1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 12 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

O Canto de Ouro do Sabiá

CLARA NUNES − CLARA NUNES

 

Vagner Fernandes

 

lara Nunes (1942-1983) é um a cantora cuj a traj etória é pontuada por singularidades. A partir do início da década de

 

C 1970, para sua estratégica consolidação com o intérprete no com petitivo m ercado fonográfico brasileiro, Clara passou a investir na construção de um arquétipo baseado em elem entos africanistas, lançando m ão do sam ba com o referência m usical, bem com o de aparatos cênico, coreográfico e indum entário que a tornariam única na cena artística até sua m orte, em abril de 1983. Pela ousadia bem -sucedida, seria elevada ao posto de representante fem inina e/ou porta-voz de um a nova onda de resgate e valorização da cultura afro-brasileira, em um im portante m om ento no qual a ideologia dos m ovim entos negros eclodia no m undo (e tam bém no Brasil), propondo discussões acerca da identidade da etnia.

Apontada com o um a das m ais im portantes artistas da m úsica popular brasileira, Clara Nunes, nascida Clara Francisca Gonçalves, na cidade de Cedro (MG), desem penhou im portante papel na consolidação da estrutura m ercantil da indústria fonográfica no Brasil ao se tornar a prim eira m ulher a vender m ais de 100 m il cópias de um álbum . Tendo iniciado sua traj etória com o cantora rom ântica, passando posteriorm ente pelos m ovim entos da Jovem Guarda e Artístico Universitário (MAU), ela am argou o fracasso artístico e com ercial de suas obras iniciais nos anos de 1960, e som ente se consagraria com o intérprete por m eio do sam ba e de outros gêneros que exaltariam a ancestralidade africana e autenticariam a verdade m usical do Brasil. Figurinos brancos estilizados que rem etiam à África e às religiões desse continente passaram a fazer parte de seu vestuário, bem com o a integração com tradicionais com positores daquele gênero, de cuj as criações não abriria m ão j am ais futuram ente.

Quando lançou em 1973 o em blem ático trabalho que tinha com o carro-chefe a bela “Tristeza, pé no chão”, do j uiz-forano Arm ando Fernandes, o Mam ão, ela j á se dedicava ao preparo da estrada em que cam inharia rum o ao estrelato. Com Direção de Produção do então todo-poderoso da gravadora Odeon, Milton Miranda, Direção Musical do Maestro Gay a e Produção Executiva de Adelzon Alves, o disco é um m arco no processo evolutivo da fenom enal carreira de Clara, que rej eitava o rótulo de sam bista (por considerá-lo pej orativo) e afirm ava ser um a intérprete da MPB. Clara o era, sem dúvida. E, espontaneam ente, com sua verdade e sim pleza, suplantou a im agem de cantora para se converter em figura m ítica.

É dispensável a convocação de grandes especialistas para diagnosticar a firm eza de propósitos da artista neste álbum , em que passeia com m aestria por vários gêneros de nossa m úsica, ratificando, pois, sua condição de grande voz. A preciosa “Tristeza, pé no chão”, arregim entada por Adelzon, levou Clara a participar do V Festival de Música Popular Brasileira de Juiz de Fora. Após abortar o proj eto Sabiá, Sabiô, show em que contaria com a direção de Herm ínio Bello de Carvalho, e de inúm eras derrotas em festivais, Clara j á não se entusiasm ava m ais em subir ao palco para disputas m usicais. No entanto, os versos “Dei um aperto de saudade no m eu tam borim /Molhei o pano da cuíca com as m inhas lágrim as/Dei m eu tem po de espera para a m arcação e cantei/A m inha vida na avenida sem em polgação” im pulsionaram -na a defender a canção. Na polêm ica edição do festival, que lotou o Cine Theatro Central da cidade, “Tristeza, pé no chão” fora eleita vencedora pelo público, m as não houve prem iação. O apresentador divulgou docum entos que com prom etiam a lisura do festival e entregou aos m úsicos da orquestra o troféu destinado inicialm ente ao prim eiro lugar. Os 21 m il cruzeiros em prêm ios foram divididos entre as trinta canções concorrentes. A obra de Mam ão, porém , foi a virtual ganhadora e se tornou um a das m ais im portantes referências do legado deixado pela artista.

