1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 35 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

O Rei das Calçadas

NELSON CAVAQ UINHO − NELSON CAVAQUINHO

 

Álvaro Costa e Silva

 

LP Nelson Cavaquinho, gravado em 1973 nos estúdios da antiga Odeon, é um disco-síntese. Terceiro solo do genial

 

O com positor, produzido por J. C. Botezelli, o Pelão, é o m elhor registro fonográfico da sua carreira, no qual se alcançou um equilíbrio entre o Nelson real – o espontâneo, às vezes até dem ais, dos botequins e calçadas do Rio de Janeiro – e aquele nem sem pre à vontade com a sobriedade e a frieza dos estúdios de gravação.

Méritos para o paulista e bigodudo (na época, ainda não cultivava as barbas) Pelão, que no ano seguinte m arcaria m ais um golaço: o prim eiro disco de Cartola, feito na Marcus Pereira. O produtor teve liberdade para fazer, com Nelson Cavaquinho, o LP do j eito que ele queria e sonhava: o violão de cordas de aço, dedilhadas com palheta nervosa, com parece em todas as faixas. A voz enrouquecida e rascante de Nelson é a m esm a de sem pre, claro, m as está incrivelm ente bem com portada, se isso foi possível um dia. É com o se a voz fosse ela própria a m elodia e os versos, num a sim biose perfeita, autôm ata, bêbada. O acom panham ento do regional Odeon – m aestro Horondino Silva, o Dino Sete Cordas, no com ando – é afinado e discreto com o deve ser. O coro, idem .

No repertório, clássicos: “Juízo final”, “Folhas secas”, “A flor e o espinho”, “Quando eu m e cham ar saudade”, “Minha festa”. E porradas m enos conhecidas: “É triste cair”, “Visita triste”, “Pode sorrir”, “Rei vadio”, “O bem e o m al”. Num a das faixas, Nelson em punha o cavaquinho, o que não fazia há séculos, para tocar seu choro “Cam inhando”. E, fechando a síntese, ainda é apresentado ao público o parceiro m aior Guilherm e de Brito, que m anda quatro m úsicas da dupla. Os dois lados do vinil são cerca de 30 m inutos no paraíso – para quem gosta de Nelson Cavaquinho.

Escolher os 16 sam bas não deve ter sido fácil. Não há um registro preciso, m as Nelson Cavaquinho deve ter escrito m ais de 600 m úsicas ao longo de sua traj etória, m uitas das quais ele não se lem brava m ais de ter feito, algum as foram vendidas integralm ente, outras dadas em parceria na hora de gravar ou em troca de sim ples caitituagem . Daí a im portância de Guilherm e de Brito que, ao se tornar o parceiro m ais constante, quase único, de Nelson, a partir da década de 1950, em prestou, além do enorm e talento, algum a disciplina à coisa. Não à toa, os sam bas m ais lem brados e conhecidos são os da dupla.

Conversei com Carlos Cachaça sobre o errante processo que levava Nelson Cavaquinho a fazer m úsica. Era 1986, o ano em que Nelson havia m orrido, e a lem brança dele estava bem viva no am igo. Sentávam os no sofá da sala no Buraco Quente, e eu logo ligava o gravador. Na parede o retrato da prim eira form ação da ala de com positores da Estação Prim eira, Carlos ao lado do am igo, parceiro, com padre e concunhado Cartola.

A ideia era publicar um livro sobre o com positor e líder com unitário Carlos Moreira de Castro, cuj a história, àquela altura de seus 85 anos, confundia-se com a da Mangueira e com a da escola de sam ba que aj udara fundar em 1928. Inevitável que, nos bate-papos, surgisse o nom e de Nelson, que patrulhara a favela nos seus tem pos de soldado da Cavalaria da Polícia Militar, atividade que foi o tram polim para que se tornasse um com positor de sam ba.

Com Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho fez “Entre a cruz e a espada”: “Não sei o que faço / na cruz vej o a im agem de Nosso Senhor / e na espada vej o a tua im agem / quero disputar seu am or / m as m e falta coragem ”. Segundo o crítico Tárik de Souza, “no antagonism o vigoroso das im agens da letra j á se infiltrava a poética densa que caracterizaria o com positor, cuj o lirism o bailava nos lim ites entre a culpa e a transgressão, o m isticism o, a m orbidez e o êxtase am oroso”.

Em 1938 Carlos teve um a tendinha no Chalé, onde vendia de tudo um pouco, m as o forte era a cachaça e a sardinha frita. O lugar era frequentado por Cartola, Zé da Zilda, o com positor Moacir Bernardes, um cam arada conhecido com o Jiló, que era condutor de bonde, o Barra Mansa, futuro presidente da Estação Prim eira, e Nelson, que tom ava porres de j untar criança e dorm ia em cim a do balcão ou na porta da tendinha.

