1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 33 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

A Arte de Colocar no Som o que a Censura Tirou da Letra... E Fazer um Disco Revolucionário

A ARTE DE COLOCAR NO SOM O QUE A CENSURA TIROU DA LETRA... E

FAZER UM DISCO REVOLUCIONÁRIO

MILAG RE DOS PEIXES − MILTON NASCIMENTO

 

Luiz Maciel

 

eis anos depois de inaugurar um a nova vertente da MPB com m elodias belíssim as – que críticos m ais apressados classificaram

 

S de “toada m ineira”, m as que na verdade tinham um pouco de tudo, de bossa nova a m oda caipira, de bolero a ritm os africanos –, Milton Nascim ento se preparava em 1973 para surpreender o país com um disco diferente de tudo o que havia sido feito antes: Milagre dos Peixes. Os quatro lançam entos anteriores de Bituca j á haviam dado a ele a fam a de com positor perfeccionista, que não m edia esforços para descobrir o arranj o ideal para cada m úsica, transform ando as sessões de gravação em verdadeiros happenings, com a participação de quantos instrum entistas e intérpretes de apoio j ulgasse necessários. Milagre dos Peixes representaria naturalm ente um novo avanço nessa eterna busca de Milton pelo som m ais sublim e, se tudo ocorresse com o previsto. Mas acabou indo além do com binado e se transform ando num disco de caráter ainda m ais revolucionário, apesar da ausência de letras na m aioria das m elodias. Milagre dos Peixes, na verdade, foi um sobrevivente notável de um dos ataques m ais raivosos da censura a um a obra de arte nesse ano de 1973, últim o do “m ilagre econôm ico” e penúltim o do m andato do general Em ílio Médici, o ditador no poder.

Cuidadoso na escolha dos seus parceiros, Bituca havia convocado seus três colaboradores m ais tradicionais – Márcio Borges, Fernando Brant e Ronaldo Bastos – para participar do disco, decidindo sozinho as m úsicas que caberiam a cada um deles. Esse era o seu m étodo de trabalho, aceito sem contestação pelos letristas. “Nunca cheguei a entender claram ente seus critérios de distribuição de m elodias. Não eram claros. Mas eram rigorosos”, revela Márcio Borges em seu livro Os Sonhos Não Envelhecem – Histórias do Clube da Esquina. “Quando nos m ostrava os esboços que logo depois se transform ariam em canções clássicas (...), eu achava perfeito o seu tino; sem pre m e cabiam canções que adorava, ainda que um a vez ou outra tenha ficado com ciúm es na hora da distribuição.”

Em Milagre dos Peixes, porém , esse processo foi subvertido por um tim e de parceiros indesej ados e de péssim o gosto, os censores, que parecia determ inado a arruinar todo um trabalho m eticulosam ente construído. Com eçaram cortando praticam ente na íntegra as letras das m úsicas “Cadê”, “Os escravos de Jó” e “Hoj e é dia de El Rey ”. Milton ficou arrasado num prim eiro m om ento, m as pouco a pouco encontrou forças para resistir. Se não podia usar as letras, decidiu, então que gravaria as m úsicas apenas com sua voz, m as usaria seu vasto repertório de m odulações para im prim ir, de algum a m aneira, as em oções que os censores haviam suprim ido dos textos. “Vou gravar de qualquer j eito. Vou botar no som tudo o que eles tiraram na letra. Eles vão se ver com igo”, desabafou ao am igo Márcio Borges.

Adiar o proj eto de Milagre dos Peixes por causa da censura teria sido m esm o um golpe ainda m ais duro do que os próprios vetos im postos pelos censores. Com o sucesso do álbum duplo Clube da Esquina, lançado um ano antes, a Odeon não tinha m ais receio de investir em um a nova edição luxuosa de seu artista, que àquela altura não só se firm ara com o um dos m ais prestigiados do país, com o arrancava elogios até de críticos e m úsicos fam osos do exterior. O diretor de produção da gravadora, Milton Miranda, apoiava todas as reivindicações de Bituca para dar ao disco o m elhor padrão técnico possível, e tam bém não queria, de m odo algum , desperdiçar esse bom m om ento. Das 11 faixas selecionadas para o álbum , Milton j á havia decidido gravar cinco com a m elodia sem letra – m as viu esse núm ero crescer subitam ente para oito por causa dos vetos da censura, dando a Milagre dos Peixes um caráter ainda m ais instrum ental. As únicas três letras que não sofreram m utilações foram as da faixa-título “Milagre dos peixes”, de autoria de Fernando Brant; a de “Pablo”, hom enagem de Bituca ao filho recém -nascido, que foi escrita por Ronaldo Bastos; e a de “Sacram ento”, feita pelo próprio Milton para um a com posição de Nelson Ângelo. As letras proibidas eram de Márcio Borges (“Hoj e é dia de El Rey ”), Fernando Brant (“Os escravos de Jó”) e do cineasta Ruy Guerra (“Cadê”) – com quem Milton havia trabalhado em 1969 no film e Os Deuses e os Mortos, encarregando-se da trilha sonora e assum indo até um a ponta de ator. Para deixar claro que a ausência de letras nessas m úsicas não era um a opção sua, Bituca m anteve o crédito dos parceiros nas faixas censuradas. Resolveu, ainda, divulgar os nom es de todas as pessoas que participaram das gravações, incluindo os técnicos de som , que j am ais apareciam em disco algum . O resultado é que Milagre dos Peixes passou a ser o álbum com a ficha técnica m ais detalhada da discografia brasileira até aquele ano.

