1973: O Ano que Reinventou a MPB
O Álbum Branco do João
JOÃO GILBERTO − JOÃO GILBERTO
Juca Filho
epois de recriar a levada do sam ba com sua revolucionária “batida”, na década de 50, e conquistar o m undo nos 60,
D influenciando grandes nom es do j azz e se estabelecendo com o fundam entador da Bossa Nova, João Gilberto entra nos anos 70 com fôlego total e criatividade a m il. Aos 40 anos e em grande form a, João sim plesm ente eleva o que j á era bom à categoria de state-of-the-arts, sob o filtro esm erado da sua m usicalidade, cada vez m ais sofisticada.
É nesta grande fase que João lança, em 73, João Gilberto, seu fam oso álbum branco, um dos discos m ais inovadores de sua carreira. Feito para ser ouvido sequencialm ente e por inteiro, João Gilberto é um disco de voz e violão, com participações econôm icas do baterista Sonny Carr, tocando, basicam ente, pratos com escovinhas e baquetas, e de Miúcha, em dueto vocal, num a faixa. E só. Só? Nada m ais falso que isso, pois há quatro décadas eu escuto esse disco e não m e canso de descobrir nele novos e geniais detalhes. Gravado em Nova Iorque, para onde João acabava de retornar, depois de um a tem porada brasileira de estreita convivência com a troupe dos Novos Baianos – que, naquele m om ento, sacudia a MPB, fundindo sonoridades pop à m usica brasileira de tradição − o disco reflete, de form a intrínseca, este contato. Contato que, pelo lado dos Baianos, aj udou a gerar o histórico Acabou Chorare, de 1972. E, pelo lado de João, certam ente influiu no tom libertário e um tanto psicodélico do disco branco.
Conheci “o disco branco do João” com 17 anos. Aliás, conheci não, fui hipnotizado por ele. E acho que, até hoj e, continuo, num a ligação que perdura, com o j á disse, íntegra, exatos 40 anos depois. Sem desm erecer, de form a algum a a qualidade do disco, talvez o j eito com o fui apresentado a ele tenha influenciado nesta ligação, por isso acho que aqui cabe um a rápida digressão.
Era 1973 e o m eu am igo Ian Muniz tinha um am pliador fotográfico em casa (Para quem não sabe, um am pliador é um aparelho que servia para am pliar fotos a partir de negativos, na pré-história da fotografia digital.) Só que, além do am pliador, o Ian tam bém tinha um irm ão saxofonista, o Ion Muniz, grande m úsico, por acaso tam bém am igo de João Gilberto. Na verdade, a casa do Ian eram dois apartam entos, um em frente ao outro, em Laranj eiras. Num residia a fam ília e, no outro, apelidado de “Zona Norte”, que pertencia a um parente que m orava no exterior, ficava a área criativa. O tal am pliador, que foi o que m e levou, indiretam ente, até o disco branco, ficava lá. Era nesse lugar que o Ion ficava tocando e ouvindo m úsica o dia todo, cercado de gênios, os quais eu, inclusive, nem tinha total noção do tam anho, naquela época. Exagero da m inha parte? Então vej am a escalação da banda que ensaiava com o Ion naquele tem po: João Donato no piano, Edison Machado na bateria, “Ed” Maciel, o fam oso Maciel Maluco, no trom bone e, se não m e engano, m ais um Edson, o Edson Lobo no contrabaixo, além do próprio Ion nos saxes e flautas. Com o se diz no popular: é m ole ou quer m ais?
E foi no m eio dessa rapaziada louca e histórica, sem pre levitando algum as nuvens de fum aça acim a da Hum anidade, que eu tive a experiência quase m ística de ouvir, pela prim eira vez, o recém -lançado disco de 1973 de João Gilberto. Depois daquele dia m inha cabeça em relação à m úsica, especialm ente a brasileira, nunca m ais foi a m esm a. No dia seguinte fui com prar o LP, com sua capa m inim alista e clean, na qual um a fina linha verm elha criava um a sensação sutil e m oderna de equilíbrio visual, separando a foto em sépia de João Gilberto em form ato quadrado, de outro quadrado, onde o nom e de João se destacava entre recortes do m esm o. Mas isto, apesar de im portante, não é o foco do assunto, e sim a m úsica genial produzida por João Gilberto nesse trabalho. Por isso, vam os a ela.
