polly, rem etia ao m esm o desenho da capa.
Mas foi da contracapa que vinha o espanto m aior. E não era a foto da sorridente Mãe Menininha do Gantois, com a letra da canção de Cay m m i, inserida no repertório. Eram os versos, escritos com a caligrafia da cantora, que diziam : “Não pode alcançar os astros / Quem tem a vida de rastros / Quem é poeira do chão.” É engraçado com entar sobre isso hoj e, m as isso m udou toda a m inha vida! Eu era um m enino do interior, com am bições relativas, filho de pais com erciantes, que estava fadado a trabalhar no com ércio local, vendendo linhas, agulhas, botões e retroses, quando senti que o m undo oferecia sonhos quase inim agináveis.
Levava essas descobertas para m inha turm a de am igos que gostava de m úsica, teatro, cinem a, literatura. Discutíam os esses assuntos, essas m úsicas e esses poetas, que aos poucos foram consolidando m inha profunda ligação com a arte.
O disco, gravado ao vivo, costurava canções novas (daquela época), com o “Baioque” e “Tatuagem ”, de Chico Buarque; “Esse cara”, de Caetano Veloso; “Com o vai você”, de Antônio e Mário Marcos, grande sucesso; e “Filhos de Gandhi”, de Gilberto Gil; com canções do passado, revividas de form a m agistral, com o “Eu sou a outra” (sucesso de Carm em Costa, que conheci m uito m ais tarde), “E o m undo não se acabou”, de Assis Valente (fam osa na voz da Pequena Notável), “Volta por cim a”, de Paulo Vanzolini (o m esm o autor de “Ronda”), entre tantas outras.
Em determ inado m om ento do LP/espetáculo, Bethânia interpretava um texto de Antônio Bivar sobre a vontade que ela tinha de ser trapezista e fugir com o circo. No texto, apareciam os personagens: o palhaço Polly, m encionado no cenário, Topsy e Diderlang, dono do circo, “que parecia um príncipe”. No final do texto, Bethânia em endava com “Estrela do m ar”, sucesso de Dalva. Com ecei a fazer os links: textos dram áticos, Dalva, tem as polêm icos daquela época e do passado; o negror de um a ditadura m ilitar, que eu vivi som ente nas canções; Chico, Gil, Caetano.
Senti que havia um a pesquisa de roteiro, que as canções e os textos tinham um a cadência. A cantora tinha o hábito tam bém de trabalhar com o Terra Trio, o m esm o núcleo instrum ental de Pássaro da Manhã. Mais tarde, colecionando os LPs de Bethânia (hoj e, eu tenho sua obra com pleta), notei que a virada artística da cantora de “Carcará” se deu no show Rosa dos Ventos, que j á vinha im pregnado desse estilo, am adurecido em Drama 3º Ato / Luz da Noite e, no ano seguinte, em Cena Muda (1974). E esse padrão foi retom ado show após show, em constante aprim oram ento da sua arte e das condições técnicas para gravação de um disco ao vivo. Eu poderia arriscar a dizer que conheci a m úsica popular brasileira a partir de Drama 3º Ato / Luz da Noite. E, de form a especial, com ecei a m e entender m elhor com o ser hum ano a partir daquelas canções e texto. Germ inava, ali, um a sem ente, que eu iria pôr em prática no futuro: atuar na área cultural.
Maria Bethânia, em depoim ento ao escritor e crítico m usical Rodrigo Faour, por ocasião da reedição de sua obra, em 2006, relatava que o show Drama 3º Ato / Luz da Noite era “m ais sensorial, tocava m ais na sensibilidade, enquanto Rosa dos Ventos e Cena Muda tinham discussões internas m uito fortes”. A cantora cita que a sua influência vinha do trabalho de direção de Fauzi Arap, nom e com um em quase todos os discos e shows da cantora nesse período. O diretor trazia para os trabalhos o universo poético e dram ático, reforçando as características originais da cantora, que sem pre esteve no cam inho entre a m úsica e o teatro. Nesse parâm etro, o disco unia as coisas que eu m ais gostava.
