1973: O Ano que Reinventou a MPB
Tv a Cores Num Paiol de Pólvora
O BEM-AMADO (TRILHA SONORA) − TOQUINHO & VINICIUS
Célio Albuquerque
uando a TV chegou ao Brasil em 1950 era difícil im aginar que ela ira transform ar-se no que é hoj e: profissional e tão
Q onipresente em nossas vidas. Na década de 70 – m esm o sob o dom ínio m ilitar – a TV
brasileira, em particular a TV Globo, conseguiu produzir um m aterial de dram aturgia de qualidade, com destaques para tram as com o Gabriela e O Bem-Amado, que tam bém
acabaram por produzir trilhas sonoras de qualidade.
Sobre as trilhas sonoras de novelas brasileiras, vale lem brar que no início eram m úsicas im portadas, cantadas em sua m aioria em inglês. O telespectador brasileiro, m uito m ais do que hoj e, adorava ouvir “I love y ou” e outras expressões m ais com plexas no idiom a dos Beatles. Vendiam -se alguns m ilhares de com pactos (discos com duas ou quatro m úsicas) com canções que em balavam as tram as. Nada m uito pensado, nem artística, nem com ercialm ente.
Em 1965, Salathiel Coelho, conhecido com o o sonoplasta de ouro, produziu um LP com sucessos de novela. Mas o m om ento da virada das trilhas sonoras de telenovelas brasileiras acontece quando entram em cena, em 1969, o produtor e com positor Nelson Motta e o executivo francês André Midani. Com eles, as trilhas sonoras de novelas da TV Globo passaram a ser feitas sob encom enda. Ao invés de colagens de repertório, as m úsicas agora eram feitas para a tram a ou escolhidas criteriosam ente entre as m ais novas a serem lançadas no m ercado (inéditas até então).
Ou sej a, a verdadeira história das m úsicas brasileiras em novelas com eça então em 1969. Foi nesse ano que a TV Globo lançou a novela Véu de Noiva, escrita por Janete Clair, com direção de Daniel Filho. Nela, efetivam ente, o conceito de trilha sonora original foi incorporado pela televisão brasileira. Tom ando por base os conceitos j á devidam ente testados e aprovados pelo cinem a am ericano. A ideia foi trazida do México por Midani e aperfeiçoada por Nelson Motta e por Daniel Filho. A Globo ainda não era líder de audiência, e a “fórm ula” aj udou a aproxim ar ainda m ais o espectador da tram a. Assim com o j á acontecia no cinem a com bons resultados dram áticos (afinal a m úsica tam bém é um personagem ou pelo m enos um cenário), m usicais e financeiros. Películas de sucesso resultavam (quase sem pre) em m ais discos vendidos. A trilha sonora foi produzida por Nelson Motta. São dessa novela m úsicas com o “Teletem a”, de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, cantada por Regininha e “Irene”, de Caetano Veloso, feita por ele antes de partir para o exílio, interpretada no disco por Elis Regina, além de Ângela Maria cantando um a parceria de Chico Buarque e Vinicius de Moraes sobre a m úsica de Garoto, a cinem atográfica “Gente hum ilde”. A m úsica “Azim uth” de Marcos Valle e Novelli, interpretada pelo grupo Apolo IV, acabou tam bém m igrando para as transm issões autom obilística, j á que ela era tem a do personagem principal m asculino, Marcelo Monserrat, vivido por Cláudio Marzo. A trilha de Véu de Noiva foi lançada pela Philips, na época dirigida pelo próprio Midani.
O sucesso com trilhas sonoras foi tanto que em 1971 a gravadora Som Livre, braço fonográfico da TV Globo, passa a ser responsável pela trilha sonora das novelas e, de certa form a, um a das responsáveis a ditar o que tocava nas rádios. Mas, as trilhas sonoras originais, com o obras fechadas, tiveram vida relativam ente curta. Depois de certo tem po o trabalho de artesanato de se fazer trilhas com m úsicas exclusivas passou a ser pouco produtivo artística e financeiram ente. Era difícil com por um a trilha sonora especial para cada nova novela da em issora, ainda m ais um a em issora que colocava m ais de um a novela no ar por dia.
