1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 18 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

Clássico Pop Instrumental

PRELUDE − EUMIR DEODATO

 

André Agra

 

uando soube da ideia do proj eto do livro sobre os álbuns m ais im portantes que foram lançados em 1973 achei genial. Eu não

 

Q tinha noção da im portância desse ano para a m úsica brasileira, m as o fato de ser o ano que nasci m e despertou um a curiosidade enorm e. Inclusive pensei qual seria o grau de influência desses discos na m inha vida profissional. No m om ento que o Célio Albuquerque m e cham ou para escrever sobre um dos álbuns lançados em 73 senti um prazer enorm e em entrar no universo desse ano e entender as influências que esses álbuns tiveram na m inha form ação m usical. Sim , apesar de terem sido lançados no ano em que eu nasci, lem bro que alguns deles rolavam na vitrola da m inha casa quando eu era criança e de certo influenciaram m inha carreira com o m úsico e produtor e m inha paixão pela m úsica.

O álbum em questão é Prelude, de Eum ir Deodato. Ao contrário do que alguns possam pensar, Eum ir tem um a bagagem profissional que vai além de ter sido o responsável pelos arranj os do proj eto Viva Tom Jobim, de Vanessa da Matta, em 2013. O m úsico, arranj ador, produtor e m aestro iniciou seus estudos m usicais no acordeom , cursou a Academ ia Mascarenhas de Moraes e fez um curso por correspondência na Berklee School of Music. Em 64, ainda m orando no Brasil, participou do grupo Los Danceros, criado pela gravadora Equipo Discos. Mais adiante o grupo passou a se cham ar Os Catedráticos. Era um grupo de m úsica dançante para fazer frente ao conj unto de Ed Lincoln, que na época era considerado o rei dos bailes. A gravadora dava a Deodato a liberdade de escolher seu repertório. Além de tocar m úsica brasileira (especialidade do conj unto de Lincoln), o grupo de Eum ir tocava m úsicas de vários estilos e países. Foram diversos discos que lhe possibilitaram testar form ações, ritm os e tim bres diferentes. Talvez essa diversidade tenha sido um a das principais razões de Deodato se transform ar em um artista/arranj ador/m úsico/produtor tão versátil.

Eum ir foi m orar nos Estados Unidos em 1968 a convite de Luiz Bonfá e por lá ainda está até hoj e, m as sem perder sua identidade brasileira. Lá Deodato com eçou a trabalhar com o produtor Creed Tay lor, responsável pelo lançam ento nos Estados Unidos de artistas brasileiros com o Antônio Carlos Jobim , João Gilberto e Astrud Gilberto pela sua gravadora CTI.

Apesar da versatilidade de estilos e ritm os, Deodato m antém um a unidade em seus arranj os. São m úsicas feitas para balançar, tocar o coração, alegrar as pessoas. Essa é a m issão que o fez participar, até aqui, de cerca de 500 proj etos em sua carreira.

Além de arranj os para discos de Bonfá, Tom Jobim , Frank Sinatra (sim ele é o responsável pelos arranj os do clássico disco que uniu o Rei da Voz e um dos pais da Bossa Nova), George Benson, Astrud Gilberto, Wes Montgom ery, Paul Desm ond, Bj örk, Gal Costa, Carlinhos Brown, Titãs e m uitos outros. São dele tam bém arranj os para trilhas de film es com o Orfeu Negro, Ghostbusters II, The Girl From Ipanema, The Gentle Rain, Bossa Nova e m uitos outros. Algum as de suas m úsicas tam bém foram usadas em film es com o no caso de O Exorcista.

Com o arranj ador, artista e produtor foram 16 álbuns de platina e 25 m ilhões de discos vendidos som ente nos Estados Unidos. Com o com positor teve m úsicas gravadas por George Benson, Lee Ritenour, Sarah Vaughan e The Em otions, entre outros.

Entre os proj etos m ais recentes está o CD The crossing (Expansion Records), de 2010, em que Deodato convida Al Jarreau, Londonbeat, Paco Sery, Airto Moreira, Billy Cobham , John Tropea & Novecento.

Em agosto de 2013 fui a um a exposição do pintor Roy Lichtenstein em Paris. Junto com Andy Warhol, Roy é um dos principais nom es do m ovim ento Pop Art. Ok, m as o que isso tem a ver com Eum ir Deodato? Lichtenstein, assim com o outros artistas do m ovim ento Pop Art, insere ideias de artistas clássicos e trechos de quadros fam osos convertendo-os em um a linguagem Pop e m escla essas ideias com suas próprias. Dentro dessa filosofia de recriar grandes clássicos, o produtor Creeg Tay lor sugeriu a Deodato regravar m úsicas clássicas fam osas. Creeg j á usava essa estratégia, de colocar pelo m enos um clássico em cada disco, para vários proj etos de sua gravadora. A aposta deu m uito certo no caso de Deodato, que recriou “Also sprach Zarathustra”, a prim eira faixa do seu disco Prelude (CTI/Top Tape). O disco, gravado em setem bro de 1972, foi lançado no Brasil em 1973 e produzido originalm ente nos Estados Unidos pela gravadora CTI.

