1973: O Ano que Reinventou a MPB
A Arte de Colocar no Som o que a Censura Tirou da Letra... E Fazer um Disco Revolucionário
A ARTE DE COLOCAR NO SOM O QUE A CENSURA TIROU DA LETRA... E
FAZER UM DISCO REVOLUCIONÁRIO
MILAG RE DOS PEIXES − MILTON NASCIMENTO
Luiz Maciel
eis anos depois de inaugurar um a nova vertente da MPB com m elodias belíssim as – que críticos m ais apressados classificaram
S de “toada m ineira”, m as que na verdade tinham um pouco de tudo, de bossa nova a m oda caipira, de bolero a ritm os africanos –, Milton Nascim ento se preparava em 1973 para surpreender o país com um disco diferente de tudo o que havia sido feito antes: Milagre dos Peixes. Os quatro lançam entos anteriores de Bituca j á haviam dado a ele a fam a de com positor perfeccionista, que não m edia esforços para descobrir o arranj o ideal para cada m úsica, transform ando as sessões de gravação em verdadeiros happenings, com a participação de quantos instrum entistas e intérpretes de apoio j ulgasse necessários. Milagre dos Peixes representaria naturalm ente um novo avanço nessa eterna busca de Milton pelo som m ais sublim e, se tudo ocorresse com o previsto. Mas acabou indo além do com binado e se transform ando num disco de caráter ainda m ais revolucionário, apesar da ausência de letras na m aioria das m elodias. Milagre dos Peixes, na verdade, foi um sobrevivente notável de um dos ataques m ais raivosos da censura a um a obra de arte nesse ano de 1973, últim o do “m ilagre econôm ico” e penúltim o do m andato do general Em ílio Médici, o ditador no poder.
Cuidadoso na escolha dos seus parceiros, Bituca havia convocado seus três colaboradores m ais tradicionais – Márcio Borges, Fernando Brant e Ronaldo Bastos – para participar do disco, decidindo sozinho as m úsicas que caberiam a cada um deles. Esse era o seu m étodo de trabalho, aceito sem contestação pelos letristas. “Nunca cheguei a entender claram ente seus critérios de distribuição de m elodias. Não eram claros. Mas eram rigorosos”, revela Márcio Borges em seu livro Os Sonhos Não Envelhecem – Histórias do Clube da Esquina. “Quando nos m ostrava os esboços que logo depois se transform ariam em canções clássicas (...), eu achava perfeito o seu tino; sem pre m e cabiam canções que adorava, ainda que um a vez ou outra tenha ficado com ciúm es na hora da distribuição.”
Em Milagre dos Peixes, porém , esse processo foi subvertido por um tim e de parceiros indesej ados e de péssim o gosto, os censores, que parecia determ inado a arruinar todo um trabalho m eticulosam ente construído. Com eçaram cortando praticam ente na íntegra as letras das m úsicas “Cadê”, “Os escravos de Jó” e “Hoj e é dia de El Rey ”. Milton ficou arrasado num prim eiro m om ento, m as pouco a pouco encontrou forças para resistir. Se não podia usar as letras, decidiu, então que gravaria as m úsicas apenas com sua voz, m as usaria seu vasto repertório de m odulações para im prim ir, de algum a m aneira, as em oções que os censores haviam suprim ido dos textos. “Vou gravar de qualquer j eito. Vou botar no som tudo o que eles tiraram na letra. Eles vão se ver com igo”, desabafou ao am igo Márcio Borges.
Adiar o proj eto de Milagre dos Peixes por causa da censura teria sido m esm o um golpe ainda m ais duro do que os próprios vetos im postos pelos censores. Com o sucesso do álbum duplo Clube da Esquina, lançado um ano antes, a Odeon não tinha m ais receio de investir em um a nova edição luxuosa de seu artista, que àquela altura não só se firm ara com o um dos m ais prestigiados do país, com o arrancava elogios até de críticos e m úsicos fam osos do exterior. O diretor de produção da gravadora, Milton Miranda, apoiava todas as reivindicações de Bituca para dar ao disco o m elhor padrão técnico possível, e tam bém não queria, de m odo algum , desperdiçar esse bom m om ento. Das 11 faixas selecionadas para o álbum , Milton j á havia decidido gravar cinco com a m elodia sem letra – m as viu esse núm ero crescer subitam ente para oito por causa dos vetos da censura, dando a Milagre dos Peixes um caráter ainda m ais instrum ental. As únicas três letras que não sofreram m utilações foram as da faixa-título “Milagre dos peixes”, de autoria de Fernando Brant; a de “Pablo”, hom enagem de Bituca ao filho recém -nascido, que foi escrita por Ronaldo Bastos; e a de “Sacram ento”, feita pelo próprio Milton para um a com posição de Nelson Ângelo. As letras proibidas eram de Márcio Borges (“Hoj e é dia de El Rey ”), Fernando Brant (“Os escravos de Jó”) e do cineasta Ruy Guerra (“Cadê”) – com quem Milton havia trabalhado em 1969 no film e Os Deuses e os Mortos, encarregando-se da trilha sonora e assum indo até um a ponta de ator. Para deixar claro que a ausência de letras nessas m úsicas não era um a opção sua, Bituca m anteve o crédito dos parceiros nas faixas censuradas. Resolveu, ainda, divulgar os nom es de todas as pessoas que participaram das gravações, incluindo os técnicos de som , que j am ais apareciam em disco algum . O resultado é que Milagre dos Peixes passou a ser o álbum com a ficha técnica m ais detalhada da discografia brasileira até aquele ano.
