1973: O Ano que Reinventou a MPB
Meteorologia Musical
PREVISÃO DO TEMPO− MARCOS VALLE
Cláudia Menescal
om positor m ultifacetado, Marcos Valle nunca foi som ente um . Sua híbrida carreira nos m ostra exatam ente isto. Marcos era
C m uitos em m úsica, e a m ultiplicidade respingava no cotidiano. “O conflito é inerente ao ser hum ano, a não ser quando você tem um a m eta na vida, é fanático religioso ou político. Se você é m ais aberto, vive conflitos. E acho que deve viver, vai resolver os conflitos durante a sua vida, ou vai expor, ou errar, ou acertar. É m uito difícil você querer j ustificar tudo que fez na sua vida, se fizer isso você fica bobo”, diz o próprio Marcos.
“Era um tem po nublado, sufocante, de tanta censura e arrogância da ditadura. Por isso as letras do Paulo Sérgio são as vezes irônicas, com o em ‘Flam engo até m orrer’, agressivas com o em ‘Tira a m ão’, históricas com o em ‘Sam ba fatal’. E por isso a capa é a falta de ar, é o afogam ento ...
“Mas, com o contra peso, enchi o disco de ritm o, balanços, de m inhas m isturas, deixando a energia fluir, e não m ostrando tristeza. Então, cham ei m eus am igos do Azy m uth para gravar com igo e usei m eu Rhodes com vontade, enquanto Bertram i usava os Moogs, sintetizadores e Ham m ond. O resultado foi m uito interessante e recom pensador.” Dessa m aneira direta Marcos Valle, após quarenta anos do lançam ento de seu LP Previsão do Tempo, analisa sua obra daquele ano de 1973.
Mas, vale dizer que naquele 1973, Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle (irm ão e letrista) estavam em plena ebulição criativa. Um a das faixas dessa Previsão teve um a prim eira versão gravada tam bém em 1973 no disco da telenovela da TV Globo Os Ossos do Barão. Lançado pela Som Livre, na verdade toda a trilha nacional da novela foi assinada pela dupla, a única exceção foi “Tu ca non chiage” (E. de Curtis e Bovio). Entre os intérpretes das canções, o novato Dj avan. Na trilha sonora da novela Carinhoso, do m esm o ano, a faixa “Mentira”, tam bém no repertório de Previsão, teve sua prim eira versão gravada.
É tam bém de 1973 o disco da trilha sonora do film e O Fabuloso Fittipaldi, sobre o piloto brasileiro, que tem com o artista principal o grupo Azim uth (na verdade, Marcos é quem toca o solo de piano da abertura). Todas as faixas do disco tem assinatura de Marcos. Um a dele e de Novelli (“Azim uth”), oito só dele, e um a em parceria com o irm ão (Tem a de Maria Helena).
O grupo Azim uth surgiu no início dos anos 70, inicialm ente com o Grupo Seleção. Mas naquele 1973, José Roberto Bertram i (teclados), Ivan Conti “Mam ão” (bateria) e Alexandre Malheiros (baixo) tom aram a decisão que o grupo tinha que m udar de nom e, exatam ente inspirados pelo título da m úsica de Marcos e Novelli. Em 1975, acabaram lançando efetivam ente seu prim eiro disco, Azymuth, que inclui a m úsica “Linha do horizonte”, presente na trilha sonora da novela Cuca Legal e que ganhou as paradas de sucesso no Brasil.
Um pouco antes de gravar sua Previsão do Tempo, Marcos produziu no m esm o ano o LP que m arcou o retorno de João Donato ao m ercado fonográfico brasileiro e o prim eiro disco de Donato em que ele canta.
Previsão do Tempo é o disco de Marcos Valle, exclusivam ente autoral, com os tim bres m ais perfeitos. É o som plural, eclético, com m úsicas cheias de sol e de soul. Um disco que equilibra com m aestria o balanço e a lisergia, presente ali com o órgão Ham m ond de Marcos. Um disco com acento pop.
Destacam -se nessa Previsão canções com o o sam ba debochado “Flam engo até m orrer”, a literalm ente doida “Tiu-ba-la-quieba” e “Mentira”, com sua irresistível onda dançante. No entanto a canção sem inal é a deprim ida “Sam ba fatal”, que traz um a excelente letra m ostrando exatam ente com o era ser um j ovem na década de 70, com todas as pressões da esquerda e da direita. “Sam ba fatal” é na verdade um a hom enagem ao poeta Torquato Neto, que havia se suicidado, m as que se encaixava perfeitam ente nas cabeças confusas de m uitos j ovens daquele período turbulento da história do Brasil.
