1973: O Ano que Reinventou a MPB
Estreia Solo Aos 43 Anos
ELTON MEDEIROS − ELTON MEDEIROS
José Rosa Garcia
lton é o popular que se recusa a ser ingênuo. Sua pureza não é a do
"E sam bista que, da m esa do botequim , contem pla a vida, ou a do falso
m alandro, na base do ‘vam os-fazer-um -negocinho-pra-faturar’, sem perceber que está sendo utilizado com o com bustível. Elton não engana e não se deixa enganar. Faz questão de saber para onde vai.”
Esse pequeno recorte do inspirado texto de apresentação do escritor cearense Juarez Barroso (1934-1976), profundo conhecedor da cultura m usical urbana, im presso na contracapa do disco Elton Medeiros, lançado no final de 1973, resum e o significado do prim eiro registro fonográfico individual desse com positor de harm onias sofisticadas e cantor de voz grave e interpretação precisa.
Nascido no bairro carioca da Glória e criado em Brás de Pina, apesar de ter gravado sozinho apenas aos 43 anos, Elton j á acum ulava um a traj etória de sucesso com o autor e participante de grupos de sam ba. Instrum entista desde a adolescência, aos 17 anos integrava, durante o dia, a Orquestra Juvenil de Estudantes da Rádio Roquete Pinto. À noite, deixava de lado o sax barítono e tocava trom bone num a gafieira.
Na década de 1960 fez parte do conj unto A Voz do Morro, que gravou os discos Roda de Samba volumes 1 e 2 e Os Sambistas. Seus com panheiros eram Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho, Zé Kéti e Anescarzinho do Salgueiro. Tam bém fez parte do conj unto Os Cinco Crioulos, ao lado de Jair do Cavaquinho, Anescarzinho do Salgueiro, Nelson Sargento e Mauro Duarte. Teve m úsica no repertório do célebre show Opinião, em 1964, e participou com destaque do espetáculo Rosa de Ouro, produzido por Herm ínio Bello de Carvalho em 1965. Além disso, em 1966, dividiu com Paulinho da Viola o disco Samba na Madrugada.
Credenciais, portanto, não faltavam a Elton Medeiros para um a estreia bem sucedida na carreira solo por m eio de um long play no qual cada um a das doze faixas é um a pedra preciosa lapidada sem pressa e com m aestria. Isso fica evidente na canção de abertura do lado A, a então inédita “Avenida fechada”, de Elton, Antônio Valente e Cristóvão Bastos, à época um prom issor m aestro e arranj ador de 25 anos.
“Não m e leve a m al / Mas m uito luxo pode atrapalhar / Alegria ninguém pode fabricar / Um bom carnaval / Se faz com gente feliz a cantar / Pelas ruas um sam ba bem popular”, registra parte da letra que lam entava a transform ação dos desfiles em m ercadoria turística, antecipando-se em quase um a década ao protesto cam peão da Escola de Sam ba Im pério Serrano, com o inesquecível “Bum Bum Paticum bum Prugurundum ”.
Na segunda faixa, “Pra bater m inha viola”, Elton com pôs letra e m úsica para dizer que fez “um sam ba sem razão e sem dar bola pras coisas do coração”. Para isso, procurou “em toda gente coisa que não dá paixão” para fazer “um sam ba tão vazio, ostensivam ente frio, sem m arcas da ilusão”.
Esse aparente desalento, no entanto, logo é abandonado aos prim eiros acordes de “Pressentim ento”, com letra de Herm ínio Bello de Carvalho. “Vem m eu novo am or / Vou deixar a casa aberta / Já escuto os teus passos / Procurando m eu abrigo”, convidam os versos em oldurados pela requintada m elodia criada por Elton e que se tornou um dos seus m aiores êxitos.
A perda de um am or em plena folia é o m ote de “Meu carnaval”, parceria de Elton Medeiros e Cacaso, prem aturam ente falecido em 1987, aos 43 anos. “Foi vestida de alegria e saiu para não voltar / E eu vestido de tristeza sorri para não chorar”, lam entou o poeta.
“Hom em nenhum se envergonha se guarda o que sonha, se é sonhador”, ensina na sequência “Fatos e fotos”, belíssim a com posição de Elton com o arquiteto Otávio de Moraes (1923-2009), artista de m últiplos talentos que foi craque de futebol no Botafogo na década de 1940 ao lado do m itológico Heleno de Freitas.
