1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 46 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

Parece que Foi Hoje

FOTOG RAFIAS − TAIGUARA

 

José Maria dos Santos

 

e bem recordo, era um dia de sem ana nos inícios do ano de 1971, talvez um a quarta-feira. Taiguara estava ensaiando um show que

 

S ia estrear em São Paulo, m ovim entando-se freneticam ente no alto da arquibancada do teatro – por esse detalhe é de supor que se tratava do Teatro de Arena – na tentativa de corrigir eventuais dissonâncias na disposição do palco. Ele estava vivam ente obcecado pela posição e efeito dos fachos de um a luz que em itia suave tonalidade lilás. Por m ais que o ilum inador e o produtor se m obilizassem , m udassem a posição e graduassem a intensidade, Taiguara não ficava satisfeito e m ostrava sua irritação por m eio de exclam ações desagradáveis. Com o o confronto se prolongou por uns quinze m inutos, voltei-m e para observá-lo m elhor. Eu estava ali com o repórter da extinta revista Fatos & Fotos (Bloch Editores) e, a rigor, não estava dando m aior im portância ao evento por m otivos que serão apresentados m ais adiante. Mas a persistência m inim alista provocada por aquele solitário spot no palco despoj ado cham ava a atenção. Havia na atitude daquele rapaz de cabelos encaracolados, e aparentem ente im berbe, algo de atrevido e arrogante, im pressão que, hoj e, decorrido tanto tem po, atraia um certo preconceito na ocasião. É que j am ais seria pensada tal coisa de Chico Buarque de Holanda, de Caetano Veloso, de Gilberto Gil ou Elis Regina, por exem plo. Neste caso, a m anifestação seria entendida apenas com o um tolerável preciosism o de artista interessado em dar um caráter de obra-prim a ao trabalho, intenção legítim a m as que era negada ao j ovem Taiguara. Nessa época ele não havia se colocado ao lado do grupo referido para confrontar abertam ente o regim e m ilitar. Portanto, aos olhos dos j ornalistas, que sentiam diariam ente o peso do Ato Institucional Num ero 5 nas redações através dos intim idadores com unicados de censura da Polícia Federal, quem não participava do confronto não era considerado um criador de valor. Este critério prevalecia em todos os cam pos da produção artística, fosse na literatura, cinem a e até nos esportes, em que o contestador Cassius Clay era m ais celebrado pelas suas atitudes fora do ringue do que dentro. Não se tratava de posição individual e sim de um alinham ento próprio do arbítrio im posto. Tudo que recendia a liberdade e expressão era aspirado com vigor.

O disco Fotografias (1973) deve ser necessariam ente situado na m oldura desse contexto. Se a canção que encabeça o repertório, “Que as crianças cantem livres”, tivesse sido lançada em tem pos norm ais e não de cólera, provavelm ente estaria – assim com o “Hoj e” (1969) e “Universo do teu corpo” (1970) – refulgindo entre as principais estrelas da nossa m úsica popular brasileira. Entretanto, essa possibilidade lhe foi negada pelas circunstâncias. O álbum enfrentou um a situação que, no nosso futebol, pode ser transferida ao im pertinente destino do j ogador Roberto Rivellino, a quem nada m enos do que Diego Maradona idolatrou com as m ãos em prece. Ele teve a sina de ser contem porâneo de Pelé, do contrário, seria o m elhor j ogador do planeta. A m esm a com paração pode ser levada ao excelente Tony Bennett, se não tivesse Frank Sinatra pela frente. Taiguara passou por tal deslocam ento m ovido pelo clim a político, porém , diferentem ente, foi m ais desafortunado. Por duas vezes, tornou-se o hom em certo na hora errada. O prim eiro capítulo j á foi apresentado; no segundo, ao ser ferozm ente perseguido pelos censores. A censura em si, com o sinônim o de supressão da livre expressão, dera lugar a preocupações m ais im portantes naquele m eio m idiático que poderia alavancá-lo: prisões indiscrim inadas, m ortes e m edo generalizado num verdadeiro salve-se quem puder. As equipes de Pasquim, Movimento, Opinião, O Estado de S. Paulo, Veja e os nanicos em geral que o digam .

Por que, neste livro, o hoj e m ítico disco Fotografias está m erecendo aqui este tratam ento prioritariam ente político? A razão é sim ples, m ais do que isso, singela, até no sentido de pureza das flores, algo que diz m uito a respeito da personalidade de Taiguara. Do ponto de vista m usical e técnico, cabe dizer com certa banalidade que nada há a obstar. Contudo, não por acaso, o correr dos anos filtrou, destilou e fez as virtudes retornarem com o um néctar a ser saboreado. Assim , Fotografias alcançou o seu lugar m erecido com o um a das peças m aiores do nosso cancioneiro, o que lhe fora negado por m uitos anos devido a razões em inentem ente políticas.

