1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 34 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

O Homem Percussão

AMAZONAS − NANÁ VASCONCELOS

 

Marcos Suzano

 

mazonas, do percussionista Naná Vasconcelos, é um disco com pleto.

A

Um disco de percussionista com pleto. Tem voz, corpo, ritm o, efeitos

especiais. Um a obra im pressionante para época. Um dos discos m ais incríveis que j á ouvi. Com produção de Fagner, este é o segundo disco de Naná, lançado no m esm o ano em que fez participação especial no prim eiro álbum de seu produtor e foi destaque do Milagre dos Peixes, de Milton Nascim ento. Seu prim eiro disco foi lançado originalm ente na França em 1972: Africadeus (Saravah).

Mas, Naná surgiu na m inha vida a partir de Dança das Cabeças (Odeon) de 1977, feito com Egberto Gism onti. Foi a prim eira vez que ouvi um a percussão que realm ente m e chegou de fato. Além de ter batido nos ouvidos, entrou na m inha cabeça e no m eu coração. Não era um a percussão virtuosística, m as o virtuosism o estava no contexto, na m aneira que ele escolheu os instrum entos e acrescentou outros elem entos. Ali, nascia, sem dúvida nenhum a, m eu grande “m estre”. Já chegam os a tocar j untos tem pos atrás em edições do festival de percussão Perc-Pan. Porém , há pouco tem po tive o prazer e a honra de gravar um disco com ele, o Sementeira (Baluarte), em 2010. Éram os eu, ele, Caito Marcondes e o grupo Coração Quiáltera, todos percussionistas. No repertório tinha m úsica de todos. Um a de m inha autoria era um tem a com calim ba, cham ada “Ifa”, que fiz para um film e. Eu j á tinha gravado em m eu estúdio dom éstico e levei para o estúdio onde estávam os gravando o disco. Naná ouviu e com eçou a palpitar, pediu para fazer um track. A m úsica é 7/4. Ele pediu para o Alberto, o engenheiro de som , que colocasse dois m icrofones um em cada canto do estúdio. Disse que o track tinha que durar um com passo. A gente editou. E ele pediu para abrir o m icrofone e passou correndo de um m icrofone para o outro, em itindo um som com a voz. O breque era para ele fazer isso. Pensei com igo: “m uita viagem !”. Nesse m om ento a gente percebe a genialidade do cara. Quando ele canta, por exem plo, no m esm o tem po que a conga, duas notas valem m ais que 60 m il solos de congueiros cubanos frenéticos.

Há m uito acom panho a carreira de Naná, tenho vários discos dele, alguns autografados. Mas, voltem os para Amazonas. Tecnicam ente é um disco m uito sofisticado. Eu tinha dez anos quando o álbum foi feito. O que m ais im pressiona é que na época a coisa era gravada na fita, então o cara tem que tocar m esm o. Atualm ente o com putador facilita as coisas. Graças a Deus eu peguei essa época. Difícil pensar esse disco tocando com click, ouvindo m etrônom o, porque depois ele ia fazer as coberturas. Fica difícil im aginar. A gente percebe nessas m úsicas que as concepções j á estão bem pensadas dentro da cabeça dele. Ele j á tinha m ontado as m úsicas na cabeça. A gente sente que não tem click, ainda m ais vindo de um cara que toca num tem po m aravilhoso com o ele. Fiquei encantando em ter ouvido. Parece que o produtor, no caso, o Fagner, funcionou m ais com o um executivo, pois a gente sente que o disco é todo da cabeça do Naná. Afinal um disco com o esse é extrem am ente orgânico e pulsa o tem po todo.

Sem dúvida nenhum a o conceito de percussão da época era m uito diferente do que ele apresentou nesse álbum . Fica claro que ele usou o corpo com o percussão, a voz é a coluna do disco inteirinha. A percussão em si é arranj ada quase com o se fossem violinos, naipe de m etais ou um solo de guitarra. Assim funcionam os instrum entos de percussão.

Na m úsica que abre o disco, “Am azonas”, tem elem entos pontuais e a voz m antém -se naquela com binação de cânticos. Eu fico ouvindo e pensando: com o ele fez isso? Com o produzo discos e sou um aficionado por estúdios a gente percebe com o o som é bom , bem captado, isso sem contar o fato de ele tocar m uito bem . E, cria-se um clim a especial com tablas tocadas dobradas.

O olho de Naná na capa tem a ver com a prim eira m úsica do disco. Apesar de ser conhecido a partir do berim bau, ele não o apresenta na m úsica, m as nessa faixa está a história do disco. A percussão vai apresentar efeitos que vão soar com o naipes, com coloridos interessantes. Ritm icam ente a m úsica não é tão im portante a ponto de definir um padrão. Tem -se os tím panos que tocam de um j eito e um a parte com pequenas células ternárias de congas. Ele para e volta, tem o “fiii”, os efeitos... É um a m úsica cênica, quase um a trilha sonora de um film e que pode passar de repente na nossa frente.

