1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 37 de 54

Páginas do PDF

1973: O Ano que Reinventou a MPB

O Ano em que Odair José Amou Demais

O ANO EM QUE ODAIR JOSÉ

AMOU DEMAIS

ODAIR JOSÉ − ODAIR JOSÉ

 

Talles Colatino

 

a lógica, m ais afetiva que m atem ática, com o é (afinal, a questão em j ogo é sem pre o am or) e não é (estam os falando

 

N de um dos m aiores vendedores disco da nossa m úsica) a carreira de Odair José, dois pontos distantes não se unem em um a reta. A conexão aí se dá pela saudade. O início e o fim se fazem distantes, longe um do outro a ponto de se perderem no cam inho regresso, então form ando linhas sinuosas. Curvas libidinosas. Mistura arom a de am or e cheiro de sexo − e quem m elhor adm inistra isso não é quem possui o olfato m ais apurado. Odair José exige o tato, na ânsia de quem desej a tocar e ser tocado. E talvez o goiano de Morrinhos nunca tenha soado − é preciso boa audição tam bém − m ais palpável do que em 1973.

Foi ainda no com eço dos anos 1970, m ais precisam ente um ano antes do lançam ento de Odair José, seu quarto LP, que o j ovem cantor e com positor se aproxim ou da concretização dos seus desej os. Aos sete anos ganhou um cavaquinho – queria um violão, m as o pai achou que um instrum ento m enor seria m ais adequado para o seu tam anho – e aos 25 j á vendia m ais de 800 m il cópias de “Vou tirar você desse lugar” (1972). Seu pai certam ente não esperava por essa progressão geom étrica. Talvez nem o próprio Odair.

Entre esses dois pontos, da iniciação m usical ao estrelato, conte aí a m udança para o Rio de Janeiro com a ideia de fazer Roberto Carlos, seu ídolo, ouvir suas m úsicas e tentar em placar sua carreira a qualquer custo. Para isso não m ediu esforços, fez da areia da praia de Copacabana sua cam a, do Aeroporto Santos Dum ont seu quarto de hotel e dos inferninhos do Centro, onde ganhava uns trocados cantando, a m atéria-prim a do seu futuro proj eto de sucesso, cuj o holofote m irava a porta dos fundos da sociedade brasileira da época.

Já considerado um dos ícones m áxim os da m úsica cafona, Odair com eçou a m oldar sua obra para escoar de form a direta e eficaz através das classes m ais baixas da sociedade, que o conduziriam às m aiorias de consum o. Depois de cantar a sinceridade do am or vulgar de um hom em por um a prostituta de bordel em “Vou tirar você desse lugar”, o cantor viria, em 1973, a se tornar o tal “Terror das em pregadas”, com o Rita Lee e Paulo Coelho o batizariam na satírica “Arrom bou a festa” (1977), graças a um disco sobre dom ésticas, putas, am or sincero, orgulho ferido, calafrios de tesão, solidão e pílulas proibidas que dizem ter sido m ais vendido do que o de Roberto Carlos naquele ano. Fato raro até hoj e.

Sua grande arm a com o com positor sem pre foi a form a direta com que conseguia dialogar com seu público, funcionando com o um a espécie de repórter ou cronista social interessado no que estava à m argem . Nesse sentido, sua obra possui um a veia política intensa, que estava além da visão intelectualizada da época que considerava Odair e seus pares, com o Waldick Soriano e Nelson Ned, alienados e sem qualquer perspectiva ideológica. Mas o fato é que Odair precisou com bater o regim e para se fazer notar em sua plenitude.

O m aior exem plo disso está registrado nesse disco de 1973. O governo m ilitar vetou a m úsica “Um a vida só (Pare de tom ar a pílula)” (Ana Maria e Odair José), grande hit do trabalho. O problem a não estava no tom de protesto, com o nas canções de Chico Buarque, ou no j ogo de finas ironias veladas, a exem plo das letras de Caetano Veloso. A questão aqui estava no m ais sim ples e repetitivo refrão: “Pare de tom ar a pílula / Porque ela não deixa o nosso filho nascer / Pare de tom ar a pílula / Pois ela não deixa sua barriga crescer.” A ditadura m ilitar patrocinava cam panha nacional de controle da natalidade e, com isso, Odair foi proibido de cantar a m úsica nos shows. Das vezes que desobedeceu, foi advertido pela polícia e levado à delegacia para prestar depoim ento. Nunca chegou a ser preso.

