1973: O Ano que Reinventou a MPB
A Madrinha que o Samba Batizou
A MADRINHA QUE O
SAMBA BATIZOU
CANTO POR UM NOVO DIA − BETH CARVALHO
Analu Germano
disco não foi de estreia. Porém m arcou o início de um a discografia que se propôs ser anual. Um disco que pode ser
O entendido com o um a seta de vôo preciso. E foi, podem os dizer sem m edo de errar, seu m ergulho definitivo no universo do sam ba, com a benção das m usas da m itologia ocidental, Arche (canto) e Euterpe (m úsica). Um percurso talvez iniciado em 66, com sua participação no show A Hora e a Vez do Samba, com Nelson Sargento e Noca da Portela.
Canto por um Novo Dia, produzido por José Xavier, trouxe elegância, lirism o e um pouco de m elancolia (“Hora de Chorar”, de Mano Décio da Viola e Jorge Pessanha; a própria faixa-título do disco, assinada por Garoto da Portela e “Velhice da Porta Bandeira”, da autoria de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro). Os arranj os são de César Cam argo Mariano. O clássico “Folhas Secas” estreou em gravação no m esm o ano (1973), nas vozes de Beth Carvalho e Elis Regina. Neste disco a canção é acom panhada pelos bordões do violão do autor Nelson Cavaquinho, que coroou o disco com excelência.
“Salve a preguiça m eu pai”, de Mário Lago, um sam ba sincopado, cuj a letra pode ser entendida com o um recado de estreante que veio para ficar – “espinho não m e am edronta/nem pedra vai m e assustar/quem quer que eu saia da estrada que venha m e buscar”. Presente tam bém está um João Nogueira surpreendente, até m esm o para os dias de hoj e, na faixa “Mariana da gente”, seguida por “Fim de Reinado”, de Martinho da Vila, os anos se encarregaram de realçar seu talento para sam bas que narram histórias. O cidadão de Duas Barras participou da percussão, ao som de um m arcante pandeiro. Beth “salpicou” no tem pero a leveza do saudável “descom prom isso” ao cantar sua paixão pela escola verde rosa (“Mem órias de um com positor”), versos que encantam a cantoria popular, provocadores do sim ples prazer da alegria de cantar, alguns de dom ínio público, outros que detém força e autenticidade quando cantados e m arcados pelas palm as nos quintais suburbanos ou nas rodas de sam ba das periferias (“Flor de Laranj eira”/“Sereia”/“São Jorge Protetor”).
Seus luxuosos auxiliares tam bém foram responsáveis pelo “sabor sonoro” – Dino 7 cordas, Geraldo Vespar, Luiz Cláudio Ram os e Nelson Cavaquinho (violão); Carlinhos 7 cordas e Zé Menezes (cavaquinho); Mestre Marçal, Jorginho do Pandeiro, Geraldo da Silva, Gilson de Freitas, Luna, Wilson Canegal e Chico Batera (percussão); Luizão Maia (baixo elétrico) e Paulinho Braga (bateria). No coro, Dinorah, Eurídice, Marlene e Zélia são as pastoras inconfundíveis que estiveram ao lado de Genaro e Stênio Barcellos.
Após m ais de três décadas, ouvidos atentos poderiam nos aj udar a encontrar um perfil que pode ser traduzido com o um roteiro definitivo, sinalizador de longevidade artística. Sam bas-canção, exaltação, de roda, partido alto e frevo (“Evocação nº1”, de Nelson Ferreira). A exceção da expressão m usical pernam bucana, no disco estão gêneros m usicais que acom panhariam Beth Carvalho por toda sua carreira − ao todo trinta e um a produções fonográficas e quatro DVDs. É neste Canto por um Novo Dia que a cantora fez do sam ba sua profissão de fé. Ela o entendeu e valorizou suas m isturas e “pegadas”.
Na Odeon, três com pactos – dois sim ples e um duplo - antecederam o prim eiro disco. Em 68, um com pacto duplo registrou “Andança” (com participação do grupo vocal Golden Boy s), “Berenice” (Celso Henrique Paschoal), “Meu tam borim ” (César Costa Filho e Ronaldo Monteiro de Souza), e “Guerra de um poeta” (com posta pela própria cantora com Paulinho Tapaj ós). Nos sim ples, “Dom ingo antigo” (Arnoldo Medeiros e Arthur Verocai), “Cavalheiro andante” (Edm undo Santos e Arnoldo Medeiros), com participação de Taiguara e Quinteto Villa-Lobos; “Rosa de gente” (Dori Cay m m i e Nelson Motta) e, novam ente, “Berenice”.
