1973: O Ano que Reinventou a MPB
1973, o Ano da Reinvenção
1973, O ANO
DA REINVENÇÃO
Célio Albuquerque
Era dos Festivais, das grandes com petições m usicais alavancadas pelas diferentes em issoras de televisão (Excelsior,
A Record, Globo e Rio), é delim itada por especialistas entre os anos de 1965 e 1972, tendo com o m arco final a sétim a edição do Festival Internacional da Canção, no qual a vencedora foi “Fio Maravilha”, de Jorge Ben, na interpretação singular de Maria Alcina. Em sete anos som aram -se 14 festivais e a revelação para o país de talentos com o Milton Nascim ento, Edu Lobo, Elis Regina, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, entre tantos outros. Depois disso foram realizados alguns festivais relevantes, com o Abertura (1975), m as os tem pos eram outros. O contexto era outro.
Sim , o ano de 1973 teve a sexta edição do Festival de Música Popular de Juiz de Fora, que contou com presenças de Vinicius de Moraes, Ivan Lins e o m esm o Chico Buarque. A m úsica vencedora foi “Baianeiro”, de Arm ando Aguiar, defendida por Nadinho da Ilha. A segunda colocada foi “Réu confesso”, de Hélio Matheus que se tornaria sucesso, no m esm o ano, na voz de Tim Maia. Sueli Costa e sua m úsica “Dem oníaca”, interpretada por Lucinha Lins, ficou com a terceira colocação. Porém , efetivam ente, o ano de 1973 nasce sem os grandes festivais apoiados, principalm ente, pela TV. Em term os m usicais, o ano não segue nenhum a cartilha. Na verdade essa será a cartilha da m úsica brasileira dali para frente. A som bra da ditadura e a m ão pesada dos censores continuará a pesar sobre a produção cultural do país. Os com positores de sem pre, e alguns novos, fazem expediente tentando liberar suas m úsicas com a Censura Federal. Chico Buarque e Taiguara, por exem plo, parecem ter cadeira cativa por lá. Mas, com o se vê, am bos lançam discos im portantes neste ano. E Chico, no ano seguinte, lançaria um disco cham ado Sinal Fechado, com m úsica-título de Paulinho da Viola. No repertório apenas m úsicas de outros autores, com o “Copo vazio”, de Gil, “Me deixe m udo”, de Walter Franco e “Acorda am or”, da dupla Leonel Paiva e Julinho da Adelaide. Os dois com positores em foco escondiam na verdade a assinatura do próprio Chico que “incorporaria” Julinho da Adelaide dando algum as entrevistas para m ídia de então.
Naquele ano de 1973 os tropicalistas j á não causavam a estranheza original, seu talento j á estava assim ilado; a Bossa Nova j á não era nova, m as continuava a produzir obras-prim as; os sam bistas de raiz j á haviam sido descobertos (ou redescobertos, ou com eçavam a ser redescobertos); a Jovem Guarda j á tinha tom ado de assalto a j uventude; o rock Brasil ainda não existia com o instituição, m as produzia-se rock em várias vertentes, do rural ao progressivo, bem além do iê-iê-iê e Celly Cam pello. A m ultiplicidade m usical do país estava fervilhante. Não era o ano da m úsica de protesto, nem das canções m elodiosas. Era tudo isso e m ais um pouco.
Motivada pelos próprios artistas, a gravadora Philips realiza naquele ano um festival não com petitivo reunindo toda a diversidade de seu cast no proj eto Phono 73, que foi lançado im ediatam ente após sua realização, em três discos.
Roberto Carlos j á era Rei e j á havia produzido diversos decretos (ou m elhor, canções) que j á faziam parte da vida de seus súditos. Era o m aior vendedor de discos do país. Seus m aiores sucessos daquele ano foram “Proposta” e “A Cigana”, as duas do próprio Roberto e de Erasm o Carlos. Mas, a liderança de RC foi tom ada de assalto por três j ovens com rostos pintados, roupas coloridas e um vocalista (Ney Matogrosso) m agérrim o (andy Matogrosso), rebolativo e com um a voz fina, fem inina, m as potente, cantando várias m úsicas que teim avam em colar nos ouvidos. Os Secos & Molhados conseguiram , no m eio da ditadura m ilitar e do conservadorism o da sociedade brasileira, entrar nos lares, agradar velhos e crianças e em placar m ais de 20% do seu álbum de estreia nas paradas de sucesso, com destaque para “O Vira”, de Luli e João Ricardo, líder do grupo. O Rei não perdeu o posto, m as teve que dividir algum as glebas.
PÓS-TUDO E MAIS UM POUCO
Um a das principais cronistas da m úsica popular brasileira dos ano 70, a j ornalista Ana Maria Bahiana acredita que, em linhas gerais, a reinvenção da m úsica popular brasileira “com eça com o esvaziam ento dos festivais com o caldeirões de novas ideias, com a m aturidade de um a geração que cresceu à som bra deles, m as consum indo outras m úsicas e outras culturas ao m esm o tem po. 1973 tem esses sinais, m as eles tam bém estão em 70, 71, 72 (que é um ano extraordinário em term os de lançam entos m usicais) e 74”. Bahiana, ressalta que o AI-5 (O Ato Institucional núm ero 5, decretado pelo governo m ilitar) acaba ocasionando “exílio em m assa da geração dos festivais, gerando um vácuo que acelera o aparecim ento da geração seguinte”.
Sobre esse m om ento no cenário da m úsica brasileira, o j ornalista Maurício Kubrusly, que por dez anos editou a revista Som Três, especializada em m úsica e equipam entos de som , lem bra que foi m esm o um período especial. “Tive a grande sorte de estar no lugar certo, na hora certa, trabalhando basicam ente só com m úsica nesses tem pos. Era um a revelação atrás da outra. Entre os talentos que surgiram a gente pode destacar, entre tantos, a cintilante parceria criada por João Bosco e Aldir Blanc. Um a coisa que não existia, um a m aneira particular de fazer m úsica”, com pleta Kubrusly.
