1973: O Ano que Reinventou a MPB
Meia Hora de Encantamento
SECOS & MOLHADOS− SECOS & MOLHADOS
Emílio Pacheco
rinta m inutos e m eio. É o tem po do prim eiro disco dos Secos & Molhados. Relativam ente curto para um LP, especialm ente em
C 1973. Porém , pouco m ais de m eia hora foi o suficiente para revolucionar a cultura brasileira.
A breve duração do álbum se deveu, em parte, à censura
daqueles tem pos. A m aioria do repertório de Secos & Molhados era com posta de poem as fam osos m usicados. E nem poetas
consagrados escapavam do crivo. Assim , “Tem gente com fom e”, de Solano Trindade, teve sua versão m usical proibida. Com posições próprias do líder João Ricardo, com o “Tristeza m ilitar”, sofreram o m esm o revés. Mas as canções que chegaram ao disco tinham beleza de sobra para encantar o público do com eço dos anos 70.
Hoj e m uito se fala na im portância dos Secos & Molhados com o contestadores em plena ditadura, m as esse não era o único trunfo da banda. Para os fãs de todas as idades, o que agradava m esm o era o espetáculo, a m usicalidade e o mis en scène. Num a época em que havia artistas brazucas se fazendo passar por am ericanos para fazer sucesso, o grupo conseguiu atingir um a fatia de público que era resistente à m úsica brasileira. Era com um encontrar o prim eiro LP da banda em coleções onde só entravam discos de m úsicos estrangeiros. Para o m ercado local, os Secos & Molhados tinham o m esm o valor de astros internacionais.
João Ricardo Teixeira Pinto era filho do poeta e j ornalista português João Apolinário. A fam ília m udou-se para o Brasil para escapar da ditadura salazarista. Ironicam ente, chegaram a São Paulo pouco antes do golpe de 31 de m arço de 1964.
A estreia dos Secos & Molhados foi em 1971, na casa noturna Kurtisso Negro, com João na viola e harm ônica, Fred na percussão e Antônio Carlos de Lim a, o Pitoco, no vocal. Mas a form ação não vingou. Pitoco j á tinha um a carreira solo encam inhada e viria a lançar um com pacto sim ples pelo selo Chantecler. Recom eçando do zero, João acabaria se reunindo a um velho am igo de infância e de m úsica, o violonista Gérson Conrad. Faltava um bom cantor.
Quem apresentaria a João Ricardo o personagem que m udaria toda a história seria a cantora Luli (hoj e Luhli), que tam bém fazia shows no Kurtisso Negro. Ela conhecia no Rio de Janeiro um intérprete de voz rara, Ney de Souza Pereira, que adotaria o nom e artístico de Ney Matogrosso. O proj eto m usical de João era rico e tinha chances de sucesso de qualquer form a. Mas a entrada de Ney agregou m ais do que a boa voz que o com positor procurava. Em prim eiro lugar, ouvindo os Secos & Molhados no rádio, não se tinha dúvida: era um a m ulher cantando. Quando se ficava sabendo que o grupo era com posto só de hom ens, vinha a curiosidade em conhecer o cantor. E o que se via? Um suj eito esguio, de torso nu, coberto de penduricalhos, m ovendo-se com desenvoltura, com o rosto oculto por pintura preta e branca. Os elem entos acrescentados por Ney tornaram o pacote irresistível para os fãs. Não havia com o segurar: os Secos & Molhados se tornaram um fenôm eno absoluto entre o segundo sem estre de 1973 e o prim eiro de 1974.
Ney sem pre foi perform ático no palco e fazia uso esporádico de purpurina e batom . Mas as m áscaras que se tornariam m arca registrada dos Secos & Molhados foram ideia do fotógrafo da capa do LP, Antônio Carlos Rodrigues. Além de “servir as cabeças” dos integrantes à m esa, Rodrigues sugeriu acrescentar a m aquiagem . O resultado foi tão im pactante (a capa seria eleita a m elhor da m úsica brasileira em um a enquete da Folha de São Paulo em 2001) que o conj unto resolveu adotar o visual tam bém para os shows. Foi por não concordar com essa decisão que o baterista Marcelo Frias acabou se “desoficializando” com o m em bro do grupo, voltando a ser apenas m úsico de apoio. Mas o rosto dele ficou eternizado na fachada do disco.