Com o j á era tradição, Bituca convidou um exército de m úsicos para participar do disco e não se lim itou a cantar – em punhou o violão e o piano em várias faixas. A direção m usical foi entregue ao m aestro Lindolpho Gay a. Wagner Tiso esteve presente em quase todas as faixas, ora com andando o piano elétrico, ora o acústico, ora o órgão. Novelli se encarregou do baixo, m as tam bém tocou piano em um a gravação e em outra aj udou o tim e da percussão, form ado por Paulinho Batera, Naná Vasconcelos e Robertinho Silva. Nelson Ângelo se dividiu entre o violão, a viola e a guitarra. Paulo Moura e Nivaldo Ornellas com pareceram com o sax. Um conj unto de oito violinos, dois cellos e duas violas reforçaram a sonoridade de “Milagre dos peixes” e “Hoj e é dia de El Rey ”. Além desses, foram convocados ainda para a execução de “Tem a dos deuses” três ases do trom pete, dois do trom bone e outros seis para tocar flauta, clarinete, trom pa, fagote, oboé e tím panos, todos sob a regência de Radam és Gnatalli. Mais que qualquer instrum ento, porém , brilharam no disco as vozes de Bituca e seus convidados. Entre eles, Clem entina de Jesus, que contribuiu com seu vozeirão no “lá-lá-lá” de “Os escravos de Jó”; Sirlan, que fez contraponto a Milton em “Hoj e é dia de el rey ”; e o pequeno Nico Borges, irm ão de Márcio e Lô, que interpretou “Pablo”. O coro, usado em algum as canções, j untou, sem distinção, quem estivesse a trabalho ou a passeio no estúdio – com o Gonzaguinha, por exem plo.

A crítica não ficou indiferente a tam anha riqueza sonora. “Milton Nascim ento está realizando a obra m ais rica em nuances e um a das m ais perfeitas tecnicam ente dentro da m úsica popular de nossos dias”, saudou o colunista Marcus Vinícius na edição de 19 de setem bro de 1973 da Folha de S. Paulo. “No seu m ais recente disco, Milagre dos Peixes, Milton Nascim ento põe, bem à vista de todos, os dados sonoros que constituem sua atual linguagem : o triângulo form ado pela m úsica m ineira, pela m úsica latino-am ericana e pela m úsica afro. (...) Os elem entos novos não entram em oposição com os padrões antigos m as, ao contrário, acrescentam -se a estes.”

Tárik de Souza, na edição de 11 de j ulho da revista Veja, destacou a m aneira com o Milton soube com pensar o texto cortado pelos censores com sua voz poderosa. “Sem a preocupação de concentrar-se em letras que j á não existiam , Milton deixou sua voz soltar-se absolutam ente à vontade. E seus contorcionism os vocais nunca poderão ser considerados gratuitos. Na verdade, estão sem pre diretam ente ligados a um conteúdo em ocional, que o cantor é obrigado a transm itir sem o auxílio das palavras. (…) E a m aneira com o ele consegue passar essa im pressão apenas através dos sons sem palavras parece um a prova irrecusável de que certos m ilagres existem , quando perm itidos”, com pletou Tárik.

Outra inovação de Milagre dos Peixes, bolada pelo sem pre m eticuloso Bituca, foi a sua em balagem de concepção arroj ada, com a estrutura de um pôster com três dobraduras, dentro do qual se aloj ava um LP com oito faixas, um disco com pacto com outras três m úsicas – “Sacram ento”, “Cadê” e “Pablo nº 1” – e cinco folhas soltas, em cores cham ativas, com as fichas técnicas das m úsicas. Em papelão reforçado, a capa-pôster trazia a im agem em close de um a m ão envolvendo um bebê, na parte de fora, e um garotinho com roupa de m arinheiro, na de dentro. O garotinho da parte de dentro é o próprio Milton. Nos velhos tem pos dos discos de vinil, a apresentação caprichada dos álbuns m usicais era um poderoso elem ento de venda – que as gravadoras, especialm ente a Odeon, sabiam valorizar.

