1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 22 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

O Pop Maldito de Lamounier

GUILHERME LAMOUNIER − GUILHERME LAMOUNIER

 

Ricardo Schott

 

carioca Guilherm e Lam ounier entrou para a m em ória afetiva pop com o com positor de hits radiofônicos gravados por ele

 

O m esm o e por Fábio Jr., Roupa Nova e Frenéticas (anos depois, Sandy & Junior gravariam seu hit “Enrosca”). Só há pouco m ais de dez anos, seu álbum de 1973, hom ônim o, lançado pela Continental, ganhou ares de raridade: vale até R$ 500 em sites de com pras. Mas o cantor não chegou a ser um a prom essa de rei do pop nacional.

“O disco chegou dois anos atrasado e por um a gravadora com potencial pequeno”, lam enta o parceiro de Guilherm e no álbum , Tibério Gaspar, autor das doze letras do disco. O repertório de Guilherme Lamounier, com canções vigorosas entre o folk e o rock, com o “Mini-Neila”, “GB em alto relevo”, “Capitão de papel” e o hit “Será que eu pus um grilo na sua cabeça?” até hoj e perm anece inédito em CD. Recentem ente foi rem asterizado a partir das fitas originais, m as por entraves burocráticos, não pôde voltar às loj as. Se um dia for reeditado j á terá chegado aos ouvidos de m uitos por interm édio de MP3 piratas, tirados do próprio vinil, que nada renderão a Guilherm e.

O COMEÇO

Guilherm e nasceu em berço de m úsicos. Sua m ãe foi a professora de canto lírico Sílvia Lam ounier. O avô m aterno, Gastão Lam ounier, foi um a espécie de “rei da valsa” nos anos 30, gravado por Silvio Caldas e Carlos Galhardo. Havia ainda o DJ Ricardo Lam ounier, que pilotou as carrapetas da New York City Discotheque e o com positor Gastão Lam ounier Jr., seu prim o. Todos os quatro estão m ortos. Ele com eça na m ovim entação roqueira da Zona Sul carioca em 1967, com o vocalista da banda All Stars − na qual dividiu tarefas com Jackson Porciúncula (bateria), Dam ião (baixo), Renato Terra (guitarra, sucesso nos anos 80 com canções com o “Lá em Mauá”) e Antônio Cigano (órgão). O grupo, form ado para tocar no Radar Esporte Clube de Copacabana, durou até 1968.

Dois anos depois, entra em cena o polêm ico produtor Carlos Im perial (1935-1992). Responsável pelas prim eiras noções de profissionalism o de Roberto Carlos (nascido em Cachoeiro do Itapem irim com o ele), Wilson Sim onal, Elis Regina e Clara Nunes, Im perial tinha realm ente credenciais de im pressionar − ainda m ais para um garotão com o Guilherm e, 20 anos em 1970.

“Ele fez com Guilherm e o m esm o que fizera com o Roberto”, afirm a Denilson Monteiro, autor da biografia de Im perial, Dez! Nota dez (Matrix). “Tinha um a escala: ir à praia, aula de canto, de violão. E tinha que m orar na casa dele! O Erasm o dizia que viu isso e saiu fora, que era um a lavagem cerebral!”, brinca. O produtor-agitador publicava notas dizendo que Lam ounier preferia com por em inglês. Ou fotos do cantor sem cam isa, focalizado da cintura para cim a, com o violão (“Eu adoro com por nu”, dizia a inacreditável legenda).

Não era um procedim ento estranho à fam ília de Lam ounier. Seu prim o Gastão trabalhara com Im perial na sua tentativa de se aproveitar do sucesso da “pilantragem ” de Wilson Sim onal - o grupo Turm a da Pesada, que gravou o disco Pilantrália em 1968 pela Odeon. “O Im perial cism ou: ‘pô, Gastão parece nom e de garçom ’. Ele teve seu nom e m udado para Luiz Henrique”, recorda Denilson.

VAIAS NO FESTIVAL

Em 1970, Lam ounier lança sob produção de Im perial o prim eiro disco hom ônim o pela Odeon, de soul − naquele período, o produtor lançava um a série de artistas black, sob o rótulo “som livre”, vendido depois a João Araúj o para que m ontasse sua gravadora Som Livre (“Im perial ainda disse: ‘vou cobrar baratinho porque você é um cara legal’”, gargalhava Denilson). O álbum passou batido, apesar de ter um a canção pop que estouraria naquele m esm o ano com Tim Maia: “Cristina”, cuj o nom e vinha de um a gíria que os am igos Tim e Lam ounier teoricam ente usavam quando iam dar um tapa num baseado, “vou ver Cristina”.