Outra virada im portante na carreira de Odair tam bém encontra ponto de partida neste disco. A faixa “Deixa essa vergonha de lado” (Andreia Teixeira e Odair José) se tornaria um sucesso instantâneo ao relatar os sentim entos de um hom em por um a em pregada dom éstica que tem vergonha de sua condição: “Eu j á sei que essa casa onde você diz m orar / Onde todo dia no portão eu venho lhe esperar / Não é a sua casa / Eu j á sei que o seu quarto fica lá no fundo / E se você pudesse fugir desse m undo / E nunca m ais voltar.”

Odair José fez com que as em pregadas dom ésticas saíssem , m esm o que através de devaneios, da área de serviço para atuarem com o protagonista de m úsica rom ântica. O fascínio vinha j unto com o aum ento da autoestim a, e quem m ais se beneficiou disso foi o próprio Odair, que, através das dom ésticas, fez com que sua poesia popular entrasse pelas portas do fundo até chegar à sala de estar da fam ília burguesa de classe m édia.

De algum a form a, a aceitação da m úsica de Odair José está conectada ao sucesso que escritores com erciais, com o Cassandra Rios e Adelaide Carraro, faziam naquela m esm a época com livros pornográficos – e que, obviam ente, tam bém encontram resistência na censura. Rom ances que entravam nos lares da distinta fam ília ou através da subversão velada dos m aridos ou pela liberdade com edida das em pregadas.

Em entrevistas, Odair José lem bra que sua carreira com eçou a deslanchar quando atinou para as transform ações que o conceito de am or atravessava na época, j á com bem m enos pudores de estar relacionado ao sexo. Ele lem bra que o nam oro das pessoas j á não era m ais aquele nam oro de portão – as pessoas j á estavam transando antes do casam ento. Foi quando com eçou a fazer suas letras nesse sentido.

Neste disco, as faixas “Eu, você e a praça” (Odair José), “Revista proibida” (Odair José) e “Eu sinto pena e nada m ais” (Lula e J. Pereira Jr.) revelam , em suas m edidas particulares, as crônicas apim entadas de Odair José. Outro hit do disco, a prim eira narra o reencontro de um casal na tal praça, onde, dentro do carro, a volúpia dos corpos clam a m ais urgência que delicadeza: “Encostei o m eu corpo no seu / E um novo desej o nasceu / Entre nós dois / Seus carinhos m e deixavam louco / Nosso tem po era curto e tão pouco.”

Se Odair cantava as lem branças de um potencial atentado ao pudor em “Eu, você e a praça”, em “Revista proibida” desm ascarava as surpresas que podem existir em um a “revista só para hom ens”. Ícone da ousadia tem ática de Odair, a faixa narra as lem branças de um narrador que, ao se deparar com a m ulher que o abandonou, nua, nas páginas da revista, com eça a m ontar o quebra-cabeças do seu próprio passado. O j ogo pode soar até m ais denso do que é, m as, no fim , a letra não fala nada além de um a m asturbação frustrada. Um a quase punheta com dor de corno.

Aplicadas ao contexto em que foram escritas, com o fantasm a da censura rondando e com a própria form ação disfuncional do que se entende por ética e m oral, m uitas letras de Odair podem soar, hoj e, com o m achistas. Talvez até sej am , m as o que vale perceber nelas é o caráter ainda um tanto inusitado para época de m ostrar os sentim entos m ais frágeis de um hom em supostam ente traído.