O álbum é repleto de levadas dançantes, com o nos discos da época de Os Catedráticos. As percussões de Ray Barreto e Airto Moreira dão o clim a latino a todo o disco. A banda base é bem pop e form ada por bateria, baixo, percussões, teclado e guitarra. A essa form ação Pop se j untam cordas e sopros. Com um pouco m ais de 35 m inutos é possível viaj ar nos arranj os e em um enredo que tem com eço, m eio e fim .

Com solos do tam anho certo, contrastes de texturas e dinâm icas, ritm os dançantes e belas m elodias, Prelude provou que era possível fazer um a m úsica instrum ental e Pop ao m esm o tem po. Foi exatam ente nessa categoria, Pop instrum ental, que esse disco arrebatou o Gram m y de 1973, o prim eiro na carreira de Deodato. O disco tem um som m uito bom , foi gravado pelo engenheiro Rudy Van Gelder, em blem ático técnico de som que era responsável pelas gravações dos discos do selo Blue Note.

A prim eira faixa do álbum foi um sucesso trem endo, chegando a ficar entre os prim eiros no ranking Billboard am ericano de 1973. E não era qualquer m úsica. Era o trecho de um poem a sinfônico que ganhou versão funk-latino de 9 m inutos de duração. Mais tarde um a rádio da Califórnia fez alguns cortes surgindo então um a versão de 4 m inutos e m eio. A m úsica tocou m uito nas rádios do m undo todo, inclusive no Brasil, pois além de tudo a tal m úsica fez parte da trilha sonora internacional da telenovela O Bem-Amado.

O disco chegou a m arca de 5 m ilhões de cópias e resultou em 175 apresentações de Deodato nos m ais diferentes palcos do m undo. Mas, financeiram ente a coisa azedou entre Deodato e Creed Tay lor j á que o astro de Prelude acabou recebendo bem m enos do que deveria receber e as questões financeiras criaram um abism o entre eles. Em 1973 Deodato teve outro disco lançado na CTI/One Way, aqui no Brasil via Top Tape. Deodato 2 segue a linha de Prelude e tem no repertório um a obra de Maurice Ravel, “Pavane for a dead princess”. O show que Deodato fez em Nova Iorque, no dia 20 abril de 1973, com participação de Airto Moreira, j á a reboque do sucesso da peça de Strauss, acabou sendo lançado em 1974, pela m esm a CTI, à revelia de Deodato, que j á era contratado da MCA. As faixas 3 e 5 do disco são de Airto Moreira, que havia aberto o referido espetáculo.

FAIXA A FAIXA, NA FAIXA

Assim com o na arte pop de Lichtenstein, Deodato m istura elem entos e dá sua interpretação bem popular à obra de Richard Strauss. Enquanto a orquestra toca a m elodia dram ática que conhecem os com o tem a do film e de Kubrick 2001 − Uma Odisseia no Espaço, ouvim os um a levada pop dançante de bateria, baixo, Rhodes, guitarra, panderola e açucarada pelas congas. A faixa tem vários solos e em todos os seus 9 m inutos sente-se um clim a espontâneo daqueles que só se obtém no prim eiro take de gravação.

A segunda faixa, “Spirit of sum m er” (Eum ir Deodato), é daquelas baladas arrebatadoras. Mostrando que j á dom inava totalm ente as práticas de orquestração, Eum ir brinca com a orquestra, às vezes deixando a m elodia principal nos sopros com acom panham ento e contraponto nas cordas, em outros m om entos trocando essa função e outras vezes usando as cordas para acrescentar textura e dinâm ica. Aliás as texturas e dinâm icas são usadas m agistralm ente pelo arranj ador. O resultado… Não há com o descrever com palavras. É para ouvir e se em ocionar.

“Carly & Carole”, feita em hom enagem a Carly Siom on e Carole King, é a terceira faixa do álbum . Um a balada dançante latinada pela presença das congas de Ray Barreto. Aliás, as congas estão m uito presentes, não só neste álbum , m as em m uitos arranj os de Deodato desde os tem pos de Os Catedráticos. É difícil ouvir a m úsica sem balançar. A m elodia tocada em dueto Flauta/Rhodes dá um a leveza alegre e gostosa de se ouvir. Foi essa m úsica que teve um trecho utilizado no film e O Exorcista e por m uitos é conhecida com o a m úsica do xixi, no m om ento em que a m enina está possuída.

“Baubles, Bangles and Beads” (R. Wright e G. Forrest) – Versão para a m úsica do m usical Kismet é bem suingada e a m ais latinada de todas. Bem alegre e dançante. Mais um a vez aqui um tem a conhecido foi usado, m as travestido com elem entos pops.

“Prelude to the afternoon of a faun” (Claude Debussy ) é m ais densa que as outras faixas, com m elodias crom áticas e textura m isteriosa. O pop entra em ação na parte dos solos e com um a levada dançante, e lá estão as congas m ais um a vez em destaque.