Com o j á era tradição, Bituca convidou um exército de m úsicos para participar do disco e não se lim itou a cantar – em punhou o violão e o piano em várias faixas. A direção m usical foi entregue ao m aestro Lindolpho Gay a. Wagner Tiso esteve presente em quase todas as faixas, ora com andando o piano elétrico, ora o acústico, ora o órgão. Novelli se encarregou do baixo, m as tam bém tocou piano em um a gravação e em outra aj udou o tim e da percussão, form ado por Paulinho Batera, Naná Vasconcelos e Robertinho Silva. Nelson Ângelo se dividiu entre o violão, a viola e a guitarra. Paulo Moura e Nivaldo Ornellas com pareceram com o sax. Um conj unto de oito violinos, dois cellos e duas violas reforçaram a sonoridade de “Milagre dos peixes” e “Hoj e é dia de El Rey ”. Além desses, foram convocados ainda para a execução de “Tem a dos deuses” três ases do trom pete, dois do trom bone e outros seis para tocar flauta, clarinete, trom pa, fagote, oboé e tím panos, todos sob a regência de Radam és Gnatalli. Mais que qualquer instrum ento, porém , brilharam no disco as vozes de Bituca e seus convidados. Entre eles, Clem entina de Jesus, que contribuiu com seu vozeirão no “lá-lá-lá” de “Os escravos de Jó”; Sirlan, que fez contraponto a Milton em “Hoj e é dia de el rey ”; e o pequeno Nico Borges, irm ão de Márcio e Lô, que interpretou “Pablo”. O coro, usado em algum as canções, j untou, sem distinção, quem estivesse a trabalho ou a passeio no estúdio – com o Gonzaguinha, por exem plo.
A crítica não ficou indiferente a tam anha riqueza sonora. “Milton Nascim ento está realizando a obra m ais rica em nuances e um a das m ais perfeitas tecnicam ente dentro da m úsica popular de nossos dias”, saudou o colunista Marcus Vinícius na edição de 19 de setem bro de 1973 da Folha de S. Paulo. “No seu m ais recente disco, Milagre dos Peixes, Milton Nascim ento põe, bem à vista de todos, os dados sonoros que constituem sua atual linguagem : o triângulo form ado pela m úsica m ineira, pela m úsica latino-am ericana e pela m úsica afro. (...) Os elem entos novos não entram em oposição com os padrões antigos m as, ao contrário, acrescentam -se a estes.”
Tárik de Souza, na edição de 11 de j ulho da revista Veja, destacou a m aneira com o Milton soube com pensar o texto cortado pelos censores com sua voz poderosa. “Sem a preocupação de concentrar-se em letras que j á não existiam , Milton deixou sua voz soltar-se absolutam ente à vontade. E seus contorcionism os vocais nunca poderão ser considerados gratuitos. Na verdade, estão sem pre diretam ente ligados a um conteúdo em ocional, que o cantor é obrigado a transm itir sem o auxílio das palavras. (…) E a m aneira com o ele consegue passar essa im pressão apenas através dos sons sem palavras parece um a prova irrecusável de que certos m ilagres existem , quando perm itidos”, com pletou Tárik.
Outra inovação de Milagre dos Peixes, bolada pelo sem pre m eticuloso Bituca, foi a sua em balagem de concepção arroj ada, com a estrutura de um pôster com três dobraduras, dentro do qual se aloj ava um LP com oito faixas, um disco com pacto com outras três m úsicas – “Sacram ento”, “Cadê” e “Pablo nº 1” – e cinco folhas soltas, em cores cham ativas, com as fichas técnicas das m úsicas. Em papelão reforçado, a capa-pôster trazia a im agem em close de um a m ão envolvendo um bebê, na parte de fora, e um garotinho com roupa de m arinheiro, na de dentro. O garotinho da parte de dentro é o próprio Milton. Nos velhos tem pos dos discos de vinil, a apresentação caprichada dos álbuns m usicais era um poderoso elem ento de venda – que as gravadoras, especialm ente a Odeon, sabiam valorizar.
