1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 38 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

Emoções à Flor da Pele

NERVOS DE AÇO − PAULINHO DA VIOLA

 

Moacyr Luz

 

disco abre sem introdução. No tem po da agulha, ouve-se o riscado no vinil até Paulinho da Viola cantar o prim eiro

 

O substantivo que revela a inspiração de todo o disco: Sentim entos.

Nervos de Aço é um a obra hem orrágica: sam ba

expandindo das veias, num a época quase alheia a esses acordes de subúrbio.

A Odeon, gravadora do bairro de Botafogo, sustentava um catálogo capaz de traduzir em infinitas faixas e cortes no acetato, a história com pleta da m úsica brasileira. Período de profunda e necessária criação.

Era perm itido se perm itir. O m ercado ficava em outra esquina, talvez as Casas da Banha ou o Peg e Pag, antes do assalto no Leblon.

As m úsicas saíam da cabeça, longe das rim as óbvias, versos de algum as m esm ices costum eiras.

É nessa atm osfera, quase um planeta inventado, que nasce esse clássico LP de 1973, Nervos de Aço, de Paulinho da Viola.

Antes do prim eiro com passo, é preciso entender a capa, as lágrim as, o buquê e a lua que, m esm o cheia, ilum ina um a despedida, um rom pim ento, um choro negro da últim a faixa.

A arte é de Elifas Andreato, um dos gênios desse enredo. Seus desenhos apresentaram discos de todas as gerações e estilos com o Martinho da Vila, Clara Nunes e Chico Buarque.

Detalhista nas rugas, expressões de intensidade únicas, Elifas servia com o um selo de qualidade em qualquer trabalho. Sua assinatura tem o valor de um arranj o transform ado em standard em naipes ou solos que ficam no inconsciente.

Confesso que alguns ídolos nasceram para a m inha identidade m usical a partir das m inúcias desse artesão das linhas e cores. Antes da bala, o papel; antes da figurinha, o álbum .

Vam os a “Sentim entos”, sam ba de Mij inha, ladrilheiro e com positor da Velha Guarda da Portela.

O clarinete do Copinha vem ao lado da voz do Paulinho, costurando o tim bre dessa faixa. O andam ento cadenciado da Velha Guarda, o vocabulário de época, “sabedor”, verso que apresenta o conceito do disco e se une, m ais a frente, com o m angueirense Carlos Cachaça em “Não quero m ais am ar a ninguém ”, um a ode ao sentim ento do disco. A elegância e dinâm ica das percussões im pressionam qualquer Protus de últim a geração.

Acredito na possibilidade do instrum ental ter sido gravado em um a única cena, técnica com um ao m estre Paulinho desde A Voz do Morro com Elton Medeiros, Zé Kéti, Nelson Sargento, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho e Zé Cruz, tocando chapéu de palha dura. O disco Roda de Samba (1965) foi registrado em torno de um m icrofone, Neum ann, claro, m as totalm ente im pensável em proj etos atuais, até m esm o em concepções caseiras.

Em tem po: o Estúdio dessa obra prim a se cham ava Musidisc.

De volta a “Sentim entos”, o coro de pastoras na volta dos versos, reforça o respeito do artista com a form a de apresentar um sam ba tradicional.

Fecho a leitura atento à dicção desde príncipe, a m ais alta nobreza de um artista brasileiro.

O piano em contratem po, notas dissonantes e frases que se incorporam definitivam ente ao sam ba “Com prim ido” testem unham a im portância do arranj ador Cristóvão Bastos na obra de Paulinho da Viola. Esta faixa, apresenta o cronista pontual, personagem em vários m om entos da sua carreira, o observador do cotidiano suburbano, das vielas do sam ba, da origem do “Bêbado sam ba”, página dupla com “Sinal fechado”.

Novam ente, um a troca de passe entre as faixas e o sam ba do Chico que deixou o delegado intrigado retorna, talvez outras rim as, em “Sonho de um Carnaval”, voz em prestada a um contem porâneo. Na coda de “Com prim ido” um acorde em sétim a com a quinta no baixo traduz a tensão de todo o fato.

Sou um aprendiz nos enredos e hierarquias de um a escola de sam ba, m as arrisco alguns m etrônom os com o tal. Definitivam ente, quem quiser conhecer o andam ento de um sam ba de quadra procure a pauta de “Não leve a m al”. Bastasse a levada, Paulinho explícito versa com propriedade algum a rusga vivida pela Portela, a águia do seu coração. Os tam borins m antendo a dinâm ica enquanto um a espécie de clavinete brazuca (na verdade, um cravo) se traveste de cavaquinho e dobra os solos de um a flauta precisa na introdução. As vozes abertas de um coro sugerindo inform al e o recado está dado, quase um a profecia frequente nos últim os resultados da azul e branco de Madureira.