O LP foi gravado entre m aio e j unho de 1973 no Estúdio Prova, em São Paulo. Seria lançado pela gravadora Continental em agosto. Abria com “Sangue latino”, que foi a prim eira m úsica de trabalho, com direito a apresentação no estreante program a Fantástico. Com eça com a bateria, percussão e o baixo de Willie Verdaguer. Depois de alguns com passos, entra o violão de João Ricardo e, em seguida, a voz de Ney Matogrosso. Ele canta sozinho do princípio ao fim , com o som de um a viola caipira sendo ouvida logo a seguir no canal direito. Bela m elodia de João Ricardo e um a das raras letras com postas originalm ente para o disco, no caso, por Paulinho Mendonça.
Das parcerias de João Ricardo e Luli, nasceria o cartão de visitas do grupo. “O vira” com eça com o um rock and roll dos velhos tem pos de Little Richard. Só que, em vez de “Tutti Frutti, oh rutti” ou algo do tipo, o que se ouve no refrão é: “Vira, vira, vira hom em , vira, vira, vira, vira lobisom em ...” Versos sim ples, de apelo im ediato e inescapável duplo sentido. Com o letrista, Luli m ostrava sua verve m aliciosa, que caía com o um a luva para a postura debochada de Ney Matogrosso. Depois do solo de guitarra de John Flavin, o arranj o passa a fazer j us ao título e a canção se torna realm ente um “vira”, dança típica da região do Minho, em Portugal. É aqui que se ouve a prim eira participação m arcante de Zé Rodrix, tocando acordeom . O ex-integrante do Som Im aginário e do trio Sá, Rodrix e Guaraby ra havia testem unhado o surgim ento dos Secos & Molhados em 1971, no Kurtisso Negro, e teve atuação decisiva no disco. “O Vira”, com seu gato preto, lobisom em , coruj as, pirilam pos, sacis e fadas, seria o tem a que lançaria os Secos & Molhados em definitivo j unto a adultos e crianças. Por algum tem po, as duas prim eiras faixas do LP foram as únicas que tocaram nas rádios.
“O patrão nosso de cada dia” é talvez a m elhor com posição solo (letra e m úsica) de João Ricardo. Com eça com o som de três sininhos (reduzidos para dois na m aioria das edições em CD). Depois entra o violão dedilhado de Gérson Conrad, o baixo de Willie e, por fim , o vocal de Ney Matogrosso, cantando com um a suavidade que o am adurecim ento viria a roubar de sua voz, no futuro. Aqui tam bém se observa m elhor o que j á se constatava no refrão de “O vira”: a bela harm onia form ada pelas vozes de Ney, João e Gérson em alguns trechos. Entre os versos, surge a flauta de Sérgio Rosadas. Num clim a de leveza, a gravação term ina com os m esm os sininhos do com eço.
“Am or” é um dos poem as de João Apolinário m usicados pelo filho João Ricardo. A linha de baixo de Willie Verdaguer se tornou tão m em orável que acabaria sendo repetida em “Balada para um coiote”, do disco solo de João, em 1975. A interpretação j á com eça com a harm onia a três vozes, entrando o vocal de Ney logo em seguida. João, à m oda Bob Dy lan/John Lennon, solta um as frases de harm ônica de boca. Nos últim os versos, ouve-se um a pequena am ostra da voz solo do com positor. Ele próprio adm ite não ser um grande cantor, m as nesse trecho a sua participação ficou sim pática, com o um a assinatura.