O disco se consolidaria, enfim , com o a m ais expressiva am ostra da grande fusão m usical característica da obra de Milton. A faixa “Os escravos de Jó” é um a releitura de velhos cantos africanos, em balada pela percussão forte e a voz m arcante de Clem entina de Jesus. “Milagre dos peixes” e “Pablo” (que se divide em duas partes) expressam a latinidade sem pre valorizada nas com posições de Bituca. “A cham ada”, da trilha do film e Os Deuses e os Mortos, e “Carlos, Lúcia, Chico e Tiago”, que Milton preferiu m anter apenas com o tem as m usicais, sem letra, lem bram cantos gregorianos. Milton reconheceu na época todas essas influências, e as tratava com o contribuições preciosas ao seu processo de criação, em bora desprezasse todos os rótulos. À falta de um a definição m elhor, Milagre dos Peixes – assim com o todos os dem ais discos de Bituca – costum a ser exposto no exterior na seção de “world m usic”, que abriga os lançam entos que não se enquadram nos estilos m usicais tradicionais. Milton não dá im portância a essas tentativas de classificação. Ele só concorda inteiram ente com um a que viu estam pada num a casa de shows em que se apresentou certa vez na Dinam arca. “Ao lado do nom e de cada artista contratado eles colocavam o gênero m usical. Miles Davis, j azz; Bob Marley, reggae; e assim por diante. E lá eu era apresentado com o Milton Nascim ento, Milton. Adorei aquilo”, adm itiria Bituca.
Milagre dos Peixes (Odeon − SMOFB 3762)
Diretor de Produção: Milton Miranda
Diretor Musical: Maestro Gay a
Supervisão Musical: Milton Nascim ento
Assistente de Produção: Manoel Moraes
Diretor Técnico: Z. J. Merky
Técnico de Laboratório: Renny R. Lippi
Técnico de Rem ixagem : Nivaldo Duarte
Capa: Noguchi
Foto: Noguchi e Ronaldo Cientista
Lado A
1. Os Escravos de Jó (Milton Nascim ento e Fernando Brant)
Violão: Milton Nascim ento
Viola: Nelson Angelo
Bateria: Paulinho Braga
Percussão: Naná Vasconcelos, Novelli e Paulinho Berim bau: Naná Vasconcelos
Efeitos vocais: Milton Nascim ento e Naná
Voz: Clem entina de Jesus
Vozes: Milton Nascim ento, Naná, Sirlan, Nico Borges e Telo Borges
Técnicos de som : Nivaldo e Dacy
2. Carlos, Lúcia, Chico e Tiago (Milton Nascim ento)
Voz: Milton Nascim ento
Baixo: Novelli
Piano: Wagner Tiso
Percussão: Naná Vasconcelos
Orgão: Wagner Tiso
Sax: Paulo Moura
Piano: Milton Nascim ento
Técnicos de som : Nivaldo e Dacy
3. Milagre dos Peixes (Milton Nascim ento e Fernando Brant)
Voz: Milton Nascim ento
Viola: Nelson Angelo
Violão e sussurro: Milton Nascim ento
Percussão: Naná Vasconcelos
Piano elétrico: Wagner Tiso
Baixo: Novelli
Efeitos: Sirlan, Nelson Angelo, Maurício Mendonça e Naná Sax: Paulo Moura
Arranj os: Wagner Tiso
Regência de cordas: Paulo Moura
Regência dos dem ais instrum entos: Milton Nascim ento Violinos: Giancarlo Pareschi (spalla), Alberto Jaffé, Alfredo Vidal, Jerzy Milewsky, Nathercia Teixeira, Aizik Geller, Robert Arnaud e José de Lana
Violas: Murillo Loures e Arlindo Penteado
Cellos: Peter Dauelsberg e Alceu de Alm eida Reis Técnico de som : Toninho
4. A Chamada (Milton Nascim ento)
Violão: Milton Nascim ento
Voz: Milton Nascim ento
Efeitos: Naná, Milton, Sirlan, Cafi, Ronaldo e Nico Técnicos de som : Dacy e Toninho
Lado B
1. Pablo Nº 2 (Milton Nascim ento e Ronaldo Bastos)
Baixo: Novelli
Violão: Milton Nascim ento
Viola: Nelson Angelo
Percussão: Naná e Robertinho Silva