Para fechar o lado A, Elton reuniu na m esm a faixa duas canções obrigatórias em qualquer lista das m elhores com posições brasileiras de todos os tem pos: “Mascarada”, parceria com Zé Kéti, e “O sol nascerá (A sorrir)”, dividida com Cartola. O que dizer de versos com o “O poeta era eu cuj as rim as eram com postas na esperança de que tirasses essa m áscara”? Não foi por acaso que Zeca Pagodinho incluiu j ustam ente esses dois sam bas no DVD e CD com em orativos dos seus 30 anos de carreira lançados recentem ente.
“Vem m ais devagar”, de Elton e Joacy r Sant’Anna, abre o lado B. “Você vive a falar que a m inha vida pode m elhorar, m as não vej o solução, este m undo não é seu, nem a m inha opinião”, constata Elton que, por isso, pede calm a.
Em seguida, na inédita “Sebastiana”, parceria com Ciro de Souza (1911-1995), Elton volta a criticar veladam ente a descaracterização das escolas de sam ba. “Mas hoj e em dia, apesar da fantasia, Sebastiana desfila sem dem onstrar em oção / Talvez, quem sabe, j á não há m ais am biente pra quem é do sam ba quente, que sam ba por devoção / No m eio de gente nobre, esta princesa tão pobre perdeu a m otivação”, anota o letrista.
O clim a de lam entação, porém , im ediatam ente é substituído pela em polgação de “Sandália dourada”, um autêntico sam ba de partido alto de Elton e Austeclínio Silva, que pertenceu à ala de com positores da escola Aprendizes de Lucas, fundada em 1932 e extinta em 1966. “Esta sandália dourada é pra gastar na cidade / Mas se quiser dar um tem po lá no seu subúrbio eu lhe faço a vontade”, avisa o sam bista.
A quarta faixa do lado B, “Vazio”, é um a criação com Mauro Duarte (1930-1989), cuj a parceria talvez só perca em quantidade para a de Elton e Paulinho da Viola. “Se pelo m enos existisse um a saudade, eu estaria triste”, constata o com positor para depois com pletar im piedosam ente: “se faço referência a tão cruel situação é num instante de alucinação.”
Com o sugestivo título “Hora H”, a penúltim a faixa é um a com posição de Elton e Antônio Valente. “De nada m e valeu, na hora H correu sem dó nem despedida / nem deu satisfação e m e deixou na m ão, m e arruinou a vida”, reclam a o hom em abandonado, que, no entanto, alerta ao saber que a m ulher pretende voltar: “errar só um a vez, não vou virar freguês.”
No encerram ento do disco, Elton Medeiros fez um a j usta hom enagem a Cartola (1908-1980), m estre dos m estres, ao gravar “Sei chorar”, um a preciosidade. “Hoj e eu choro e a m ulher que eu adoro, talvez caída nos braços de outro sorrindo, repete as m esm as prom essas m entindo”, canta Elton nos versos de Cartola.
Produzido por Paulinho da Viola, esse prim eiro trabalho individual de Elton Medeiros teve direção m usical do m aestro Gay a e orquestração e regência de Orlando Silveira, à exceção de “Avenida fechada” e “Hora H”, orquestradas e regidas por Cristóvão Bastos.
Infelizm ente, faltam inform ações detalhadas sobre os m úsicos participantes. Foi possível descobrir, no entanto, que, entre outros, fizeram parte das gravações Copinha (flauta), Dininho (contrabaixo), Dino 7 Cordas (violão de 7 cordas), Marçal (ritm o) e Cristóvão Bastos (teclados).
Merece registro ainda o fato de que a capa foi um a das prim eiras ilustrações de discos do artista plástico Elifas Andreato, que havia estreado naquele ano no segm ento com Nervos de Aço, de Paulinho da Viola. No traço de Elifas, Elton rom pe as am arras e liberta um arco-íris de canções.
Mais um a vez é o texto de apresentação de Juarez Barroso que descreve o resultado desse encontro que j untou tanta gente de talento: “Pureza e espontaneidade este disco tem . Mas ninguém espere ouvir m ais um daqueles discos de sam ba gravados ao vivo em clim a de feij oada ou outras expressões usadas para encobrir desleixos de produção. Este disco foi tratado com carinho profissional, com sentido criativo, sem falsos respeitos e um a autenticidade tão levianam ente invocada e explorada por aí.”
