1973: O Ano que Reinventou a MPB
Preciosidade Única
PÉROLA NEG RA − LUIZ MELODIA
Pedro Só
té o com eço dos anos 70, Pérola Negra era um apelido relativam ente com um entre negros brasileiros. Chegou a colar
A internacionalm ente no m ais fam oso deles, Pelé, e a designar produtos, com o um m odelo de televisor da GE. Houve tam bém a Pérola, cervej a produzida em Caxias do Sul, em sua variação escura, provável inspiração para o batism o da escola de sam ba paulistana fundada em 1973.
Mas depois que Gal Costa entoou, no show Fa-Tal – Gal a Todo Vapor, os versos de certo j ovem do Morro de São Carlos, em outubro de 1971, Pérola Negra iniciou outra j ornada sem ântica: ao longo dos anos, a dilacerada canção de am or e incerteza foi superando todas as outras acepções. Em j unho de 1973, ela batizaria o LP de estreia do autor, Luiz Melodia, e teria sua im portância m ultiplicada: a obra curta e cortante de dez faixas e pouco m ais de 27 m inutos passou a ser presença quase unânim e em todas as tentativas de estabelecer um cânone da m oderna m úsica popular brasileira.
A concisão do álbum tem m otivo pouco nobre. Sob o governo m édici, no auge dos anos de chum bo do regim e m ilitar, a censura sufocava a m úsica popular de form a estúpida. Após idas e vindas, a despeito das tentativas do em presário do artista, Guilherm e Araúj o, a canção “Feras que virão”, com a sutil am eaça de “eu nasci m agrinho / toco pinho / não sou tinta / m as qualquer hora posso pintar / vou fazer lenha queim ar”, teve de ser retirada (só seria gravada em 1980, no disco Nós), bem com o “Feto, poeta do m orro”, o que atrasou em pelo m enos três m eses o lançam ento do LP. Mesm o a inocente “Pra aquietar”, inspirada em passeios de infância na ilha de Paquetá, foi alvo de im plicância. Só de raiva, Melodia trocou os trechos canetados – que hoj e nem se lem bra m ais quais foram − por “qualquer coisa”, o que explica o nonsense de versos com o “não posso pra lá paraguaio para”.
Mutilada com o tantas obras de então, essa estreia apresentou o talento bruto e a inspiração lapidar de um poeta popular que trazia em cérebro e vísceras o m elhor de dois m undos: o da tradição nacional e o da m odernidade global. Foi provavelm ente o prim eiro com positor a surgir com tal perfil em um a favela brasileira. Nada m ais sanguíneo, m ais corporalm ente integrado do que o sam ba e o blues de suas com posições, a ginga do intérprete de singularíssim a e bela voz corcoveando entre rock, j azz, forró, sam ba-choro e qualquer outro gênero que servisse para expurgar suas angústias e lam entos. “É a m inha barra, o que acontece”, antielaborou ele, em um a entrevista da época, depois de deixar claro que não queria ser visto “com o um coitadinho”. Tím ido, porém altivo, o j ovem de 21 anos chegou pronto, tinindo de genialidade precoce tal qual um Rim baud negro.
O reconhecim ento, porém , não foi tão instantâneo ou avassalador quanto se im agina. Críticos im portantes registraram ressalvas: Julio Hungria, do Jornal do Brasil, escreveu que Melodia “supera suas eventuais deficiências interpretativas” e apontou para um a “(surpreendente) falta de criatividade em alguns arranj os”. O show de lançam ento do disco, no MAM carioca, com o atração de abertura de Caetano Veloso, se resum iu a cinco m úsicas e, no relato de Luís Carlos Cabral, publicado em 15 de j unho de 1973, no Diário de Notícias, “não foi propriam ente um êxito. Os m icrofones estavam apitando, ele desafinou algum as vezes, e a plateia, ainda fria, não reagiu com vigor a seus apelos”.
Para transform ar o que era obj eto de culto em sucesso popular, foi preciso com er m ais feij ão do que aparece na m ontagem genial da capa de Pérola Negra clicada por Rubens Maia em um ferro-velho de Copacabana. Mas a consagração veio, em 1976, com “Juventude transviada” na trilha da novela Pecado Capital.
Filho do funcionário público Oswaldo Melodia e da costureira Eurídice, Luiz Carlos dos Santos foi criado em local de história nobre e IDH cronicam ente pobre: o m orro de São Carlos, no Estácio, bairro conhecido com o o Berço do Sam ba – onde Ism ael Silva (1905-1978) fundou a Deixa Falar, pioneira das agrem iações carnavalescas cariocas. Melô chegou a ter em pregos fugazes com o office boy (em um a tipografia) e balconista do bar da PUC. “Mas eu era filhinho de papai, tinha boas condições”, diverte-se ele hoj e, ao lem brar da vida antes de ser descoberto por Waly Salom ão (1943-2003), ainda quando servia ao Exército.