Com ecei a m irar o m eu olhar e o m eu sentim ento para outros artistas que circundavam aquela obra. Caetano eu j á conhecia. Chico Buarque sem pre esteve na m inha lista dos m elhores. Gil, com sua m usicalidade visceral, para m im ainda era o do “Aquele abraço”. Ouvindo aqueles discos, descobri novas paixões, que m arcariam m inha vida, com o Sueli Costa, Fernando Pessoa e Dorival Cay m m i. De quebra, com ecei a prestar m ais atenção em Gal Costa, Elis Regina, Nara Leão, Carm en Miranda, a j á citada Dalva de Oliveira, Custódio Mesquita, Lam artine Babo, os Doces Bárbaros, os Novos Baianos... a lista era infinita.
Atualm ente, considerando a atual geração de ouvintes, que usa aplicativos, pesquisa e baixa m úsicas na internet, e não tem hábito de com prar CDs, penso o quanto aquele Drama 3º Ato / Luz da Noite fez por m im , tão carente de inform ações no interior de Minas, naquela década de 1970.
Outro ponto que ressalto é o com portam ental. Bethânia sem pre teve um a postura diferente em relação ao que era o padrão estético da época. Seu rosto forte, as roupas sensuais, os cabelos revoltos e algum as atitudes às vezes agressivas m e m arcaram . Aquela m ulher sustentava suas atitudes. Na revista Veja, ela aparecia beij ando Gal Costa na boca, num a época em que o selinho da Hebe Cam argo ainda estava no arm ário. Um escândalo. Perguntada por que desafinava nos shows, ela respondia que, com o desafinava na vida, tam bém desafinava na arte. Uau. O que era isso?
Em 1973, ano do lançam ento de Drama 3º Ato / Luz da Noite, a vida era m uito careta em Itabirito. Vivíam os em plena ditadura m ilitar. Com o eu era pequeno (tinha som ente 10 anos e estava na então 4ª série prim ária), m eus interesses não passavam da vontade de andar com m inha bicicleta Caloi e brincar com m eus am igos do bairro, em ruas ainda de terra. Nesse ano, o professor José Bastos Bittencourt ganhou a eleição para a prefeitura de Itabirito. Mas Bittencourt era do MDB, partido de oposição ao governo m ilitar. Então, Itabirito com ungava, com o um a boa parte do país, da insatisfação com aquele regim e. Para nós, crianças, ele era apenas o pai de um dos nossos colegas, o Lauro. Mais tarde, j á com m inha consciência política, é que percebi o quanto o crescim ento da oposição foi im portante para a reabertura política.
Minha vida seguiu seu rum o. Ao invés de ser um com erciante, resolvi fazer teatro e j ornalism o. Mais tarde, envolvi-m e com a m úsica. E, a partir desta, com um a expressão artística que m escla várias m anifestações, com o a literatura, as artes plásticas, a fotografia, o cinem a. A senha de Drama 3º Ato / Luz da Noite foi a m inha saída do exílio. Ao invés de optar por um cam inho, queria trilhar vários, queria abraçar o m undo.
Em 2003, trinta anos depois do lançam ento desse fantástico disco, eu m e encontrei num a posição diferente. Estava gravando m eu terceiro disco, Thelmo Lins Canta Drummond, com poem as m usicados do poeta itabirano. Grandes com positores criaram canções especialm ente para esse disco, com o Sueli Costa, Francis Him e, Milton Nascim ento, Joy ce, José Miguel Wisnik, Belchior, Tavinho Moura, Ladston do Nascim ento, Flavio Henrique, Renato Motha e Geraldinho Alvarenga. Quando recebi “O m undo é grande”, de Sueli Costa, logo percebi que havia na canção aquele m esm o estilo de lá de trás, quando ouvia Bethânia interpretar os clássicos da MPB. Num a atitude com pletam ente ousada, m inha produção fez contato com a cantora para saber se ela teria o interesse de participar de um disco independente de um cantor m ineiro desconhecido. E não é que ela topou?
Quando a encontrei no estúdio da gravadora Biscoito Fino, no Rio de Janeiro, ao lado, entre outros, do violonista Jaim e Além , todo um ciclo se com pletou em m inha vida. Estava ali, perto de m im , a m inha grande referência artística e estética. Um a das m aiores cantoras do Brasil e do m undo. Fizem os um a sessão de fotos, trocam os algum as palavras, presentes e abraços. Ela m e disse, carinhosam ente, que não estava se sentindo m uito bem naquele dia, m as que tinha ido ao estúdio para cum prir aquele com prom isso. E, ao ouvir a canção, ela havia até m elhorado seu estado de saúde. Foi inesquecível. Um ano depois, recebi outro presente. Bethânia colocou a canção no seu CD anual, em um novo registro.