É o caso de “Eu sinto pena e m ais nada” na qual, apesar de o título sugerir um a superação, o tom de confissão do narrador m ostra que a coisa não é bem assim – e revela os pudores do “m acho” quando vê a m ulher que foi sua, ou sej a, um território sexual j á dem arcado, afrontar essas lem branças: “Seu nom e j á está vulgar / Em bate-papo de esquinas / Por onde eu sem pre ando / Tem sem pre alguém pra com entar / Que j á foi dono do seu corpo / Tem sem pre alguém falando.”

Em “As noites que você passou com igo” (Donizete e Jean Pierre), o sexo surge com o artifício para potencializar não só a lem brança da m ulher que foi em bora, com o para j ustificar um tanto da m edida da ausência: “Mesm o você dizendo que não lem bra quem sou eu / Não tem graça / Pois seu corpo j á foi m eu / Mesm o que não queira o passado existiu / Quantas noites em m inha cam a você dorm iu?”. A paranoia do controle sobre alguém que j á não lhe pertence pauta “Quem é esse rapaz?” (Ana Maria e Bené), que, em um a única frase, consegue sintetizar a insegurança e o orgulho ferido: “será que com ele você vai ser m ulher?”

Falar de Odair José é essencialm ente falar de seu discurso, pois é nele que reside sua im portância e sua perm anência. Sonoram ente, o que Odair José fez e faz aqui é de um a sim plicidade inofensiva e eficaz. Sua m úsica não m arcou ou m arcará época por arranj os refinados ou m elodias im pactantes. O que vale é ouvir o que o filho ilustre de Morrinhos tinha a dizer não apenas sobre os sentim entos que nutria – afinal, nunca saberem os, e nem interessa saber, se o narrador de suas canções tam bém é seu próprio personagem – m as sobre o que a sociedade de 1973 ainda lutava para m ascarar por trás do pano desgastado da m oral e dos bons costum es.

Ainda no m esm o ano, o m úsico participou com Caetano Veloso do festival Phono 73, no Centro de Convenções do Anhem bi, em São Paulo, no qual interpretaram em dueto “Vou tirar você deste lugar”, canção que estendeu o tapete para o cantor se fortalecer com o trabalho analisado aqui. Apresentar-se ao lado de Caetano daria um novo verniz a sua im agem , com o se o baiano estivesse aj udando a legitim ar a “poética da porta dos fundos” de Odair José. Porém , independente da benção de Caê, Odair conseguiu a aceitação que de fato interessava no m om ento: a do público.

Tam bém naquele ano, Odair José se casaria oficialm ente com outra grande hitmaker, a cantora Diana. Juntos, viveram um a das m ais conturbadas histórias de am or de que nossa m úsica popular foi testem unha. O am or tórrido, os carinhos confessos e, principalm ente, as brigas violentas tom avam as m anchetes das revistas e alim entavam a curiosidade do público. Mais um fato que alim enta a certeza de que, em 1973, Odair José am ou dem ais.

 

Odair José (Polydor − 2451 034)

Direção de produção: Jairo Pires e Fernando Adour

Assistente de produção: A. Guim arães

Direção de estúdio: Jairo Pires e Fernando Adour

Técnicos de gravação: Ary Carvalhães, Luigi, Luis Cláudio e Paulinho

Estúdio: Phonogram (Rio de Janeiro, RJ)

Arranj os: Maestro José Roberto e Mixa

Corte: Joaquim

Foto: José Maria de Melo

Capa: Aldo Luiz

 

Lado A

1. Deixe Essa Vergonha de Lado (Odair José e Andréia Teixeira)

2. Os Anjos (Odair José)

3. Eu, Você e a Praça (Odair José)

4. E Ninguém Liga Pra Mim (Odair José)

5. De Repente (David Lim a e Arnoldo Silva)

6. Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula) (Odair José e Ana

Maria)

Lado B

1. Revista Proibida (Odair José)

2. Eu Sinto Pena e Nada Mais (Pinga, Lula e Evaldo José)

3. As Noites Q ue Você Passou Comigo (Donizete e Jean Pierre)

4. Q uem É Esse Rapaz (Ana Maria e Bené)

5. Cadê Você (Odair José)

6. Q ue Saudade De Você (José Pereira Júnior e Lula)