Guilherm e só conseguiria proj eção em sua união com Im perial ao defender a chorosa “Conquistando e conquistado”, do produtor e de Ibrahim Sued, no Festival Internacional da Canção de 1970. E a notoriedade se resum iu a um a chuva de vaias − que não eram para ele, m as para Im perial que, atrás do cantor, fazia um a dança da chuva, vestido com um a fantasia do bloco Cacique de Ram os, num a hom enagem “às raízes brasileiras”.

“Im perial m eteu na cabeça do Guilherm e que ele iria ser a sensação do festival e fez aquilo!”, afirm a Denilson. “Antes da apresentação, ele punha o Guilherm e para subir escadas, para m elhorar a capacidade respiratória. O Guilherm e sem pre foi elogiado por causa da voz e nem conseguia cantar. Não se ouvia.”

Faz sentido quando observa-se a carreira de Im perial, um suj eito para quem vaia era aplauso (sua fam a era a de “j urado vilão” em program as de TV). Já para o refinado Guilherm e foi com plicado. “Acredito até que Im perial conhecesse aqueles happenings do Living Theatre e que tivesse pretendido usar isso. Anos antes, ele j á aparecera de sm oking e chinelos por trás do Ronnie Von num festival. Mas o Guilherm e saiu m alzão dali.”

A FIM DE VOLTAR

Rom pido com Im perial, Lam ounier tentava voltar. Antes do disco, em 1969, j á participara com o ator e coautor da trilha sonora (ao lado de ninguém m enos que Dorival Cay m m i) de um a film agem am ericana de Capitães de Areia, de Jorge Am ado. Batizado The Sandpit Generals, o film e foi dirigido por Hal Bartlett e teve outros atores brasileiros, com o Eliana Pittm an (com quem o personagem de Guilherm e, Gato, tem cenas rom ânticas) e Marisa Urban. O inusitado: inédito no Brasil, o film e concorreu ao Festival Internacional de Cinem a de Moscou em 1971. E im pactou gerações de adolescentes da antiga União Soviética, transform ando “Suíte dos pescadores”, de Cay m m i, em hino local. Mas, com o cantor, Lam ounier perm anecia um a tentativa.

Aparece aí Tibério Gaspar, ex-parceiro de Antonio Adolfo e autor, com ele, de canções com o “Teletem a”, hit com Evinha, “Sá Marina” e “Meia-volta (Ana Cristina)”, gravadas por Wilson Sim onal. Tibério lem bra-se: “Conheci Guilherm e quando ele tinha uns 15, 16 anos, e dava show com um grupo em Copacabana. Era um grande cantor, m as não era ainda com positor. Antonio Adolfo tinha saído do Brasil e com ecei a escrever com Guilherm e”.

Na época, graças a um a tem porada em países da Europa e nos Estados Unidos (por conta do sucesso internacional de m úsicas com o “Teletem a” e “Sá Marina”), Tibério com eçou a observar a m ovim entação m usical j ovem de festivais com o Woodstock e a absorção do funk e do folk pelo rock.

“Surgiram nom es com o Crosby, Stills, Nash & Young e vi que a onda era a m úsica com violão”, diz. Além do super grupo lançado em Woodstock, o aparecim ento dos prim eiros em ergentes do bittersweet, m ovim ento de cantores-autores que falava sem pre na prim eira pessoa (e que incluía Jam es Tay lor, Carole King e Carly Sim on), com eçou a inspirar a fornada de canções da dupla. “Não havia essa sonoridade aqui.”

O DISCO

Surgiram m úsicas com o “Capitão de papel”, “GB em alto relevo” (com título fazendo referência ao antigo Estado da Guanabara) e a pesada “Cabeça feita”. “Será que eu pus um grilo na sua cabeça?” era um bucólico tem a folk que não trazia o nom e da canção na letra. “A ideia era falar das coisas que a gente não vê no dia-a-dia. O título é algo com o ‘tô falando coisas para as quais você nunca deu valor. Será que agora você vai perceber?’”, recorda Tibério.

Já a baladaça “Passam anos, passam Anas” foi censurada. “O nom e era ‘Entre anos, entre Anas’, porque Ana era um nom e recorrente na m inha obra. A censura achou que era um a referência ao coito anal e cortou”, diverte-se. Detalhe: Tibério j ura que, apesar das histórias envolvendo Guilherm e e Tim Maia, e de letras com o “Cabeça feita” (“cabeça feita pra não dar bandeira / a cabeça feita não m arca bobeira”), Lam ounier era careta na época. “Ele nem fum ava m aconha!”.