Vale anotar ainda que, ao m esm o tem po em que foi m arcado por um a de nossas m elhores safras de discos, 1973 registrou consideráveis baixas na constelação de estrelas da m úsica popular brasileira. No dia 17 de fevereiro, um infarto fulm inante levou Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha, que m orreu aos 75 anos dentro da Igrej a Nossa Senhora da Paz, em Ipanem a, Zona Sul do Rio de Janeiro, enquanto aguardava para ser padrinho de batism o. Mestre da flauta e do saxofone, Pixinguinha deixou um a vasta obra de com posições e arranj os, com destaque para “Carinhoso”. Escrito em 1917, o chorinho ganhou fam a duas décadas m ais tarde ao receber letra de João de Barro, o Braguinha, e ser gravado por Orlando Silva.
Menos de cinco m eses depois da partida de Pixinguinha, em 13 de j ulho faleceu Cy ro Monteiro, 60 anos, considerado por m uitos o prim eiro cantor genuinam ente de sam ba. “Se acaso você chegasse”, “Beij a-m e”, “Escurinho”, “Os quindins de Iaiá”, “Pisei num despacho” e “Falsa baiana” fazem parte da extensa lista de sucessos de Cy ro, que tam bém trabalhou com o ator na peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes.
Cy ro e Pixinguinha não tiveram , portanto, a oportunidade de ouvir o prim eiro disco de Elton Medeiros. Um a pena, pois cada qual à sua m aneira teve algum tipo de ligação com Elton. Pixinguinha, por exem plo, lecionou na Escola Técnica João Alfredo, onde Elton aprendeu a tocar sax barítono. Mais tarde, am bos costum avam encontrar-se para longas conversas no Bar Gouveia, espécie de escritório de Pixinguinha, na Travessa do Ouvidor, centro do Rio. As m elodias refinadas que m arcam boa parte da obra de Elton talvez sej am influenciadas em parte por esses encontros.
Já o principal vínculo entre Cy ro Monteiro e Elton Medeiros é bem peculiar. Desde a estreia no rádio, em 1933, Cy ro costum ava batucar em um a caixa de fósforos enquanto cantava. Curiosam ente, Elton tam bém adotou esse “instrum ento” na m aioria de suas apresentações e gravações.
Elton Medeiros (Odeon − SMOFB 3820)
Diretor de Produção: Milton Miranda
Diretor Musical: Maestro Gay a
Assistente de produção: Paulino da Viola
Orquestrador e regente: Orlando Silveira
Diretor técnico: Z.J. Merky
Técnicos de gravação: Toninho/Nivaldo Duarte
Técnico de laboratório: Reny R. Lippi
Técnico de rem ixagem : Jorge Teixeira
Lay out: Elifas Andreato
Fotos: Iolanda Huzak
Músicos:
Dazinho: Ritm o
Dininho (Horondino Reis da Silva): Contrabaixo
Dino 7 Cordas (Horondino José da Silva): Violão 7 Cordas
Elizeu Felix: Ritm o
Geraldo Sabino: Ritm o
Jonas Pereira da Silva: Cavaquinho
Juquinha: Bateria
Marçal (Nilton Delfino Marçal): Ritm o
Copinha (Nicolino Cópia): Flauta
Cristóvão Bastos: Teclados
Arranj adores: Cristóvão Bastos e Orlando Silveira
Lado A
1. Avenida Fechada (Elton Medeiros, Cristóvão Bastos e Antônio
Valente)
2. Pra Bater Minha Viola (Elton Medeiros)
3. Pressentimento (Elton Medeiros e Herm ínio Bello de Carvalho)
4. Meu Carnaval (Elton Medeiros e Cacaso)
5. Fotos e Fatos (Elton Medeiros e Otávio de Morais)
6. Mascarada (Zé Kéti e Elton Medeiros)
O Sol Nascerá (Cartola e Elton Medeiros)
Lado B
1. Vem Mais Devagar (Elton Medeiros e Joacy r Santana)
2. Sebastiana (Elton Medeiros e Ciro de Souza)
3. Sandália Dourada (Elton Medeiros e Austeclínio)
4. Vazio (Mauro Duarte e Elton Medeiros)
5. Hora H (Elton Medeiros e Antônio Valente)
6. Sei Chorar (Cartola)