1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 48 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

Mais Grave! Mais Agudo! Mais Eco! Mais Retorno! Mais Tudo!

TIM MAIA − TIM MAIA

 

Aimée Louchard

 

ebastião Rodrigues Maia, o Tim , sem pre foi um hom em de excessos. Tinha a voz portentosa a tal ponto de a revista Rolling

 

S Stone tê-lo classificado com o o m elhor cantor brasileiro de todos os tem pos, o corpanzil desengonçado − cuj os problem as recorrentes acabariam por levá-lo prem aturam ente ao andar de cim a aos 55 anos − e, principalm ente um com portam ento desabrido, que o fez colecionar em igual proporcionalidade num érica tanto desafetos quanto fãs ardorosos. Tornou-se conhecido tam bém por se atrasar ou não aparecer em shows e reclam ar frequentem ente da qualidade do áudio nos m esm os. Era alguém sem papas na língua, com o se dizia no século passado.

Menino pobre, nascido e criado na Rua do Matoso, no bairro da Tij uca, na zona norte do Rio de Janeiro, com eçou a trabalhar na infância entregando m arm itas para reforçar o orçam ento fam iliar. Aos oito anos, entrou para o coral da igrej a e, aos doze, ganhou de presente do pai um violão. Estava feito o estrago, com o relem braria em entrevistas, depois da fam a, às gargalhadas. Na adolescência no m esm o bairro, fez am izade com aqueles que se tornariam os reis da futura Jovem Guarda: Roberto e Erasm o Carlos. E com eles chegou a apresentar o program a sem anal Clube do Rock, na finada TV Tupi.

Em 1973, ele j á tinha criado a própria gravadora, a Serom a, sigla form ada pelas sílabas do nom e de batism o ou para outros o anagram a de Am ores, departam ento em que nunca foi feliz. Além disso, os hits de discos anteriores com o “Prim avera” e “Azul da cor do m ar” − com vendas m édias de 200 m il cópias − ainda estavam na m em ória de m uita gente. Mas quando Tim lançou o quarto LP da carreira, pelo selo Poly dor e batizado com o nom e dele sim plesm ente, o país inteiro passou a se sacudir ao ritm o de “Réu confesso”, que abria o volum e. O sam ba-soul, de autoria própria, foi um a das canções m ais tocadas nas rádios naquele ano. A gravação teve nos vocais o auxílio luxuoso da dupla am ericana Paul e Sheila Sm ith, que estava em tem porada no Rio. Este seria o últim o disco gravado por Tim Maia antes de se converter à seita m ística Cultura Racional, m ais conhecida pela publicação doutrinária Universo em Desencanto, um a derrapada brava na vida, que levou o astro a am argar grandes prej uízos nos lançam entos posteriores e na sequência renegar veem entem ente toda e qualquer religião antes de retom ar a fórm ula de sucesso que o levaria de novo ao topo das paradas de sucessos.

Já nos shows ao vivo e salões de baile, a tsunam i acontecia invariavelm ente quando os prim eiros acordes de “Gostava tanto de você”, a oitava faixa do LP, saíam das caixas. Plateias ensandecidas acom panhavam a canção em coro ou dançando efusivam ente. Sobre esta m úsica, aliás, contam -se inúm eras histórias. Um a delas garante que a canção era dedicada à filha dele, vítim a de um a doença tenebrosa, ainda criança. Outra assegura que a inspiração foi o grande e inesquecível am or que Tim teria conhecido num bar em Copacabana, na Zona Sul carioca, depois de um show. Tudo lenda urbana, um a febre destes nossos tem pos de internet. Para com eçar, Tim j am ais teve um a filha. Teve dois filhos: Carm elo e Léo, este últim o, cantor com o o pai, e que só acabaria descobrindo ser adotado na adolescência. Na verdade, o autor da m elodia e letra de “Gostava tanto de você”, erroneam ente atribuída a Tim , é Edinho Trindade. Foi parceiro do cantor desde os tem pos de m iserê e integrante dos grupos Os Tij ucanos do Ritm o e The Sputiniks, fundados por Tim Maia logo no início da carreira. Na época, Edinho tinha um a nam orada cham ada Meire, que, segundo conta Erasm o Carlos no livro Minha Fama de Mau, seria um a espécie de Yoko Ono, isto é, a culpada pelos prim eiros desentendim entos entre os am igos e m em bros da banda. O casal tem peram ental vivia se estranhando. Um a coisa é certa: o hit foi m esm o resultado de um a baita dor de cotovelo pelo fim do nam oro de Edinho.