Neste prim oroso bolachão, Clara se apresentava no lado A com um a pluralidade m usical que ia de “Fala viola” (Eloir e Francisco Inácio) e “Minha festa” (Nelson Cavaquinho e Guilherm e de Brito) a “Um as e outras” (Chico Buarque), passando por “Arlequim de bronze” (Sy nval Silva) e “O m ais que prefeito”, única parceria de Jards Macalé com Vinicius de Moraes. Do lado antagônico do vinil, trazia para a boca-de-cena Xangô da Mangueira (“Quando eu vim de Minas”), reverenciava Cay m m i (“É doce m orrer no m ar”), pedia a bênção à dupla Baden e Vinicius (“Am ei tanto”), revelava Ivor Lancelotti (“Valeu pelo am or”) e exaltava o Nordeste, cantando Dilú Mello e Rosil Cavalcanti (“Meu Cariri”), batendo cabeça ainda para o fam oso babalorixá pernam bucano Edwin Barbosa, o Pai Edu, na faixa “Hom enagem à Olinda, Recife e Pai Edu”, que por longos anos foi seu m entor espiritual.

Este proj eto solidifica a reconceituação de Clara Nunes do ponto de vista estratégico-m ercadológico com vistas ao consum o, m om ento em que suas aparições na TV Globo, por m eio dos videoclipes do program a dom inical Fantástico − entre 1973 e 1982 − se intensificam , levando a cantora a com ungar com o público a construção de um arquétipo sim bólico segundo códigos extraídos da cultura africana, o que lhe im prim iria destaque no segm ento artístico e se constituiria em alicerce de representação im agética, bem com o condição para não dissolução de sua figura no disputado m ercado da m úsica.

Com o álbum de 1973, cuj a ilustração da capa leva a assinatura do artista plástico Luiz Jasm in, Clara j á sinalizava que, ao se apropriar de um a nova identidade artística, tangenciada por conceitos de valorização e resgate dos elos que unem Brasil e África, ganharia um a nova significação na estrutura que determ ina a lógica de consum o no m ercado m usical brasileiro. O público se entregaria à sua singularidade im agética em um a trilha de concreta e fiel identificação, passando a consumi-la, alçando-a ao ranking das m aiores vendedoras de discos do país.

Para que se com preenda a dim ensão profissional de Clara Nunes podem os segm entar a sua traj etória em dois grandes períodos, absolutam ente distintos, do ponto de vista estético, entre si. O prim eiro, estabelecido entre os m eados da década de 1950 e fim dos anos 1960, no qual a cantora se apresentaria por m eio de um repertório rom ântico, dando início a um a proposta artística frágil, cuj o consequente fracasso tornar-se-ia inevitável. O segundo, por sua vez, com preendido de 1970 a 1982, sedim entado sob um a redefinição estético-visual e por novo repertório, alavancaria definitivam ente a carreira da artista, levando-a a patam ares com erciais históricos j am ais alcançados por vozes fem ininas no Brasil.

A reestruturação da carreira de Clara Nunes, a partir de 1970, sem pre apontou para o rom pim ento com o passado, com o conceito e estilo rom ânticos a ela atribuídos inicialm ente. A Odeon, gravadora que seria a prim eira e única na traj etória da cantora, apostava na ideia de fazer da m ineira um a referência fem inina na cena rom ântica que dom inava o m ercado, um a espécie de “Altem ar Dutra de saias”, conduzindo-a ao status dos grandes vendedores de discos, postos ocupados até então pelas vozes m asculinas. O estigm a de que m ulher não vendia discos dissem inava-se na indústria da m úsica brasileira e Clara era percebida com o um a aposta para a correção da referida tese. Todavia, não seria por m eio do repertório rom ântico que ela se alicerçaria com o produto da gravadora, m as sim pela devida aproxim ação e im ersão no universo do sam ba, sob a orientação do radialista Adelzon Alves, que se tornaria seu produtor entre 1970 e 1974. Conform e destacou o próprio Adelzon em depoim ento para a biografia Clara Nunes, Guerreira da Utopia, assinada por m im , e lançada em 2007 pela Ediouro: “A Clara era determ inada, queria fazer um a carreira brilhante com o cantora, m as faltava-lhe orientação [...] Quando fui cham ado, disse que só aceitava dirigi-la se fosse feito um trabalho no qual eu acreditasse. Escrevi um texto que está na capa do prim eiro disco que produzi, dizendo que, depois da m orte de Carm en Miranda, nenhum a outra artista brasileira havia assum ido o afro, tanto do ponto de vista sonoro quanto do visual. Elis era m oderna, j azzística. Gal era tropical. Cantora com a carreira pautada por ‘com positores do m orro’ não havia”.