A provocadora capa de Previsão do Tempo m ostra Marcos debochado e sorridente m ergulhado num a piscina, em im agem que, de certa m aneira, evocava um a sessão de tortura. Na contracapa ele ressurge com o se tivesse m orrido afogado, pelas m ãos da ditadura m ilitar do Brasil. Lançado sob a barra pesada da ditadura, Previsão é considerado pelo próprio Marcos Valle com o um dos discos m ais im portantes de sua carreira. Sofisticado no uso de pianos, sintetizadores e espertíssim o nas letras do irm ão Paulo Sérgio Valle, é um disco com classe, não por acaso cultuadíssim o na Europa. Junto com o disco Garra, de 1971, Previsão é a obra de Marcos que m ais teve repercussão no continente europeu.
Em resenha assinada por Will Herm es, em fevereiro de 2013, sobre o relançam ento do referido disco, o senso rítm ico é bastante elogiado e destaca-se alguns toques do som de Stevie Wonder na faixa “Mentira”. Destaque-se que Marcos é autor (j unto com Paulo Sérgio) de um dos m aiores sucessos internacionais da m úsica brasileira: “Sam ba de verão”, que naquele 1973 recebeu um a gravação especial em inglês, sob o título “So nice”, de Pery Ribeiro, em disco lançado pelo Odeon.
A intenção de Previsão do Tempo era fazer protesto. Em tem pos acirrados com o aqueles, a luta política dom inava tudo, a ponto de a MPB inteira ter se reconstruído com o m ilitante contum az contra a ditadura. Nesse contexto, os que optavam pela crítica com portam ental não eram bem aceitos, respeitados, nem levados a sério, fosse pela direita ou pela esquerda. Até hoj e, Marcos Valle é poucas vezes citado no panteão dos “m aiores” de nossa m úsica, apesar do legado riquíssim o. Ele não era radical à direita ou à esquerda, nem na politização nem no “desbunde”. Seguindo um a estrada própria, paralela, pôde divulgar sua revolução interior.
“Flam engo até m orrer”, prim eira faixa do disco, abre falando de futebol. A fé e o futebol são os pilares da m anutenção da ordem durante o governo m ilitar – período em que esse disco foi lançado. De um a form a ou de outra Marcos Valle consegue driblar a censura e lança essa m úsica que, ao dizer que vai tudo bem no Brasil enquanto o Flam engo for cam peão, critica essa acom odação do cidadão brasileiro em relação à sua situação. Pra que ligar se “até o presidente é Flam engo até m orrer”? Deixando a letra para lá se trata de um sam ba m uito bom , cheio de cuícas, teclados e com direito a um solinho de guitarra no final que, de form a algum a, destoa do conj unto. No livro Eu Não Sou Cachorro Não, de Paulo César Araúj o, publicado pela Record, o autor interpreta que a canção era sim pática ao governo m ilitar da época. Mas, Marcos sublinha que era exatam ente ao contrário. Além de falar sobre a escalação do tim e, ela era para sacanear o governo m esm o. Pena que Paulo César Araúj o não entendeu.
A faixa seguinte, “Nem paletó, nem gravata”, tam bém trata do perfil acom odado atribuído ao personagem do brasileiro preguiçoso, espécie vez ou outra cham ada de m alandro: o nosso cidadão m odelo, produto para exportação m as que não é bem visto pela sociedade por não contribuir para o progresso. Na parte instrum ental o que tem os é aquele funk gostoso, tudo no estilo anos setenta e cada vez m ais em polgante.
“Tira a m ão”, outro ótim o sam ba-funk, abusa dos teclados e não tem m edo de tratar de conflitos. Na faixa seguinte, “Mentira”, Valle tenta sim ular um a bateria com seu vocal, se não a prim eira, um a das prim eiras vezes que se utilizou a técnica de beat box na canção brasileira. A faixa que dá título ao disco é a instrum ental e, de certa form a, m elancólica “Previsão do tem po”. Logo após vem “Mais do que um a valsa”, com o quase sem pre presente teclado dividindo o espaço com as cordas e o bom sintetizador. Depois vem a tem a de novela Os Ossos do Barão, um baião sobre o verdadeiro rei deste m undo: o dinheiro.