Acostum ado desde os oito anos a ser arrastado pelo pai, m úsico am ador, para as rodas boêm ias da região, ele cresceu sem se prender à tradição local de sam ba de m orro, seresta e choro. Já a partir dos gostos paterno e m aterno, aprendeu a gostar de boleros de Anísio Silva (1920-1989) e de sam ba-canção (“Lupicínio Rodrigues m exia com igo”, lem bra). Tam bém incorporou a m úsica nordestina de Gonzagão e Jackson do Pandeiro.
Mas a j anela para o m undo abriu m esm o com program as com o Hoj e é dia de rock, que Jair de Taum aturgo com andava na Rádio May rink Veiga desde o fim dos anos 50. Assim com o m uitos j ovens de sua geração, o m enino que sonhava em ser ponta-direita do Vasco foi tragado pelo iê-iê-iê da vizinhança (a rua Haddock Lobo, reduto da Jovem Guarda, com eça no Largo do Estácio) e m ontou conj untos sem iprofissionais para em balar bailinhos nas favelas da área. Houve Os Instantâneos e Os Filhos do Sol, que tocavam tudo que fosse necessário para anim ar um a festa, ainda que o inglês fosse puro embromation.
Tam bém frequentou program as de calouros, com relativo sucesso: na rádio Mauá, ficou em prim eiro lugar em um concurso com sua interpretação de “Rosita” (de Francisco Lara e Jovenil Santos), faixa do LP Roberto Carlos Canta para a Juventude, de 1965. Sem pre um a boa entrevista, Luiz Melodia não tem a m ais confiável e precisa das m em órias, m as se recorda dessa prim eira “consagração”: “O m orro inteiro estava ouvindo.”
Suas prim eiras com posições eram ingênuas. Aos poucos, porém , o fã do rom antism o bubblegum de cantores com o Chris Montez foi incorporando influências m ais m odernas e se atualizando: do Nat King Cole que ouvia na vitrola do tio passou para o blues de Taj Mahal (cantor e m ulti-instrum entista am ericano que em 1968 j á brilhava no Rock n’Roll Circus dos Rolling Stones) e, principalm ente, o Tropicalism o. “Aquilo para m im foi libertador.” Quando conheceu três irm ãs que tinham recém se m udado para o São Carlos, veio a ponte com um dos elem entos centrais dessa turm a, o poeta, com positor e agitador cultural Waly Salom ão – que, por sua vez, fazia incursões ao local arrastado pela curiosidade e inquietude de Hélio Oiticica (1937-1980).
Ele e o j ornalista e letrista Torquato Neto (1944-1972) o levaram para a órbita da poética m oderna de Caetano e Gil, a liberdade inventiva de Jards Macalé... e a casa de Gal Costa, então m usa do desbunde. Foi lá que, sob os olhares desconfiados da m ãe da cantora, Melodia encantou a todos com um a com posição. A m úsica j á tinha, então, o dedo de Waly, que havia sugerido a troca do tratam ento “m y black, m eu nego” por “Pérola Negra”, que era o apelido de um travesti da área cham ado Adílson. “Ele m orreu assassinado m uitos anos depois”, conta Melodia. A verdadeira inspiração, porém , tinha sido um a m oça que, depois do relacionam ento com o cantor, nam orou Waly : a prim eira branca de suas conquistas am orosas.
O j ovem que estudou som ente até a sexta série ginasial (atual ensino fundam ental) desceu o m orro para andanças na Ipanem a hippie com intelectuais, adotado pela turm a da Zona Sul e pelos baianos, sob o guarda-chuva do em presário Guilherm e Arauj o. Em j aneiro de 1972, trazia um toque de estranham ento à ortodoxia do show A Fina Flor do Samba, onde convivia com atrações com o “Candeia e ritm istas”. Só em abril pôde, no Teatro Opinião, desfraldar a própria bandeira, em espetáculo batizado Estácio Blues.
Pérola Negra, o disco, deve boa parte da identidade ao baiano Perinho Albuquerque, que o assina com o diretor m usical. Ele é autor de nove dos dez arranj os e ainda enriquecedor de algum as harm onias. Tam bém j ovem , 26 anos em 1972, o ex-guitarrista da segunda form ação dos Panteras de Raulzito com eçou a trabalhar com Maria Bethânia e Caetano Veloso j á em 1964. Com o arranj ador ou produtor, consta de boa parte de produção dos baianos tropicalistas durante a década de 70. Mas a partir da década de 80 foi se afastando da m úsica e atualm ente se m ostra avesso a entrevistas.