UM BANDONEON ÍNTIMO

Fotografias faz lem brar um diálogo saboroso do irônico personagem João da Ega no livro Os Maias, de Eça de Queiróz. Referindo-se ao volum e recém -lançado do poeta im aginário Craveiro, que era superiorm ente adm irado pela intelligentsia de Lisboa, cenário do livro, João recom enda ao j ornalista que pretendia resenhá-lo adotar um silêncio obsequioso e lim itar-se a inform ar apenas o preço e onde com prá-lo, considerando que sua qualidade inquestionável dispensava parecer ou opinião. De fato, em princípio, a ficha técnica do disco desarm a eventuais reparos aos nom es consagrados que o assinam . O próprio Taiguara cham ou a si vários arranj os; Claudio Mam berti respondeu pela direção; Marlui Miranda tocou violão e guitarra; Nivaldo Ornelas, sax soprano; Jorginho Cam pos, Lula e Wilson das Neves tocaram bateria; Paulo Moura, clarineta; Dino Sete cordas, violão 7 cordas e por aí afora, sem esquecer a participação do pai Ubiraj ara Silva, que será apresentado algum as linhas adiante. Esse blend, tem perado pela própria lavra de Taiguara, evidencia o profundo dom ínio que ele tinha sobre esses assuntos de m úsica. Nada a estranhar, um a vez que trazia tal acervo de berço. Veio ao m undo com o filho do m aestro e acordeonista Ubiraj ara Silva e Olga, cantora. Claves, acordes, arranj os m usicais e estilos de interpretações lhe eram tão fam iliares quanto brincar de carrinho. Por acaso, o prim eiro ar que respirou foi o de Montevidéu, pois seu nascim ento coincidiu com um a excursão do casal à capital uruguaia. (Existe um a versão que afirm a que o casal fazia espetáculos para, na verdade, custear o tratam ento de um irm ão de Ubiraj ara j unto a m édicos especialistas locais, e esse seria o real obj etivo da viagem ).

Porém , a bela herança m usical que lhe coube, tinha raízes anteriores a esses acontecim entos. Taiguara esclareceu em diversas entrevistas que tudo com eçou com o avô paterno Graciliano, suj eito que ostentava pendores m usicais adm iráveis e que, em bora am ador nas suas aventuras nesse terreno, portando, com o o filho, um bandoneon que tocava com o se fosse sanfona, acom panhou Noel Rosa e Carm en Miranda no Rio de Janeiro, naqueles anos 20 e 30. Aos oito anos, o pai Ubiraj ara com prou-lhe um piano que, salvo engano, conservou até o últim o suspiro, e que lhe propiciou ensaiar as prim eiras com posições por volta dos 10 anos e a arriscar letras aos 12, em precoce engenho.

Não é difícil aceitar que Fotografias represente o fim de um ciclo da traj etória de Taiguara, aliás, ainda hoj e m al com preendido no país. A partir desse disco ele iria se autoexilar na Europa, farto dos aborrecim entos, com o se quisesse fechar para sem pre um a porta atrás de si. A rigor, ninguém pode recrim iná-lo. Com o suportar um a rotina desgastante em que as convocações dos censores eram tão frequentes com o visitas aos am igos? Teve, segundo núm eros redondos, 146 canções proibidas, um a profusão que será m elhor entendida algum as linhas adiante. Ao correr o m undo, experim entou m uitas coisas e deu um a guinada na sua criatividade em direção a um a m ilitância panfletariam ente m arxista que o acom panharia até o fim . Continuou reverberando o seu talento de sem pre. O disco Imyra, Taira, Ipy, Taiguara (1976) é outro que m erece o m esm o tratam ento dado por João da Ega ao livro do poeta Craveiro. Independentem ente do que pudesse existir lá dentro, basta bater os olhos em quem fez. Além de Taiguara lá estão Wagner Tiso, Toninho Horta, Jacques Morlem baum e Herm eto Pascoal. É um a reunião de m agos que produziriam m ais prodígios do que as bruxas de Macbeth.