Em 1969, foi Andança o prim eiro LP. Referência à m úsica que se tornaria seu eterno sucesso, que conquistou o terceiro lugar no III Festival Internacional da Canção, com posição de Edm undo Souto, Paulinho Tapaj ós e Danilo Cay m m i. O disco trazia um desfile de m estres da MPB – Vinicius de Moraes, Baden Powell, Milton Nascim ento e Fernando Brant, Paulo e Marcos Valle, entre outros. Era um cam inho, um a estrada, m as diferente dos terreiros de terra batida, de barro e pisos verm elhos lim pos com escovão.
Nesse Canto ela abre a roda, se deixa definitivam ente m ergulhar no sam ba e cam inhar para o posto que ocupa hoj e: um a das m aiores cantoras de sam ba de todos os tem pos.
Depois daquele novo dia ela subiu colinas com ares de quem passeava, festej ou, m ostrou que rosas falam de outras m aneiras, levou seu canto à lua e garantiu ribalta ao pagode de m esa. A Madrinha sabia onde queria chegar e estar.
Madrinha do sam ba com o é conhecida no m eio m usical, Elizabeth Santos Leal de Carvalho é Beth Carvalho. Garim peira de com posições que se tornaram inesquecíveis. Descobridora de com positores que ganharam notoriedade quando gravados por ela: Arlindo Cruz, Som brinha, Moacy r Luz, Luiz Carlos da Vila, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, apenas para citar alguns dos m ais fam osos. Ao escutar suas gravações tem os a sensação de que Beth sem pre soube o que gravar e onde buscar suas “pedras preciosas”. Nos quintais e nas rodas de bairros cariocas, com o Vila da Penha, Ram os e Madureira. Esses são alguns endereços de seus garim pos.
Sua personalidade para escolher repertório e palpitar em arranj os é conhecida. Foi ela quem transportou para estúdios as novidades do “sam ba duro”, ao estilo dos grandes partideiros, e as form as de batucar, indo m uito além do cavaquinho-surdo e pandeiro. Sonoridades inovadoras à som bra da tam arineira lá no Cacique de Ram os.
Assim com o fez de “Folhas Secas” um sucesso, im ortalizou “As Rosas não falam ”. Nelson Cavaquinho e Cartola agradecem de onde quer que estej am .
Em Sam pa não foi diferente – ela conseguiu garim par em São Miguel e em Santo Am aro, batizando o grupo de j ovens sam bistas de Quinteto em Branco e Preto.
Beth Carvalho tam bém quebrou alguns paradigm as com o intérprete. Sua voz levem ente rouca, afinada e aveludada, quando necessário, encantou diversos com positores bossa-novistas com o Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Antonio Adolfo e Tibério Gaspar. Graças a seu tim bre e m usicalidade debutou em estúdio para gravar um com pacto sim ples no ano de 1965, pela RCA-Victor, “Por que m orrer de am or” da dupla Menescal & Bôscoli.
Dois anos se passaram e Beth voltou ao estúdio com o a voz fem inina do Conj unto 3D, com Adolfo, Hélio Delm iro e Eduardo Conde. Muito na Onda foi o LP lançado pela Copacabana. Tão na onda que era um a coletânea de hits nacionais e internacionais da época assinados por Cole Porter, Francis Lai e Pierre Barouch, Geoff Stephens, Jon Hendricks, Sherm an Edwards e Sid Way ne, João Augusto e Gilberto Gil, Chico Buarque de Hollanda, Marcos e Paulo Sérgio Valle.
A m adrinha não tem a voz rasgada dos cantores do “sam ba duro”, m as se torna parceira dos com positores graças a elegância e sobriedade no ofício de cantar. Graves e agudos na dosagem certa, equalizados levem ente. Os autores agradecem , tal com o devem fazer os próprios sam bas-canção, de breque, exaltação, enredo, de roda e até o partido alto.
Suas interpretações m ostram o quanto pode ser desnecessário subir oitavas diversas vezes para expressar dores, desilusões e rom antism o. Lirism o e poesia encontraram possibilidades sonoras pela voz dessa carioca da gem a.