Os que classificam os Secos & Molhados com o “rock progressivo” com certeza se baseiam em “Prim avera nos dentes”, outro poem a de João Apolinário m usicado pelo filho. A faixa m ais longa do LP (4 m inutos e 50 segundos) é tam bém a m ais sofisticada. Com eça com o piano de Zé Rodrix, depois o baixo de Willie, a guitarra de John Flavin discreta na m ixagem , por fim a bateria. E assim se ouve um a introdução instrum ental de quase três m inutos, que costum a suscitar com parações com Pink Floy d. As três vozes finalm ente chegam j untas e inesperadas, cantando os oito versos do poem a. Um a últim a surpresa: a sílaba final é gritada orgasm icam ente! E os instrum entos descam bam para o que parece ser o início de um a longa jam, logo silenciada pelo fade. Fim do lado A.
O lado B abre com a percussão latina de “Assim assado”, outra com posição com letra e m úsica de João Ricardo. Bom arranj o de guitarra, baixo e flautas. Ney canta a m úsica quase toda sozinho, com raras intervenções das outras duas vozes.
“Mulher barriguda” é a única a ter Em ílio Carrera no piano. O tecladista chegou tarde para o disco, m as com poria a banda de apoio do grupo em shows. Nas m ãos de João Ricardo, o poem a de Solano Trindade virou um boogie woogie onde o com positor m ais um a vez toca a sua harm ônica de boca. Há boas intervenções do baixo de Willie.
Gérson Conrad tam bém com eçava a criar suas m elodias. Um de seus trabalhos foi j ustam ente o de m usicar os versos de João Ricardo em “El Rey ”. A faixa resultante teve apenas 57 segundos, quase um a vinheta, som ente com violão e vocal. Ney canta com a voz duplicada, em uníssono, um a em cada canal do estéreo. Gérson fez um a bela m elodia, apelando para a flauta de Sérgio Rosadas para com pensar a falta de um verso que com pletaria a m étrica.
Mas a obra-prim a de Gérson Conrad aconteceria sobre versos de Vinicius de Moraes. Num violão dedilhado que lem bra o de “O patrão nosso de cada dia”, o integrante deixaria sua m arca definitiva ao m usicar “Rosa de Hiroshim a”. Interpretada som ente por Ney Matogrosso em m enos de dois m inutos, a canção se tornaria o terceiro sucesso dos Secos & Molhados, depois que “Sangue latino” e “O vira” cum priram seus ciclos radiofônicos. Esse é um dos clássicos do grupo que m elhor resistiu ao tem po, sendo cantado até hoj e por Ney Matogrosso e até por João Ricardo em seus shows, sem contar regravações com o a de Sim one e a do próprio Ney.
O poeta Cassiano Ricardo tam bém ganha um a m elodia de João. “Prece cósm ica” é cantada o tem po todo pelas três vozes, em dois m inutos, sem grande destaque. Depois é Manoel Bandeira que tem “Rondó do capitão” m usicada pelo com positor. Quando os Secos & Molhados estouraram , m uitos pensavam que a voz de Ney Matogrosso fosse um falsete. Pois aqui ele canta num registro m ais baixo, porém m antendo o seu tim bre tipicam ente fem inino, m ostrando a real peculiaridade de suas cordas vocais. A gravação se resum e em apenas um m inuto e dois segundos. Mas a m ais curta do disco vem a seguir: “As andorinhas”, novam ente de João Ricardo sobre poem a de Cassiano Ricardo. Os versos silábicos se resum em a um a frase, m as ainda assim a introdução consegue estender a faixa para 53 segundos.
Um a das m úsicas que m enos entusiasm ava João Ricardo, “Fala”, parceria com Luli, acabaria por se tornar outro clássico do LP e um a das interpretações preferidas de Ney Matogrosso nos shows. Zé Rodrix assum iu o arranj o, com pondo um belo solo de sintetizador Moog, e a com posição cresceu. E assim um dos m elhores discos de m úsica brasileira de todos os tem pos encerra de form a m aj estosa, com a voz de Ney entoando um a linda m elodia sobre um a base instrum ental forte.