A viola do Paulinho se aproxim a e pede a presença dos batuqueiros, retrato de um sam ba de quadra.

No ritm o, um a cerej a, quem sabe um a caixinha de fósforos: Elton Medeiros. O “esquenta” antes do desfile, alusivo à agrem iação. Antes de aj ustar o peso do braço no corte do disco, um breve parágrafo:

Acho que foi Casquinha da Portela quem “assinou” a entrada do Paulinho na escola, quando, em parceria, fizeram “Recado” num dom ingo quente no bairro m usical. Contam que Ze Kéti aj udou a dupla ao lem brar alguns versos. − Um parêntese para se entender o significado e im portância da entidade e suas filigranas na sua identidade.

Vam os a “Nervos de aço” um a confissão de am or escrita pelo poeta Lupicínio Rodrigues e título do disco na vitrola.

A voz do Paulinho revela o sem blante de olhos fechados. As pálpebras m exem feito o pianíssim o da introdução, longe ou forte.

A interpretação chora desde a ilustração. Um ato de m orte ou de dor.

Um desabafo doído, o pudor guardado na estante do passado abrindo o peito ao senhor do bar ou da esquina em dia nublado. Tudo verte.

Um a aula. Paulinho ainda visitou outra obra de Lupicínio, “Maria Rosa”, num a execução im pecável do seu violão gravado ao vivo em 1997 do disco Bebadachama.

Fechando a tam pa, os arranj os se transform ando em verso de m úsica é a m ais clara tradução de m aturidade ainda nos cabelos pretos de 1973, ano de Nervos de Aço.

Moto-contínuo, “Roendo as unhas” enfeitiça, hipnotiza.

Aproveito o texto pra agradecer a Paulinho da Viola a inspiração que esse sam ba-m antra m e fez. Foi ouvindo a costura dos acordes, um a tram a de im provisações sobre o tem a, que com pus “Benguelas” em parceria com o craque Herm ínio Bello Carvalho.

Mantendo o aparte, produzi um disco do super Jards Macalé, Amor, Ordem e Progresso em 2003 e, entre as m úsicas escolhidas estava “Roendo as unhas”.

A afinidade entre os dois e o sam ba citado nasceu no Banquete dos Mendigos, um espetáculo para com em orar o aniversário da Declaração dos Direitos Hum anos. O show, gravado ao vivo, foi proibido de ser veiculado por seis anos.

Ousado, proponho pensar na letra com o um a desconstrução do artista-com positor. Ele não se im porta. Grita e silencia feito os instrum entos da faixa. O m aestro Nelsinho exibe um trom bone vigoroso, sonoridade brasileira e m oura, sim ultâneas. A m esm a ansiedade m usical por onde gira a m elodia é interpretada dissonante no piano de Cristóvão Bastos.

Moderno, atual, a m assa sonora é exuberante: Elton Medeiros e Copinha se j untam à tessitura, bem perto, nota a nota, por Dininho e Elizeu. Baixo e ritm o, pela ordem , com pletam a grade. Claro, no violão, m ão esquerda rápida entre as escalas de distantes casas do braço de ébano, Paulinho da Viola.

Tento entender “... de cheirar pelas esquinas m inha flor nenhum a”. Um testam ento do artista em total solidão. O coração vazio m esm o entre “Sentim entos” e “Nervos de aço”, aberta a ferida.

A tríade Cartola, Carlos Cachaça e Zé da Zilda está na base fundam ental da Estação Prim eira de Mangueira. Paulinho, Portela, não escolheu bandeira, cores tão diferentes quando gravou “Não quero m ais am ar a ninguém ”. Clássico.

Novam ente, brasa para m inha sardinha: Com pus com Aldir Blanc um sam ba cham ado “Cachaça, árvore e bandeira”, hom enagem a esse Deus da Raça, frase rim ada nos versos com Carlos Cachaça.

Arranj o de quarteto, baixo, bateria, piano e violão, é ancorado por cordas que, deduzo, foram escritas pelo m aestro Gay a. As notas longas, quase um vibrato de em oção, vestem m ais um sam ba de desam or. Um m om ento pessoal que, à deriva do sofrim ento, im ortaliza esse trabalho.

