1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 50 de 54

Páginas do PDF

1973: O Ano que Reinventou a MPB

Que Olhos Estão Abertos para Tom Zé?

TODOS OS OLHOS − TOM ZÉ

 

Beto Feitosa

 

stronauta liberto, nascido na pequena Irará (Bahia) e proj etado no espaço do futuro, Tom Zé sem pre esteve alguns pontos na

 

A frente do tem po. Sem pre com ar de criança, que brincando toca em assuntos sérios, usando a ironia que incom oda. Isso tem um preço e ele é alto. O com positor ganhou rótulos que afastaram o público de sua obra durante m uitos anos.

No início da década de 70 a Tropicália j á não existia com o

m ovim ento, m as a sem ente estava plantada para sem pre na m úsica de Tom Zé. Ele esteve ligado ao m ovim ento em um prim eiro m om ento com participação im portante no álbum coletivo Tropicália ou Panis et Circenses. Mas depois, m esm o sem rom per, não seguiu exatam ente a trupe.

Em 1973 o cenário dos tropicalistas estava disperso, cada um seguindo o próprio cam inho. Caetano e Gil j á estavam de volta depois do exílio em Londres. Caetano Veloso havia lançado o experim ental Araçá Azul, rej eitado por parte do público; Gilberto Gil vivia o sucesso da m úsica “Eu só quero um xodó”. Em 1973, Os Mutantes e Rita Lee tinham se separado, eles seguindo um som de rock progressivo e ela com um duo acústico que viria a ser a sem ente do bem sucedido Tutti Frutti. Depois de se m anter em cena a todo vapor com o ousado show Fa-tal (72), Gal Costa brilhava com o histórico Índia, outro m arco em sua carreira. Paralelo a todos m as ainda bem próxim o das propostas antropofágicas e ideias tropicalistas, Tom Zé lançou Todos os Olhos. O fato é que a partir daí todos seguiram cam inhos que levaram ao estrelato. Menos Os Mutantes, que cam inharam para fazer um a m úsica m uito longe das origens; e Tom Zé j ustam ente pelo contrário.

Todos os Olhos é o quarto álbum da discografia de Tom Zé. Diz o dito que não se j ulga um livro... m as esse LP ficou na história j ustam ente pela polêm ica capa, criada pelo poeta concreto e publicitário Décio Pignatari. Todos conhecem , m uitos acham a história hilária e contam por aí sobre o super close de um a bola de gude bem no centro do ânus da m odelo. Tradução visual de outra expressão popular, “o olho do cu”, que passou despercebido por anos. Mesm o que hoj e em dia os envolvidos expliquem que não foi bem assim , o folclore j á é m aior que o fato. O próprio Tom Zé conta que a ideia era essa m as para realizar a solução foi fotografar a boca da m odelo. Toda essa crônica, m uitos sabem , está fartam ente docum entada por aí. Revelada a história da capa, fica (m ais) um grande sarro tropicalista na cara da censura m ilitar, que estava de olhos fechados e deixou passar o orifício que entrou para a história.

Mas quantos realm ente ouviram o LP? Todos os Olhos é item im portantíssim o para se entender a traj etória que Tom Zé seguiu. Seu disco anterior (de 1972, batizado com seu nom e e relançado com o Se o Caso é Chorar) m arca a estreia de Tom Zé na gravadora Continental e fez sucesso nas rádios. Ao invés de seguir a receita, Tom Zé resolveu brincar e experim entar.

E brincou de ser sério logo na faixa que abria o disco, a prim eira do lado A. Em “Com plexo de épico” ele generaliza dizendo que todo com positor brasileiro é com plexado, reclam ando do que cham a de m ania de falar e ser sério – se levar dem ais a sério. Tom Zé, ao contrário, toca em pontos im portantes m esm o enquanto brinca. Para não ter dúvidas, a m úsica volta no final do disco, faixa 6 do Lado B. Arrom bando a festa dos que não estão para brincadeira. Então traz “Cadem ar”, letra que j oga com as palavras e nasceu de um a dica do poeta Augusto de Cam pos que, por isso, ganhou o crédito de coautor na parceria concreta.