Perinho cham ou o regional do violonista Canhoto e o flautista Altam iro Carrilho para a faixa de abertura, o sam ba-choro “Estácio, eu e você”, prim oroso exercício de estilo. O bairro é igualm ente m ote para a terceira faixa (que havia sido gravada no ano anterior por Maria Bethânia), “Estácio holly Estácio”, que m istura chapação e bode anos de chum bo com doçura nostálgica e a carícia da gaita de Rildo Hora. A últim a do lado B, “Forró de j aneiro”, seria igualm ente com portada – e bem cortada pelo acordeão de Dom inguinhos −, não fosse a participação dem ente de Dam ião Experiença, gritando im precações ininteligíveis em contraste com a poesia cortante da letra (“é ponta de faca com puro veneno / veneno suor e poeira / e a m orte a flutuar”). Ele e Melodia eram am igos de Estácio e chegaram a tentar trabalhar em parceria, sem êxito. “Ele era m uito com plicado, tinha um gênio difícil. Um dia se grilou com um lance e não rolou m ais”, lem bra o cantor.
Perinho abre espaço para o eclético Arthur Verocai arranj ar o soul/rock “Pra Aquietar”, com a guitarra de Hy ldon puxando a barca. Mas o produtor tam bém m ostra serviço na base do deixa que eu chuto: no dolorido j azzism o de “Abundantem ente m orte”, dá vazão ao lado fã de Kenny Burrell na guitarra com plem entada exclusivam ente pelo violão (do próprio Perinho).
As outras cinco canções em bluesadas brigam contra a rotulagem expressa e traduzem vividam ente aqueles loucos anos de repressão e hippiesm o tardio no Brasil. Renato Piau, guitarrista fundam ental na carreira de Melodia, participa som ente de “Farrapo hum ano”, que fala em suicídio com um suingão híbrido conduzido especialm ente pelo baixo cam inhante e saltitante de Rubão Sabino. Sua alm a gêm ea é o fox “Obj eto H”, com toques de Nat King Cole Trio dando leveza a m ais versos de pulsos rasgados: “m orre direito gostoso / coração verm elho / um dia volto e digo / você não foi com igo / ninguém m ais leu o m eu signo.”
Singular, “Vale o quanto pesa” j oga afrocubanidade na m istura, com destaque para os m etais (sem crédito no disco) e para um a bem sacada viola tocada por Perinho. Tam bém é ele quem entra rasgando com a guitarra em outra balada cor de sangue, “Magrelinha”, com o piano de Antonio Perna construindo a dram aticidade perfeita para a inquietação pop tropicalista.
Na faixa-título, que j á era conhecida na voz de Gal e no arranj o roqueiro de Lanny Gordin, brilhou novam ente a direção m usical de Perinho, com sopros tão classudos que parecem ter sido adaptados da introdução de um a gravação clássica do bebop. Com essa e outras aj udas, Luiz Melodia m ostrou que a m ais bela “Pérola negra” é a dele e que ninguém interpreta m elhor suas canções. Sej a com o desdobram ento do Tropicalism o ou m arco da MPB em tem pos de expansão e afirm ação estilística, a estreia do poeta do m orro de São Carlos está há quatro décadas com o j oia única, tesouro de brilho único. Com o um golaço de Pelé ou um a cervej a que não é m ais produzida.
Pérola Negra (Philips − 6349 067)
Direção de produção Guilherm e Araúj o
Direção m usical e arranj os: Perinho Albuquerque e Arthur Verocai (“Pra Aquietar”)
Fotos e capa: Rubens Maia
Músicos:
Perinho Albuquerque: violão, viola e guitarra
Antônio Perna Fróes e Hugo Bellard: piano
Luis Paraguai: percussão
Lula e Pascoal Meirelles: bateria
Robertinho Silva: percussão e bateria
Rubão Sabino, Fernando Leporace e Luiz Alves: baixo elétrico
Rildo Hora: gaita (harm ônica)
Hy ldon e Renato Piau: guitarra
Regional de Canhoto
Lado A
1. Estácio, Eu E Você (Luiz Melodia)
2. Vale Q uanto Pesa (Luiz Melodia)
3. Estácio Holy Estácio (Luiz Melodia)
4. Pra Aquietar (Luiz Melodia)
5. Abundantemente morte (Luiz Melodia)
Lado B
1. Pérola Negra (Luiz Melodia)
2. Magrelinha (Luiz Melodia)
3. Farrapo Humano (Luiz Melodia)
4. Objeto (Luiz Melodia)
5. Forró de Janeiro (Luiz Melodia)