1973: O Ano que Reinventou a MPB
Sambista de Enredo
ORIG ENS − MARTINHO DA VILA
Rildo Hora
artinho sem pre foi ligado ao conceito tem ático. Provavelm ente, pelo fato de ser um com positor de sam ba-
M enredo, ligado à escola de sam ba, e ter sem pre trabalhado guiando-se por um a tem a. Seus discos foram praticam ente todos pensados dessa m aneira. O conceito de um disco é com o um enredo de escola de sam ba. Todo disco parte de um tem a e procura-se colocar as m úsicas que sej am relacionadas a ele, sej am com posições próprias ou de outros com positores.
Nunca o álbum era feito e depois colocava-se o nom e. Em diversos outros discos que produzi ao longo dos anos com outros artistas, a gente perguntava o título do disco, m as m uitos não tinham essa preocupação e aí pegava-se o nom e de um a m úsica e colocava com o nom e do álbum . Não obstante, às vezes o nom e do disco era apenas o nom e do artista.
Com ecei a trabalhar com Martinho, com o produtor, no Memórias de um Sargento de Milícias, seu terceiro álbum solo de carreira, ainda em 1971, no qual a m úsica tem a não era do Martinho e sim de outro craque do sam ba, o príncipe Paulinho da Viola.
Participei do prim eiro disco dele na RCA, de 1969, que tinha com o título apenas seu nom e. Nesse disco todas as m úsicas do repertório, inclusive os sam bas enredo da Vila Isabel de 1968 e 1969 eram dele, sem parceiros. Os dois prim eiros discos dele, esse e o Meu Laiá-Raiá, de 1970, foram produzidos por Rom eu Nunes.
Mantendo o conceito de trabalhar seus discos com o tem a, com o aconteceu notadam ente em Rosa do Povo, de 1976, Samba Enredo, de 1980, e Canto das Lavadeiras de 1989, no disco de 1973, Origens, não poderia ser diferente.
Com padre Martinho sem pre foi um cara m uito preocupado em trabalhar sua negritude. Na década de 1970 quando recebia os adiantam entos (luvas) para renovar seu contrato com a gravadora, acabava fazendo viagens para países africanos, principalm ente os lusófonos. Essa ligação com sua origem de cidadão negro sem pre esteve com ele, de um a m aneira bonita, acim a de tudo pelo prazer de conhecer sua história, de sua raça, de sua ligação com a m atriz africana, afinal de contas o sam ba veio de lá.
E essa vontade de voltar às origens do sam ba passou a ficar m ais forte naquele m om ento. Era um desej o de m arcar território, de ter, de algum a m aneira, presente em sua obra os fundadores do sam ba e do choro, “a santíssim a trindade”, com o ele costum a dizer, form ada por Pixinguinha, João da Baiana e Donga. E porque não colocar algo da origem da m ãe África? Em Origens, Martinho fez as duas coisas: colocou um a m úsica de um dos três com ponentes da santíssim a trindade e hom enageou a m ãe África. De Donga e Mauro de Alm eida, selecionou o prim eiro sam ba gravado com o nom e sam ba, cunha do selo do disco, o eterno “Pelo telefone”, aquele que o chefe da polícia pelo telefone m anda avisar que na Praça Onze tem um a roleta para se j ogar. Da África ele trouxe para Origens “Som africano” um som tradicional de Angola, adaptado pelo próprio Martinho. A faixa “Pelo telefone”, por sinal, fez m uito sucesso, provando apenas que sua escolha e a opção pelo conceito estavam certas.
Os discos, habitualm ente, com eçavam a ser gestados em m arço, logo depois do carnaval, para saírem em setem bro. Seguia-se m ais ou m enos o conceito que havia nas décadas anteriores, o disco trazia suas m úsicas de m eio de ano. Depois do carnaval eu com eçava a ir à casa dele e perguntava: “aí, com padre, tem algum a coisa aí?” Ele tinha que ter um a coisa que puxasse o disco, geralm ente era um partido alto, um tipo de sam ba que ele sem pre soube fazer m uito bem . No caso do Origens, o partido alto da vez foi “Não chora m eu am or”. No conceito de origem , ele coloca no disco um a m úsica em hom enagem a seu filho, o hoj e cantor e com positor Tunico Ferreira tam bém conhecido com o Tunico da Vila. A m úsica, onde toquei o violão, acabou recebendo o nom e de batism o de Tunico, um nom e com posto, que nos rem ete para nossas origens portuguesas; “Antonio, João e Pedro”.