O álbum j á com eça dizendo a que veio, com a m agnética versão de João Gilberto para “Águas de m arço”, de Tom . João abre a canção – e o disco − com um “ostinato” rítm ico (um padrão rítm ico repetido) no violão que lem bra um berim bau, com voz e instrum ento cam inhando em paralelo. A partir daí, o cantor vai envolvendo o ouvinte num a interpretação instigante, adiantando e atrasando a m elodia em relação à harm onia, valorizando cada palavra da letra e encontrando sentidos ocultos no ritm o dos versos de Tom . Com o violão irretocavelm ente fazendo a cam a para todo este suingue e apoiado pela “bateria m inim alista” de Sonny Carr, João Gilberto “quebra tudo”, com o se diz no m eio m usical, e suga o ouvinte para dentro do disco de m aneira quase m ágica.
“Undiú”, o baião m ais zen e “doidão” de todos os tem pos, dá sequência ao “enfeitiçam ento”. Com posição própria, originalm ente um a parceria com Jorge Am ado, “Undiú” é gravada, aqui, sem a letra original. De novo João introduz o tem a apresentando o padrão rítm ico que atravessa toda a canção. A sexta corda, afinada em Mi Bem ol − fato, aliás, extrem am ente original − reafirm a, do prim eiro ao últim o com passo, este padrão, de form a quase obsessiva, enquanto a harm onia cam inha nas cordas agudas em progressão que alterna tensão e distensão. O efeito hipnótico disso se reforça pela prim eira parte da m elodia, onde João, usando o neologism o “undiú” com o letra, em ite a prim eira sílaba da palavra grave e gutural, ressoando no peito, e a segunda aberta, na cabeça, indo além da form a tradicional do canto. A segunda parte, quase sussurrada, consolida a “hipnose” em quem ouve e torna difícil não se deixar, realm ente, enfeitiçar por “Undiú”.
Antes que se tom e fôlego, João surpreende de novo, com um a versão absolutam ente original de “Na baixa do sapateiro”, clássico de Ary Barroso. Num solo instrum ental todo blocado em acordes, citado por Guinga, em 2006, “com o um passo adiante na História”, João Gilberto renova conceitos e toca, nas palavras do próprio Guinga, com o se “solasse de dentro do braço do violão, pelo avesso”. Dem onstrando, m ais um a vez, sua genialidade, João recria o standard de Ary de form a nunca antes ouvida.
Após revisitar Ary, reafirm ando a ponte entre a tradição e a m odernidade que sem pre m arcou seu trabalho, João Gilberto segue, interpretando, pela prim eira vez, um a canção de Caetano Veloso, “recom pondo”, preciosa e delicadam ente, a bela “Avarandado”, do álbum Domingo, de 1967. O m úsico repete a canção três vezes, de form a quase m editativa e idêntica, revelando novas nuances da m elodia e dos versos sensíveis de Caetano. A interpretação suave e os arpej os precisos e delicados no violão criam um a espécie de pausa m elódica na sequência pulsante e rítm ica das três prim eiras faixas do disco.
Da rom ântica “Avarandado”, João pula direto para o gingado de “Falsa baiana”, de Geraldo Pereira, dando um a verdadeira aula de suingue. Cantando, com o se tornaria cada vez m ais usual, num a tonalidade que privilegia os graves, a ponto de quase sussurrar a m elodia, em certas partes. João dom ina a canção de Geraldo Pereira de um j eito irresistível que só pode ser definido em um a expressão: com total m alem olência.
“Eu quero um sam ba”, de Haroldo Barbosa e Janet de Alm eida, garim pada do baú de preciosidades m usicais brasileiras, dá sequência ao disco. Aplicando, de form a percussiva, um a harm onia bastante interessante à m úsica, João usa, na prim eira parte, dois acordes, um totalm ente “aberto”, apoiado nas cordas agudas do violão e um “fechado”, tenso, nas quatro cordas m ais graves do instrum ento. Esta som a de percussão, harm onia e tim bre no acom panham ento enriquece m uito o sam ba. A “coda” final com suas palavras inventadas e onom atopeias originais tam bém gruda no ouvido.