Depois Carlos e Nelson m oraram j untos num barraco nos altos do Pindura Saia, que batizaram com o nom e de Fenianos, o m esm o da grande sociedade carnavalesca, rival dos Dem ocráticos e dos Tenentes do Diabo nas ruas do Rio. Viviam sob o m esm o teto de zinco, m as não coincidiam nos horários. Aqui há de lem brar que Carlos Cachaça, m esm o honrando o apelido, foi funcionário exem plar da Rede Ferroviária Federal, na qual trabalhou durante 40 anos, até a aposentadoria, sem faltar um a vez ao serviço. Nelson, ao contrário, teve vida desregrada, não am iga do trabalho.

Pois Carlos só cruzava com Nelson quando saía de m anhã cedo para o batente e o am igo estava voltando da farra. Trazia o violão em baixo do braço e um sam ba com posto. Quando descia o m orro, no m eio da tarde, depois de curar a ressaca com algum caldo, j á tinha feito outro sam ba, cuj a qualidade ia testar nos botequins da Praça Tiradentes com eventuais com pradores.

Acontece que, na m aioria das vezes, m al com punha o sam ba, e j á o esquecia, segundo m e contou Carlos Cachaça: “O desprendim ento dele com a própria m úsica era coisa de outro m undo. Nessa época, o Nelson j am ais com pôs pensando em gravar, fazia por fazer, por felicidade e vocação. Tentei escrever as letras de alguns desses sam bas num caderno e decorar as m elodias, m as acabei perdendo tudo. O Nelson fazia sam ba para o tem po e para o esquecim ento.”

Nelson Antônio da Silva nasceu no dia 29 de outubro de 1911, na Rua Mariz e Barros, próxim a à Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro. Era filho da lavadeira Maria Paula da Silva, paraguaia de origem indígena, e Brás Antônio da Silva, negro, contram estre da Banda da Polícia Militar, tocador de tuba. Na certidão, o ano da nascim ento foi posteriorm ente alterado para 1910, para que Nelson pudesse ingressar na polícia e assim sustentar um casam ento precoce com Alice Ferreira Neves, a quem engravidara.

Com o a m ãe lavava roupa para as freiras carm elitas de Santa Teresa, levou Nelson para aprender religião – nascendo aí o seu fervoroso espírito cristão expresso nos sam bas. Outro de seus tem as prediletos, a m etafísica da m orte, deve-se, em parte, ao assom bro do m enino com os estragos – m ais de 14 m il óbitos no Rio – da gripe espanhola de 1918.

Morando na vila operária da Gávea e j á tendo im provisado um instrum ento com tam pa de caixa de charutos e barbantes esticados, Nelson foi apresentado a m úsicos com o Mazinho do Bandolim , Edgar Flauta da Gávea e Juquinha (que lhe ensinou o cavaquinho dos chorões, cheios de “quedas” e im provisos, e para quem ele com pôs, na altura de seus 16 anos, “Gargalhada”, m ostrando o que aprendera).

Ao passar a com por sam bas, depois de sua tem porada com os bam bas da Mangueira, adotou o violão. Um violão distinguido pelo estilo do choro, autodidata, único, inesperado, tocado quase na vertical, um dos m ais originais da história do instrum ento no Brasil, o que levou Egberto Gism onti ao seguinte com entário: “Se o Nelson Cavaquinho toca violão, eu não toco.”

Resolvido a viver de m úsica, deu as caras na Praça Tiradentes, onde a céu aberto funcionava um a espécie de escritório inform al de com positores, que se reuniam em frente ao Teatro João Caetano ou à porta do m ítico Cabaré dos Bandidos, de frequência m ais que suspeita. Em 1938, vendeu a prim eira parceria, “Não faça a vontade dela”, com Rubens Cam pos e Henricão, gravada por Alcides Gerardi, inaugurando incontáveis transações do tipo.

Um dia, qual a m inha felicidade, ao entrar num boteco da Rua Mem de Sá, tem pos da Lapa pré-colom biana, e encontrar Nelson encostado no balcão e no violão, pronto a transform ar, com o dizia Albino Pinheiro, qualquer um que estivesse a sua volta em público. Antes, esteve no banheiro. Na volta, m olhou o pente Flam engo na bica da pia e o levou aos cabelos prateados, num gesto de vaidade m ilongueira. Antes ainda, chegou para o português e pediu: “Me dá um óleo”, com bustível que consistia em conhaque servido até a borda naqueles copos vagabundos am ericanos.