Neste LP, havia três m úsicas em inglês. Tim dom inava com pletam ente o idiom a que aprendeu literalm ente nas ruas de Nova Iorque durante um a passagem pelos Estados Unidos, na década de 1960, de onde acabaria sendo deportado por roubo de carro e envolvim ento com drogas depois de “puxar” seis m eses de cadeia. “Do y our thing, behave y ourself”, um a balada com arranj os típicos das big bands, encontrou boa acolhida do público brasileiro. Já “New love” passou despercebida e teve a m atriz gravada nos E.U.A, constando do catálogo de 1962 da extinta gravadora nova iorquina Ray Cup Records. É um a parceria com Roger Bruno, um dos m em bros do The Ideals, grupo vocal do qual Tim fez parte durante a tum ultuada tem porada am ericana. O baterista brasileiro Milton Banana, que estava em Nova York para um show em hom enagem à Bossa Nova no Carnegie Hall, participou da gravação original. Outra presença ilustre no disco é o contrabaixista de j azz Don Pay ne. Nas terras ianques, Tim Maia foi rebatizado de Jim m y, the brazilian. Afinal, qual seria o gringo apto a pronunciar o apelido dele da época, um sonoro e brasileiríssim o Tião? Só recentem ente, a m atriz em acetato de “New love” foi recuperada. Aqui, a com posição ganhou novos arranj os. Da fornada em inglês, “Over again”, a terceira faixa do disco, tam bém passou batida.

“Balanço”, a quinta faixa do LP, agradou em cheio pela prim orosa sintonia com a banda brilhantem ente pilotada por Paulinho Guitarra. Com levada de funk carioca ganhou nova roupagem ao ser regravada em 2011 pelos pernam bucanos do Nação Zum bi, ícones do manguebeat. “Preciso ser am ado”, a penúltim a faixa, é um a exceção no repertório hom ogêneo. Lam ento xaroposo de rim as pobres, tem a única virtude de nos ter proporcionado o raro episódio de se ouvir Tim na voz e no violão. Um deslize perdoável para alguém de tal calibre. O disco se encerrava com “Am ores”, faixa totalm ente instrum ental, com Tim no contrabaixo e o band leader Paulinho dobrando a guitarra solo.

Arguto, com o produtor do próprio disco, Tim sabia que não tinha m uitas m úsicas excelentes e caprichou no instrum ental, arregim entando com a lábia habitual os m elhores instrum entistas da época. O resultado foi um a inusitada e form idável m istura de trom petes, trom pas, saxofones, congas, violas, ganzás, pianos e cowbells para ninguém botar defeito. Tam bém m ostrou neste LP a versatilidade nata com o arranj ador, com positor e letrista tanto em inglês quanto em português: são dele 10 das 12 faixas. Além de Edson Trindade, autor de “Gostava tanto de você”, Dom Mita com pôs “A paz do m eu m undo é você”.

Aquele 1973 foi m esm o frenético em todo o m undo. Acabou a guerra do Vietnã, O Bem-Amado trouxe a prim eira novela em cores para os lares brasileiros, o Airbus com eçou a cruzar os céus e foi feita a prim eira ligação de um telefone celular. Mas Tim Maia não estava nem aí para nada disso. Na carona do prim eiro disque-j óquei brasileiro, o saudoso Big Boy da rádio Mundial, Tim Maia, aderiu aos bailes dançantes dos subúrbios cariocas com o Bangu, Pavuna e Cascadura. Com a nostalgia da infância e sim patia pela plateia j ovem e m enos aquinhoada financeiram ente, Tim Maia sentia-se em casa nestes am bientes.