A reorganização da traj etória da intérprete estaria diretam ente relacionada ao seu reposicionam ento no m ercado com o produto para o consum o das m assas. Ainda que o resgate e a valorização da cultura e identidade negras tangenciassem o discurso de reconstrução da carreira de Clara − im portantes elem entos para o m arketing que seria gerado em torno de sua im agem − vale salientar que a sedim entação do proj eto, com posterior aval da gravadora, só se viabilizaria a partir de estatísticas com erciais. O álbum de transição (de 1971), que apresentava um a nova cantora e era com posto por um repertório que incluía m úsicas de Noel Rosa, Luiz Gonzaga, Gisa e João Nogueira, foi arrebatador. Vendeu m ais do que todos os outros três anteriores j untos. Nele constavam ainda dois registros que se tornariam grandes sucessos da intérprete, “Ê baiana”, um sam ba de quadra, e “Do m isticism o da África ao Brasil”, um sam ba de enredo do G.R.E.S Im pério da Tij uca. “Neste LP, o sabiá não brinca em serviço”, ressalta Adelzon Alves em texto que assina na contracapa do disco, aludindo ao apelido que Clara Nunes ganhara do com positor Sérgio Bittencourt pela gravação de “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque. A canção com punha Você Passa, Eu Acho Graça (1969), trabalho que antecedeu o álbum de estreia da cantora ao lado de Adelzon e que seria um m arco em seu histórico profissional. “A reviravolta na carreira funcionou para Clara. Finalm ente, ela cham ava a atenção. Finalm ente despontava na m ídia. Ganhava a crítica. Conquistava o público. A gravadora apoiou. Afinal, o cam inho das pedras fora descoberto. Clara Nunes era um a artista que poderia gerar lucro”, com entou Aldezon em depoim ento para a biografia de Clara.

A redefinição de conceito que, do início da década de 1970 em diante, serviria de escopo do trabalho da intérprete, perm itir-lhe-ia o ingresso definitivo no sistem a m ercantil que norteia o showbizz. Clara se firm aria com o peça im portante no cast da gravadora Odeon e da indústria fonográfica, participando assim da dialética que se estabelece entre o sistem a de produção cultural e as necessidades culturais dos consum idores; dialética essa inerente aos m ecanism os de consum o delineados pela cultura de m assa. O redesenho im agético-africanista da cantora Clara Nunes, por assim dizer, não se estabeleceria com o produto de consum o através de um a im posição estética ao público, m as pela proposição de novos m odelos audiovisuais com que esse passaria a se identificar. Trilhando um a diretriz alinhada com princípios da cultura de m assa, a artista se posicionaria com o produto vendável, assum indo com o tal certas características que lhe são pertinentes, com o a de, inicialm ente, se dobrar à lei de m ercado, da oferta e da procura. A intérprete se sustentaria sob essa égide num a relação am istosa e convidativa com aquele (público consum idor) que a ratificaria com o “m ercadoria”.

Cabe-nos ressaltar que os atos de proj eção e identificação do público para com Clara Nunes se m anifestariam tam bém , m uito particularm ente, devido ao singular m om ento em que a transm utação artística da cantora coincide com o crescim ento dos m ovim entos negros no Brasil, o que tam bém viria contribuir para a sua afirm ação no m ercado consum idor fonográfico. No m esm o período em que a intérprete se reconceitua, surgem a Sociedade de Intercâm bio Brasil-África (SINBA), o Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN), o Movim ento Negro Unificado (MNU), bem com o a Pastoral do Negro da Igrej a Católica. Além disso, estabelecem -se várias organizações que proporiam , por m eio de ações culturais, im portantes e acaloradas discussões sobre a participação do negro na sociedade brasileira, entre elas o bloco afro Ilê Ay ê, fundado em 1974 em Salvador e que só adm itira negros em seus desfiles, e o Grêm io Recreativo de Artes Negras (GRAN) Quilom bo, criado pelo com positor portelense Antonio Candeia Filho, o Candeia, com o um a reação ao j á criticado e com batido desvirtuam ento e gigantism o industrial das escolas de sam ba do Rio de Janeiro. Am iga de Candeia, Clara Nunes se tornaria um a assídua frequentadora do GRAN Quilom bo.

A nova trilha seguida pela cantora seria interpretada com o um ato de defesa e resgate da identidade negra do povo m estiço brasileiro, açoitado pelo regim e ditatorial que fazia calar a nação. O público assim ilava e gostava do que a artista apresentava, encontrando nela um a representante que cantava o Brasil de form a fidedigna, celebrizante e sem m ordaças, restabelecendo elos que sem pre uniram os brasileiros à África.