Para Heloisa Tapaj ós, socióloga e pesquisadora titular do Dicionário Cravo Albin da MPB e do Núcleo de Estudos em Literatura e Música (Nelim /PUC-Rio), “1973 foi realm ente um ano incrível! Elo forte na ‘linha evolutiva da m úsica popular brasileira’ (sic Caetano Veloso), na sequência da Bossa Nova, do Tropicalism o e da m úsica da ‘geração dos festivais’. Nessa época, eu trabalhava nos estúdios da Odeon. Ainda tenho em m inha m em ória afetiva o cenário da produção de alguns discos antológicos, com o Milagre dos Peixes, do Milton, o prim eiro do Gonzaguinha, o Matança do Porco, do Som Im aginário, o Terra, do Sá Rodrix e Guaraby ra... Havia espaço para diferentes estéticas. Época em que a direção artística da Odeon era exercida por Milton Miranda”.
O ano de 1973 pode ser considerado o m arco da Geração Pós-Tudo, com o definiu o j ornalista José Teles em artigo publicado em m arço de 2013, no Jornal do Commercio de Pernam buco, ao falar da geração que despontava e reunia Secos & Molhados, Raul Seixas, Luiz Melodia, Walter Franco, Sérgio Sam paio, João Bosco, Lula Côrtes, Lailson e Marconi Notaro, artistas com assinatura própria, que não cabiam nos escaninhos existentes. A tal geração não se resum ia a eles, m as com esse recorte tem -se a ideia do quanto eram coloridas as audições do caleidoscópio sonoro lançado naquele ano. Eles, assim com o Gonzaguinha e Francis Him e, não haviam chegado ao m ercado m usical naquele ano, m as todos estavam lançando seus prim eiros long-playings.
A im portância e a força da geração que aproou em discos iniciais em 1973 foi tão forte que, dois anos depois, em setem bro de 1975, quatro destes coringas (Fagner, João Bosco, Walter Franco e Luiz Melodia) estam param a capa da revista Veja (edição 368). A m atéria de capa, de sete páginas, fazia um balanço da MPB de então, sob o seguinte título im presso na capa: “Música – Um a geração de briga”.
Claro que a produção m usical de 1973 foi m uito além dessa geração. O ano foi m arcado pelo grande núm ero de lançam entos im portantes nos m ais diferentes segm entos da m úsica brasileira. Passados quarenta anos podem os perceber o quão profícuo foi o ano, envolto entre o ufanism o e a desilusão, entre o desbunde e o com prom etim ento político, entre a forca, a força e a farra. O Brasil ali estava nas m ais diferentes canções.
Um m ercado m usical aquecido. Além dos LPs eram tem pos dos com pactos. Para quem é da geração ipod, itunes e m p3, vale explicar que os com pactos (duplos com quatro m úsicas e sim ples com duas) funcionavam com o EPs, lançam entos avulsos que podiam ou não estar ligados à confecção futura ou passada de um LP. Às vezes os singles não estavam no disco lançado im ediatam ente depois, nem no LP lançado anteriorm ente. Maria Alcina, por exem plo, que fez sucesso em 1972 com “Fio Maravilha”, teve a m úsica lançada em dois com pactos distintos, um em 72 (quando venceu o últim o FIC) e outro em 1973. Mas, a m esm a “Fio Maravilha”, sua m arca registrada que persiste 40 anos depois, não estava presente em seu prim eiro LP, lançado em 1973.
Outra que tam bém viveu experiência sem elhante é Elizeth Cardoso, cantora tradicional, que interpretou no disco clássico Canção do Amor Demais (Festa), de 1958, as prim eiras parcerias de Tom e Vinicius, num disco que é considerado pedra fundam ental da Bossa Nova. Lançada, originalm ente em 1972, em seu disco Preciso Aprender a Ser Só (Copacabana) a m úsica “Naquela m esa”, do j ornalista Sérgio Bittencourt, foi bem executada naquele ano e relançada em com pacto em 1973, ano em que de fato “estourou”. Sérgio, que divide a faixa com ela, era filho do m úsico Jacob do Bandolim (o hom enageado da canção), com quem Elizeth trabalhou e fez o clássico disco Ao vivo no Teatro João Caetano, lançado pelo Museu da Im agem e do Som em dois volum es em 1968, que além dos dois tam bém reuniu os grupos Zim bo Trio e Época de Ouro.
A m úsica “Eu bebo sim ”, da dupla Luis Antônio e João do Violão, foi um dos m aiores sucessos de 1973. Vários intérpretes a gravaram naquele ano, com o os Golden Boy s e os Velhinhos Transviados. Porém , foi a gravação de Elizeth a que ficou na m em ória. A m úsica só foi lançada por ela, naquele ano, em com pacto e na coletânea de sucessos 14 mais – Volume 19.
Nem “Naquele m esa”, nem “Eu bebo sim ” estiveram presentes no LP Mulata Maior (Copacabana), lançado por Elizeth naquele ano de 1973. No repertório do LP estavam “Quando eu m e cham ar saudade”, de Nelson Cavaquinho e Guilherm e de Brito, e “Tatuagem ”, de Chico Buarque.
Gilberto Gil, que não lançou LP oficialm ente em 1973, tam bém foi responsável pela interpretação de um dos m aiores sucessos daquele ano. “Eu só quero um xodó”, de Dom inguinhos e Anastácia. A m úsica era o lado B do com pacto sim ples. No lado A, o m ais nobre, tinha “Meio cam po”, com posta por Gil, que falava que a perfeição era um a m eta defendida pelo goleiro e ele continuava ali aperfeiçoando o im perfeito. Mas, nesse caso o lado B suplantou o lado A. “Eu só quero um xodó” recebeu várias regravações naquele m esm o ano, de artistas com o Doris Monteiro e Marinês, entre outros. Mas, a gravação de Gil ganhou o público e ficou com o registro m ais significativo da m úsica. Gil só teria a m úsica incluída em um disco de carreira em 1977, no ao vivo Refestança (Som Livre), gravado em parceria com Rita Lee.
Idealizado e produzido pelo m úsico e pesquisador Charles Gavin, com a colaboração dos j ornalistas Tárik de Souza, Carlos Calado e Arthur Dapieve, o livro 300 Discos Importantes da Música Brasileira reúne títulos lançados de 1929 a 2007. A obra foi publicada pela editora Paz e Terra em 2008. No período de 1970 a 1979 foram selecionados 104 títulos, entre os quais 18 de 1973, em quase sua totalidades resenhados aqui, o que só faz ressaltar a im portância do ano.
Na época do lançam ento do livro, no texto do release, Gavin afirm ou que “qualquer núm ero é insuficiente para expressar a grandeza de nossa m úsica”. Tom ando em prestadas as aspas de Gavin, sabe-se que os discos selecionados aqui fazem parte de um a decisão pretensiosam ente abrangente e dem ocrática, m as no fundo arbitrária.
Na edição 276 da revista Veja, que circulou dia 19 de dezem bro de 1973, havia um a série de sugestões m usicais para o natal. Dos 15 discos nacionais sugeridos, entre lançam entos e relançam entos, vários deles acabaram ganhando resenha exclusiva em 1973 – O Ano que Reinventou a MPB: Matita Perê, de Tom Jobim ; João Gilberto e seu álbum branco; Milagre dos Peixes, de Milton Nascim ento; o inaugural de Luiz Melodia; o disco da m osca de Walter Franco; o prim eiro e censurado disco de Gonzaguinha; Amazonas, de Naná Vasconcelos; e a Música Livre de Hermeto Paschoal.
A revista Rolling Stone fez um a enquete com 60 pesquisadores, produtores e j ornalistas da cena m usical pedindo a cada um que escolhesse os 20 m aiores títulos de m úsica brasileira, tendo apenas que ter com o base “valor artístico intrínseco e im portância histórica, ou sej a, quanto o álbum influenciou outros artistas”.
A lista final apresentando os 100 m elhores, com títulos pinçados entre os anos de 1959 e 2003, foi publicada em edição especial daquele m esm o ano, lançada em outubro de 2007. Nessa lista, dez títulos de 1973 estão resenhados: Secos & Molhados − Secos & Molhados; Raul Seixas − Krig-ha, Bandolo!; Luiz Melodia − Pérola Negra; João Gilberto − João Gilberto; Paulinho da Viola − Nervos de Aço; Milton Nascim ento − Milagre dos Peixes; Nelson Cavaquinho − Nelson Cavaquinho; Tom Jobim − Matita Perê; João Donato − Quem é Quem; e Caetano Veloso − Araçá Azul.
Muitos títulos que m ereciam capítulos específicos não os tiveram , pelo m enos nessa edição. Quem sabe nos 50 anos de 1973?
A edição 139 da revista Showbizz tinha com o um a de suas cham adas de capa “A lista dos 20 m elhores discos do pop-rock brasileiro”, selecionada a partir da consulta a 44 j ornalistas especializados. Quatro discos lançados em 1973 estão na lista: os prim eiros discos de Raul Seixas, Luiz Melodia e Secos & Molhados. Tárik de Souza, um dos 44 j ornalistas consultados com eça da seguinte m aneira um de seus textos assinados na edição: “Desde quando Moisés sacou a tábua dos Dez Mandam entos que a lista foi feita para ser contestada”.
Em 2013, m ais precisam ente no dia 18 de agosto, a Folha de São Paulo, no caderno Ilustrada, publicou m atéria intitulada “40 discos que fazem 40”, assinado por Lucas Nobile e César Soto. Apesar do título a m atéria aborda 41 títulos, 21 brasileiros. Todos com resenha exclusiva por aqui. De Gal Costa a Walter Franco. De Fagner a Secos & Molhados.
COISAS DE NOVELA
Com o fim dos festivais e o enfraquecim ento dos m usicais na TV naqueles anos 70, não apenas em 1973, as trilhas sonoras de novela, especialm ente da Rede Globo, j á ditavam de certa form a as paradas de sucesso.
Fora alguns clipes m usicais no estreante program a televisivo Fantástico, da TV Globo, a presença da m úsica na program ação das TVs resum ia-se basicam ente na presença do apresentador Abelardo Barbosa, que levava ao ar pela TV Tupi sua Discoteca do Chacrinha, com os principais sucessos que ocupavam as rádios brasileiras, e a série de program as MPB Especial (um dos nom es do program a Ensaio) de Fernando Faro, na TV Cultura de São Paulo, os espaços para a m úsica na TV eram raros. Elis Regina esteve em um dos especiais com andados por Faro daquele ano. Odair José e Raul Seixas foram artistas que m arcaram presença em edições da Discoteca do Velho Guerreiro naquele terceiro ano da década de 70.
E... foi trilhando o cam inho das novelas que a m úsica brasileira encontrou um outro “atalho” a seguir. E o m aior exem plo dessa vertente em 1973 é a trilha sonora de O Bem-Amado, novela de Dias Gom es, com trilha sonora com posta pela dupla Toquinho e Vinicius.
AO SUCESSO
Na década de 70 eram com uns os discos de coletâneas de sucessos, lançados pelas m ais diferentes gravadoras. Na ocasião, orquestras e conj untos instrum entais tam bém davam suas versões para os sucessos da m oda. O tecladista Lafay ette era um desses, que m antendo a tradição, naquele ano colocou no m ercado Lafayette Apresenta Sucessos − Volume 15 (CBS), com m úsicas nacionais e internacionais.
Em 1973, num a j ogada m ercadológica, uniu a orquestra do m aestro Erlon Chaves, bem conceituada por aqui na época, e a do m aestro francês Paul Mauriat interpretando dez dos principais lançam entos de 1972, sob o título Dez Canções Medalha de Ouro de 1972, cinco com cada orquestra, um lado do disco para cada um a. Na contracapa, um texto assinado pelo apresentador de televisão Flávio Cavalcanti dava aval para a seleção do repertório que tinha “Casa no cam po”, de Tavito e Zé Rodrix e “Presepada”, de Antônio Carlos e Jocafi, am bas com a orquestra do m aestro francês. Mauriat, tinha o hábito de gravar discos com repertório dos diversos países que visitava. Ele “gostou” tanto de gravar m úsica brasileira que nos anos seguintes fez vários discos com m úsicas brasileiras, lançados por aqui pela Philips. Contudo, vale ressaltar que Mauriat há m uito j á havia se aproxim ado e se apropriado do repertório brasileiro. Em 1968, em seu disco A Grande Orquestra de Paul Mauriat (Philips) ele j á havia incluído três m úsicas brasileiras no repertório: “Ponteio” (Edu Lobo e Capinam ), “Tristeza” (H. Lôbo e Niltinho) e “Sam ba de verão”, dos irm ãos Paulo Sérgio e Marcos Valle, ali com o parceiro am ericano Norm an Gim bel.
SUCESSO POPULAR
No volum e 2 do livro A Canção no Tempo, de Jairo Severiano e Zuza Hom em de Mello, publicado pela editora 34, que abrange o período de 1958 a 1985, há um a lista de sucessos no final do capítulo de cada ano. No final de 1973 são listados além de “Mosca na sopa” e “Metam orfose am bulante” de Raul Seixas, e hits do Secos & Molhados, com o “Rosa de Hiroshim a”, de Vinicius de Moraes e Gerson Conrad, e “Sangue latino”, de João Ricardo e Paulo Mendonça, um núm ero expressivo de canções. Boa parte da lista de sucessos era com posta de clássicos rom ânticos/populares, que logo depois seriam adj etivados com o bregas.
“Mil novecentos e setenta e três foi um ano excelente para a MPB. E tam bém para o m ercado dos cham ados ‘artistas populares’, tipo Odair José, Marcus Pitter, etc”, lem bra Arm ando Soares Pittigliani, profissional do m ercado fonográfico que trabalhou de 1955 a 1993 na Com panhia Brasileira de Discos (depois Philips, Phonogram , Poly gram e Universal Music). Naquele ano, Arm ando era responsável pelo Departam ento de Prom oção, Divulgação e Marketing na gravadora, à época cham ada de Philips.
Louro e de olhos verdes, com pinta de galã, Marcus Pitter lançou em 1973 seu disco Cena de Ciúme (Poly dor) no qual um dos destaque era a canção “Eu queria ser negro”, com posição do próprio Pitter, em que cantava que queria ter a pele negra e que branco em seu peito só o coração e prosseguia “gritando que é preciso igualdade”.
Morto em j aneiro de 1973, num acidente autom obilístico, o cantor Evaldo Braga teve um disco póstum o lançado naquele ano. Com seis m úsicas inéditas, o disco, que tinha apenas seu nom e com o título, foi sucesso nacional, com destaque para “Nunca m ais, nunca m ais”, dele e de Cezão, que j á havia sido lançada no ano anterior, em com pacto duplo. A m úsica “Sorria, sorria”, dele e de Carm en Lúcia, havia sido lançada no ano anterior, em seu disco O Ídolo Negro – Volume 2, m as continuou rodando nas rádios, com o um a das m ais pedidas pelos ouvintes. Órfão que chegou a m orar nas ruas e ser internado na Escola XV, no extinto SAM (Serviço de Am paro ao Menor), depois denom inado FEBEM, Evaldo Braga foi um a das figuras m ais carism áticas daqueles prim eiros anos da década de 70.
Além de Pitter, Evaldo e Odair José, que naquele ano despontou com sucessos com o “Um a vida só (pare de tom ar a pílula)” de Odair José e Ana Maria e “Deixe essa vergonha de lado”, (Odair José e Andréia Teixeira), com o lem brou Pittigliani, eram m uitos os cantores populares que faziam sucesso nas rádios.
Paulo Sérgio, que em 1972 assinou um dos m aiores contratos da m úsica popular com a gravadora Copacabana, lançou pelo Beverly oito álbuns, entre eles Paulo Sérgio Volume 7, que tinha entre seus destaques a m úsica “Índia”, de José Asunción Flores e Manuel Ortiz Guerrero, em versão de José Fortuna. Por sinal essa é m esm a m úsica gravada por Gal Costa e que deu título ao disco da cantora de 1973.
Paulo Diniz, um dos com positores que m orou no fam oso “Solar da Fossa”, em Botafogo entre os anos 60 e 70, onde tam bém habitaram Paulinho da Viola e Caetano, entre outros, é sucesso no rádio com sua versão para o poem a de Drum m ond cham ado “José”, que saiu em seu disco de 1972, pela Odeon. Em 1973, pela m esm a gravadora, ele lançou o disco Lugar Comum.
Oriundo da Jovem Guarda, o cantor Sérgio Reis, em disco que levava seu nom e lançado pela RCA-Victor, com eça a apontar para a estrada sertanej a que acabaria seguindo com o sucesso “Menino da porteira”, de Teddy Viera e Luisinho. Essa canção tam bém receberia gravação de Jair Rodrigues no m esm o ano.
Em 1973, o cantor Nelson Ned, dono de vários sucessos nos anos 70, lança seu sexto LP, Nelson Ned Volume 3 (Copacabana), que tinha no repertório “Ninguém irá te am ar m ais do que eu” e “Deus abençoe as crianças”. O prim eiro disco de Ned foi lançado em 1969 sob o título Um Show de Noventa Centímetros (Poly dor), um a referência clara ao fato do cantor ser anão.
É tam bém de 1973 o disco de estreia de José Augusto, um dos cam peões de vendas no segm ento pop-rom ântico, que depois seria cham ado de brega. No disco que leva seu nom e, lançado pela Odeon, há, entre outras, “Eu Quero apenas carinho” (José Augusto, Miguel, Marcelo e Salim ) e “Luzes da ribalta (Lim elight)” (Charles Chaplin / Vrs. Antônio Alm eida / Vrs. João de Barro).
Antonio Marcos era um dos donos do sucesso naquele ano. “O hom em de Nazaré”, de Cláudio Fontana, um a verdadeira m úsica gospel daqueles anos 70, foi a m ais tocada de seu disco de 1973 (RCA). Nesse LP ele dividiu a faixa “Valeu a pena”, de Eduardo Lages e Expedito Faggioni, com sua m ulher na época, a cantora Vanusa. Tam bém no repertório “Ninguém vai chorar por ninguém ”, de Hélio Matheus. Ainda em 1973, Vanusa lançou pela Continental, um expressivo LP, com seu nom e, no qual o destaque era um a com posição sua em parceria com Mário Cam panha: “Manhãs de setem bro”, na qual queria ensinar o vizinho a cantar nas m anhãs de setem bro. Mas seu grande sucesso, que abriu cam inho para além de seu segm ento de público original, foi “Paralelas”, de Belchior, lançada em 1975 no disco Amigos Novos & Antigos, no m esm o disco que cantou “Outubro” de Milton Nascim ento e Fernando Brant e “Am igos novos e antigos”, da dupla Bosco e Blanc.
