1973: O Ano que Reinventou a MPB
Quelé Pede Sempre Mais
MARINHEIRO SÓ − CLEMENTINA DE JESUS
Luís Pimentel
“Rainha negra da voz / Mãe de todos nós”
(Moacyr Luz e Aldir Blanc)</ br>
u acabara de chegar ao Rio de Janeiro, em 1975, vindo do interior da Bahia, quando, futucando a coleção de LPs de um
E am igo, bati o olho naquele vinil de capa curiosa e bem m oderna para os tem pos idos. Mostrava um a senhora negra, de costas, traj ando vestido de m angas com pridas m eio branco e m eio am arelado, com um as bolinhas ou pontos am arronzados no tecido. No pé da capa, estava escrito CLEMENTINA DE JESUS (com letras m aiúsculas) e Marinheiro Só (em m aiúsculas e m inúsculas). Os detalhes gráficos que reproduzo, aparentem ente desnecessários, são para dizer o quanto o long play – lançado dois anos antes m as que só então eu tom ara conhecim ento – m e im pressionou, a partir da capa.
A canção-título eu j á conhecia, de gravação anterior feita pelo próprio Caetano Veloso, o adaptador dos belíssim os versos a partir de dom ínio público: “Eu não sou daqui / Eu não tenho am or / Eu sou da Bahia de São Salvador /... Ô, m arinheiro, m arinheiro...” Mas a interpretação era bem diferente. A voz de Clem entina de Jesus saía da m odesta caixa de som do m eu am igo, batia na parede e voltava com o um trovão a se espalhar pela sala, arrepiando até o forro do sofá. A pronúncia de “am ooorrrr” se estendia em delicioso ritm o, e o “Bahiiiaaa” parecia um a evocação de pranto e de saudade.
O que era aquilo?
Um a das faixas, de um de m eus com positores preferidos à época e ainda e sem pre, m e fez praticante prender a agulha (sim , velhos tem pos das vitrolas!) na bolacha: um m im o de Paulinho da Viola ao sam ba de roda, ao partido alto e à própria Clem entina, por quem o príncipe do sam ba nutria profunda adm iração.
Marinheiro Só (Odeon) j á nasceu nobre, fruto de um a im portante dinastia discográfica das m ais relevantes. A prim eira vez que se pode ouvir a voz de Clem entina im pressa no vinil foi em 1965 com a prim eira edição do LP Rosa de Ouro, que reunia a artista acom panhada de Aracy Cortes e do Conj unto Rosa de Ouro, que ganharia um segundo volum e em 1967. O ano de 1966 foi de sua estreia solo, num disco só seu. No repertório, dez m úsicas seis folclóricas, de dom ínio público. Nobre com o só ela, a rainha negra ainda teve lançados antes deste Marinheiro dois discos fundam entais na história da m úsica brasileira: um em parceria com Pixinguinha e João da Baiana, batizado de Gente Antiga, e outro com baluartes da verde rosa, cham ado de Fala Mangueira, que dava voz a ela, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Odete Am aral e Cartola. Em 1970 foi lançado o segundo disco solo de Quelé: Clementina, Cadê Você? Das 12 faixas do discos apenas três não eram de dom ínio público, entre elas “Sei lá Mangueira”, de Paulinho da Viola e Herm ínio Bello de Carvalho.
No início da era do CD, a gravadora Odeon, que lançou boa parte de sua discografia dentro de um a série cham ada Dois em Um, colocou no m esm o CD os LPs Marinheiro Só e Gente da Antiga.
O LP Marinheiro Só levou m ais luz ao oceano de talento que era Clem entina. O sam ba de roda que dá título ao disco foi adaptado por Caetano e a voz de Clem entina, som ada aos arranj os de Nelsinho (Nelson Martins dos Santos), responsável ainda por todos os arranj os do álbum , dava outra dim ensão sobre a festa. Um disco cheio de achados. “Na linha do m ar”, de Paulinho da Viola, bem antes do estrondoso sucesso radiofônico de Clara Nunes, em 1979, Clem entina entoou de form a brilhante os versos onde o galo cantava às quatro da m anhã e o céu havia azulado na linha do m ar. Na sequência ela canta “Madrugada”, de Antônio Mota Miranda.
O ano de 1973 foi m esm o para tocar no rádio. Novos talentos lançaram suas bolachas históricas, veteranos cristalizaram o brilho e o prestígio, revelações e reverências, com o a do cearense Belchior (“Sei que, assim falando, pensas que esse desespero é m oda em 73”...) cobriram o ano de harm onias, m assagens no im aginário e esperança de dias artisticam ente m elhores.
A continuação do repertório de Marinheiro Só, tem “Sai de baixo” (Eduardo Marques), “Taratá” (um a j oia de dom ínio público, originária talvez do Vale do Paraíba e adaptada pela própria Quelé), “Moro na roça” (um prim or de partido para im provisos, adaptado por dois m estres da Mangueira, Jorge Zagaia e Xangô. Posteriorm ente, tornou-se sucesso tam bém do repertório do próprio partideiro) e um pot-pourri de travar os m úsculos que tinha “Oração para Mãe Menininha” (Dorival Cay m m i) e “Abaluaê” (Waldem ar Henrique), além de m ais duas adaptações da própria intérprete, “Atraca-atraca” e “Incelença”. Fechando a festa, a volta ao com eço, a deliciosa “Me dá m eu boné”, do genial e esquecido Padeirinho da Mangueira (Oswaldo Vitalino de Oliveira), na qual ela avisa que vai em bora, pois brincadeira tem hora.