Sam ba-rock é “Não tem nada não”, faixa que, j untam ente com sua “parte dois”, instrum ental, foi com posta em conj unto com Eum ir Deodato e João Donato, dois artistas instrum entais de alto calibre e tam bém pouco valorizados pela nossa gente. Em “Sam ba fatal” Marcos se preocupa em contar as desventuras do cotidiano de outro personagem , suas escolhas e opções frente aos desafios da vida. A execução dessa canção dá um clim a soturno à peça. Em “Tiu-ba-la-quieba” ele dá o seu recado: “cuide dessa cuca com m uito am or.”
“De repente m oça flor” guarda m uitas surpresas, e ao contrário da m oça flor do título, não tem pudor nenhum em seu teclado nos m om entos que antecedem o final da m úsica.
Os cam inhos que levam às condições m eteorológicas dessa obra ím par lançada em 1973 de certa form a com eçam a ser traçados em 1971, durante o penúltim o Festival Internacional da Canção, onde vários com positores, com o ele, Chico Buarque, Gonzaguinha e Paulinho da Viola tiveram suas m úsicas censuradas antes m esm o da seleção. Foi feito um m anifesto contra a Censura assinado por todos. Resultado: o DOPS (Departam ento de Ordem Política e Social) acabou prendendo Marcos, Chico, Egberto Gism onti e Augusto Marzagão, organizador do Festival. Em seu disco de 1972, Vento Sul, o tom político j á se fazia presente com tintas m ais carregadas, com o em faixas com o “Dem oacústico” e “Rosto barbado”. Diante do cenário, a previsão m etereológica não era das m elhores e o disco de 1973 era um a consequência natural. Na época, por causa da prisão, Marcos desenvolveu certo m edo de palco. A voz travava, nem conseguia falar. Parou com os shows. Antes de partir para os Estados Unidos, onde viveu durante um bom período, até os ventos dem ocráticos no início dos anos 80, ele lançou o belo Marcos Valle, de 1974, m esclando desilusão e sopros de felicidade, e no qual estão presentes pérolas com o “Meu herói”, “Casam ento, filhos e convenções” e “Novelo de lã”.
Nada óbvio é o disco inteiro. Os anos 70 foram generosos para a nossa m úsica, e quem acha o contrário nunca deve ter ouvido esse álbum nem nada desse artista ím par que atende pelo nom e de Marcos Valle.
Marcos Valle é um daqueles casos excepcionais na m úsica brasileira. Cantor, com positor e instrum entista, teve na Bossa Nova o início da sua carreira e incorporou o gênero com seu estilo particular, tornando-se um artista plural j á no final da década de 60, e gravando com instrum entistas que viriam a ser a banda Azy m uth. O trio tom a parte desse proj eto; os seus sintetizadores não negam !
Subm erso em um a m úsica de prim eira qualidade, Previsão do Tempo, apesar das chuvas e trovoadas, não deixa de ter seus toques solares, afinal de contas é um disco de Marcos Valle.
Previsão do Tempo (Odeon − SMOFB 3788)
Diretor de produção: Milton Miranda
Diretor m usical: Maestro Gay a
Assistente de produção: Paulo Sérgio Valle
Diretor técnico: Z. J. Merky
Técnicos de gravação: Nivaldo Duarte, Toninho e Dacy
Técnico de laboratório: Reny R. Lippi
Técnico de rem ixagem : Jorge Teixeira
Lay out: Joel Cocchiararo
Fotos: Paulo Sérgio Valle
Orquestradores e regentes:
Marcos Valle: Lado 1, faixa 1 e Lado 2, faixa 4
Waltel Branco: Lado, 2 faixa 1
Zé Roberto: todas as dem ais faixas
Lado A
1. Flamengo Até Morrer (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle)
2. Nem Paletó Nem G ravata (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle)
3. Tira a Mão (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle)
4. Mentira (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle)
5. Previsão do Tempo (Marcos Valle)
6. Mais do Q ue Valsa (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle)
Lado B
1. Os Ossos do Barão (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle)
2. Não Tem Nada Não (João Donato, Marcos Valle e Eum ir
Deodato)
3. Não Tem Nada Não (João Donato, Marcos Valle e Eum ir
Deodato)
4. Samba Fatal (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle)
5. Tiu-ba-la-quieba (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle)
6. De Repente Moça Flor (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle)