1973: O Ano que Reinventou a MPB
Obrigado, Flávio Cavalcanti
LUIZ G ONZAG A JR. − LUIZ GONZAGA JR.
Dácio Malta
uiz Gonzaga do Nascim ento Júnior, o Gonzaguinha, sem pre soube que artista era carreira de equilíbrio difícil. Por isso dizia
L que seu pé tinha a largura do aram e. Foi exatam ente assim que ele iniciou sua vida artística. Em seu prim eiro LP, um a das m úsicas teve sua execução
proibida em todas as em issoras do país. Mas foi graças a ela que
Gonzaguinha tornou-se, da noite para o dia, um a celebridade.
No início de 1973, foi convidado a cantar “Com portam ento geral” no Programa Flávio Cavalcanti − um apresentador polêm ico que, há anos, divertia-se em quebrar discos num quadro intitulado “Um Instante Maestro”. A gravação era um com pacto sim ples que m ofava nas loj as desde novem bro do ano anterior. Na canção ele diz que é preciso rezar pelo bem do patrão e esquecer o fato que está desem pregado. E no refrão am eaçador, advertia que aquilo não era ainda o fundo do poço. Ainda podia piorar, e perguntava: “e se acabarem com seu carnaval?”
No m artírio contínuo do pelego, apolítico, inconsciente ou, quem sabe, um sim ples conform ado com aquele estado de coisas, ele cantava que era preciso abaixar a cabeça e dizer sem pre m uito obrigado, afinal era um hom em bem disciplinado.
No program a em que viu seu disco ser quebrado diante das câm eras, Gonzaguinha saiu do anonim ato. Lá ele ouviu de tudo. O cham aram de terrorista, de estar prestando um desserviço à nação. Um dos j urados sugeriu a sua deportação – destino dado aos presos políticos trocados por diplom atas sequestrados.
Mas a porradaria foi m ais do que bem -vinda.
Dois dias depois ele j á estava na parada de sucessos da rádio Tam oio e, em um a sem ana, vendeu 20 m il cópias, ao m esm o tem po em que era cham ado para depor no DOPS e ver o tem ível general Antônio Bandeira, diretor-geral do Departam ento de Polícia Federal, assinar um a portaria proibindo a “divulgação, representação, exibição e transm issão radiotelefônica da m úsica ‘Com portam ento geral’ em todo o território nacional”.
Na época tudo era proibido. Odair José, cantor e com positor de estilo rom ântico brega, teve o m esm o destino com a m úsica “Pare de tom ar a pílula!”.
Foi nesse cenário que Gonzaguinha lançou seu prim eiro LP, com apenas 10 m úsicas, entre elas “Com portam ento geral” escondida na penúltim a faixa. A Polícia Federal proibira sua execução, m as não im pediu a com ercialização.
Por conta da polêm ica, ganhou o apelido de cantor-rancor, em bora não tivesse nada de rancoroso. Muito pelo contrário. Sem pre foi um suj eito divertido, brincalhão, que gozava de tudo e de todos, até m esm o dele próprio. Era um m oleque, inclusive diante da censura. Mas não achou de todo m al alim entar, para o público, esse seu lado ácido, crítico, e decidiu explorar a im agem de um hom em sério e consciente, principalm ente diante da política e das questões sociais.
Para ele, m úsica não deveria ser feita para divertir ou servir de fundo para um a conversa – “m úsica é para fazer pensar”:
− E não existe m úsica sem ideologia. Ela é contra ou é a favor. A neutralidade é im possível.
Com um discurso claro e coraj oso, para aqueles anos, Gonzaga era um dos m ais visados pela censura. Exem plo disso é que, antes de gravar o segundo LP, ele j á tinha 58 m úsicas censuradas, o que lhe valeu da Associação Paulista dos Críticos de Artes a curiosa Menção Honrosa pelas Músicas Conservadas Inéditas.