O disco se consolidaria, enfim , com o a m ais expressiva am ostra da grande fusão m usical característica da obra de Milton. A faixa “Os escravos de Jó” é um a releitura de velhos cantos africanos, em balada pela percussão forte e a voz m arcante de Clem entina de Jesus. “Milagre dos peixes” e “Pablo” (que se divide em duas partes) expressam a latinidade sem pre valorizada nas com posições de Bituca. “A cham ada”, da trilha do film e Os Deuses e os Mortos, e “Carlos, Lúcia, Chico e Tiago”, que Milton preferiu m anter apenas com o tem as m usicais, sem letra, lem bram cantos gregorianos. Milton reconheceu na época todas essas influências, e as tratava com o contribuições preciosas ao seu processo de criação, em bora desprezasse todos os rótulos. À falta de um a definição m elhor, Milagre dos Peixes – assim com o todos os dem ais discos de Bituca – costum a ser exposto no exterior na seção de “world m usic”, que abriga os lançam entos que não se enquadram nos estilos m usicais tradicionais. Milton não dá im portância a essas tentativas de classificação. Ele só concorda inteiram ente com um a que viu estam pada num a casa de shows em que se apresentou certa vez na Dinam arca. “Ao lado do nom e de cada artista contratado eles colocavam o gênero m usical. Miles Davis, j azz; Bob Marley, reggae; e assim por diante. E lá eu era apresentado com o Milton Nascim ento, Milton. Adorei aquilo”, adm itiria Bituca.

 

Milagre dos Peixes (Odeon − SMOFB 3762)

Diretor de Produção: Milton Miranda

Diretor Musical: Maestro Gay a

Supervisão Musical: Milton Nascim ento

Assistente de Produção: Manoel Moraes

Diretor Técnico: Z. J. Merky

Técnico de Laboratório: Renny R. Lippi

Técnico de Rem ixagem : Nivaldo Duarte

Capa: Noguchi

Foto: Noguchi e Ronaldo Cientista

 

Lado A

1. Os Escravos de Jó (Milton Nascim ento e Fernando Brant)

Violão: Milton Nascim ento

Viola: Nelson Angelo

Bateria: Paulinho Braga

Percussão: Naná Vasconcelos, Novelli e Paulinho Berim bau: Naná Vasconcelos

Efeitos vocais: Milton Nascim ento e Naná

Voz: Clem entina de Jesus

Vozes: Milton Nascim ento, Naná, Sirlan, Nico Borges e Telo Borges

Técnicos de som : Nivaldo e Dacy

2. Carlos, Lúcia, Chico e Tiago (Milton Nascim ento)

Voz: Milton Nascim ento

Baixo: Novelli

Piano: Wagner Tiso

Percussão: Naná Vasconcelos

Orgão: Wagner Tiso

Sax: Paulo Moura

Piano: Milton Nascim ento

Técnicos de som : Nivaldo e Dacy

3. Milagre dos Peixes (Milton Nascim ento e Fernando Brant)

Voz: Milton Nascim ento

Viola: Nelson Angelo

Violão e sussurro: Milton Nascim ento

Percussão: Naná Vasconcelos

Piano elétrico: Wagner Tiso

Baixo: Novelli

Efeitos: Sirlan, Nelson Angelo, Maurício Mendonça e Naná Sax: Paulo Moura

Arranj os: Wagner Tiso

Regência de cordas: Paulo Moura

Regência dos dem ais instrum entos: Milton Nascim ento Violinos: Giancarlo Pareschi (spalla), Alberto Jaffé, Alfredo Vidal, Jerzy Milewsky, Nathercia Teixeira, Aizik Geller, Robert Arnaud e José de Lana

Violas: Murillo Loures e Arlindo Penteado

Cellos: Peter Dauelsberg e Alceu de Alm eida Reis Técnico de som : Toninho

4. A Chamada (Milton Nascim ento)

Violão: Milton Nascim ento

Voz: Milton Nascim ento

Efeitos: Naná, Milton, Sirlan, Cafi, Ronaldo e Nico Técnicos de som : Dacy e Toninho

Lado B

1. Pablo Nº 2 (Milton Nascim ento e Ronaldo Bastos)

Baixo: Novelli

Violão: Milton Nascim ento

Viola: Nelson Angelo

Percussão: Naná e Robertinho Silva

Festa: Novelli, Milton Nascim ento, Naná Vasconcelos, Nelson Angelo, Robertinho Silva, Wagner Tiso, Sirlan, Gonzaga Jr. e Maurício Mendonça