Além disso, seguindo a ideia de origens, um dos fundadores do novo sam ba, Monarco, m estre da Portela, tam bém se faz presente no repertório. O sam ba escolhido foi “Tudo m enos am or”, parceria de Monarco com Walter Rosa. Há tam bém “Beto Navalha”, de João Nogueira, seu com panheiro de geração.
Em Origens, um dos prim eiros discos gravados no Brasil em 16 canais, no estúdio da RCA de São Paulo, a prim eira faixa é um a hom enagem a Monsueto, um com positor que estava voltando a ser descoberto, pois havia sido gravado recentem ente tanto por Milton Nascim ento e Alaíde Costa (no Clube da Esquina de 1972), com “Me deixa em paz”, com o por Caetano Veloso que gravou “Eu quero essa m ulher assim m esm o” (Monsueto e José Batista) em seu disco Araçá Azul, tam bém lançado em 1973. No LP de Martinho da Vila, não há apenas um a faixa, m as sim um tributo ao com positor, reunindo de um a só vez sete com posições de Monsueto, com nove parceiros diferentes.
Monsueto era m uito m eu am igo e estava m uito doente naquele 1973. Um a vez encontrei-o na porta da boate Num ber One e ele m e pediu para que eu sugerisse ao Martinho gravar um a m úsica dele. Porém , antes do Martinho gravar seu próxim o disco, Origens, m eu am igo Monsueto faleceu. Mesm o assim pedi a Martinho para gravar um a m úsica do Monsueto, para cum prir m inha palavra e ao m esm o tem po hom enagear o am igo. Já que não fugia ao conceito de negritude, tive a ideia de m ontar um pot-pourri de coisas dele. Aí o Martinho falou: “essa faixa fica por sua conta”. Fui na casa da viúva do Monsueto e m exem os em uns discos lá. Fiz tam bém um a pesquisa e m ontei tudo. Foi um a faixa gravada inclusive com o piano do Raul Mascarenhas, um pianista que fez m uito sucesso na note carioca e havia trabalhado com igo na boate Cangaceiro.
Martinho gravava geralm ente com sua própria banda, que o acom panhava em seus shows, ao contrário de m uitos artistas que preferiam m úsicos de estúdio. Ele tinha o Mané do Cavaco, um virtuosíssim o. Entre seus percussionistas, se não m e engano, o Jorginho do Im pério chegou a tocar nas percussões deste disco. Contudo, sim , enxertava-se um ou outro m úsico especializado em gravação. Nesse disco, por exem plo, tem a participação do violão do grande Manuel da Conceição, conhecido por todos com o Mão de Vaca, devido ao tam anho exagerado de suas talentosas m ãos. E tinha tam bém as m ãos precisas do violão de Rosinha de Valença, que fazia parte da banda.
Os discos sem pre foram tem áticos, m as não necessariam ente m onotem áticos. As m úsicas seguiam o tem a escolhido, m as não com um rigor m ilitar, afinal de contas o “sargento de m ilícia” j á havia dado baixa. Algum as m úsicas m esm o não parecendo estar dentro do conceito entravam no repertório, com o se fossem alegorias de um a escola de sam ba, dentro do enredo do sam ba de Martinho.