Anim ado, Tibério m ostrou o repertório para o chefão da Philips, André Midani. “André adorou. Dizia para a gente gravar, que ia dar o m aior pé”, garante. “Só que o disco só acabou saindo em 1973, quando ele assinou com a Continental. Era para ser lançado de im ediato, esse tipo de som ia vazar aqui.” Mesm o afastado e “m eio puto”, Tibério posou para as fotos da capa dupla do disco com Guilherm e e convidou Luiz Claudio Ram os, seu prim o, para os arranj os. As sessões aconteceram no estúdio paulistano Gazeta e não duraram m ais do que dez dias.

“Estávam os todos bem ensaiados. Tinha passado um m ês trabalhando com o Guilherm e”, recorda Luiz Claudio, hoj e violonista de Chico Buarque. Segundo ele, o disco teve participações de m úsicos com o Oberdan Magalhães (futuro Black Rio) tocando flauta e Wagner Tiso no sintetizador. Lanny Gordin está na guitarra em várias faixas e o próprio Guilherm e toca violão e piano. “Lem bro que a gente foi no m eu carro para São Paulo. Era tudo m uito divertido, éram os bem j ovens. Anos depois, o Roberto Menescal m e perguntou o que tinha de legal na m úsica j ovem , quando ele estava dirigindo a Philips, e recom endei o Guilherm e, que foi gravar lá”, conta Luiz.

SEM ALARDE

Guilherme Lamounier saiu em agosto de 1973 com vendagens m odestas. “Será que eu pus um grilo na sua cabeça?”, “Mini-Neila” e “GB em alto relevo” foram os hits. “O disco abriu cam inhos. Quando o Stevie Wonder esteve aqui pela prim eira vez o apresentei ao Guilherm e”, recorda Tibério. Mas a parceria parou aí − e Guilherm e seguiria gravando singles editados pela Continental, com o “Vai atrás da vida que ela te espera” e a funkeada “Me deixa viver com o bicho na Terra”. O contrato com a Philips renderia com pactos de sucesso a partir de 1976, com o “Não leve nada a sério” e “Enrosca” (com posta para a cantora Lilian Knapp, então sua nam orada), gravados com m úsicos com o Lim inha (baixo), Dadi (guitarra) e Gustavo Schroeter (bateria). A discografia de Guilherm e se com pleta com um LP pela Som Livre em 1978 (com “Seu m elhor am igo”, regravada tam bém por Fábio Jr., que fez sucesso com várias m úsicas suas) e com singles lançados até 1985.

Guilherm e ainda hoj e tem m uito m aterial pra m ostrar. Recentem ente o Kid Abelha regravou “Será que eu pus um grilo na sua cabeça?” no álbum Pega Vida, de 2005. “O Guilherm e é um a das m inhas cicatrizes. Cantor igual a ele no Brasil não tem . Ele tinha que ser aj udado”, afirm a Luiz Claudio Ram os. Tibério costum a reler canções do disco em shows solo pois afirm a que “as pessoas precisam conhecer esse m aterial”.

 

G uilherme Lamounier (ATCO/Continental −ATNLP 100.002) Direção de produção: Fernando Falcon

Arranj os e regência: Luis Cláudio

Técnico de som : Milton Rodrigues

Capa: Adelson Filadelfo do Prado

Fotografias: François Cordineu

Arte final: Oscar Paolillo

Lado A

1. Mini Neila (Guilherm e Lam ounier e Tibério Gaspar)

2. G B em Alto Relevo (Guilherm e Lam ounier e Tibério Gaspar)

3. Patrícia (Guilherm e Lam ounier e Tibério Gaspar)

4. Os Telhados do Mundo (Guilherm e Lam ounier e Tibério Gaspa

5. Freedom (Guilherm e Lam ounier e Tibério Gaspar)

Lado B

1. Capitão de Papel (Guilherm e Lam ounier e Tibério Gaspar)

2. Amanhã Não Sei (Guilherm e Lam ounier e Tibério Gaspar)

3. Será Q ue Eu Pus Um G rilo Na Sua Cabeça? (Guilherm e

Lam ounier e Tibério Gaspar)

4. Passam Anos, Passam Anas (Guilherm e Lam ounier e Tibério

Gaspar)

5. Cabeça Feita (Guilherm e Lam ounier e Tibério Gaspar)