HISTÓRIAS DE GARIMPEIRO (depoim ento de Aldezon Alves)

Esse disco de 1973 é m uito im portante. É o disco que ela canta ciranda. Clara era am iga de um fam oso pai de santo de Pernam buco, o Pai Edu, e quando fui com ela num dos trabalhos de divulgação da gravadora fom os visitá-lo. Quando anoiteceu ele nos convidou para conhecer casas de m úsica. Fom os em um as três ou quatro. Ele pegava firm e na m ão da gente e cantava, com o se fosse um m antra: “Eu tava na beira da praia, ouvindo pancadas na beira do m ar... essa ciranda quem m e deu foi Lia, que m ora da ilha de Itam aracá...”. Quando ele cantou pela segunda vez eu m e liguei e falei para Clara. Na época eu não sabia quem era a figura m ítica de Lia. Mas, fiquei com aquilo na cabeça.

Quando voltam os ao Rio fui pesquisar e acabei descobrindo alguns versos de ciranda e fiz um a seleção de cirandas, entrem eando sem pre com “essa ciranda quem m e deu foi Lia”. Achava que tudo era de dom ínio público. Mas, na gravadora disseram para eu procurar o autor. Não era de dom ínio público e tudo era do Barracho. O título da m úsica, na verdade um a com pilação, foi “Hom enagem à Olinda, Recife e Pai Edu”. Afinal de contas foi ele que nos apresentou e aj udou a dar visibilidade nacional para ciranda. Eu sem pre m e preocupei que a Clara tivesse tam bém um pé no nordeste.

Outra m úsica no disco que tam bém pensei que fosse de dom ínio público foi “Fala viola”, do Eloir Silva. Certo dia um bloco do lixão de Caxias, cham ado Tigres de Caxias foi cantar em m eu program a das m adrugadas, ainda na Rádio Globo. Na saída deu um pé d’água forte e eles ficaram em baixo da m arquise e com eçaram a cantar a m úsica. Cham ei m eu operador de som e pedi para ele registrar a m úsica. Estávam os fechando o repertório do disco e faltava um sam ba de quadra. Só que eu não sabia quem era o autor. E a gravadora pediu para eu procurá-lo. Aí lá saio eu num a m adrugada, com o disco pronto, atrás do autor no lixão de Caxias. Minha sorte é que o cara de um a tendinha m e identificou com o sendo o cara do program a de rádio. Me deu um pito, disse que aquilo ali era m uito perigoso e perguntou o que eu fazia ali. Cantarolei e falei que estava procurando o autor daquela m úsica. Aí ele colocou três bandidos do m eu lado e pediu para eles m e darem cobertura para eu encontrar o autor. O principal autor, o Eloir, era gari da prefeitura de Caxias. Fui entrando num a roda de sam ba no fundo do lixão. E m ais ou m enos quatro da m anhã vi aquele cara m agrinho, hum ilde, m uito pobre. Quando falei com ele e disse o que queria, ele quase desm aiou. Na verdade Eloir tinha um parceiro, o Francisco Inácio. Clara gravou e a m úsica foi o sucesso que foi.

 

Clara Nunes (Odeon − SMOFB 3767)

Diretor de Produção: Milton Miranda

Diretor Musical: Maestro Gay a

Assistente de Produção: Adelzon Alves

Orquestrações e regências: Orlando Silveira, Laércio de Freitas, Hélio Delm iro, Carlos Monteiro de Souza

Diretor Técnico: Z. J. Merky

Técnico de Gravação: Nivaldo Duarte, Toninho, Dacy

Técnico de Laboratório: Reny Lippi

Lay out: Joel Cocchiararo

Foto: Alexandre Souza Lim a

Ilustração: Luiz Jasm in

Lado A

1. Tristeza Pé No Chão (Arm ando Fernandes “Mam ão”)

2. Fala Viola (Eloir Silva e Francisco Inácio)

3. Minha Festa (Nelson Cavaquinho e Guilherm e de Brito)

4. Umas e Outras (Chico Buarque)

5. Arlequim de Bronze (Sinval Silva)

6. O Mais Q ue Perfeito (Jards Macalé e Vinicius de Moraes)

Lado B

1. Q uando Vim de Minas (Xangô da Mangueira)

2. Meu Cariri (Dilú Mello e Rosil Cavalcanti)

3. Homenagem à Olinda Recife e Pai Edu (Baracho)

4. É Doce Morrer no Mar (Dorival Cay m m i e Jorge Am ado)

5. Amei Tanto (Baden Powell e Vinicius de Moraes)

6. Valeu Pelo Amor (Ivor Lancellotti)