Já a segunda faixa, “Aranda”, não é dele. É de Nelson Angelo e Ronaldo Bastos. Tecnicam ente é um a m úsica de Nelson Angelo. Quando ouvi da prim eira vez não tinha visto que era dele, m as percebi que poderia ser. Quando com ecei a tocar com Nelson, ele sem pre falava m uito de Naná. Em “Aranda” o elem ento especial é a tabla, instrum ento que com ecei a aprender j ustam ente por causa do Naná. Os instrum entos indianos são dificílim os de tocar. Na verdade toca-se da m aneira que traduz. Não se toca, se usa. A m aneira com o Naná usa a tabla é linda. É um instrum ento que tem um pouquinho de m elodia, faz um pequeno baixo e não tem um som tão forte, tão brutal, o que produz um a linda com binação.

Música do folclore africano, “Dhina ô”, é a canção infantil do disco. Tecnicam ente seria m ais próxim o a um a ciranda. A tabla com bina com m uitos instrum entos nossos. Eu m esm o j á gravei m uita tabla com pandeiro e dá o m aior pé. O Naná usa a tabla, os caxixis, um pouco de bateria sem bum bo e um naipizinho de cordas. É a m úsica, entre aspas, m ais digerível do disco.

“Am azio”, últim a do lado A, é m uito doida. Nela Naná está tocando bateria. Amazonas é um dos poucos discos em que ele toca bateria, com o no Zumbi (Europa Records), de 1983. Baterista de form ação, tocou no Beco das Garrafas, nessa canção ele faz a m elodia nos tam bores e m antém a voz sem pre presente. Com certeza gravou a voz e a bateria tocando-as ao m esm o tem po e depois dobrou a voz. O som da bateria ficou orgânico, bonito m esm o.

“Cara com cara”, a prim eira do lado 2, não é um a m úsica difícil e tam bém possui tabla em sua batida. Ele criou uns naipes, um groove m uito m arcante. Nessa faixa, Naná usa o flextone, que é um instrum ento m eio sem vergonha, norm am ente usado para fazer sons etéreos. Mas nesse caso, ele o usa para criar um a levada, o transform a de fato num instrum ento percussivo. Pegar um instrum ento que é um a antena e fazer o que ele fez é um a arte. E isso é m uito difícil. Tam bém há palm as, coco e caxixi. A tabla passou a ser um tipo de astro do disco. E ali ela está presente para valer.

A faixa seguinte, “Espafro”, é só de berim bau. Não é fácil fazer o que Naná conseguiu alcançar nela: dobrar o berim bau do j eito que é dobrado. No disco Zumbi, por exem plo, ele não toca berim bau. “Espafro”, podem os dizer, que é o berim bau do Naná com a “levada” do cara. Foi essa “levada” que m e fez a cabeça para tocar berim bau, um instrum ento que, antes de ouvi o Naná tocar, não m e cham ava m uito a atenção. Sou garoto de Copacabana, criado j unto a roda de capoeira. Tenho m uitos am igos m estres de capoeira, m as nunca entrei num a de tocá-lo. Não sei nenhum toque de berim bau da capoeira, com o toque São Bento, cavalaria... Sei tocar o instrum ento e sei que toco legal, m as sei a partir da escola do Naná, que se faz presente m aravilhosam ente em “Espafro”.

Quando tom ei o pandeiro com o m eu instrum ento principal, com o tradutor do m eu trabalho, foi inspirado na perform ance do Naná com o berim bau. Assim , tom ei esse rum o, um a perspectiva nova para o instrum ento, do m esm o m odo que ele fez com o berim bau. A m ensagem sublim inar estava ali.

“Coisas do norte”, a penúltim a faixa do disco, é quase um pregão de rua. Há vozes sobrepostas em um a pequena defasagem de tem po. Entre um a e outra, um atraso, o que nas costuras é prim ordial, assim com o a seleção de riffs do norte. Naná é um grande cantor com um a bonita voz, e percebe-se isso na faixa.

“Um m inuto” fecha o disco num a faixa que dura exatam ente o que o nom e diz. É um a vinheta de gritos, um exercício criativo que incom oda, m as é a cara de Naná. É algo que ele sabe usar em seu trabalho. No disco que fizem os j untos, Sementeira, tem um a m úsica que é só risada, que na sequência acaba desem bocando num sam ba. Ou sej a, a cara de Naná.

Naná é Naná e Amazonas, um disco prim ordial. É um espetáculo. Dá vontade de voltar para a pick-up e colocar o vinil para tocar novam ente.

 

Amazonas (Philips − 6349 079)

Direção de produção: Fagner

Direção m usical: Naná

Técnicos de gravação: Ary e Luiz Cláudio

Estúdio: Phonogram (Rio de Janeiro, RJ)

Arranj os de “Aranda”: Nelson Angelo

Naná: berim bau, percussão e voz

Em “Am azonas”, participações especiais de:

Juarez, Pinel, Sérgio, Erasto e Vilm a

Fotos e lay out: Uli

Lado A

1. Amazonas (Naná Vasconcelos)

2. Aranda (Nelson Angelo e Ronaldo Bastos)

3. Dhina Ô (tradicional, adapt. Naná Vasconcelos)

4. Amazio (tradicional, adapt. Naná Vasconcelos)

Lado B

1. Cara Com Cara (Naná Vasconcelos)

2. Espafro (Naná Vasconcelos)

3. Coisas do Norte (Naná Vasconcelos)

4. Um Minuto (Naná Vasconcelos)