Até o final de 1973 o disco venderia 100 m il cópias, passando para 700 m il no ano seguinte. O êxito do grupo foi coroado ao superlotar o Maracanãzinho em 23 de fevereiro de 1974: 25 m il pessoas do lado de dentro e algum as centenas do lado de fora. “O vira” entrou para o repertório do Carnaval de 1974, onde as m áscaras dos Secos & Molhados apareceram nos rostos de foliões. Outro m arco foi a viagem ao México. O em barque aconteceu na m anhã de 24 de m aio, m as o em presário Moracy do Val não os acom panhou. Era o com eço da crise. Infelizm ente, o peso do sucesso se tornou insustentável. Para frustração de quem aguardava o show de lançam ento do segundo LP − m arcado para um azarado 13 de agosto − o gato preto cruzou a estrada e o fim dos Secos & Molhados foi anunciado na véspera.
Ney Matogrosso deu início a um a bem sucedida carreira solo. Sua proj eção foi im portante para quebrar o estigm a do “vozeirão” e abrir cam inho para intérpretes com o Biafra, Markinhos Moura, Édson Cordeiro e Filipe Catto. Gérson Conrad lançou um disco curioso em 1975, em dupla com a estreante Zezé Motta. Nesse LP, suas m úsicas são bem próxim as do estilo dos Secos & Molhados, com Zezé assum indo os vocais que poderiam ser de Ney. Em 1981, Gérson soltou o que seria realm ente o seu único disco solo. Após vários anos afastado da vida artística, voltou a fazer shows com sua banda Trupi em 2008.
Depois de dois ótim os discos solo, João Ricardo trouxe de volta os Secos & Molhados com nova form ação em 1978. A partir daí, passou a creditar aos Secos diversos de seus trabalhos, sozinho com outros m úsicos, ocasionalm ente retornando com o solista. Atualm ente, form a dupla com o m ulti-instrum entista Daniel Iasbeck, m antendo vivo o nom e do conj unto que criou em 1971. Sua im portância com o com positor ainda está por ser devidam ente reconhecida.
Mas o LP de 1973 perm anece com o um a obra-prim a insuperável. E o m érito é de todos que participaram .
Secos & Molhados (Continental − SLP 10.112) Coordenação de produção: Sidney Morais
Direção artística: Julio Nagib
Direção de produção: Moracy do Val
Direção Musical: João Ricardo
Arranj os: Secos & Molhados
Arranj o especial para a m úsica “Fala” de Zé Rodrix
Estúdio: Prova (São Paulo, SP)
Técnicos: Luis Roberto Marcondes e Aluízio de Paula Saller Jr.
Fotos: Antonio Carlos Rodrigues
Lay out: Décio Duarte Am brosio
Gravado em m aio/j unho de 1973
Músicos:
Vocal: Ney Matogrosso
Violões 6/12 cordas, harm ônica de boca e vocal: João Ricardo
Violões 6/12 cordas e vocal: Gerson Conrad
Bateria e percussão: Marcelo Frias
Flauta transversal e de bam bu: Sérgio Rosadas
Piano, acordeom , sintetizador e ocarina: Zé Rodrix
Guitarras: John Flavin
Baixo: Willie Verdaguer
Piano: Em ilio Carrera
Lado A
1. Sangue Latino (João Ricardo e Paulinho Mendonça)
2. O Vira (João Ricardo e Luhli)
3. O Patrão Nosso de Cada Dia (João Ricardo)
4. Amor (João Apolinário e João Ricardo)
5. Primavera nos Dentes (João Apolinário e João Ricardo)
Lado B
1. Assim Assado (João Ricardo)
2. Mulher Barriguda (João Ricardo e Solano Trindade)
3. El Rey (João Ricardo e Gerson Conrad)
4. Rosa de Hiroshima (Gerson Conrad e Vinicius de Moraes)
5. Prece Cósmica (João Ricardo e Cassiano Ricardo)
6. Rondó do Capitão (João Ricardo e Manuel Bandeira)
7. As Andorinhas (João Ricardo e Cassiano Ricardo)
8. Fala (João Ricardo e Luhli)