Difícil im aginar que há quatro décadas, na sala de algum apartam ento na Zona Sul do Rio, acom panhada de j ovens autores, adm iradores da nova bossa, Beth foi apresentada à m úsica “Meu Tam borim ”.
De autoria de César Costa Filho e Ronaldo Monteiro, o sam ba “Meu Tam borim ” foi defendido, em 1968, por Beth no I Festival Universitário, conquistando o terceiro lugar. Na ocasião a artista dem onstrou certo desconforto para interpretá-lo declarando: “Sam ba não é m inha praia.”
A m úsica levou a artista ao festival grego Olim píada Mundial da Canção. Além de excursionar pelas Am éricas, por diversos países europeus e cidades africanas, em 1997, um robô foi despertado em Marte por sua voz ao cantar o sam ba “Coisinha do Pai”, de Jorge Aragão.
Foram m uitos os quintais frequentados por Beth e seu cavaquinho. Essa m angueirense foi quem m ais gravou com positores da Portela. Do Cacique, ela trouxe o banj o com afinação de cavaco para os estúdios e seus shows. Nos palanques defendeu causas sem se tornar panfletária. Seus discos espelham essa liberdade de reluzir belezas – poéticas e m elódicas, reafirm ar convicções, e de saber onde sem pre quis chegar, em bora ela própria tivesse, algum as vezes, que inventar cam inhos.
Difícil im aginar que outro gênero m usical poderia ser “sua praia”, se foi o sam ba – padrinho verdadeiro - que am algam ou sua m aneira de fazer e viver a arte.
Canto por um Novo Dia (Tapecar − LPX.19)
Produção: José Xavier
Arranj os e regência: César Cam argo Mariano
Técnicos de som : Luigi Hoffer e Walter
Matriz: Gaus
Arregim entador: Paschoal Perrotta
Capa: Pedrinho de Moraes
Supervisão: Manolo V. Cam ero
Violões: Dino (7 cordas), Luis Cláudio, Geraldo Vespar e Nelson Cavaquinho
Cavaquinhos: José Menezes e Carlinho
Baixo: Luizão
Piano e órgão: César Cam argo
Bateria: Paulinho
Ritm o: Marçal (tam borim ), Gilson de Freitas (ganzá), Geraldo da Silva (agogô), Jorge José da Silva (pandeiro), Luna (surdo), Ministro (cuíca), Wilson Carm egal (tam borim ), Bezerra (surdo), Conj unto Nosso Sam ba, Eliseu (tam borim ), Chico Batera (chocalho), e Martinho da Vila (pandeiro)
Pistons: Maurílio e Darcy
Sax e flauta: Jorge Ferreira e Jaim e Araúj o
Violinos: Santino Parpinelli (spala), Marcelo Pom peu, Pesach Nisenbaum , Murillo da Silva, Jorge Faini, Ernani Bordinhão, Jerem ias Waschitz, Ivan Sérgio Nirem berg e Paschoal Perrota
Violas: Henrique Nirem berg, Fredinck Stephany, Gerson Flinkas, e Felix Cy ncy nates
Cellos: Márcio Exnard e Nelson Márcio Nirem berg
Coro: Dinorah e Eurídice (d’As Gatas), Marlene da Silva e Zélia Bastos (d’As Cigarras), e Carlos Alberto, Genaro e Stênio (do Conj unto Nosso Sam ba)
Lado A
1. Hora de Chorar (Mano Décio da Viola e Jorginho Pessanha)
2. Canto Por Um Novo Dia (Garoto da Portela)
3. Se é Pecado Sambar (Manoel Santana)
4. Homenagem a Nelson Cavaquinho (Carlos Elias)
5. Evocação (Nelson Ferreira)
6. Velhice da Porta-Bandeira (Eduardo Gudin e Paulo César
Pinheiro)
Lado B
1. Folhas Secas (Nelson Cavaquinho e Guilherm e de Brito)
2. Salve a Preguiça, Meu Pai (Mário Lago)
3. Mariana da G ente (João Nogueira)
4. Fim de Reinado (Martinho da Vila)
5. Clementina de Jesus (Gisa Nogueira)
6. Memória de Um Compositor (Darcy da Mangueira e Betinho)
7. Flor da Laranjeira (Zé Pretinho, Bernardino Silva e Hum berto
de Carvalho)
8. Sereia (tradicional, adapt. Beth Carvalho)
9. São Jorge, Meu Protetor (Nelson Cavaquinho, Jorge Silva e
Noel Silva)