1973: O Ano que Reinventou a MPB
Imagina um Som: Eles Fizeram
MATANÇA DO PORCO − SOM IMAGINÁRIO
Marcus Veras de Faria
ano da graça de 1973 não foi fácil para ninguém . E, apesar da noite que espalhava suas cinzas sobre o país, um poderoso
O coração m usical pulsava bem para lá das fronteiras do perm itido. No em bate direto com a censura, os m aiores nom es de nossa m úsica popular produziram álbuns m aravilhosos, que servem de referência até hoj e, passadas quatro décadas. Com positores e letristas afiavam suas garras poéticas em m etáforas e representações, driblando o olhar severo de quem inventou a tristeza.
A nossa m úsica instrum ental urbana, que ganhara um incrível alento com a chegada da Bossa Nova (os trios baixo/piano/batera exibiam a puj ança dos m úsicos brasileiros), se m odernizava com todas as influências que o pop liberara, do j azz aos instrum entos eletrônicos. A guitarra elétrica, depois de ser esculachada por um a passeata em São Paulo, saía de seu gueto para levar novos sabores à m istura verde-am arela. O contrabaixo elétrico com e sem trastes tam bém m arcou presença. E a sem pre poderosa percussão brasileira solidificou as questões rítm icas. O piano elétrico e sua incrível gam a de sonoridades trouxe novas texturas para alegria dos com positores e arranj adores. A Tropicália, o rock, a Jovem Guarda, a Bossa Nova, todos estes gêneros, depois de um princípio conflitante, passaram a se com unicar – prim eiro por debaixo do pano, depois sem m edo de ser feliz.
Entre os grupos instrum entais da época, talvez nenhum tenha sido tão nôm ade e m ultifacetado com o o Som Im aginário. Form ado inicialm ente em 1970 pelo tecladista, com positor e arranj ador Wagner Tiso para acom panhar a estrela ascendente de Milton Nascim ento, o Som Im aginário foi a arena onde um a brilhante geração de m úsicos exibiu suas m uitas qualidades. Vam os à escalação desta poderosa equipe, ressalvando que não há banco pois todos que por ali passaram são titulares. Frederiko (guitarra), Toninho Horta (guitarra), Zé Rodrix (teclados), Luiz Alves (baixo), Laudir de Oliveira (percussão), Naná Vasconcelos (percussão), Robertinho Silva (bateria), Tavito (guitarra, violão de doze cordas), Nivaldo Ornellas (sax); fora os convidados para cada um dos três LPs que eles gravaram .
Ouvir o Som Im aginário ao vivo era um a festa para os ouvidos, com m uitos sets de im provisação, o que o estreito espaço dos discos de vinil não perm itia. Logo no prim eiro LP, pelo m enos dois grandes sucessos: “Feira m oderna” (Beto Guedes e Fernando Brant”), que brilhou no Festival Internacional da Canção, e “Hey m an” (Zé Rodrix e Tavito), trilha sonora da peça avant-garde tropicalista Miss Apesar de Tudo Brasil. Essa últim a tinha um a “pegada” m ais pop, principalm ente por conta da dupla Rodrix e Tavito.
No segundo LP, com a saída de Zé Rodrix para form ar um trio com Luiz Carlos Sá e Gutem berg Guaraby ra, o destaque passa a ser Frederiko e suas belíssim as com posições – um exem plo é “Salvação pela m acrobiótica”. Os seus solos nas apresentações ao vivo deixavam a galera encantada – procure as gravações de program as de TV de vanguarda para saber do que falo. E por fim chegam os ao terceiro disco, Matança do Porco, de 1973, que esconde sob um a capa som bria sua m úsica lum inosa e onde Wagner Tiso m ostra toda as suas virtudes com o com positor e tecladista.
Com o eu disse antes, 1973 não foi um ano fácil para m uita gente. E a foto de capa parece em ular o espírito da época: Wagner, Luiz Alves, Tavito e Robertinho, todos m uito sérios, posando sob as árvores de um estacionam ento no Aterro do Flam engo. Cores tristes, som brias. O título, Matança do Porco, rem ete im ediatam ente a algum tipo de sacrifício. E a faixa hom ônim a teria sido escrita com o trilha sonora para o film e de Ruy Guerra Os Deuses e os Mortos, de 1970, m as a ficha técnica garante que a trilha pertence a Milton Nascim ento (além de sua participação no film e, ele canta a belíssim a “Canhoneira”, parceria com o próprio Ruy Guerra).