Ela, com certeza, não sabe dessas histórias, que hoj e registro neste livro. Não tem ideia do quanto seu canto e sua perform ance m odificaram a m inha vida e a m inha percepção da área artística. E, talvez, não tenha a dim ensão do quanto é caudaloso o seu rio de vida e canções que form am tantos afluentes. Mas eu estive na plateia de alguns dos seus principais shows ao longo dos últim os 20 anos, aplaudindo-a. Sem pre quando lanço m eus discos, envio-os para sua residência, no Rio de Janeiro. Um a vez, vendo um a pintura que representava a Fé, a Esperança e a Caridade no teto de um a igrej a barroca em Sabará, pensei nela. Registrei a im agem , am pliei, em oldurei e m andei para ela de presente.
Hoj e, além do CD físico, Drama 3º Ato / Luz da Noite está no m eu celular. Escuto toda vez que posso, ainda degustando aquelas m aravilhosas canções. Ainda m e em ociono com a letra de “Dram a”, do m ano Caetano, que diz “eu m into, m as m inha voz não m ente. Minha voz soa exatam ente de onde o corpo da alm a de um a pessoa se produz a palavra eu”. Pois é, Bethânia, eu m e produzi a partir de seus recados cifrados naquele disco. E tentei, ao m eu j eito, alcançar os m eus astros, recusando-m e veem entem ente a ser poeira do chão.
Drama 3º Ato (Philips − 6349 089)
Direção de produção: Benil Santos
Direção de estúdio: Perinho
Técnicos de gravação: Ary Carvalhaes e Jorge Karan
Corte: Jorge Figueira
Gravado ao vivo no Teatro da Praia (Rio de Janeiro, RJ)
Acom panham ento: Terra Trio, Chiquito e Pedro Santos
Capa: Maria Bethânia, Zé Maria e Fauzi Arap
Foto: Tereza Eugênia
Textos: Antonio Bivar, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Isabel Câm ara, Luiz Carlos Lacerda e Maria Bethânia
Lado A
1. Movimento dos Barcos (Jards Macalé e Capinan)
Baioque (Chico Buarque)
2. Texto de Reserva de Domínio
Rasguei a Minha Fantasia (Lam artine Babo) Se Essa Rua Fosse Minha (tradicional) Nada Além (Custódio Mesquita e Mário Lago)
3. Texto de Antônio Bivar
Estrela do Mar (Marino Pinto e Paulo Soledade) Meu Primeiro Amor (Lejania) (Herm ínio Gim enez, versão José Fortuna e Pinheirinho Jr.)
4. Soneto (Chico Buarque)
5. A Maré Encheu (tradicional, adapt. Villa-Lobos)
Q uem Vem Pra Beira do Mar (Dorival Cay m m i)
6. Texto de Isabel Camarra
Como Vai Você (Antônio Marcos e Mário Marcos) Q uatro Paredes (Sérgio Sam paio)
7. Texto de Reserva de Domínio
Atrás da Porta (Chico Buarque e Francis Him e)
8. Texto de Antônio Bivar
Donde Estará Mi Vida (Quiroga Segovia, Francisco Naranj o Caldera e Ignacio Rom an Jim enez)
9. Texto de Isabel Camara
Preciso Aprender a Só Ser (Gilberto Gil)
Lado B
1. Texto de Luis Carlos Lacerda
Esse Cara (Caetano Veloso) Bodas de Prata (Roberto Martins e Mário Rossi) Tatuagem (Chico Buarque e Ruy Guerra)
2. Texto de Fernando Pessoa
Volta Por Cima (Paulo Vanzolini) Eu Sou a Outra (Ricardo Galeno)
3. Solução (Raul Sam paio e Ivo Santos)
Formosa (Baden Powell e Vinicius de Moraes)
4. E o Mundo Não Se Acabou (Assis Valente)
Eu Dei... (Ary Barroso) Maria Escandalosa (Klécius Caldas e Arm ando Cavalcanti)
5. Ela Desatinou (Chico Buarque)
6. A Lenda do Abaeté (Dorival Cay m m i)
Oração de Mãe Menininha (Dorival Cay m m i) Filhos de G andhi (Gilberto Gil)
7. Texto de Maria Bethânia
Iansã (Gilberto Gil e Caetano Veloso)
8. Texto de Clarice Lispector
Luz da Noite (Caetano Veloso e Maria Bethânia)
9. Texto de Fernando Pessoa
Drama (Caetano Veloso)