1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 17 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

Desfile Carnavalesco

SAMBAS DE ENREDO DAS ESCOLAS DE SAMBA DO GRUPO I

ESCOLAS DE SAMBA DO GRUPO I

 

Vicente Dattoli

 

s inspirados versos do com positor Eládio Gom es dos Santos, o então j á fam oso Baianinho da Em Cim a da Hora, serviriam

 

O com perfeição para iniciar este texto sobre o LP dos sam bas de enredo de 1973. Com seu “era um a vez...”, tradicional frase dos contos de fadas, lem bro m inha infância e a expectativa que vivia a cada dezem bro, esperando pela chegada daquela preciosidade que sequer tinha com o ouvir – eram épocas de vacas bem m ais m agras e eu nem rádio-vitrola possuía.

Os discos recebidos eram guardados com carinho e atenção para o dia em que ela, a rádio-vitrola, enfim chegasse à m inha casa e eu pudesse escutá-los. Eram tem pos em que gratidão e reconhecim ento eram parceiros do carnaval e eu podia ler na dedicatória escrita na capa do disco, que para aquele carnaval chegara no dia 22 de dezem bro de 1972, que m eu pai o recebera “com o retribuição aos reais serviços prestados à AESEG e às Escolas de Sam ba”. E eu nem conseguia entender direito o que aquilo queria dizer.

Deixando as lem branças pessoais de lado, com eço o texto polem izando: sam bas de enredo, sim , com o por sinal está escrito na própria capa do disco, porque eram sam bas com postos a partir de um enredo. Não apenas “sam bas enredo”, com o a m odernidade e a pasteurização dos escritórios de com positores de hoj e em dia nos querem fazer acreditar. Havia um departam ento cultural em cada escola de sam ba que pesquisava os tem as e os convertia em algo carnavalizável e que era entregue, posteriorm ente, ao artista (carnavalesco), sem inj unções ou ingerências externas. E o resultado costum ava ser um a obra m usical de alto nível.

Dito isto, vam os em frente.

E a questão do enredo é j ustam ente a grande curiosidade e discussão deste que foi dos prim eiros (falando francam ente, talvez o prim eiro com um grau de elaboração e trabalho digno de um grande cam peão de vendas) discos com esta linha. Pela prim eira vez na história dos desfiles duas escolas de sam ba apresentaram , no m esm o ano, um m esm o tem a enredo, a literatura de cordel – é claro que aqui excluo o carnaval de 1965, o do quarto centenário da cidade, quando todas falaram do Rio de Janeiro.

Eram outros tem pos e o segredo era um a das arm as da concorrência. Mas, com o o destino é cruel e prega peças a todo instante, duas pequenas agrem iações, à época, se dedicaram ao tem a. Am bas do cham ado subúrbio carioca: a Em Cim a da Hora e a Im peratriz Leopoldinense (sim , a im peratriz do sam ba, prim eira tricam peã do Sam bódrom o, j á foi escola pequena, oscilando diversas vezes pela segunda divisão dos desfiles do carnaval). Um a fez um sam ba inesquecível, o m elhor do carnaval daquele ano; a outra... Melhor não falar m uito, até porque se com parado aos sam bas de hoj e, m esm o aquele que se poderia esquecer é de alto nível, apesar de sua estranha solução de quatro refrãos em escassos 19 versos.

O sam ba de Baianinho, que dois anos antes j á fizera sucesso com “Meio de ano”, “Ê baiana”, na voz de Clara Nunes, im pulsionou a sua Em Cim a da Hora a realizar um dos m elhores desfiles de sua história. E abriu o cam inho para outros sam bas antológicos na pequena azul e branco de Cavalcanti, com o “Os Sertões”, em 1976 (com posição de Edeor de Paula) e “33 – Destino D. Pedro II”, em 1984 (escrito por Guará e Jorginho das Rosas), para citar apenas outros dois.

Num a bolachona com apenas dez com posições, era curioso verificar que Em Cim a da Hora e Im peratriz falassem da literatura de cordel. E sem patrocínio!

A escola de Cavalcanti tinha com o título “O saber poético da literatura de cordel”; a de Ram os falava no “A B C do carnaval à m aneira da literatura de cordel”. Juntavam -se estes tem as à hom enagem à Eneida, feita pelo Salgueiro (sam ba de Geraldo Babão); às “Lendas do Abaeté” da Mangueira, em com posição de Jaj á, Preto Rico e Manoel; e à “Pasárgada, am igo do rei”, na Portela, do então desconhecido David Corrêa; entre outros.