Porém , gradativam ente nessa nova investida, Taiguara foi dando lugar a um outro Taiguara, com o se estivesse buscando substituto para um cam inho que, equivocadam ente, j ulgara não ter dado certo. Por ironia, aqueles censores do passado teriam agora, do seu ponto de vista, m otivos palpáveis para interditá-lo. Naquele prim eiro período, a j ulgar pelas dezenas de canções vetadas, aparentem ente sem m otivos lógicos, eles instintivam ente farej avam subversão naquele rapaz inquieto e puseram seus lápis verm elhos em ação para riscar o terrível “xis” sobre as palavras, sem saber direito porque o faziam , segundo o próprio Taiguara assinalou. Desta vez não se tratava de subversivos aos quais estavam habituados, aqueles que m artelavam conceitos claros com o a liberdade de pensam ento e expressão; de organização política; do direito de fazer oposição – os tópicos clássicos que com põem as conquistas civilizatórias. Sobreposta a esses pleitos libertários, Taiguara interpunha em versos incôm odos, e bem m ais convincentes por serem belos, a necessidade definitiva de perseguirm os nossa liberdade interior para serm os livres sob todos os aspectos. Era um a carga excessiva de liberdade para um a só ditadura. Tanto o III Reich quanto a União Soviética de Stalin, para ficarm os nas experiências m ais representativas, não dilaceraram som ente seus opositores concretos, m as tentaram dar destino idêntico à m úsica e à pintura decadentes, que, aparentem ente, não podiam am eaçá-los.

A PLENOS PULMÕES

A faixa núm ero sete de Fotografias se intitula “Rom ina e Juliano”. Essa canção traz um substrato dram ático de Romeu e Julieta ou de Abelardo e Heloisa que caracteriza a interdição social aos am ores excessivam ente espontâneos, portanto, desafiadores. A canção, que, aliás, não figurou entre os grandes sucessos de Taiguara, resum e com felicidade sua busca incessante pela liberdade interna, à cavaleiro da liberdade civil e política referida m uitas linhas acim a, negada naqueles tem pos difíceis. Não seria exagero afirm ar que “Rom ina e Juliano”, por trazer nos seus versos a longa experiência hum ana dos corações aprisionados, tenha sido o últim o degrau antes de m udar seus rum os, que o colocaram num palanque. É possível que, inadvertidam ente, ele j á tivesse antecipado e explicado os passos, então ainda sob o form ato de desenho em 1970.

 

Fotografias (Odeon − SMOFB 3779)

Diretor de produção: Milton Miranda

Diretor m usical: Maestro Gay a

Assistente de produção: Eduardo Souto Neto

Diretor Técnico: Z. J. Merky

Técnicos de gravação: Nivaldo Duarte/Dacy /Toninho

Técnico de laboratório: Reny R. Lippi

Técnico de rem ixagem : Nivaldo Duarte

Fotografia

Capa: Antonio Guerreiro/Plug

Contracapa/Poster/Lay out: David Drew Zingg/Plug

Músicos:

Piano elétrico, órgão, efeitos de órgão, assobio e voz : Taiguara

Piano: Taiguara (1, 2, 7, 8, 9, 10 e 11) e Francis Him e (5)

Flauta: Taiguara (3)

Flautas: Jorginho da Flauta (3)

Efeitos de piano: Eduardo Souto Neto (13)

Violão, surdo, queixada, sinos, guizos e “ui” : Marlui Miranda

Guitarra: Marlui Miranda (1 e 3) e Chiquito Braga (2)

Violão solo e cavaquinho: Neco

Violão 7 cordas: Dino 7 Cordas

Gongos: Tibério César

Baixo : Tibério César (1, 3, 4, 6, 7, 8, 9, 12 e 13), Novelli (2) e Sergio Barroso (5 e10)

Carrilhão e bongozinhos : Jorginho Cam pos

Bateria: Jorginho Cam pos (1, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 12), Lula (2) e Wilson das Neves (10)

Caixa de fósforos: Dazinho

Bandoneon: Ubiraj ara Silva

Saxofone soprano: Nivaldo Ornelas

Clarinete: Paulo Moura

Gaita : Mauricio Einhorn

Arranjos:

Taiguara (1, 2, 3, 4, 6, 7, 8, 9, 11, 12 e 13)

Eduardo Souto Neto (4, 8 e 11)

Francis Him e (5, 6, 7, 9 e 10)

Ubiraj ara Silva (11)

Orquestrações e Regências:

Eduardo Souto Neto (1, 4, 8, 11 e 13)

Francis Him e (5, 6, 7, 9 e 10)

Lado A

1. Q ue As Crianças Cantem Livres (Taiguara)

2. Pra Luisa - Essa Pequena (Taiguara)

3. Flauta Livre (Taiguara)

4. G otas (Taiguara)

5. A Companheira (Taiguara)

6. O Mundo é Um Só (Taiguara)

Lado B

1. Romina e Juliano (Taiguara)

2. Não Tem Solução (Dorival Cay m m i e Carlos Guinle)

3. No Avião (Taiguara)

4. Saudade de Marisa (Taiguara)

5. Cartinha Pro Leblon (Taiguara)

6. Nova York (Taiguara)

7. Fotografias (Taiguara)