LÁ DO MEU SERTÃO
A m úsica “Mucuripe”, com posta por Fagner e seu conterrâneo Belchior, foi lançada em 1972 no disco de Bolso do Pasquim , tendo Fagner nos vocais. No m esm o ano a m úsica foi m agistralm ente regravada por Elis Regina e acabou abrindo os ouvidos do sudeste para quem vinha do nordeste, além da Bahia, e notadam ente do Ceará.
Sobre Fagner vale sublinhar que, calcado no sucesso de seu prim eiro LP lançado naquele ano, ele acabou conquistando um status especial. Além de ter produzido em sua gravadora, Philips, o prim eiro disco solo brasileiro do percussionista Naná Vasconcelos, Amazonas, tam bém lançado em 1973 (e resenhado aqui), o j ovem cearense acaba participando da trilha sonora do film e de Cacá Diegues Joana Francesa, que tinha com o destaque a atriz francesa Jeanne Moreau. A m úsica tem a, de autoria de Chico Buarque, foi lançada naquele m esm o ano, em com pacto, nas vozes de Fagner e Chico. O disquinho se tornou peça de colecionador. A m úsica foi relançada alguns anos depois, em 1975 , na coletânea A Arte de Chico Buarque (Fontana/Philips).
No que tange o som que brotava do árido chão nordestino m uita coisa de interessante foi lançada no m ercado em 1973, além dos discos que aqui tem resenha exclusiva. O Quinteto Violado botou na estrada um de seus clássicos, Berra Boi, pela Phonogram . Na m esm a caatinga, um grupo m enos conhecido, m as não m enos talentoso, a Banda de Pau de Corda teve lançado seu disco de estreia, Vivência, que contava com “Voltei Recife”, de Luiz Bandeira, no repertório.
A série de discos da gravadora Marcus Pereira, lançada no correr dos prim eiros anos da década de 1970, que m apeou a m úsica popular feita no Brasil teve com o ponto de partida o título Música Popular do Nordeste, com quatro discos, lançados com o brinde em 1972. O sucesso entre os críticos foi tanto que em 1973 a gravadora com anda pelo publicitário Marcus Pereira lança seu prim eiro título com ercial Música Popular do Nordeste, enfocando o Forró. O Quinteto Violado participa na execução das gravações, do tratam ento m usical e da pesquisa. O disco 2 aborda violeiros e ciranda, o disco 3, o Bum ba m eu Boi, sam bas de roda e cocos e o 4 navega no universo de em boladas e banda de pífanos.
Lançado em 1973, Zabumba Caruaru – Volume 2 (Entré/CBS) é o título do segundo disco da banda de Pífanos de Caruaru, grupo que ganhou notoriedade nacional no ano anterior quando, com sua sonoridade ím par, em prestou seus pífanos e percussão para a gravação da m úsica “Pipoca m oderna” (Gil e Caetano) do disco Expresso 2222, de Gilberto Gil (Philips). Esse volum e 2 conta apenas com com posições de Sebastião Baiano, um dos integrantes do grupo, e Onildo Alm eida, autor de vários sucessos da m úsica nordestina, em especial de “Feira de Caruaru”, gravada por Luiz Gonzaga, o rei do Baião, em 1957.
É deste ano tam bém Das Barrancas do Rio Gavião, de Elom ar, chefe do departam ento de urbanism o da prefeitura de Vitória da Conquista, na Bahia. Em 1975 o artista iria ter m úsica incluída na trilha de novela Gabriela, da TV Globo. Um som de caatinga, seco e sofrido que não encontrou repercussão grande nas rádios, m as é considerado por m uitos um dos m ais im portantes da m úsica produzida no Brasil, em especial no nordeste. Na década de 80, j unto com Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai, Elom ar rodou o país com o espetáculo Cantoria, que rendeu dois registros fonográficos.
Dois m arcos da m úsica nordestina tam bém lançaram discos em 1973. O rei do baião lança m ais um disco de carreira, com seu próprio nom e Luiz Gonzaga (Odeon), com m úsicas suas e de outros com positores, com o “Facilita”, de Luiz Ram alho, em que a sobrinha reclam a das roubas de Bastiana: a saia term inava m uito cedo e a blusa com eçava m uito tarde. Mas, a danada dizia que era tudo para facilitar.
Já Jackson do Pandeiro desem barcou nas loj as com um disco cuj a capa o m ostrava rodeado de m ulheres. O título do LP? Tem Mulher, Tô Lá (Entré/CBS). No repertório, entre outras, “Xarope de am endoim ” (Severino Ram os e Paulo Patrício) e a faixa-título “Tem m ulher, tô lá” (Zé Catraca e J. Luna) na qual canta que gosta m uito de m ulher e de dinheiro, m as se tivesse que escolher “a m ulher eu vou querer”; e “Chu chu beleza” (João Silva e Ray m undo Evangelista), que cantava com o estava bom o arrasta-pé, cheio de m ulher. Machism o nordestino puro.
COM BOSSA
Não só Tom Jobim , João Gilberto e Donato lançaram discos naquele 1973. Outros nom es ligados a Bossa Nova tam bém o fizeram . Luiz Bonfá colocou para rodar o clássico Jacarandá, com arranj os de Eum ir Deodato. O m esm o Deodato tem lançado no Brasil, neste ano, Prelude (Top Tape), que tem no repertório “Also sprach Zarathustra” (Richard Strauss com arranj os que servem com o coautoria de Eum ir Deodato), do film e 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Foi sucesso m undial. A reboque do sucesso da m úsica de Strauss ele se apresentou 175 vezes em cidades dos Estados Unidos, Canadá, Japão e Europa.
Lançado na Bossa Nova e filho da cantora Dalva de Oliveira e do com positor Herivelto Martins, Pery Ribeiro lança Herança (Odeon), um disco que une “Segredo” de seu pai e Marino Pinto e “Cam inhem os”, apenas seu pai, a canções de seus contem porâneos, com o Roberto Menescal e Paulinho Tapaj ós (“Se pelo Menos você fosse m inha”) e “Se as estrelas falassem ” um a das poucas com posições de Elizeth Cardoso.