Se na classificação final do carnaval a Im peratriz levou vantagem , chegando em quinto lugar enquanto a Em Cim a da Hora obteve um a honrosa (e histórica) sexta colocação, na avaliação dos especialistas o sam ba de Baianinho deitou e rolou em cim a da com posição de Nelson Lim a e Caxam bu – detalhe: bons tem pos em que os sam bas de enredo tinham dois, no m áxim o três com positores.

O Estandarte de Ouro, apesar de quase novidade j á era um prêm io reconhecido e am bicionado, foi j ustam ente para Baianinho. E não era para m enos. Apesar dos poéticos versos de David Corrêa na fortíssim a Portela, que em barcava na ilusão, sentia seu coração palpitar e vislum brava um reino a surgir na passarela de desfiles; ou do trio de com positores m angueirense, que retratava as lindas noites de luar num a paradisíaca lagoa na qual a branca areia servia de repouso às escuras águas, foi o boi m andingueiro da Em Cim a da Hora, na inesquecível voz de Ney Viana (que no ano seguinte j á estaria na Mocidade Independente de Padre Miguel) que conquistou o carnaval, apesar de o título ter sido da verde e rosa.

Aliás, cabe neste m om ento um curioso reparo. Assim com o pouca gente sabe que o Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho é o Pacaem bu; que o Estádio Jornalista Mário Filho é o Maracanã, talvez até m esm o os m ais fanáticos torcedores da Em Cim a Hora não saibam que o enredo de 1973 fora batizado, oficialm ente, de “O saber poético da literatura de cordel”. Mas falem do boi m andingueiro ou do pavão m isterioso e im ediatam ente se ouvirão os versos que ficaram im ortalizados no carnaval.

Não há com o esquecer (e Baianinho frisava isso) do conto do boi m andingueiro, um clássico no cordel. O com positor pegou a história e, em poucos versos, a retratou para o carnaval. E deu sam ba. Dos bons. Tudo de form a sim ples e pura, m elodiosa e cheia de poesia, sem forçar a barra com duplos sentidos ou “lálálás” e “ôôôs”. Sam ba na veia, inspirado e inspirador, daqueles que a gente escuta e depois cantarola por anos, sem até lem brar onde foi que ouviu.

Para os especialistas em m úsica, no disco de 1973 dos sam bas de enredo as baterias se faziam sentir sem que precisassem apostar corrida ou desvirtuar suas batidas tradicionais; cuícas, cavacos e tam borins se ouviam em perfeita com unhão com os intérpretes (puxadores) e as pastoras, que faziam norm alm ente as vozes da segunda parte. Era, em últim a análise e sim plificadam ente, um disco de sam ba de enredo. E tudo isso gravado em apenas oito canais, um a heresia se com pararm os aos 100 de hoj e em dia, com direito a aparelhos que fazem qualquer um ser afinado.

Na pesquisa para a elaboração deste texto descobri que foram lançadas duas versões. Em am bas, na capa e contracapa, im agens da decoração da cidade no carnaval e de com o fora o desfile no ano anterior, vendo-se a Presidente Vargas enfeitada e cheia de foliões, com a Candelária ao fundo. Até m esm o o m uro de concreto form ado pelos edifícios j á existentes parece com por com perfeição o cenário para as escolas se exibirem . Um a das versões, porém , fazia lem brar um álbum , com um a pequena ficha de cada escola de sam ba, com dados de sua fundação, endereço e até um a foto do desfile do ano anterior. Na outra, m ais sim ples, um “envelopão”, apenas, com o disco dentro.

Com o num rasgo de nostalgia, e m ais um a vez lem brando os versos de Baianinho, vem à m ente que aquela noite de dom ingo de carnaval m arcou m inha estreia nas arquibancadas das passarelas do sam ba. Eu, que j á vivia os desfiles vinte e quatro por dia, sete dias por sem ana, o ano todo, pela ligação de m eu pai j ustam ente com a Em Cim a da Hora, m e vi nos degraus de m adeira do m onta e desm onta para ver o desfile.

Se não se podia falar de política – estávam os em 1973, não se esqueçam , curtindo O Bem-Amado a cores na televisão e ouvindo de outra pequena escola (na época), cham ada Beij a-Flor de Nilópolis, exaltações ao Mobral e à política de educação dos governos de então –, podíam os cantar os sam bas. E as rádios tocavam , em seus trinta e tantos program as dedicados ao assunto.