Influenciada (ou não) pelo clim a “progressivo” da época, a prim eira faixa do LP, “Arm ina”, traz Wagner Tiso m ostrando toda as suas qualidades de instrum entista, no piano acústico e elétrico e no órgão, secundado pelo trio Robertinho Silva (bateria), Fredrey ko (guitarra) e Luiz Alves (que na época assinava apenas Luiz Carlos) no baixo. É um início sim plesm ente brilhante, puxado pelo solo de guitarra que “prepara” a delicadeza do piano solo, num a sem ivalsa que retorna sem culpa ao peso da guitarra de Fredery ko. A “m ão leve” do baterista Robertinho Silva pesa de verdade para com pletar o que lhe pede a com plexidade da com posição. Ao final da faixa, o teclado de Tiso deixa no ar a sugestão de algo que se esfum a com o vento...
A segunda faixa, “A3” balança um bocado, j á que é um tem a, por natureza “m ais sacudido”. Wagner com anda o piano elétrico e o órgão, Tavito leva a guitarra de 12 cordas, Robertinho traz a tum badora j unto com a bateria, e Luiz Alves, além do baixo, sacode os m aracás. Três convidados engrossam o caldo: Danilo Cay m m i (flauta), Chiquito Braga (guitarra) e Chico Batera (percussão). Com o se pode ver, não é à toa que “A3” balança tanto... Quanto ao título da faixa, não é de hoj e que os instrum entistas sentem dificuldade em dar nom es às suas com posições. É só lem brar o grande Moacy r Santos e as suas geniais “Coisa núm ero 1”, “Coisa núm ero 2” e por aí afora.
A terceira faixa é só um a vinheta, tirada de “Arm ina”, m as com a beleza da Orquestra Odeon, regida por Arthur Verocai. Já a quarta faixa, “A núm ero 2”, apesar da batida levem ente bossa-nova, traz a gravidade de duas guitarras (Fredery ko e Chiquito Braga), apoiadas nas 12 cordas de Tavito, com o tem a principal sendo replicado no órgão e no piano elétrico de Wagner Tiso. Ao fundo, a Orquestra Odeon, agora sob o com ando do m aestro Lindolfo Gay a (nom e im portantíssim o para a m úsica popular brasileira entre os anos 1950 e 1970), faz a cam a para o tem a. A canção se transform a em algo m uito m ais percussivo no terço final do tem a, surpreendendo o ouvinte de form a m uito agradável, com a interferência da percussão de Chico Batera, que dobra a poderosa bateria de Robertinho Silva. É bom lem brar que se trata de um long play, com duração m uito curta, e por isso m esm o estas três faixas encerram o lado A.
O lado B com eça com a faixa-título “Matança do porco”, um a suíte com andada pela guitarra distorcida de Federiko secundada pelos teclados de Wagner Tiso. Em excruciantes seis m inutos e m eio de sua prim eira parte, a suíte leva ao ponto m áxim o todas as possibilidades da quinteto (guitarra, teclados, bateria, baixo e percussão, novam ente com Chico Batera), para desaguar em um segundo m ovim ento orquestral, novam ente sob a regência do m aestro Gay a. Aqui, há um encontro das diferentes vertentes que citei no segundo parágrafo deste texto. Pois o coral é form ado por nada m enos do que os Golden Boy s, ícones da Jovem Guarda tão “m al-afam ada” entre os ditos cultores da norm a clássica da m úsica brasileira, com o solo vocal de Milton Nascim ento no esplendor de sua form a técnica e artística. O efeito, m ultiplicado pela orquestra, é sim plesm ente em ocionante, e o m ineiro Wagner Tiso, com positor e arranj ador do tem a, faz questão de frisar suas raízes com a entrada do órgão que encam inha para o final que é o com eço, assim com o ocorreu na faixa que abriu o LP. Garanto a vocês: são onze m inutos e oito segundos de m úsica com um a intensidade difícil de se encontrar entre os grupos instrum entais brasileiros que se seguiram ao Som Im aginário.