As telenovelas tinham , com o ainda hoj e, trilhas nacionais e internacionais. Mas, as trilhas nacionais do período podem ser consideradas um espaço “reservado” para a MPB. Elas eram encom endadas norm alm ente para um com positor ou um a dupla de com positores. Antônio Carlos e Jocafi, Roberto e Erasm o Carlos, Zé Rodrix e a dupla Paulo Coelho e Raul Seixas com puseram trilhas especiais para novelas na década de 70. Em 1973, a trilha sonora da novela Semideus, de Janete Clair, ficou a cargo da dupla Baden Powell e Paulo César Pinheiro. Entre os intérpretes das canções estava Maria Creuza. No m esm o ano, a novela Os Ossos do Barão teve trilha assinada pelos irm ãos Paulo Sérgio e Marcos Valle. Foi nessa trilha que Dj avan fez sua estreia fonográfica com a m úsica “Qual é”. Outra novela do m esm o ano que teve trilha sonora especialm ente criada foi Cavalo de Aço, de Walter Negrão, que ficou a cargo da dupla Nelson Motta e Guto Graça Mello. No repertório “Idade 17”, cantada por Evinha e o Trio Ternura.
Entretanto, o destaque das trilhas sonoras daquele ano foi O Bem-Amado, novela de Dias Gom es, estrelada por Paulo Gracindo, no papel do prefeito Odorico Parauaçu, a prim eira novela colorida da televisão brasileira. A novela foi um sucesso estrondoso que além de reprisada acabou virando m inissérie e m ais recentem ente um produto cinem atográfico. Mas, com o diria Odorico, “vam os botar de lado os entretantos e partir para os finalm ente”.
Praticam ente toda a trilha sonora é assinada pela dupla Toquinho e Vinicius, que cantam em algum as faixas. Apenas um a delas é versão da dupla da canção “Chi sei?”, de Sérgio Endrigo, que ganha o título “Quem és”, um a m elodia m elancólica interpretada por Nora Ney.
A faixa que abre o disco, “Paiol de pólvora”, sofreu com as m ãos dos censores, j á que logo na prim eira frase cantava que eles estavam trancados num paiol de pólvora. E, nas entrelinhas o próprio Vinicius brinca com a própria novela, com o j á foi dito, a prim eira transm itida a cores no Brasil. Claro que o paiol de pólvora no fundo era o próprio país. Então, está na letra: “TV a cores no paiol de pólvora”.
“Paiol de pólvora” seria usada na abertura da novela. Mas, a censura, claro, não perm itiu. A m úsica que acabou sendo selecionada para a abertura foi a que dava título a tram a “O Bem -Am ado”. Um a boa escolha. O Coral Som Livre, presente em várias trilhas sonoras da época, interpreta a faixa que acabou sobrevivendo com o m arca registrada do personagem Odorico e suas frases históricas.
Apesar de não constar na m aioria das discografias dos dois (está no site de Toquinho) publicadas por estudiosos de MPB, o disco de fato é da dupla. Toquinho e Vinicius cantam em dupla quatro das onze faixas. Toquinho está presente em outras duas, um a sozinho e outra em com panhia de Maria Creuza. Curiosam ente a m úsica que saltou da trilha sonora para a discografia e para os shows da dupla é “Meu pai Oxalá”, com um arranj o vocal redondo e aproveitando o m om ento brasileiro, prim eiros anos da década de 70, onde não era incom um cantar tem as ou sobre tem as da cultura religiosa de m atrizes africanas. A m úsica era tem a do personagem Zelão das Asas, sublinhando sua fé religiosa. O personagem era vivido pelo ator Milton Gonçalves.
Com o passou praticam ente a ser regra, cada personagem tinha sua m úsica. “Patota de Ipanem a”, um sam binha com toques de pilantragem , era a m úsica da personagem Gisa, interpretada por Maria Cláudia, que se dizia cansada de ir ao Zepelim (bar da m oda da época) e de dar razão aos inventores geniais da com unicação para concluir que está achando que a realidade sabe m ais que a im aginação. Os personagens Juarez e Telm a, vividos por Jardel Filho e um a estreante e sensual Sandra Bréa, foram adornados pela m úsica “No colo da serra”, outra m úsica que encontrou um a boa resposta do público. A introdução curta, com percussão e flauta dando um clim a especial, leva para viagem num canto qualquer “no colo serra”, “no colo de um a m ulher”, “de um a brasileira para se am ar”. Mais Vinicius, im possível.