O disco fecha com “Septem ber 13” (Eum ir Deodato e Billy Cobham ). Feita a partir de um a levada de bateria e teclado, essa faixa fecha o disco com a levada no m esm o espírito da prim eira faixa, o que dá um a sensação de ciclo concluído. Ouvir o disco do com eço ao fim faz m uito sentido e ao final dá a sensação de que concluím os um aprendizado.

Além de ser um a delicia de se ouvir, que é o que realm ente im porta, o álbum é tam bém um a aula para m úsicos, arranj adores e produtores. Tudo está com o deveria estar. Deodato é Pop e é Arte.

MUITO ALÉM DE UM PRELÚDIO (depoim ento de Eum ir Deodato)

Prelude, o disco, foi um proj eto praticam ente experim ental com diversos estilos dos quais o que deu m ais certo foi o “2001” em estilo Funk-Rock-Latin-Jazz...seguido no outro disco (Deodato 2) pelo arranj o bem funk de “Rhapsody in blue”...

Ao contrário do que alguns possam pensar, o grupo Os Catedráticos, conj unto que tive no Brasil na época da Bossa Nova, não teve absolutam ente nada a ver com a criação do Prelude. Enquanto o disco Os Catedráticos era quase o tem po todo m úsica dançante, com ritm os brasileiros, incluindo sam ba, bossa nova e às vezes um sabor de bolero abrasileirado... No Prelude optei por outra vertente, em bora o Prelude tenha tido um a faixa (“Carly & Carole”) que é um a bossa nova disfarçada de Latin Groove, a grande m aioria foi para outro lado... Minha decisão foi não seguir a Bossa Nova. Naquela época o m ercado am ericano tinha m uitos lançam entos de discos de Bossa. E eu queria fazer algo diferente.

O disco contou com a participação de m úsicos espetaculares com o Stanley Clark (baixo), Ray Barreto (percussão) e Billy Cobham (bateria), entre tantas feras. Foi um disco de repercussão m undial, tocando e vendendo bem em países com o Áustria, Alem anha, Holanda e Inglaterra, onde foi m uito bem recebido. No Brasil, apesar de tudo, não teve m uita repercussão, m esm o entrando em trilha sonora de telenovela.

Prelude acabou abrindo m uitas portas para m eu trabalho. E, consequentem ente para m uitos m úsicos brasileiros, especialm ente os ligados ao j azz com o Airto Moreira e Flora Purim . O com pacto com a m úsica do Strauss, do film e 2001 – Uma Odisseia no Espaço, chegou a ocupar o segundo lugar na parada am ericana, quando a Roberta Flack estava em prim eiro com um arranj o m eu para sua “Killing m e softly ”.

A capa do Prelude é um a foto de Pete Turner, fotógrafo m uito fam oso nos Estados Unidos, que era responsável pelas capas das produções do Creed Tay lor, que além de ter sido o produtor do Prelude tam bém foi responsável por discos do Stan Getz, João Gilberto, Astrud e Tom Jobim .

O Prelude foi um disco m uito im portante para m im . E com o foi im portante para m im , e eu continuo sendo brasileiro, eu acho que foi im portante para a m úsica brasileira porque relevou outra esfera de m úsica brasileira que ninguém no m undo conhecia que é o funk. A m úsica brasileiro tinha funk e foi o que influenciou o Earth, Wind & Fire, confessado por eles m esm os, pelo Maurice White.

 

Prelude (CTI/One Way/Top Tape − OW-519)

Produção: Creed Tay lor

Foto da capa: Pete Turner

Foto do encarte: Duane Michael

Engenheiro de som : Rudy Van Gelder

Design: Bob Ciano

Eum ir Deodato: piano e piano elétrico

Ron Carter: baixo

Stanley Clarke: baixo

Billy Cobham: bateria

John Tropea: guitarra

Jay Berliner: violão

Airto Moreira: percussão

Ray Barretto: congas

Trom petes: John Frosk, Marky Markowitz, Joe Shepley e Marvin Stam m

Trom bones: Way ne Andre, Garnett Brown, Paul Faulise, George Strakey e Bill

Watrous

Trom pas: Jim Buffington e Peter Gordon

Flautas: Hubert Laws, Phil Bodner, George Marge e Rom eo Penque

Violinos: Max Ellen, Paul Gershm an, Em anuel Green, Harry Loofkofsky, David Nadien, Gene Orloff e Eliot Rosoff

Violas: Em anuel Vardi e Al Brown

Cellos: Harvey Shapiro, Sey m ore Barab e Charles McKracken

Lado A

1. Also Sprach Zarathustra (Richard Strauss)

2. Spirit Of Summer (Eum ir Deodato)

3. Carlota e Carolina (Carly & Carole) (Eum ir Deodato)

Lado B

1. Baubles, Bangles And Beads (Alexander Borodin, Robert

Wright e George Forrest)

2. Prelude To Afternoon Of a Faun (Debussy )

3. September 13 (Eum ir Deodato e Billy Cobham )