Cavaquinho: Daudeth de Azevedo

Vozes: Milton Nascim ento, Sirlan e Novelli

Técnico de som : Toninho

2. Tema dos Deuses (Milton Nascim ento)

Violão: Milton Nascim ento

Viola: Nelson Angelo

Baixo: Novelli

Piano: Wagner Tiso

Bateria: Paulinho Braga

Percussão: Naná Vasconcelos

Violinos: Giancarlo Pareschi (spalla), Alberto Jaffé, Alfredo Vidal, Jerzy Milewsky, Nathercia Teixeira, Aizik Geller, Robert Arnaud e José de Lana

Violas: George Kiszely e Arlindo Penteado

Cellos: Peter Dauclsberg e Alceu de Alm eida Reis Flauta: Copinha

Clarinete: Paulo Moura

Trom pa: Luiz Candido da Costa (Pirulito)

Fagote: Airton Lim a Barbosa

Oboé: Braz Lim onge Filho

Trom petes: Mozart Itaussu, Heraldo Reis e Zé Barreto Sobrinho Trom bones: Nelson Martins dos Santos e Silvio Barbosa Tím panos: José de Aguiar Ribeiro

Coro: Valdir, Renato, Malu, Milton e Novelli

Voz: Milton Nascim ento

Arranj o e Regência: Radam és Gnatalli

Técnicos de som : Toninho e Nivaldo

3. Hoje é Dia de El Rey (Milton Nascim ento e Márcio Borges)

1ª Parte

Violão: Nelson Angelo

Voz: Milton Nascim ento

Percussão: Naná Vasconcelos

Bateria: Paulinho Braga

Piano elétrico: Wagner Tiso

Órgão: Novelli e Wagner Tiso

Sax: Paulo Moura

Regência: Milton Nascim ento

2ª e 3ª Partes

Vozes: Milton Nascim ento e Sirlan

Violão: Milton Nascim ento

Guitarra: Nelson Angelo

Baixo e piano: Novelli

Percussão: Naná Vasconcelos

Pianarpa: Wagner Tiso

Órgão: Wagner Tiso

Sax tenor: Nivaldo Ornelas

Bateria: Paulinho Braga

4ª Parte

Vozes: Milton Nascim ento e Sirlan

Baixo: Novelli

Percussão: Naná Vasconcelos

Bateria: Robertinho Silva

Violão: Nelson Angelo

Sax tenor: Nivaldo Ornelas

Arranj o: Wagner Tiso

Regência: Paulo Moura

Coro: Milton Nascim ento, Sirlan, Gonzaga Jr. e Novelli Violinos: Giancarlo Pareschi (spalla), Alberto Jaffé, Alfredo Vidal, Jerzy Milewsky, Nathercia Teixeira, Aizik Geller, Robert Arnaud e José de Lana

Violas: Murillo Loures e Arlindo Penteado

Cellos: Peter Dauelsberg e Alceu de Alm eida Reis Técnicos de som : Nivaldo, Toninho e Dacy

4. A Última Sessão de Música (Milton Nascim ento)

Piano: Milton Nascim ento

Com pacto Bônus

Lado A

1. Cadê (Milton Nascim ento e Ruy Guerra)

Vozes: Nico Borges, Telo Borges e Milton Nascim ento Bateria: Paulinho Braga

Baixo: Novelli

Guitarra: Nelson Angelo

Percussão: Naná Vasconcelos e Robertinho Silva Violão: Milton Nascim ento

Piano elétrico: Wagner Tiso

Técnicos de som : Toninho e Dacy

Lado B

1. Sacramento (Nelson Angelo e Milton Nascim ento)

Violões: Nelson Angelo e Milton Nascim ento

Voz: Milton Nascim ento

Baixo com arco: Novelli

Percussão: Naná Vasconcelos

Sax soprano: Nivaldo Ornelas

Órgão: Wagner Tiso

Técnicos de som : Toninho e Dacy

2. Pablo (Milton Nascim ento e Ronaldo Bastos)

Voz: Nico Borges

Piano: Milton Nascim ento

Baixo elétrico: Novelli

Baixo com arco: Novelli

Percussão: Naná Vasconcelos

Violinos: Giancarlo Pareschi (spalla), Alberto Jaffé, Alfredo Vidal, Jerzy Milewsky, Nathercia Teixeira, Aizik Geller, Robert Arnaud e José de Lana

Violas: Murilo Loures e Arlindo Penteado

Cellos: Peter Dauclsberg e Alceu de Alm eida Reis Flautas: Copinha e Jorginho

Trom pas: Zdenek Svad e Geraldo Pereira Mello

Sax alto: Paulo Moura

Carrilhão: Alfredo de Souza Saraiva

Arranj o: Wagner Tiso

Regência de cordas: Paulo Moura

Regência de m etais: Wagner Tiso

Técnicos de som : Toninho e Dacy