Com o sem pre ao iniciar os trabalhos, cantou “Caridade”, o sam ba que é seu retrato íntim o: “Sei que a m aior herança / que eu tenho na vida / é m eu coração am igo dos aflitos / Sei que não perco nada em pensar assim / porque am anhã não sei o que será de m im ”. Belíssim o e com ovente, apresenta um estilo único de com por: a palavra final de cada verso quebra, com o se fizesse parte do verso seguinte, o enjambement dos franceses. Além disso, “Caridade”, com o outros sam bas de Nelson Cavaquinho, term ina na segunda parte, quando geralm ente os sam bas voltam ao últim o verso da prim eira na hora de acabar (este recurso faz com que as com posições possam ter o verdadeiro autor identificado).

Só faltou essa m úsica para que o LP de 1973 ficasse perfeito (ela havia sido gravada três anos antes no disco Depoimento do Poeta, o prim eiro solo de Nelson, pelo pequeno selo Castelinho). Mas sua ausência acaba bem com pensada. O álbum abre com “Juízo final” que, apesar do tem a dram ático, perm ite um final feliz, coisa rara no com positor: “Quero ter olhos pra ver / a m aldade desaparecer”. “Minha festa” é para cim a (aliás, a m ais otim ista de todas) e, de certa m aneira, “Folhas secas” tam bém . “Vou partir”, parceria com outro do Cavaquinho, o Jair, gravada pela prim eira vez por Elizeth Cardoso no LP Elizeth Sobe o Morro, de 1965, é prom essa de alegria para um , tristeza para outro: “Vou partir / Não sei se voltarei / Tu não m e queiras m al / Hoj e é carnaval”.

O clim a pesa no pot-pourri com participação especial de Guilherm e de Brito, com voz de seresteiro na linha de Orlando Silva. Abre com “A flor e o espinho”, com posta em 1950, e, para m uitos críticos, o ponto alto da dupla. Com o se sabe, os versos fam osos “Tire o seu sorriso do cam inho / que eu quero passar com a m inha dor” são de Guilherm e. Nelson ficou encarregado da segunda parte. Há um terceiro nom e que aparece com o autor, Alcides Cam inha (ele m esm o, o desenhista Carlos Zéfiro dos “catecism os” sexuais vendidos em bancas de j ornal), m as este nada fez.

O álbum ainda traz um a das m ais inspiradas canções de Nelson Cavaquinho, aquela que, segundo o próprio, era a preferida de Tom Jobim e Chico Buarque. “Rugas”, com Augusto Garcez e Ary Monteiro, data provavelm ente de 1940. Seis anos depois, foi gravada originalm ente por Cy ro Monteiro, que lhe em prestou um a graça sincopada. Em 1961, foi regravada por Roberto Silva. E, em 2009, revisitada por ninguém m enos que Caetano Veloso que, bem à sua m aneira, declarou que era a canção de Nelson “que m ais gostava de cantar em casa”.

Com o curiosidade, tente, na últim a faixa, “Visita triste”, outra vez de Nelson e Guilherm e, adivinhar quem que fez a prim eira parte e quem ficou com a segunda. É fácil descobrir.

 

Nelson Cavaquinho (Odeon − SMOFB 3809)

Diretor de produção: Milton Miranda

Diretor técnico: Z.J. Merky

Técnico: Reny R. Lippi

Lado A

 

1. Juízo Final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares)

2. Folhas Secas (Nelson e de Brito)

3. Caminhando (Nelson Cavaquinho e Nourival Bahia)

4. Minha Festa (Nelson Cavaquinho e Guilherm e de Brito)

5. Mulher Sem Alma (Nelson Cavaquinho e Guilherm e de Brito)

6. Vou Partir (Nelson Cavaquinho e Jair do Cavaquinho)

Lado B

1. Rei Vadio (Nelson Cavaquinho e Joaquim )

2. A Flor E O Espinho (Nelson Cavaquinho, Alcides Cam inha

e Guilherm e de Brito)

Se Eu Sorrir (Nelson Cavaquinho e Guilherm e de Brito) Q uando Eu Me Chamar Saudade (Nelson Cavaquinho e Guilherm e de Brito)

Pranto de Poeta (Nelson Cavaquinho e Guilherm e de Brito)

3. É Tão Triste Cair (Nelson Cavaquinho e Guilherm e de Brito)

4. Pode Sorrir (Nelson Cavaquinho e Guilherm e de Brito)

5. Rugas (Nelson Cavaquinho, Augusto Garcez e Ari Monteiro)

6. O Bem e o Mal (Nelson Cavaquinho e Guilherm e de Brito)

7. Visita Triste (Nelson Cavaquinho, Guilherm e de Brito e

Anatalicio)