A novela, que se passava no m unicípio fictício de Sucupira onde o grande proj eto do prefeito era inaugurar o cem itério, tam bém teve sua trilha sonora internacional. A prim eira m úsica do disco, a prim eira do lado A, era internacional, m as tinha um toque de Midas nacional. “Also sprach Zarathustra”,
do com positor Richard Strauss, de 1896, interpretada por Eum ir Deodato. A m úsica foi um dos m aiores sucessos m undiais daquele período. E não é que tocava em Sucupira?
A trilha sonora original de O Bem-Amado foi relançada em CD na série Vale a Pena Ouvir de Novo, j unto com outros 19 títulos. Com o Saramandaia, Dancing Days e Gabriela.
Nesse ano, oficialm ente, a dupla não lançou disco de carreira. No entanto, m esm o que não tenham lançado discos, Toquinho e Vinicius estavam em plena atividade. O espetáculo O Poeta, a Moça e o Violão, com eles e a cantora que despontava no cenário m usical nacional, Clara Nunes, foi um dos m aiores sucessos do ano. A tem porada que fizeram na Bahia, no m esm o ano, acabou, anos m ais tarde, sendo lançada com o produto fonográfico, prim eiro em LP e depois em CD, este pela gravadora Biscoito Fino.
SOBRE MÚSICA E TELENOVELA
A m úsica na telenovela acaba por ter, praticam ente, as m esm as funções e o m esm o uso que no cinem a. Por um a questão de evolução, m uito da história da telenovela, tanto em term os de im agem , com o na utilização de m úsica, está diretam ente ligada ao cinem a. No livro Circo Eletrônico, o diretor Daniel Filho, em vários m om entos, explicita esta relação. Na abertura da novela Irmãos Coragem (1970), de Janete Clair, por exem plo, ele pediu ao com positor Nonato Buzar, um a m úsica de abertura “m eio Ennio Morricone”. Ao passar o briefing da novela Véu de Noiva, de Dias Gom es, do m esm o ano, para o produtor m usical Nelson Motta, falou explicitam ente que queria um a trilha no espírito de Um Homem, uma Mulher, film e de Claude Lelouch.
A função da m úsica num a narrativa cinem atográfica ou num a telenovela j á com eça na abertura. Daniel Filho, que tinha m ania de dirigir telenovelas com um a m úsica na cabeça, para ter consigo a pulsação das cenas, salienta que a m úsica é fundam ental para o sucesso de um a abertura. De acordo com suas observações, nos m ais de 35 anos de TV Globo apenas um novela não teve m úsica na abertura: Sinal de Alerta, de Dias Gom es, que foi ao ar em 1978/79. Nela foram usados apenas ruídos. Vale ressaltar que, atualm ente, as novelas da Rede Globo só tem sua abertura ao final do prim eiro bloco, quebrando um pouco o im pacto da m úsica de abertura.
O Bem-Amado (Trilha Sonora) (Som Livre − SSIG 1023) Intérpretes: Toquinho e Vinicius
Coordenação Geral: João Araúj o
Produção Musical: João Mello
Arranj os: Chiquinho de Morais e Rogério Druprat (Paiol de Pólvora)
Lado A
1. Paiol de Pólvora (Toquinho e Vinicius de Moraes)
Intérpretes: Toquinho e Vinicius
2. Patota de Ipanema (Toquinho e Vinicius de Moraes)
Intérprete: Maria Creuza
3. Veja Você (Toquinho e Vinicius de Moraes)
Intérpretes: Toquinho / Maria Creuza
4. Cotidiano Nº 2 (Toquinho e Vinicius de Moraes)
Intérpretes: Toquinho e Vinicius
5. O Bem-Amado (Toquinho e Vinicius de Moraes)
Intérprete: Coral Som Livre
Lado B
1. Meu Pai Oxalá (Toquinho e Vinicius de Moraes)
Intérpretes: Toquinho e Vinicius
2. Se o Amor Q uiser Voltar (Toquinho e Vinicius de Moraes)
Intérprete: Maria Creuza
3. Um Pouco Mais de Consideração (Toquinho e Vinicius de
Moraes)Intérprete: Toquinho
4. Q uem És? (Chi Sei?) (Sergio Endrigo e Sergio Bardotti, versão
Toquinho e Vinicius)
Intérprete: Nora Ney
5. Se o Amor Q uiser Voltar (Toquinho e Vinicius de Moraes)
Intérprete: Orquestra Som Livre
6. No Colo da Serra (Toquinho e Vinicius de Moraes)
Intérpretes: Toquinho e Vinicius