O sucesso do disco turbinou o valor do passe dele e várias gravadoras disputavam para tê-lo no elenco. Quem levou a m elhor foi a RCA-Victor, com quem o cantor assinou contrato ante a prom essa de um álbum duplo, que j am ais se concretizou. Com os bolsos cheios com o dinheiro do adiantam ento, o cantor seguiria para Londres para m ais um a tem porada alucinante de m úsica, porres colossais e drogas pesadas.

Quinze anos depois da m orte, o interesse pela obra dele perm anece praticam ente inalterado. Os coroas revivem as com posições dançantes e os j ovens se rendem a elas. Depois de inúm eras coletâneas póstum as, caixa com discografia com pleta e duetos obtidos através de recursos tecnológicos inim agináveis na época em que Tim Maia abria o vozeirão e hipnotizava a todos, um m usical continua lotando teatros no eixo Rio − São Paulo. Até m arço de 2013, Vale Tudo j á tinha conquistado 200 m il espectadores nas duas capitais. Inspirado no livro O Som e a Fúria de Tim Maia, escrito pelo am igo Nelson Motta, a peça, com um elenco im pecável, é um a criteriosa reconstituição histórica e m usical das décadas em que Tim Maia reinava no dial das rádios e nos salões de baile.

Um dos prim eiros artistas independentes do país, introdutor do soul am ericano na MPB, Tim Maia ganhou o apelido de “síndico do Brasil”, do am igo Jorge Ben Jor na m úsica “W/Brasil”. Viveu com o escolheu, disse o que quis. Dono de um talento avassalador e personalidade explosiva, para ele nunca houve m eio term o: tudo é tudo, nada é nada, repetia frequentem ente. Para nossa tristeza, a voz inigualável calou-se antes da hora. “Se eu pudesse, só cantava. Quando eu paro de cantar, faço besteira”, adm itiu certa vez. Parecia profecia.

 

Tim Maia (Polydor − 2451 041)

Produtor: Tim Maia

Arranj os de base: Tim Maia

Arranj os de sopros e cordas: Waldir A. Barros

Técnico de som : Ary Carvalhães Assistência técnica: João, Paulinho, Luiz Cláudio e Jairo Gualberto

Mixagem : Ary Carvalhães e Tim Maia

Fotos: Ricardo de Vicq

Ensaiado nos estúdios da Serom a

Gravado nos estúdios da Phonogram

Rio de Janeiro, RJ

Músicos participantes:

My ro: bateria

Barbosa: baixo

Cidinho: piano

Pedrinho: órgão

Paulinho: guitarra solo

Tim : violão de 6 cordas e contrabaixo (em “Am ores”)

Neco: violão de 12 cordas

Ronaldo: conga e tum ba

Roberto: ganzá e pandeiro

Mita: cowbell

Edson Trindade: violão em “Gostava Tanto de Você”

Metais:

1º trom pete: Waldir Barros

2º trom pete: José G. Am orim

Sax-tenor: Aurélio Marcos

Sax-barítono: Maurílio Faria

Trom bone: Edm undo Maciel

1ª trom pa: Zdenek Suab

2ª trom pa: Carlos Gom es

Vocais:

Paulo Sm ith, Sheila Sm ith, Gracinha,

Edinho, Genival, Am aro e Tim Maia

 

Lado A

1. Réu Confesso (Tim Maia)

2. Compadre (Tim Maia)

3. Over Again (Tim Maia)

4. Até Q ue Enfim Encontrei Você (Tim Maia)

5. O Balanço (Tim Maia)

6. New Love (Tim Maia e Roger Bruno)

Lado B

1. Do Your Thing, Behave Yourself (Tim Maia)

2. G ostava Tanto de Você (Edson Trindade)

3. Música no Ar (Tim Maia)

4. A Paz do Meu Mundo é Você (Mita)

5. Preciso Ser Amado (Tim Maia)

6. Amores (Tim Maia)