Mas o conceito, a tem ática do disco, passava pelo obra com o um todo. E a capa sem pre foi fator preponderante. De um determ inado ponto em diante Martinho escolheu a dedo o talento do Elifas Andreatto para fazer suas capas. Elifas aj udou a cunhar algum as das principais capas da MPB na década de 70. E praticam ente todos os discos da fase do sam bista na RCA foram feitos em parceria com Elifas. Martinho dizia para ele qual era o tem a do disco e m andávam os para o artista um a fitinha cassete com as bases, a qual ficava ouvindo enquanto com punha a arte da capa. Martinho chegou a brigar por sua perm anência em seus proj etos. Elifas não era um artista barato para os padrões de capistas da época. Mas, Martinho tinha cacife, acreditava na parceria e brigava para m antê-la. O principal episódio dessa defesa ao talento de Elifas não aconteceu no proj eto Origens, m as no disco de 1982. Quando um diretor firm ou que o título teria que ser Verso e Reverso, Elifas sim plificou. Na capa, um fósforo aceso e na contracapa, um fósforo apagado. Os dois lados da situação. Basta olhar as capas de Elifas para os discos de Martinho ao longo dos anos para confirm ar que não havia naquele m om ento m elhor artista para traduzir os enredos de Martinho.
Origens traça com m ais exatidão as linhas que levariam Martinho a ser o que se tornou: m uito além de um sam bista, m uito além do batuque da cozinha, do sargento, do j ovem que passou no vestibular e não tinha com o pagar a faculdade... ele fez de sua obra um a verdadeira escola de sam ba, na qual os professores são tantos e ele é o reitor. Origens apresenta com firm eza seu cam inho para África, o m esm o continente que deu a sua escola em 1988 o título de cam peã, com sua “Kizom a, festa da raça”. Esse sam ba não foi com posto por ele, m as por Luiz Carlos da Vila, Rodolpho e Jonas, no entanto serve com o um im portante carro alegórico nesse desfile que, de certa form a, com eçou a ser traçado no álbum Origens.
Origens (RCA-Victor − 103.0080)
Coordenação geral: Gil Beltran
Coordenação artística e direção de estúdio: Rildo Hora
Técnicos de som : G. J. Kibelkstis (Joãozinho) e Stelio Carlini
Estúdio de gravação e m ixagem : RCA (16 canais) – São Paulo, SP Exceto faixa “Fim de Reinado”, gravação inaugural do estúdio
RCA (16 canais) – Rio de Janeiro, RJ
Transas de Ligação: Eliseth Duarte
Arte: Elifas Andreato
Arranj os e regências: Severino Filho
Músicos:
Violões: Rildo Hora (Beto e Antonico), Rosinha de Valença e Manoel da Conceição
Cavaquinho: Mané do Cavaco
Banj o: Tico Tico
Contrabaixo (de pau): Cláudio e Monj ardim (Tributo a Monsueto)
Acordeom : Caçulinha
Piano: Raul Mascarenhas
Coro: As Cigarras e Lá Vai Sam ba
Ritm o: Papão, Carlinhos do Pandeiro, Zeca da Cuíca, Jorginho do Mano Décio, Serginho, Uracy, Everaldo, Rafael e Baldo
Lado A
1. Tributo a Monsueto
Casa Um da Vila (Monsueto e Flora Mattos) Larga Meu Pé (Monsueto e Aloy sio França)
Eu Q uero Essa Mulher Assim Mesmo (Monsueto e José Batista)
Me Deixa Em Paz (Monsueto e Ay rton Am orim ) Mora na Filosofia (Monsueto e Arnaldo Passos) A Fonte Secou (Monsueto, Tufic Lauar e Mancléo) Lamento da Lavadeira (Monsueto, Nilo Chagas e João Violão)
2. A Hora e a Vez do Samba (Gem eu, Paulinho e Ailton)
3. Não Chora Meu Amor (Martinho da Vila)
4. Antônio, João e Pedro (Martinho da Vila)
5. Tudo, Menos Amor (Monarco e Walter Rosa)
6. Requenguela (Martinho da Vila)
Lado B
1. Pelo Telefone (Donga e Mauro de Alm eida)
2. O Caveira (Martinho da Vila)
3. Beto Navalha (João Nogueira)
4. A Feira (Martinho da Vila e Murilão)
5. Som Africano (tradicional, adapt. Martinho da Vila)
6. Fim de Reinado (Martinho da Vila)