Gilberto Gil, outro adm irador sem pre atento de João, é brindado com um a regravação cheia de balanço da sua “Eu vim da Bahia”. O violão de João nesta faixa parece conversar com a m elodia, levada com divisão perfeita e fluente, valorizando a letra espertíssim a de Gil. João ainda regravaria duas vezes esta m úsica, originalm ente registrada em 65 por Gal, num com pacto sim ples, ainda com o nom e artístico de Maria da Graça. Mas esta ainda é, a m eu ver e de longe, sua m elhor gravação.
“Valsa” (“Com o São Lindos os Yoguis”) ou ainda “Bebel” é a segunda faixa autoral de João no disco. Com o diz o nom e, é um a valsa dançante, com posta em hom enagem à sua filha com Miúcha, a cantora Bebel Gilberto. É tam bém um a faixa diferenciada no disco, pelo com passo ternário e tam bém pelo fato de João ter usado um artifício m uito pouco com um em sua obra: a dobra de vozes. Utilizando-se de form a criativa desse efeito, alternando sua voz solo com suas vozes dobradas, João Gilberto produz um a faixa fluente e delicada em m oto-contínuo, term inando em fade out e criando um belo contraponto com a faixa a seguir, a percussiva “É preciso perdoar”, dos baianos Carlos Coqueij o e Alcy vando Luz.
Partindo m ais um a vez de um “ostinato” rítm ico quase soturno, João vai quebrando a tensão harm ônica ao m áxim o, fazendo a cam a para m elodia que flui e depois retorna ao padrão inicial. Assim , de form a m inim alista, vai refazendo esta canção de Coqueij o e Alcy vando Luz que, quatro anos antes, levara o quarto lugar no prim eiro Festival Internacional da Canção, num a interpretação grandiosa e orquestral com o MPB4.
Fechando com chave de ouro, João busca, m ais um a vez, no seu baú de preciosidades, o ótim o “Isaura”, de Herivelto Martins e Roberto Riberti. Luxuosam ente auxiliado por Miúcha, com quem era casado na época, que leva, de form a super delicada e afinada a m elodia principal, João desenha, por baixo, um contracanto totalm ente sim biótico que deixa a gente com vontade de botar a faixa no repeat do aparelho de som e esquecer da vida, saboreando essa interpretação deliciosa. Mas com o, infelizm ente, no tem po em que foi lançado não haviam estas facilidades, o disco vai se acabando com o se não quisesse acabar, com João e Miúcha repetindo várias vezes a canção até sobrar só o violão de João sum indo em fade e fazendo um link com o início do disco, 50 m ágicos m inutos atrás.
Quantas vezes, depois disso tudo, a m inha única reação possível foi com eçar de novo e “reouvir” esse disco genial, que conheci aos 17 anos e nunca m ais parei de escutar... Atualm ente, além do vinil, ainda preservado, tenho ele digitalizado no m eu com putador e dois CDs, sendo que um perenem ente dentro do m eu carro, porque, com o álbum branco de João Gilberto, eu encaro qualquer engarrafam ento, desde os que nos perturbam nas ruas todos os dias até os m entais. Pois não há cabeça com um m ínim o de m usicalidade que não se deixe levar pela m úsica deste álbum genial de um grande artista num m om ento de total m aturidade artística e criativa. E que, talvez, ainda tenha assunto para m ais 40 anos de escuta.
João G ilberto (Polydor − 2451 037)
Produtor: Rachel Elkind
Arranj os: João Gilberto
Músicos:
João Gilberto: violão
Sonny Carr: bateria
Participação especial:
Miúcha: vocal em “Isaura”
Lado A
1. Águas de Março (Tom Jobim )
2. Undiú (João Gilberto)
3. Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso)
4. Avarandado (Caetano Veloso)
5. Falsa Baiana (Geraldo Pereira)
Lado B
1. Eu Q uero Um Samba (Haroldo Barbosa e Janet de Alm eida)
2. Eu Vim da Bahia (Gilberto Gil)
3. Valsa (Como São Lindos os Youguis) (Bebel) (João Gilberto)
4. É Preciso Perdoar (Carlos Coquej o e Alcy vando Luz)
5. Isaura (Herivelto Martins e Roberto Roberti)