CANTORAS
Na seara que se convencionou cham ar de MPB nem só Elis Regina, Bethânia, Gal Costa, Elizeth e Beth Carvalho lançaram discos em 1973.
Claudia veio com o LP Deixa Eu Dizer, m esm o nom e da faixa que puxou o disco, um a parceria de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza. Em 2008, Marcelo D2 usou a faixa, com a voz de Cláudia, na m úsica “Desabafo/Deixa eu
dizer” lançada em seu disco A Arte do Barulho. Quase quarenta anos depois a m úsica encontrou novam ente, por outros cam inhos, o sucesso. Ainda tinha o que desabafar.
Marisa Gata Mansa tam bém foi destaque com seu disco Viagem, nom e da m úsica da dupla João de Aquino e Paulo César Pinheiro que virou um clássico. Na canção a voz m acia de Marisa (nom e que está na capa do disco, sem “Gata Mansa”) pede desculpa à tristeza e voa no cavalo alado. A m úsica j á havia sido lançada anteriorm ente por Márcia, em 1969, m as na época não encontrou carona na garupa leve do vento m acio que a letra anunciava.
Integrante do Trio Ternura, e a voz de sucessos com o “Cantiga por Luciana”, de Edm undo Souto e Paulinho Tapaj ós, vencedora do IV Festival Internacional da Canção (1969), Evinha lançou em 1973 um de seus poucos discos brasileiros. Levando seu próprio nom e, o LP (Odeon) tinha com o destaque “O que é que eu estou fazendo na rua”, do trio Sá, Rodrix e Guaraby ra e “As canções que você fez pra m im ”, de Roberto e Erasm o Carlos.
Clara Nunes, que com eçou a carreira com o cantora de boleros, j á com eçava a despontar com o intérprete de sam ba. Seu disco 1973 (Odeon) tem com o destaque “Tristeza pé no chão”, de Arm ando Fernandes, um dos hits do ano. Mas, foi no disco de 1974 que Clara entra para o patam ar de grande vendedora de discos, atingindo a m arca 300 m il cópias vendidas, calcadas no sucesso “Canto de areia” (Rom ildo e Toninho). Consequentem ente, Clara acaba abrindo olhos e ouvidos das gravadoras para as vozes fem ininas no sam ba.
Tam bém em 1973 a ex-j ogadora de basquete Sim one Bittencourt de Oliveira entra na quadra da m úsica brasileira, em disco lançado pela Odeon. Tendo no repertório, entre outras, a canção “Tudo que você podia ser”, dos irm ãos Lô e Márcio Borges, o disco soa com o transição. No disco de 1975, Gota d’Água, onde ela canta a faixa-título, de Chico Buarque, com Milton Nascim ento e no LP de 1977, batizado Face a Face, no qual ela canta “O que será (A Flor da Pele)”, do m esm o Chico. Nesse álbum ela, de fato, dom inaria as “quatro linhas” e j á com eçaria a fazer cestas de três pontos, com o boa j ogadora de basquete. Tam bém em 1973 Sim one participou do proj eto Expo-Som 73 (Ao Vivo), gravado no Clube Pinheiros de São Paulo. O espetáculo virou LP naquele m esm o ano. Além de Sim one, o disco contava com as participações de Leny Andrade, Márcia e Ari Vilela. A gravadora acreditava no potencial da j ogadora de basquete e, tam bém em 1973, j untou seu talento ao do sam bista Roberto Ribeiro (que tam bém lançou disco em 1973) e ao do violonista João de Aquino no proj eto, que originou LP no m esm o ano, Brasil Export 73 – Agô Kelofé – à Bruxelas, dirigido por Herm ínio Bello de Carvalho. No disco Sim one canta com Ribeiro a faixa “De um a noite de festa”, de Marcelo Melo e Fernando Filizola.
Foi tam bém em 1973 que a revista am ericana Downbeat, em votação de críticos e leitores, elegeu com o m elhor cantora de Jazz (na verdade, por cinco anos) a brasileira Flora Purim , que j á tinha um a traj etória no m ercado de j azz am ericano desde 1972. Seu prim eiro disco solo am ericano, lançado naquele ano, foi Butterfly Dreams (Milestone). No álbum , parcerias de Flora com Stanley Clarck e George Duke, “Dindi”, de Tom Jobim e Aloy sio de Oliveira, e “Moondream s (O Sonho)”, de Egberto Gism onti, em versão de Jay Livingston e R. Evans.
Um a das rainhas dos anos de ouro do rádio brasileiro, Marlene, é a estrela do disco Botequim, lançado pela RGE naquele ano. O álbum é creditado a ela, Toquinho e Gianfrancesco Guarnieri, parceiro de Toquinho nas doze faixas do LP. Marlene está em plena vigor artístico.
Botequim é o título da peça de Guarnieri que estreou há 40ª anos no Rio, no Teatro Princesa Isabel, com im enso sucesso. Depois foi encenada no Teatro Anchieta, em São Paulo. Apesar de ter o nom e da terceira peça em que Toquinho e Guarnieri trabalharam j untos, o disco possui no repertório canções das peças anteriores, em que am bos trabalharam com letra e m úsica, com o “Castro Alves” e “Um grito parado no ar”.
SAMBA
Com lançam entos lapidares com o os de Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho e Elton Medeiros, 1973 se firm a com o um ano que respeita as tradições do sam ba. Mas, foi tam bém nesse ano que Ricardo Cravo Albin, com o produtor, eternizou um registro ao vivo de Ism ael Silva, um dos fundadores da escola de sam ba Estácio de Sá, com o próprio cantando. O disco cham ou-se Se Você Jurar, editado pela RCA-Victor.
Um dos m aiores destaques de 1973 foi o sucesso carnavalesco “Ninguém tasca (O Gavião)” de Mário Pereira e João Quadrado, interpretada por Marinho da Muda. A m úsica foi originalm ente lançada no ano anterior no disco Carnaval 1973, da Copacabana.
Em 1973, Dorival Cay m m i tam bém teve álbum novo lançado, Caymmi Também É de Rancho (Odeon). O disco traz vários sucessos do m estre pescador com o “Das rosas” e “Acalanto”, com produção de Aloy sio de Oliveira e arranj os do m aestro Gay a. “Um a visita da Bahia a Pernam buco, do sam ba ao frevo. Poderia ser no carnaval dos anos 40 a 1950. Mas com o foi lançado na época de grandes m udanças nos rum os da m úsica popular brasileira não foi com preendido corretam ente na época, soou extem porâneo para os anos 1970, do desbunde, outra noção do carnaval, novos baianos (...), porém é um disco lindo”, ressalta Stella Cay m m i, neta e biógrafa de Dorival.
