1973: O Ano que Reinventou a MPB
Quando o Sertão Virou Mar e o Mar Virou Sertão
MANERA FRU FRU, MANERA − FAGNER
Renato Vieira
iscos de estreia costum am não representar m uito dentro do espectro de um a carreira em sua totalidade. Boa parte deles
D são posteriorm ente renegados pelos artistas, por m otivos que transitam entre o banal e o contraditório. Mas alguns perm anecem tão atem porais que podem ser redescobertos a qualquer tem po e se tornam itens básicos em toda discoteca que se preze. Manera Fru Fru, Manera, de Raim undo Fagner, se enquadra dentro dessa perspectiva. Quarenta anos depois de seu lançam ento, o disco conserva seu frescor pós-tropicalista. Se fosse um film e, seria um a m istura de Sem Destino (Easy Rider), longa-m etragem de 1969 que se tornou expoente da contracultura, com Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. Fagner consegue estabelecer a ponte entre o sertão e o Brasil urbano do início dos anos 1970 em polgado com o m ilagre econôm ico. Em sum a: é o disco de um em igrante nordestino e sua percepção sobre a m odernidade daqueles tem pos, se apropriando dela e m ostrando que suas raízes tam bém trazem o novo em sua gênese.
Antes de gravar Manera, Fagner j á era conhecido no m eio m usical. Havia feito alguns registros em com pactos, participado do VI Festival Internacional da Canção com “Quatro graus” e duas de suas m úsicas foram lançadas por Elis Regina e Wilson Sim onal – “Mucuripe” e “Noves fora”, respectivam ente. Seu talento j á estava referendado. E grandes m úsicos da MPB – infelizm ente não creditados − dariam sua contribuição no prim eiro álbum do artista, que tinha com o um a espécie de subtítulo O Último Pau de Arara, j á que a gravadora considerava o título um tanto estranho. Antônio Adolfo (piano), Zé Menezes (violão e guitarra), Luiz Cláudio Ram os (violão, guitarra e arranj os), Naná Vasconcelos e o baixista norte-am ericano Bruce Henry, recém -chegado ao Brasil, escoram o cearense. Há ainda a participação de Nara Leão em duas faixas, “Penas do tiê” e “Pé de sonhos”. A arte da capa e a contracapa são iguais, assinadas pelo pernam bucano Cafi, com a ilustração de um peixe na parte de cim a, um a propaganda do cigarro Holly wood – “o sucesso” e o desenho de um a m ulher. A única diferença é um a foto de Fagner (de pij am a!) sobreposta na frente.
O álbum abre com um a versão de “O últim o pau de arara”, lançada pela dupla Venâncio e Corum bá – autores da m úsica com José Guim arães – em um 78 rotações da Odeon em 1956. Com o baixo elétrico pontuando a harm onia j unto ao acordeom , é a faixa que m elhor sintetiza a fusão entre o sertão e o urbano. E talvez a escolha da canção para iniciar os trabalhos não sej a m era coincidência. Fagner saiu de sua terra, m as ela perm anece nele onde quer que vá e é o esteio de seu trabalho. Na sequência vem outra regravação, “Nasci para chorar”. E ela é a prova definitiva que, m ais que reinventar um a m úsica, o artista sabe ressignificá-la.
A versão feita por Erasm o Carlos de “Born to cry ”, de Dion DiMucci, foi gravada por Roberto Carlos em seu É Proibido Fumar (1964). Fagner sem pre reverenciou o Rei e quis hom enageá-lo com sua leitura. Se a do Brasa é um típico rock da prim eira m etade dos anos 1960, que pouco tem po depois soaria datada, a do cearense traz, novam ente, o baixo pulsante com o protagonista e toques precisos e sutis da guitarra. Ele im prim e um ar de revolta e contestação ao que antes era apenas tristeza. Até m esm o o Trem endão se m anifestou sobre a regravação em um depoim ento registrado em um com pacto prom ocional da Phonogram para badalar Manera. “Eu fiquei m uito satisfeito com o colorido todo novo”, afirm ou.