Assim , com nove anos eu sabia de cor o refrão do “Rio Zé Pereira” da Mocidade Independente de Padre Miguel que pedia ao povo para sam bar; ou m e achava realm ente “de sam ba”, apesar de branco com o um a cera, com a convocação do “Am eno Resedá” da Unidos do Jacarezinho, interpretado por um a m ulher (Ivete Garcia) – o m esm o acontecia com o Im pério Serrano, cam peão do ano anterior, que tinha sua “Viagem encantada Pindoram a a dentro” cantada por Graciete.

Todas as escolas, sem exceção, traziam com posições com algo a destacar. Por isso, ganha ainda m ais valor o sam ba de Baianinho. Superar tantas feras era sinal de qualidade, m uita qualidade. Na opinião de Zacarias Oliveira, que produz o disco dos sam bas de enredo desde aqueles tem pos até hoj e, tendo passado da Top Tape para a gravadora da Liga Independente das Escolas de Sam ba, a qualidade do disco de 1973 é inquestionável. Sem querer destacar esta ou aquela com posição, Zacarias, que j á viu seu “produto” vender quase dois m ilhões de cópias nos anos 90 do século passado, lem bra que o disco de 40 anos atrás tinha “Mangueira, Portela, Vila Isabel, Em Cim a da Hora...” – e para por aí para não citar as dez com posições.

Com saudade e a voz em bargada, ele se lem bra que o proj eto “LP dos sam bas de enredo de 1973” precisava em placar. A AESEG (Associação das Escolas de Sam ba da Guanabara) ainda trazia dívidas do disco de 1972, que m esm o com todo o sucesso do sam ba de enredo do Im pério Serrano (cam peão do carnaval com “Alô, alô, taí Carm en Miranda”) e da Im peratriz (que levara para o desfile o “Martim Cererê”, tem a até de novela da televisão), não vendera o esperado e deixara encalhes e prej uízo. O de 73, não. Vendeu bem . E aj udou as escolas a faturarem um a graninha bastante razoável, provando tam bém ao em presário que investira que ali estava um bom filão a ser explorado. Mas isso é assunto para outro texto.

Sambas de Enredo das Escolas de Samba do G rupo I (Top Tape – 85.013)

Lado A

1. Pasárgada, O Amigo do Rei (David Correa)

Escola de Sam ba: Portela − Puxador do sam ba: David Correa

2. O Saber Poético da Literatura de Cordel

(Eládio G. dos Santos “Baianinho”)

Escola de Sam ba: Em Cim a da Hora − Puxador do sam ba: Ney Viana

3. Ameno Resedá (Nonô, Sereno, Zé Dedão e Unidos do

Jacarezinho)

Escola de Sam ba: Unidos do Jacarezinho − Puxadora do sam ba: Ivete Garcia

4. A B C do Carnaval à Maneira da Literatura de Cordel

(Nelson Lim a, Gilson Russo da Silva (Caxam bú) e Im peratriz Leopoldinense)

Escola de Sam ba: Im peratriz Leopoldinense − Puxador do sam ba: Dom Barbosa

5. Viagem Encantada Pindorama Adentro (Wilson Diabo e

Malaquias)

Escola de Sam ba: Im pério Serrano − Puxadora do sam ba: Graciete

Lado B

1. Lendas do Abaeté (Jaj á, Preto Rico e Manoel)

Escola de Sam ba: Estação Prim eira de Mangueira − Puxador do sam ba: Genaro da Bahia

2. Zodíaco no Samba (Paulo Brasão e Irany S. Silva)

Escola de Sam ba: Unidos de Vila Isabel − Puxador do sam ba: Antônio A. Adão (Antônio Grande)

3. Rio – Zé Pereira (Sebastião Nascim ento (Tião da Roça),

Eduardo Ferreira (Edu) e Mocidade Independente de Padre Miguel)

Escola de Sam ba: Mocidade Independente de Padre Miguel − Puxador do sam ba: Tião da Roça

4. Assim Dança o Brasil (Sérgio Ignácio e Tupy de Brás de Pina)

Escola de Sam ba: Tupy de Brás de Pina − Puxador do sam ba: Mazola

5. Eneida, Amor e Fantasia (Geraldo Babão)

Escola de Sam ba: Acadêm icos do Salgueiro − Puxador do sam ba: Waldir F. de Oliveira (Marrom )