Um a nova vinheta de apenas 33 segundos, tam bém baseada em “Arm ina”, separa a “Matança” da faixa seguinte, m as dessa vez com um tom jazzy reforçado por um belo naipe de sopros, com a cam a da Orquestra Odeon. Intitulada “Bolero”, a sétim a faixa deste m agnífico LP reúne Wagner Tiso, Robertinho, Luiz Alves, Tavito e Milton Nascim ento na com posição. E quem dá o tom desta vez é a guitarra de doze cordas de Tavito, com um pé bem fincado em tradições de violas m ineiras. Danilo Cay m m i faz um a liga em tons graves com sua flauta, bordando frases sim ples apoiadas nas harm onias dos pianos acústico e elétrico de Wagner. “Mar azul” (Wagner Tiso e Luiz Alves) sam balança um tem a costurado nas entrelinhas pela guitarra de Chiquito Braga, novam ente com o apoio da flauta de Danilo Cay m m i. Para encerrar o disco, um a nova vinheta com cerca de 40 segundos, com a Orquestra Odeon regida por Arthur Verocai, agora com destaque para o naipe de sopros.
Ouvido assim , tantos anos depois, esta álbum exibe com clareza suas virtudes e defeitos. Das prim eiras j á falam os o bastante, quanto aos defeitos, fica clara a dificuldade de aprisionar no suporte LP toda a intensa criatividade de um fabuloso grupo de m úsicos brasileiros. Pode-se questionar tam bém a sequência das faixas, que no m eu entender prej udicam um pouco a com preensão do proj eto com o um todo. Ou talvez não houvesse m esm o com posições em núm ero suficiente para fechar um LP, o que levou a utilização das “vinhetas” para com pletar o set list.
Sej a lá com o for, Matança do Porco é um a peça única na carreira de um grupo que nunca fez questão de solidificar um a linha m usical, deixando na m ão dos m uitos m úsicos que vestiram sua cam isa a escolha do repertório e dos arranj os. É interessante notar a participação de Wagner Tiso nos três LPs aqui citados. Pouco im portava se o som estava m ais “Zé Rodrix” ou “Fredery ko”. O tecladista m ineiro, com seu im enso talento de com positor, arranj ador (os arranj os orquestrais da “Matança” são todos dele) e tecladista soube som ar, integrar e m ultiplicar o talento de seus parceiros de banda, criando um a m úsica instrum ental brasileira absolutam ente conectada com o m undo, sem perder suas características nacionais.
É verdade, o ano de 1973 não foi fácil para ninguém , m as graças ao talento dos nossos m úsicos ficou m ais fácil resistir aos ventos gelados que insistiam – m as não conseguiram – sem ear e colher som ente a tristeza em nosso país.
Matança do Porco (Odeon − SMOFB 3782)
Diretor de produção: Milton Miranda
Diretor m usical: Maestro Gay a
Assistente de produção: Antônio de Vicenzo
Orquestrador: Wagner Tiso
Regentes: Gay a, Arthur Veocoi, Paulo Moura
Diretor técnico: Z.J. Merky
Diretor de gravação: Nivaldo, Tonhinho, Dacy
Técnico de laboratório: Reny R. Lippi
Técnico de rem ixagem : Nivaldo Duarte
Gravações realizadas nos estúdios Odeon
Rio de Janeiro, RJ - 28/3 a 8/5/1973
Wagner Tiso: órgão, piano e piano elétrico
Luiz Carlos: baixo elétrico, guitarra
Robertinho: bateria, tum badora
Tavito: guitarra de 12 cordas
Participações especiais:
Orquestra Odeon
Milton Nascim ento: voz
Golden Boy s: vocais
Fredery ko: guitarra
Danilo Cay m m i: flauta
Chico Batera: percussão
Chiquito: guitarra
Lado A
1. Armina (Wagner Tiso)
2. A3 (Wagner Tiso)
3. Armina (Wagner Tiso)
4. A Nº 2 (Wagner Tiso)
Lado B
1. A Matança do Porco (Wagner Tiso)
2. Armina (Wagner Tiso)
3. Bolero (Wagner Tiso, Robertinho Silva, Tavito, Luis Alves
e Milton Nascim ento)
4. Mar Azul (Wagner Tiso e Luis Alves)
5. Armina (Wagner Tiso)