Ser subversivo era um crim e contra a ditadura m ilitar e o m edo é com panheiro constante para quem propõe algo novo. A m úsica que batizou o disco bate nesse ponto em um louco tribunal da consciência versus patrulha. Nela Tom Zé se coloca com o réu em um a corte som bria, am eaçado por olhos que aparecem do escuro esperando enxergar nele algum tipo de herói. Mas ele se defende e grita procurando provar sua inocência, repetindo com a voz tensa na desesperada defesa acom panhada por m elodia e sons soturnos de tem pos obscuros. Mais um pulo para 30 anos depois e a letra cabe perfeitam ente com o trilha sonora da confusão arm ada nas redes sociais quando Tom Zé fez a narração de um com ercial de refrigerante. “Capitalista” e “vendido ao sistem a” foram algum as das expressões j ogadas para cim a do com positor. Justam ente ele, que bateu de frente contra qualquer sistem a e pagou caro por isso.

Para um artista de vanguarda com o Tom Zé a inovação é característica fortem ente presente na obra, m as a tradição é o ponto de partida para a inovação. Viva a releitura da antropofagia tropicalista! Nesse disco Tom Zé inclui um a recriação para “A noite do m eu bem ”, conhecida m úsica de Dolores Duran, dando ao sam ba-canção cores tensas, espaços vazios, clim a árido do sertão nordestino. O Nordeste tam bém está no m eio-repente “Dodó e Zezé”, conversa de “cum padis” protagonizada entre Tom Zé e Odair Cabeça de Poeta, em faixa que tem o cavaquinho tocado pelo m aestro Rogério Duprat, o grande arranj ador dos tropicalistas. Entre perguntas e respostas, a letra toca em assuntos que perm anecem atuais e relevantes. Segue o anim ado baião “Quando eu era sem ninguém ” fechando o lado A com ares de festa do interior, lem branças de Iriri.

Muito antes dos litros de botox aplicados por aí, a indústria de celebridades j á era tem a na m elancólica antibossa “Brigitte Bardot”. A letra desconstrói a im agem do ídolo pop, deusa de um a beleza cinem atográfica pintada com ares de realidade crua, nua e sem m aquiagem . Diz que a atriz está ficando velha, ao contrário da j ovem e bela m usa eternizada nos film es e no im aginário do público. O retrato do envelhecim ento de Bardot é cruel, sem m eias palavras. O arranj o vai levando a m úsica para cam inhos m ais graves quando pergunta se algum j ovem vai se preocupar com ela na hora em que a m usa tiver vontade de se suicidar. A vida real não dá tem po para as idealizações.

Seguem duas canções bem diferentes sobre São Paulo. Cinco anos antes de Caetano com por “Sam pa”, Tom Zé trazia a genial “Augusta, Angélica, Consolação”. Nessa m úsica personifica as ruas da capital para fazer um novo retrato da cidade. O com positor desenha traços da personalidade das três personagens com características das fam osas ruas. Ele se vê procurando abrigo entre as três e no fim é acolhido pela Consolação. A construção da letra é um retrato ao m esm o tem po real e poético da cidade sob o ponto de vista de um artista im igrante. Em entrevistas o próprio Tom Zé costum a dizer que considera a últim a estrofe da m úsica seus versos prediletos de sua própria obra.

Mas antes, em 1968, ele j á havia escrito “São São Paulo, m eu am or”, vencedora do IV Festival de Música Popular Brasileira, prom ovido pela TV Record. Em Todos os Olhos a grande cidade segue m ais um a vez com o tem a, agora com crítica m ais nítida, no retrato do crescim ento desordenado em “Botaram tanta fum aça”. Tom Zé pinta um cenário urbano poluído, em que a fum aça deixou a consciência podre.

A m úsica “O riso e a faca” traz o perfil de um a pessoa inclassificável, ser inquieto que não se encaixa e não aceita rótulos. Autoretrato? Em um disco m arcado pelo discurso afiado (característica sem pre ilum inada de Tom Zé), coloca “Um oh e um ah”, feita apenas com os sons das vogais e onom atopeias non sense. Para chegar novam ente no “Com plexo de épico” do final do lado B.