Após duas releituras explosivas, vem um a terceira, “Penas do tiê”. Porém , ao contrário das anteriores, é em form ato acústico, à base de violão e viola portuguesa. A m úsica é atribuída ao folclore na ficha técnica original, com adaptação do próprio Fagner. A voz doce de Nara Leão aparece prim eiro cantando toda a m úsica, e passando a bola para o fraseado agreste do cearense, form ando um belo m osaico que desem boca em um uníssono. Na sequência, duas parcerias com Belchior: “Moto I” e a j á citada “Mucuripe”. A prim eira é um rock de alta qualidade harm ônica cuj a letra tem tudo a ver com o espírito de paz e am or que com eçava a arrefecer em 1973, enquanto a segunda é um a canção contem plativa sobre um rapaz “com vinte anos de am or”. Fechando o lado A, “Com o se fosse”, parceria com Capinan, é um a espécie de irm ã da faixa anterior, com instrum entação econôm ica e letra triste.
O lado B tem um a sonoridade um pouco diferente do A. É m ais denso e, ao final, abre espaço para o experim entalism o. “Pé de sonhos” (Petrúcio Maia e Brandão), outra com participação de Nara, dá início aos trabalhos. Flauta e trom bone pontuam todo o lirism o da letra, especialm ente sublinhado pela voz da m usa da Bossa Nova. Depois, vem “Canteiros”, com autoria atribuída som ente a Fagner. Com um a letra bem construída, a m elodia é um a das m ais bonitas j á feitas pelo cearense. Traz com o adendo partes de “Na hora do alm oço” (Belchior) e “Águas de m arço” (Tom Jobim ). As citações não são creditadas na edição de 1973.
Logo depois, aparecem duas canções confessionais e que praticam ente funcionam com o irm ãs dentro do contexto de Manera. “Sina”, creditada a Fagner e Ricardo Bezerra, possui orquestração não grandiosa de Luiz Cláudio, m as contundente para acom panhar a história do sertanej o que se conform a com aquilo que lhe foi dado. “Tam bores (Jovem tam bém tem saudade)” é, até o m om ento, a única parceria gravada de Fagner com o letrista Ronaldo Bastos. O arranj o lem bra levem ente o da canção anterior. Mas, se “Sina” traz um personagem que aceita sua vida com o ela é, “Tam bores” m ostra um j ovem inconform ado e saudoso.
Fechando o disco, “Serenou na m adrugada”, cuj o crédito atribui a m úsica ao folclore com adaptação de Fagner, é cantada só com voz e violão em dueto com o baixista Henry, cheio de sotaque. Por fim , há a faixa-título. Tam bém parceria de Fagner e Ricardo Bezerra, pode ser definida com o regional-universal. Ao m esm o tem po em que há a percussão de Naná, triângulo e rabeca, há um a nordestinidade experim ental, ressaltada pelos dobros nos vocais com letra surreal. Pode-se dizer, guardado o devido espaço de tem po, que “Manera, Fru Fru, Manera”, a m úsica, é um a precursora do manguebeat que iria sacudir as estruturas da m úsica brasileira vinte anos depois.
Mesm o com o aval de grandes nom es, diversidade, qualidade m usical e lançado pela Phonogram (hoj e Universal), gravadora que tinha sob contrato a m aior parte dos grandes expoentes da MPB naquela época, Manera fracassou nas vendas. Apenas cinco m il cópias foram vendidas e o álbum foi retirado de catálogo ainda em 1973. Fagner só voltaria aos estúdios em 1975, com seu Ave Noturna pela Continental. No ano seguinte, ele é contratado pela CBS e com eça sua escalada rum o ao sucesso de m assa. Com isso, a Phonogram aproveita para relançar Manera naquele m esm o ano, pelo selo Fontana. “Canteiros” com eça a tocar nas rádios. E em breve o prim eiro problem a relativo aos créditos de autoria do LP de estreia do cearense iria aparecer.
“Quando penso no teu rosto / Fecho os olhos de saudade / Tenho visto m uita coisa, m enos a felicidade / Soltam -se m eus dedos tristes / Dos sonhos claros que invento / Nem aquilo que im agino / Já m e dá contentam ento” são versos de “Marcha”, poem a de Cecília Meireles. Eles foram o ponto de partida para a letra de “Canteiros”. A prim eira estrofe da m úsica é bastante sem elhante aos escritos pela poeta: “Quando penso em você/ Fecho os olhos de saudade / Tenho tido m uita coisa / Menos a felicidade / Correm os m eus dedos longos / Em versos tristes que invento / Nem aquilo a que m e entrego / Já m e dá contentam ento.” Em 1979, a fam ília de Cecília processou Fagner, que tam bém havia m usicado “Epigram a Nº 9” e “Motivo”, am bas de autoria da poeta.