Festa: Novelli, Milton Nascim ento, Naná Vasconcelos, Nelson Angelo, Robertinho Silva, Wagner Tiso, Sirlan, Gonzaga Jr. e Maurício Mendonça
Cavaquinho: Daudeth de Azevedo
Vozes: Milton Nascim ento, Sirlan e Novelli
Técnico de som : Toninho
2. Tema dos Deuses (Milton Nascim ento)
Violão: Milton Nascim ento
Viola: Nelson Angelo
Baixo: Novelli
Piano: Wagner Tiso
Bateria: Paulinho Braga
Percussão: Naná Vasconcelos
Violinos: Giancarlo Pareschi (spalla), Alberto Jaffé, Alfredo Vidal, Jerzy Milewsky, Nathercia Teixeira, Aizik Geller, Robert Arnaud e José de Lana
Violas: George Kiszely e Arlindo Penteado
Cellos: Peter Dauclsberg e Alceu de Alm eida Reis Flauta: Copinha
Clarinete: Paulo Moura
Trom pa: Luiz Candido da Costa (Pirulito)
Fagote: Airton Lim a Barbosa
Oboé: Braz Lim onge Filho
Trom petes: Mozart Itaussu, Heraldo Reis e Zé Barreto Sobrinho Trom bones: Nelson Martins dos Santos e Silvio Barbosa Tím panos: José de Aguiar Ribeiro
Coro: Valdir, Renato, Malu, Milton e Novelli
Voz: Milton Nascim ento
Arranj o e Regência: Radam és Gnatalli
Técnicos de som : Toninho e Nivaldo
3. Hoje é Dia de El Rey (Milton Nascim ento e Márcio Borges)
1ª Parte
Violão: Nelson Angelo
Voz: Milton Nascim ento
Percussão: Naná Vasconcelos
Bateria: Paulinho Braga
Piano elétrico: Wagner Tiso
Órgão: Novelli e Wagner Tiso
Sax: Paulo Moura
Regência: Milton Nascim ento
2ª e 3ª Partes
Vozes: Milton Nascim ento e Sirlan
Violão: Milton Nascim ento
Guitarra: Nelson Angelo
Baixo e piano: Novelli
Percussão: Naná Vasconcelos
Pianarpa: Wagner Tiso
Órgão: Wagner Tiso
Sax tenor: Nivaldo Ornelas
Bateria: Paulinho Braga
4ª Parte
Vozes: Milton Nascim ento e Sirlan
Baixo: Novelli
Percussão: Naná Vasconcelos
Bateria: Robertinho Silva
Violão: Nelson Angelo
Sax tenor: Nivaldo Ornelas
Arranj o: Wagner Tiso
Regência: Paulo Moura
Coro: Milton Nascim ento, Sirlan, Gonzaga Jr. e Novelli Violinos: Giancarlo Pareschi (spalla), Alberto Jaffé, Alfredo Vidal, Jerzy Milewsky, Nathercia Teixeira, Aizik Geller, Robert Arnaud e José de Lana
Violas: Murillo Loures e Arlindo Penteado
Cellos: Peter Dauelsberg e Alceu de Alm eida Reis Técnicos de som : Nivaldo, Toninho e Dacy
4. A Última Sessão de Música (Milton Nascim ento)
Piano: Milton Nascim ento
Com pacto Bônus
Lado A
1. Cadê (Milton Nascim ento e Ruy Guerra)
Vozes: Nico Borges, Telo Borges e Milton Nascim ento Bateria: Paulinho Braga
Baixo: Novelli
Guitarra: Nelson Angelo
Percussão: Naná Vasconcelos e Robertinho Silva Violão: Milton Nascim ento
Piano elétrico: Wagner Tiso
Técnicos de som : Toninho e Dacy
Lado B
1. Sacramento (Nelson Angelo e Milton Nascim ento)
Violões: Nelson Angelo e Milton Nascim ento
Voz: Milton Nascim ento
Baixo com arco: Novelli
Percussão: Naná Vasconcelos
Sax soprano: Nivaldo Ornelas
Órgão: Wagner Tiso
Técnicos de som : Toninho e Dacy
2. Pablo (Milton Nascim ento e Ronaldo Bastos)
Voz: Nico Borges
Piano: Milton Nascim ento
Baixo elétrico: Novelli
Baixo com arco: Novelli
Percussão: Naná Vasconcelos
Violinos: Giancarlo Pareschi (spalla), Alberto Jaffé, Alfredo Vidal, Jerzy Milewsky, Nathercia Teixeira, Aizik Geller, Robert Arnaud e José de Lana
Violas: Murilo Loures e Arlindo Penteado
Cellos: Peter Dauclsberg e Alceu de Alm eida Reis Flautas: Copinha e Jorginho
Trom pas: Zdenek Svad e Geraldo Pereira Mello
Sax alto: Paulo Moura
Carrilhão: Alfredo de Souza Saraiva
Arranj o: Wagner Tiso
Regência de cordas: Paulo Moura
Regência de m etais: Wagner Tiso
Técnicos de som : Toninho e Dacy