O prim eiro LP de Gonzaguinha é um belo e resum ido retrato do que seria sua carreira nos 18 anos seguintes.
Ali está estam pado o seu lado rom ântico, principal m arca de sua carreira, principalm ente nos anos 80, quando não havia LP que não trouxesse pelo m enos um a m úsica sua. De Nana Cay m m i a Sim one, de Alcione a Joana, de Marlene a Ângela Maria, todas gravavam Gonzaguinha. Maria Bethânia chegou a fazer um espetáculo no Canecão onde suas m úsicas ocupavam um terço do show. Elis Regina encerrava o seu Saudades do Brasil com outra canção dele: “Redescobrir”.
No LP de 73, quatro das dez m úsicas falam de dança, de baile − um a constante em sua obra, onde o ápice seria, m ais tarde, “Com eçaria tudo outra vez”. Na faixa “Sem pre em teu coração” ele convida seu bem para dançar ao som da orquestra de Waldir Calm on. Em “Minha am ada Dodivana” ele recorda com a am ada que há m uito eles não dançavam um bom bolero.
O “rancoroso” m ostra ainda – surpreendentem ente − sua alegria e descontração com “A felicidade bate à sua porta”, sucesso anos depois nas vozes das Frenéticas – as intérpretes de um Gonzaguinha m ais divertido com o “Bié, bié Brasil”, “Feij ão m aravilha”, “Saco cheio de Noel”, entre outras. Mesm o sob a capa soturna do LP, com o rosto do artista quebrado e desfocado, ele canta o trem da alegria que acaba de sair da gare de um a central repleta de cam elôs sublinhando o título da canção para concluir que o que im porta é a tal da felicidade.
No disco tem ainda um a canção daquelas para fazer pensar, e que ele tanto gostava: “Palavras”. Em tom solene, na canção − que alguns anos depois receberia outro registro devastador de Nana Cay m m i − ele não aguenta m ais palavras, palavras, palavras. E questiona: “desde quando sorrir é ser feliz?”
Diziam que Gonzaguinha era pessoa difícil. E ele perguntava:
− Mas e a vida? A vida é fácil? O m undo, as pessoas são fáceis?
Na faixa “Insônia” m ostra sua angústia relatando a sensação de um lençol gelado e o sono que não vem ...
Gonzaguinha foi um dos m elhores cronistas m usicais do país – “O que é, o que é” é certam ente seu m elhor exem plo. Um caderno e um a caneta eram os com panheiros constantes de sua carreira. Nele, Gonzaga anotava suas observações e os com entários que ouvia. Sua m úsica sem pre foi “fruto da experiência e não da inspiração divina”, dizia ele.
Em 1973, no prim eiro LP, apresenta tam bém um a crônica rodriguiana. Um recorte de página policial: “Página 13”, onde narra a vida pacata de um rapaz bem educado e de bom coração que m ata, sem bilhetes ou explicação, a m ulher e suas crianças a golpe de pau.
Na faixa “Moleque”, que receberia outras gravações do próprio Gonzaguinha ao longo de sua carreia, traça o seu autorretrato – que não abandonaria em nenhum m om ento de sua carreira. Na canção ele deixa claro que o m oleque de sua infância continua ali, vivo e arisco. “Não m edo, não trem o, não corro / Avanço, m e lanço, estouro.”
Medo era palavra inexistente em seu dicionário. Tam bém ... para um m enino que cresceu no Morro de São Carlos, órfão de m ãe e abandonado pelo pai, cercado de m oleques perversos, que fugia de casa para tom ar banho no lago da Quinta da Boa Vista, ou m esm o para ganhar uns trocados carregando sacolas para as m adam es nas feiras... m edo de que ele teria? Gonzaga aprendeu desde cedo os segredos e as m alandragens da vida, e não teve m edo nem m esm o quando ficou duas vezes tuberculoso:
− Medo é um a coisa que m e im pulsiona. O m edo na vida tem sido um a m aneira de m e colocar pra frente, de ultrapassar m eus lim ites. O m edo que sinto, é o m edo que m e dá coragem o tem po todo.