A alegação do processo foi que Fagner não pediu autorização para utilizar “Marcha” e o artista ainda teria descaracterizado os versos originais. Em entrevistas posteriores, ele disse que Manera teria encarte no qual haveria na letra im pressa de “Canteiros” a inscrição “inspirada no poem a ‘Marcha’, de Cecília Meireles”. Porém , a direção da Phonogram alegou que disco de estreante não poderia ter encarte. Mas ainda em 1979, o cantor e com positor reconheceu perante a Justiça o uso de “Marcha”. Com isso, as edições de seu álbum de estreia foram recolhidas. Um a nova edição chegou às loj as ainda naquele ano, com “Cavalo ferro”, do com pacto duplo lançado em 1972, assum indo o espaço da segunda faixa do lado B.
Até o fecham ento deste livro, a versão original de “Canteiros” perm anecia inédita em form ato digital. A Universal Music, antiga Phonogram , tem pretensão de fazer um a edição especial de Manera por conta dos 40 anos de seu lançam ento. Nela, será incluída todo o disco original m ais alguns bônus. E outras duas m úsicas terão seus créditos de autoria m odificados em relação à prim eira edição do LP. Os herdeiros de um dos autores de um a delas tam bém recorreram à Justiça, j á nos anos 1990.
“Penas do tiê” não é do folclore, m as sim de Hekel Tavares e Nair Mesquita. A m úsica se cham a “Você” e foi com posta nos anos 1920. A fam ília de Tavares processou Fagner por plágio, pois ele aparece com o responsável pela adaptação nos créditos. O artista alegou em sua defesa que o crédito de adaptador dem onstra que ele nunca se assum iu com o autor da obra. A Justiça deu ganho de causa aos Tavares em 2007.
Fechando a trilogia dos créditos da discórdia, há “Sina”. Assim com o “Canteiros” foi inspirada em “Marcha”, a parceria de Fagner com Ricardo Bezerra tem com o base o poem a “O Vaquêro”, de Patativa do Assaré. Os parceiros divergem quanto a quem esqueceu a m enção ao poeta do Cariri. É um a pena que todas as questões que envolvem a autoria de certas m úsicas tenham ofuscado para o grande público o quanto a sonoridade de Manera foi ousada e continua m oderna. Tanto que o artista reproduziu o álbum na íntegra em show na Virada Cultural de São Paulo que resultará em um DVD. Quarenta anos depois, Manera, Fru Fru, Manera perm anece com o um disco à frente do seu tem po.
Manera Fru Fru, Manera (O Último Pau de Arara) (Philips − 6349 066) Coordenação de Produção: Roberto Menescal
Direção Musical: Fagner
Arranj os: Luís Carlos Ram os e Ivan Lins
Participações especiais: Nara Leão, Nana Vasconcelos e Bruce Henry
Corte: Joaquim Figueira
Foto e capa: Cafi
Estúdio: Phonogram (8 canais)
Rio de Janeiro, RJ
Lado A
1. Último Pau-de-Arara (Venâncio, Corum ba e José Guim arães)
2. Nasci Para Chorar (Born To Cry) (Dion DiMucci, versão
Erasm o Carlos)
3. Você (Hekel Tavares e Nair Mesquita / Adapt. Fagner)*
4. Moto 1 (Fagner e Belchior)
5. Mucuripe (Fagner e Belchior)
6. Como Se Fosse (Fagner e Capinan)
* No disco o título da m úsica está “Penas do Tiê”, atribuída erroneam ente ao Folclore. A m esm a foi com posta em 1928.
Lado B
1. Pé de Sonhos (Petrúcio Maia e Brandão)
2. Canteiros (Fagner e Cecília Meireles)**
3. Sina (Fagner e Ricardo Bezerra)
4. Tambores (Jovem Também Tem Saudade) (Fagner e Ronaldo
Bastos)
5. Serenou na Madrugada (tradicional, adapt. Fagner)
6. Manera Fru Fru, Manera (Fagner e Ricardo Bezerra)
** Devido a processo m ovido pela fam ília de Cecília Meireles, j á que não havia im presso o crédito dela na parceria, entre outras alegações, em 1980 a m úsica ‘’Canteiros’’ foi proibida pela j ustiça. Reeditado neste m esm o ano pela Poly gram , o LP teve novo núm ero de catálogo (6488 101), e em seu lugar foi incluída a m úsica ‘’Cavalo Ferro’’, de Fagner e Ricardo Bezerra, extraída do com pacto (6245 017), de 1972.