Os m estres Batatinha, Riachão e Panela foram as estrelas do LP Samba da Bahia lançado pelo selo Fontana-Especial/Poly gram em 1973. Sob a direção de produção de Paulo Lim a, o disco foi gravado num estúdio im provisado no teatro Vila Velha, em Salvador, o que garantiu o frescor do registro. Riachão ficou responsável por sete m úsicas do lado A, entre elas seu m aior sucesso “Cada m acaco no seu galho”. Batatinha ficou com as quatro prim eiras faixas do lado B, entre elas “Ministro do sam ba”, em hom enagem a Paulinho da Viola, o grande incentivador da gravação deste disco. Panela ficou com as faixas 5 e 6 do lado B, com as bem -hum oradas “Não suj e m eu caixão”, dele e de Garrafão e “O patrão é m eu pandeiro”, dele e de Carlos Napoli. O disco consta da seleção do livro 300 Discos Importantes da Música Brasileira, coordenado por Charles Gavin.
Zé Kéti, um a das figuras centrais do espetáculo Opinião, de 1964, no qual além de atuar era com positor da m úsica-título e de outras do espetáculo, tais com o “Diz que fui por aí” (com Hortênsio Rocha) e “Malvadeza durão”, lança Opinião, Diz que fui por aí, Malvadeza durão, Mascarada, Acender as velas e outros sucessos de Zé Kéti (Itam araty /CID), que, com o o próprio título quilom étrico anuncia, era um disco de sucessos, cantados na voz suingada de Zé Kéti.
Mestre do sam ba-canção, o gaúcho Lupicínio Rodrigues, que naquele m om ento estava sendo redescoberto por gente com o Paulinho da Viola e Caetano Veloso, lança em 1973 seu segundo LP solo, corretam ente intitulado Dor de Cotovelo (Rosicler e Chanteclair). Um verdadeiro docum ento, que possui pérolas com o “Fuga”, “Caixa de ódio” e “Se é verdade” na voz do próprio autor. Seu prim eiro LP, sob o título Roteiro de um Boêmio (Copacabana), foi lançado na década de 50. Lupicínio m orreu em 1974.
Autor de “Adeus batucada”, sucesso na voz de Carm en Miranda, o veterano sam bista Sy nval Silva, lança, aos 61 anos, seu prim eiro e único LP, para Série Docum ento, da gravadora RCA. Tendo seu próprio nom e com o título, o disco tem além de “Adeus batucada”, “Não é de nada” (pareceria sua com Antonio Maria) e “Negro artilheiro” (parceria com Herivelto Martins).
O cachorrão, com o é conhecido Jair Rodrigues, deitou e rolou em 1973. Orgulho de um Sambista, o disco, foi um sucesso, com destaque para a m úsica que dá nom e a bolacha, com posta por Gilson de Souza. O m esm o autor assina outras três m usicas no LP, um a em parceria com Jair.
Após o sucesso de 1972, com o disco Batuque na Cozinha (RCA), puxado pela m úsica que dava título ao disco, de autoria de um dos fundadores do sam ba, João da Baiana, m estre Martinho da Vila lança em 1973 o disco Origens (RCA), que traz tam bém outro m arco dos fundadores do sam ba: “Pelo telefone”, de Donga e Mauro de Alm eida, a prim eira m úsica fonograficam ente registrada com o sam ba. Em Origens o trabalho de Martinho com eça a se aproxim ar definitivam ente das raízes africanas que o transform aram num verdadeiro em baixador da África no Brasil. A faixa “Som africano”, extraída do folclore angolano, serve com o prim eira seta apontando para um outro norte em seu trabalho.
O grupo vocal baiano Os Tincoãs lança em 1973 seu disco m ais im portante segundo a crítica especializada. O repertório de Tincoãs (Odeon) é feito a partir de canções oriundas dos terreiros, tendo com o base violão, atabaque, agogô e cabaça. Na capa os três com ponentes posam sem cam isa e com guias (cordões) no pescoço.
Cantor e pianista da noite paulistana, o com positor Benito de Paula encontra o sucesso em 1973. O carro chefe de seu terceiro LP, batizado de Um Novo Samba (Copacabana), é “Retalhos de cetim ”, um a das m úsicas m ais tocadas naquele ano. A m úsica foi lançada em um show que ele fazia no Teleco-Teco, casa frequentada pelo pessoal do sam ba, com o Monsueto e Ciro Monteiro.
Filho de Mano Décio da Viola, fundador da escola de sam ba carioca Im pério Serrano, Jorginho do Im pério lança em 1973, pela Equipe EQC, o disco Brasil... Quem Quiser Pode Ir. Apesar do título, em tem pos de ditadura, parecia “entreguista” e era “apenas” um bom disco de sam ba, com duas m úsicas de Martinho da Vila (“Calando longo” e “Maria da hora”), um a de Candeia (“Lá vai viola”), e outra de seu pai em parceria com Jorginho Pessanha (“Hora de chorar”).
Tendo com o base um a m istura de m úsica africana e sam ba-rock o m ineiro Marku Ribas lança em 1973 seu prim eiro disco Underground (Copacabana). Um dos 300 discos inclusos no livro organizado por Gavin, citado anteriorm ente, o LP tem entre seus destaques “N’biri N’biri”, m úsica tradicional angolana adaptada por Ribas e “Zam ba Ben”, inspirada no som do Babulina Jorge Ben.
Jorge Ben lançaria em 1974 o fundam ental A Tábua de Esmeraldas (Philips) no qual cantou que os alquim istas estavam chegando. Mas, em 1973 seu inédito tinha gosto especial. O disco Dez Anos Depois (Philips) tinha a difícil tarefa de desfilar os 36 sucessos que ele arregim entou até então. Produzido por Paulinho Tapaj ós Dez Anos Depois ficou com 21 faixas, algum as agrupadas em pot-pourris. “Chove chuva”, “Mais que nada” e “País tropical” são algum as das pérolas que estão no disco.