Gonzaguinha com pôs 405 m úsicas e gravou 18 LPs, onde cantou sua vida, suas paixões, seus desej os, seus protestos, que se identificavam , na verdade, com a vida, as paixões, os desej os e os protestos de m ilhares de fãs. Por isso eles se em ocionavam .
Suas m úsicas não tiveram prazo de validade, por isso continuam sendo executadas até hoj e. E o com positor continua sendo gravado. Em seu penúltim o CD, Em ílio Santiago dedicou todo ele a obra de Gonzaguinha. O terceiro CD de Maria Rita, Samba Meu, teve com o carro chefe um sam ba pouco conhecido – “O hom em falou”. A m úsica da abertura da novela da TV Globo, Amor à Vida, é de autoria de Gonzaguinha, em bora com um a gravação de qualidade duvidosa – escolhida em detrim ento da versão de “Maravida” interpretada pelo próprio autor e outra de Maria Bethânia.
Em 1996, cinco anos depois de sua m orte, a EMI-Odeon recusou-se a patrocinar um espetáculo sobre Gonzaguinha, pois seus dirigentes não tinham “nenhum plano em torno de seu nom e”. Nesse ano, a gravadora lançou CDs com os m aiores sucessos de 15 artistas vivos e outros 15 m ortos. Gonzaguinha foi o recordista de vendas − entre os vivos e os m ortos. E no ano seguinte, aqueles que não tinham planos “em torno de seu nom e” lançaram um a caixa com todos os seus CDs.
Gonzaguinha m orreu aos 45 anos, em abril de 1991, em um desastre de autom óvel no interior do Paraná, por onde viaj ava só, com o seu violão, com o um Cavaleiro Solitário – título do seu CD póstum o. Nesta época, ele teve, com o todos os brasileiros, suas econom ias confiscadas pelo governo Collor, e precisava se capitalizar para form ar um a nova banda. Por isso viaj ava pelas periferias das grandes cidades.
Seu sonho era form ar um a nova banda e fazer, durante as festas j uninas, um a turnê pelo Nordeste − de onde seu pai se proj etou para o país.
Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”, continua sendo um dos 10 m úsicos brasileiros m ais im portantes de todos os tem pos.
Para os artistas, ele sem pre foi um a lenda. Para o público, um m ito.
E vej am só...
O sucesso do filho foi tão grande, que o m ito foi obrigado a m udar de nom e.
O sucesso de Gonzaguinha acabou transform ando-o em Gonzagão.
É preciso dizer m ais algum a coisa?
Luiz G onzaga Jr. (Odeon – SMOFB 3778)
Diretor de produção: Milton Miranda
Diretor m usical: Maestro Gay a
Assistente de produção, orquestrador e regente: Meireles
Diretor técnico: Z.J. Merky
Técnico de gravação: Nivaldo, Tonhinho, Dacy Técnico de laboratório: Reny R. Lippi
Técnico de rem ixagem : Jorge Teixeira
Arte e fotos: Eduardo Andrade e Eduardo Vhalita
Lado A
1. Sempre Em Teu Coração (Luiz Gonzaga Jr.)
2. Minha Amada Doidivana (Luiz Gonzaga Jr.)
3. Página 13 (Luiz Gonzaga Jr.)
4. Romântico do Caribe (Luiz Gonzaga Jr.)
5. Sim Q uero Ver (Luiz Gonzaga Jr.)
Lado B
1. A Felicidade Bate À Sua Porta (Luiz Gonzaga Jr.)
2. Palavras (Luiz Gonzaga Jr.)
3. Moleque (Luiz Gonzaga Jr.)
4. Comportamento G eral (Luiz Gonzaga Jr.)
5. Insônia (Luiz Gonzaga Jr.)