O fato é que a m úsica de Tom Zé foi cada vez m ais se afastando do público. Os tem pos eram difíceis politicam ente, m as a indústria do disco crescia form ando os grandes nom es – que continuam nesse orgulhoso Olim po. A contram ão desse m ovim ento tinha, além de Tom Zé, nom es com o Jorge Mautner e Jards Macalé, que chegam em 2013, ainda na vanguarda, tam bém em um a onda de redescoberta.

Essa posição contra o estabelecido cobrou todo seu preço. Além de se tornar nom e im popular, Tom Zé dialogava com o perigo de um governo que não se interessava por um público com inform ações e m ente aberta. Seus colegas de geração Rita Lee, Caetano Veloso e Gilberto Gil tam bém atravessaram a década de 70 enfrentando os censores e subm etendo suas obras a eles. Mas tinham o público que Tom Zé não tinha m ais.

A indústria de gravadoras m ultinacionais enxergando grandes lucros na m úsica brasileira não tinha espaço, não abria prateleira disponível para as experiências de Tom Zé. Ele acabou se com unicando com poucos e caiu em com pleto esquecim ento. Só na década de 90 foi descoberto por acaso pelo m úsico inglês David By rne, que o levou para gravar nos EUA por seu selo Luaka Bop. A esquisitice cham ou atenção, afinal de contas o Brasil j á tinha rej eitado Tom Zé há tanto tem po que nem se lem brava m ais que ele existia. Mas os confetes gringos o levaram para shows nos EUA e Europa e aqui abriram -se novos olhos para a m úsica dele. Tom Zé aos poucos virou artista im portado, redescoberto, estudado, cultuado em seu próprio país.

Hoj e visto com o um gênio, a partir de Todos os Olhos, Tom Zé com eçou o processo e passou a ser esquecido e deixado de lado. Todos os Olhos foi um prim eiro passo que fez o público virar a cara para o com positor, que a partir daí se m anteve com pequenas apresentações no circuito universitário e trabalho com publicidade.

Explicando para confundir, Tom Zé tem a habilidade de entender e praticar os conceitos da contracultura de um a m aneira livre e divertida. Em bora sej a cronologicam ente o m ais velho entre seus colegas tropicalistas, sua alm a é de eterna criança contestadora e criativa, aquela que inventa seus próprios brinquedos. O resultado é um a obra j ovem , m esm o que fortem ente m arcada pelo cenário político e artístico dos anos 70, ainda contestador e revolucionário. Tom Zé é para ser desconstruído e reinventado, com o ele próprio propõe e faz sem cerim ônias.

 

Todos os Olhos (Continental − SLP 10.121)

Produtor: Milton José

Técnicos: José Cordeiro e Luiz Botelho

Criação da Capa: Décio Pignatari

Lay out e arte final: Marcos Pedro Ferreira e Francisco Eduardo de Andrade

Capa interna: poem a visual de Augusto de Cam pos (Olho por Olho, 1964)

Fotografia: Reinaldo de Moraes

G rupo Capote:

Cleon e Dualib: percussão

Rogério Duprat: cavaquinho em “Dodó e Zezé”

Odair Cabeça de Poeta: voz em “Dodó e Zezé”

Heraldo do Monte: guitarra

 

Lado A

1. Complexo de Épico (Tom Zé)

2. A Noite do Meu Bem (Dolores Duran)

3. Cademar (Tom Zé e Augusto de Cam pos)

4. Todos os Olhos (Tom Zé)

5. Dodó e Zezé (Odair Cabeça de Poeta e Tom Zé)

6. Q uando Eu Era Sem Ninguém (Tom Zé)

Lado B

1. Brigitte Bardot (Tom Zé)

2. Augusta, Angélica e Consolação (Tom Zé)

3. Botaram Tanta Fumaça (Tom Zé)

4. O Riso e a Faca (Tom Zé)

5. Um Oh! e Um Ah! (Tom Zé)

6. Complexo de Épico (Tom Zé)