Eu conhecia a gravação que a diva Aracy de Alm eida fez de “Não quero m ais...” em 1936, um a bela surpresa para os iniciados, m as Paulinho incorporou de tal form a o recado do sam ba que o resultado é um a m em orável interpretação na sua extensão de voz suave, m as no lim ite de um tim bre apaixonado.

O que dizer de “Nega Luzia”? Wilson Batista, nascido em Cam pos, m as esculpido na m alandragem da Lapa, recorre as cham as de Mãe Solteira, a que ateou fogo as vestes por causa do nam orado, para incendiar a favela da nega Luzia incorporada pelo espírito de Nero, o Im perador. Quase um sincopado, o sam ba arej a o sinônim o “cangibrina” quando se refere à cachaça que enquadrou a louca protagonista. Mais um a vez, Paulinho, que é de Botafogo, apresenta o subúrbio no seu repertório de intérprete.

Apaixonado que sou pelo “dialeto” cotidiano, vibro com o term o “vai correr lista”. Espetacular!

Quando ouço “Cidade subm ersa”, o disco se aproxim a do que o m ercado fotográfico classifica com o MPB. Mais cadenciada, a m úsica caberia na galeria de qualquer roteiro buarquiano ou de João Gilberto, um cult definitivo. Letra cercada de im agens, m etáforas em olduradas com o clarinete de Copinha, parceiro constante nos palcos de Paulinho, nos contracantos da viola de Paulinho. Há um pouco de “Retiro” do Prisma Luminoso cantado anos depois. Tam bém soam acordes de “Dança da solidão”, com posto um pouco antes. Outra introdução esplendorosa, trilha de um film e feliniano.

Sem form ar conceito, a visita que Paulinho da Viola faz ao am igo Chico Buarque cantando “Sonhos de um carnaval” aproxim a m ais o sam ba de um a elite intelectual, quase sem pre se referindo ao enredo com o folclore de subúrbio. Todos os ingredientes de um a m ixagem de estilo estão presentes nesta faixa. O violão na frente, perto da voz, flautas em solos livres, um a única bateria, com o ritm ista Juquinha, na percussão. O piano de Cristóvão faz o que a classe batizou de “cam a”, sutis intervenções, cam inho am aciado para o sam ba passar. A harm onia final sugere o desfile num sonho de carnaval.

Eu j á tinha m eus 15 anos de idade quando Nervos de Aço falou aos m eus ouvidos e assim perm aneceu definitivo, m e afastando da m edicina ou engenharia. A com preensão da natureza hum ana exposta nas dez faixas de pouco sorriso, m as, im portante, sem rancor. Não sobra espaço para m ágoas, ressentim ento. Ele deixa a dor em casa, esperando, e sai vestido de rei m esm o sem conhecer as ondas do seu coração.

Paulinho diz que não quer m ais am ar a ninguém , m as a porta esta aberta num “Choro negro”, piano e cavaquinho, um poem a sem palavras.

Trinta e um m inutos de m úsica e um a eternidade para refletir sobre esse tem po.

 

Nervos de Aço (Odeon − SMOFB 3797)

Diretor de produção: Milton Miranda

Diretor m usical: Maestro Gay a

Diretor técnico: Z. J. Merky

Técnicos de gravação: Toninho e Dacy

Técnico de laboratório: Reny R. Lippi

Técnico de rem ixagem : Nivaldo Duarte

Capa: Elifas Andreato

Orquestradores e regentes: Gay a, Nelsinho, Cristóvão Bastos, Paulinho da Viola e Copinha

Copinha: flauta e clarinete

Cristóvão Bastos: piano, cravo e piano elétrico

Nelsinho: trom bone

Paulinho da Viola: violão e cavaquinho

Dininho: baixo elétrico

Juquinha: bateria

Eliseu: bateria (em “Não Quero Mais Am ar Ninguém ”)

Ritm o: Elton Medeiros, Dininho, Elizeu, Juquinha e Dazinho

 

Lado A

1. Sentimentos (Mij inha)

2. Comprimido (Paulinho da Viola)

3. Não Leve a Mal (Paulinho da Viola)

4. Nervos de Aço (Lupicínio Rodrigues)

5. Roendo as Unhas (Paulinho da Viola)

Lado B

1. Não Q uero Mais Amar a Ninguém (Cartola, Carlos Cachaça

e Zé da Zilda)

2. Nega Luzia (Wilson Batista e Jorge de Castro)

3. Cidade Submersa (Paulinho da Viola)

4. Sonho de Um Carnaval (Chico Buarque)

5. Choro Negro (Paulinho da Viola e Fernando Costa)