Tam bém em 1973 Ronnie Von, o Pequeno Príncipe da Jovem Guarda, lança seu LP. O disco não está situado esteticam ente nem nos em balos do Iê-ie-ie nem nas psicodelias de seus discos A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império do Nuncamais (1969) ou Minha Máquina Voadora (1970). O disco de 1973 tinha um pouco de tudo. De “Velho serm ão” (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza) a “Essas coisas acontecem sem pre” (Zé Rodrix e Tavito), passando por “Gira-girou” (Adilson Godoy ), um sam ba ao estilo de um ponto de Um banda, com solo de guitarra na introdução, o que não j á era novidade no repertório de Ronnie. Em seu disco de 1972, a prim eira faixa era exatam ente um a m úsica com tons religiosos, “Cavaleiro de Aruanda”, do guitarrista argentino Tony Osanah, que acabou virando hino da entidade africana Oxóssi. Osanah pertencera à banda The Beat Boy s, a m esm a que acom panhou Caetano Veloso na apresentação de “Alegria, alegria”, no Festival da MPB de 1967.
ÚLTIMAS NOTAS
Em 1973 algum as figuras im portantes da história da m úsica brasileira saíram de cena. A figura popular de Evaldo Braga, com entada anteriorm ente, foi a prim eira perda.
Um dos fundadores da m oderna m úsica brasileira, Pixinguinha m orreu no dia 17 de fevereiro, na Igrej a Nossa Senhora da Paz, em Ipanem a, no Rio. Autor de clássicos com o “Carinhoso”, com posta originalm ente em 1917 e que vinte anos depois (1937) ganhou letra de João de Barro. Além de m úsico e com positor de talento, Pixinguinha era adm irado pela figura hum ana que sem pre foi e aos poucos ganhou a alcunha de São Pixinguinha.
Outra figura ím par que abandonou as rodas naquele ano, no dia 13 de j ulho, foi Cy ro Monteiro. Com positor e intérprete talentoso, em 1937 gravou de form a definitiva “Se acaso você chegasse”, de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins. Sua m arca registrada em cena, ou nas rodas de bar, era de sem pre estar acom panhado de um a caixa de fósforo para m arcar o ritm o. O últim o disco lançado por ele foi em dobradinha com Jorge Veiga e cham ava-se De Leve (RCA- Victor), lançado em 1971.
Monsueto, autor de 140 m úsicas, entre elas “Me deixa em paz”, parceria sua com Ay rton Am orim , faixa cantada por Milton Nascim ento e Alaíde Costa no LP Clube da Esquina (Odeon), de 72, foi outro artista que saiu de cena em 73. No m esm o ano, dentro da série Grandes Autores, a RCA lança um disco com 12 m úsicas de Monsueto interpretadas por Linda e Dircinha Batista e Marlene, entre outros. A m úsica que abre o disco tributo é “Mora na filosofia”, parceria com Arnaldo Passos, na interpretação de Maria Bethânia.
Um acidente aéreo nas im ediações do Aeroporto de Orly em Paris, França, interrom peu a traj etória de Agostinho dos Santos. O cantor foi o responsável pela interpretação da m úsica “Manhã de carnaval”, de Luiz Bonfá e Antônio Maria, na trilha sonora do film e Orfeu Negro, de 1959, dirigido por Marcel Cam us, que conquistou a Palm a de Ouro de 1959, o Oscar e o Globo de Ouro de m elhor film e estrangeiro em 1960. Agostinho foi um dos artistas m ais aplaudidos no histórico show dos bossa-novistas no Carnegie Hall em 1962. Em 1973, logo após sua m orte, teve lançado pela Continental/ Phonodisc um LP repleto de clássicos com o “Se todos fossem iguais a você”, de Tom e Vinicius, e “Manhã de carnaval”, entre outros. O disco, inédito até aquele m om ento, registra as últim as gravações dele.
DE DENTRO DO FURACÃO
Na segunda edição, de 1976, da coleção Nova História da Música Popular Brasileira, que colocava nas bancas de j ornais, quinzenalm ente, fascículos acom panhados de um vinil de 10 polegadas, a dupla João Bosco e Aldir Blanc teve direito a seu fascículo exclusivo. Nele, em depoim ento especial, Aldir Blanc fala sobre o cenário da MPB de então: “Muito desse período de não-criatividade, de silêncio (1969-73) não tem um a causa estética com o certos analistas parecem querer colocar a todo m om ento, em frases que falam do m arasm o e da inércia. Cabe aí um a análise m ais profunda. Na verdade, não existia m arasm o algum . O que havia era a atuação, em níveis quase insuportáveis, de certos organism os. Era um a ‘paradeira’ im posta, não sentida. As pessoas sem pre pintaram quadros, com puseram , escreveram livros e peças. O que não era possível era a apreciação de seus trabalhos. Mas, a partir de 1973, as coisas acabaram acontecendo – com o num a explosão −, apesar da persistência da censura.”
UMA VISÃO DE DENTRO DO MAR DE MELODIAS
Houve um tem po em que de fato tínham os a sensação de que o que classificávam os com o boa m úsica brasileira im perava no m ercado. Em outros m om entos a invasão de canções internacionais era um a realidade (m úsicas italianas, francesas e em língua espanhola) e j á ocupavam generosos espaços nas program ações e no gosto do público. Mas, o que poucos conseguem destacar é que, com o poucos países, para o bem e para o m al, o Brasil é, ao longo de sua história, um dos poucos lugares que sem pre, desde que a m úsica entrou num processo industrial de consum o, deu preferência para sua própria m úsica. Isso explica nova diversidade e qualidade.
“O m ercado de discos no Brasil, desde os anos 1950 e até os anos 1990, pelo m enos no tem po em que eu m ilitei nele, sem pre oscilou entre 65% a 75% para a preferência por m úsica brasileira, de todos os gêneros e estilos. E o restante, claro, de gravações internacionais. O Brasil sem pre foi um dos poucos países no m undo que sem pre vendeu m ais a sua produção nacional. Além dele, som ente a Inglaterra e os Estados Unidos sem pre tiveram esse privilégio”, constatou Arm ando Pittigliani, um dos m ais atuantes profissionais do m ercado fonográfico brasileiro, em especial na década de 70.