Marinheiro Só é, portanto, além da revelação em term os nacionais de um a estrela que até então só os bem enfronhados no m undo do sam ba conheciam , a reconsagração de Dorival Cay m m i, com a arrepiante e com ovente hom enagem à personagem m ística do Gantois; a plenitude criativa de Paulinho da Viola; e a oportunidade para quem não conhecia passar a conhecer um dos m ais com petentes operários do sam ba, o craque Padeirinho, entre tantos outros pontos positivos.
Para Clem entina de Jesus, feita para vadiar, brincadeira não tinha hora. E ela brincou de cantar enquanto a saúde perm itiu, sem fazer questão de palcos luxuosos ou de reverência. Foi descoberta exatam ente em am biente m usical inusitado, durante um a cantoria entre am igos.
De acordo com a m aioria dos registros, Clem entina de Jesus teria nascido em 1901. Segundo outros m enos votados, poderia ter nascido tam bém em 1900, em 1902 ou até m esm o em 1907. É que os cartórios de Valença (RJ), onde a cantora veio ao m undo, se em baralham seriam ente com seus registros de início do século passado. Com eçou a cantar só aos 63 anos de idade, depois de ser descoberta pelo poeta e produtor Herm ínio Bello de Carvalho. Clem entina entoava uns cantos religiosos entre am igos e cervej as na Taberna da Glória, quando Herm ínio bateu os ouvidos em sua voz de pedra rachada e viu ali o diam ante bruto que poderia e deveria ser lapidado (m as não tanto).
Quelé logo tornou-se am iga do produtor, para quem desfiou um rosário de j ongos, em boladas, lundus e incelênças de fazer chorar. Algum tem po depois, Clem entina j á brilhava ao lado de outros am igos (desta vez, Aracy Cortes, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Nelson Sargento e Anescarzinho do Salgueiro), no espetáculo m usical Rosa de Ouro, concebido e dirigido pelo próprio Herm ínio. Quem não viu o show tom ou conhecim ento daquela voz particularíssim a no ano seguinte, quando foi lançado o disco com o repertório do show. E o am or entre Clem entina e a MPB foi sem pre igualzinho ao am or que uniu a artista e Herm ínio: à prim eira vista, ao prim eiro som , ao prim eiro batuque.
Além do naipe de com positores presentes em Marinheiro Só, Clem entina de Jesus gravou ainda outro grandes autores, com o Pixinguinha (“Benguelê”), Wilson Batista (“Mulato calado”), Bubu e Jam elão (“Esta m elodia”), Zé Ram os da Mangueira (“Nasceste de um a sem ente”), Cartola (“Alegria e Ensaboa”), Paulo da Portela (“Olhar assim ”), João Bosco e Aldir Blanc (“Incom patibilidade de gênios e Honorato”) e Dona Ivone Lara (“Sonho m eu”).
Sem pre que vej o nos j ornais referências a discos m ais “vendidos” e cantoras idem , eu penso: Clem entina nunca frequentou essas paradas, coitada. Vendia pouco (Gravou cinco discos solo, dois com o título Clementina de Jesus, além do Clementina, Cadê Você? e de Marinheiro Só, e fez diversas participações, com o em Rosa de Ouro (o belíssim o show do Herm ínio), Cantos de Escravos, Clementina e Convidados e até um a participação em disco (Milagre dos peixes) de um cantor que sem pre pareceu seu filho artístico, pérola da m esm a linhagem vocal, Milton Nascim ento.
Quelé foi apreciada por poucos e raros. Afastou-se dos palcos e dos estúdios delicadam ente. E delicadam ente ela nos deixou no dia 19 de j ulho de 1987. Que falta nos faz sua voz raríssim a de trovão sagrado, nesses tem pos de chuva m iúda.
Marinheiro Só (Odeon − SMOFB 3787)
Diretor de produção: Milton Miranda
Diretor m usical: Maestro Gay a
Assistente de produção: Herm ínio Bello de Carvalho
Orquestrador e regente: Maestro Nelsinho
Diretor técnico: Z. Merky
Técnico de gravação: Toninho e Dacy
Técnico de laboratório: Reny Lippi
Técnico de rem ixagem : Nivaldo Duarte
Lay out: Joel Cocchiararo
Fotos: Walter Firm o
Lado A
1. Marinheiro Só (tradicional, adapt. Caetano Veloso)
2. Na Linha do Mar (Paulinho da Viola)
3. Madrugada (Antônio Motta e B. Miranda)
4. Sai de Baixo (Eduardo Marques)
5. Taratá (tradicional, adapt. Clem entina de Jesus)
6. Essa Nega Pede Mais (Paulinho da Viola)
Lado B
1. Moro na Roça (tradicional, adapt. Xangô da Mangueira e.
Jorge Zagaia)
2. Cinco Cantos Religiosos:
a) Oração de Mãe Menininha (Dorival Cay m m i) b) Fui Pedir às Almas Santas (tradicional, adapt. Clem entina de Jesus)
c) Atraca Atraca (tradicional, adapt. Clem entina de Jesus) d) Incelença (tradicional, adapt. Clem entina de Jesus) e) Abaluaiê (Waldem ar Henrique)
3. Marinheiro Só (tradicional, adapt. Caetano Veloso)
Me Dá o Meu Boné (Padeirinho)