1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 6 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

Indo Direto ao Ponto

UM PASSO À FRENTE − A BOLHA

 

Nélio Rodrigues

 

caleidoscópio m ulticolorido da psicodelia j á não reluzia nos céus de 1973. Mas três anos antes, quando Arnaldo Brandão

 

O (baixo e voz), Renato Ladeira (teclados, guitarra e voz), Pedrinho Lim a (guitarra e voz) e Gustavo Schroeter (bateria) aposentaram o velho nom e em inglês de sua banda, The Bubbles, para ressurgirem no cenário sob a égide de A Bolha, as loas ao ácido lisérgico e as suas “m ágicas” sensações viraram assunto central em algum as de suas novas com posições.

De fato, em 1970, o m ergulho na psicodelia foi profundo. Do palco, bradavam : “Quero viaj ar, quero ir pra qualquer lugar.” Com o Aldous Huxley, era preciso abrir as portas da percepção. Por isso, sem m eias palavras, Arnaldo escancarava: “Tom ei um sunshine na praia e saí viaj ando por aí.” Enquanto em “Irm ãos Alfa”, Pedrinho conclam ava: “Vam os todos nessa (...), ele (o ácido) abre todos os cam inhos...”. Na verdade, para A Bolha, o aforism o “sexo, drogas e rock and roll” caía com o um a luva.

Assim , com seu elixir vigoroso e psicodélico e com auxílio dos poderosos am plificadores Marshall, das guitarras Gibson, do baixo Vox em form a de gota e da bateria de dois bum bos de Gustavo, A Bolha percorreu os quatro cantos do Rio de Janeiro inúm eras vezes, sem pre atraindo um a horda de seguidores para suas apresentações. Fossem elas nos teatros da Zona Sul ou nos clubes suburbanos.

De 1970 a 1972 sua traj etória seguiu de form a linear e ascendente. Em 1971, conquistaram o prêm io de m elhor banda do Festival Internacional da Canção depois de fazer trem er as arquibancadas do Maracanãzinho com o arranj o pesado que fizeram para a canção “18:30”, de Eduardo Souto Netto e Geraldo Carneiro. Apesar de em polgante e consistente, a ascensão do grupo não im pediu Arnaldo Brandão de pular fora do barco. Ele bem que avisara sobre suas intenções, em bora ninguém o tivesse levado a sério. Arnaldo queria estudar m úsica, se aprim orar com o baixista e m orar por uns tem pos no exterior. Esperou a poeira do carnaval de 1972 virar cinza para se despedir, sem dó nem piedade, dos incrédulos com panheiros.

Quando a banda se refez, com Marcelo Sussekind ocupando o posto de Arnaldo, seus integrantes se isolaram num a chácara em Friburgo, para se dedicarem a pré-produção do álbum Um Passo à Frente, a tem ática lisérgica deu vez a questões existenciais. Junto com Renato, Pedro Lim a, seu principal com positor, entrara para um a sociedade dedicada ao autoconhecim ento e a reflexão, gerando, por conta disso, tem as com o “Um passo à frente”, “Razão de existir” e “A esfera”, entre outros. Além disso, naquele início de 1973 a psicodelia j á havia sido engolida pela pom pa e com plexidade do rock progressivo, estilo que serviu de inspiração para o então novo trabalho do grupo.

Proj eto acalentado pelos rapazes havia tem po, o processo de gestação do LP não passou sem contratem pos. A constante falta de energia elétrica em Friburgo, às vezes por dois dias consecutivos, e as ausências de Marcelo Sussekind, m uito requisitado para gravações na Odeon, trouxeram a banda de volta ao Rio e o pioneiro baixista dos The Bubbles, Lincoln Bittencourt, para o lugar de Marcelo.

Depois de afinarem a sintonia num galpão de um a velha fábrica de tecidos na Tij uca, A Bolha se m udou de m ala e cuia para o estúdio da Musidisc, na Lapa, região central do Rio, onde Um Passo à Frente se m aterializou com a aj uda de Luizinho Eça (piano elétrico na hom ônim a “Um passo à frente”), Tom ás Im prota (piano em “Epitáfio”), Ion Muniz (flauta e sax em “A esfera”) e Maurício Maestro, que cuidou dos arranj os vocais j unto com os rapazes.

O disco chegou às loj as em m aio de 1973, em balado em capa dupla na qual se destacam , em sua parte interna, duas fotos coloridas dos rapazes feitas no Teatro Ipanem a. Nos sulcos, ecos do rock progressivo, tão em voga na época, soam nítidos em pelo m enos três das sete faixas do disco. Não por acaso, as m ais longas. São elas: “Um passo à frente”, faixa que intitula e abre o LP, “By e m y friend” e “A esfera”. Som adas, ultrapassam 25 m inutos, recheados de paisagens sonoras contem plativas, tal a leveza dos arranj os e das próprias canções.

A influência do King Crim son, cuj os discos rodavam insistentem ente nos toca-discos de Pedrinho e Renato, aparece com sutileza em partes da m ais contundente “Um passo à frente”. Mas em “A esfera”, que se inicia com violão e flauta, seguidos pelo órgão e dem ais instrum entos, transparece com todas as suas letras no solo de sax de Ion Muniz. Livre e nervoso.

As m udanças de andam ento e de clim as, tanto num a quanto na outra, são predicados que agarram o ouvinte logo na prim eira audição. São envolventes, nos tiram do chão, nos levam a outra dim ensão no em balo das m elodias, dos sons, dos arranj os e da execução instrum ental e vocal. Quando nos dam os conta, lá se foram os cerca de 10 m inutos de cada um a das faixas.

Das três, contudo, a m ais frágil e bela é a delicada despedida “By e m y friend”, que com pleta o trio de canções com o viés progressivo do LP. Na verdade, a banda j á vinha flertando com esse estilo havia um bom tem po, especialm ente através de canções com o “Desligaram m eus controles”, um inegável m ergulho, assinado por Arnaldo Brandão, no som m ais ácido e psicodélico do Pink Floy d.

Apontada com o um a das m ais im portantes bandas do rock carioca, A Bolha pluga sua tom ada roqueira m ais tradicional em “Razão de existir”, “Tem pos constantes” e “Neste rock forever”. Nelas, são as guitarras de Pedrinho e Renato que assum em o com ando, apoiadas, claro, pelo baixo m arcante de Lincoln e pela bateria infalível de Gustavo. Tam bém faz parte desse grupo de canções o tem a instrum ental “Epitáfio”. Em bora ao se iniciar aponte na direção do rock progressivo, a canção se acom oda m esm o, e com m ais nitidez, no tradicional com passo 4/4 do velho rock and roll, com a aj uda do piano ao estilo Jerry Lee Lewis de Tom ás Im prota.

É A Bolha indo direto ao ponto, sem rodeios e clim as diversos, com o em “Neste rock forever”, cuj a prim eira estrofe foi assinada pelo j ornalista e escritor Luiz Carlos Maciel. Neste grupo de m úsicas de rock vale a pena anotar o trabalho urdido das guitarras de Pedrinho Lim a e Renato Ladeira, sobretudo em “Tem pos constantes”, na qual brilha m ais alto a guitarra de Pedrinho Lim a. Na época, um dos guitarristas m ais respeitados por seus pares, ele dá um show de ritm o e ornam entos do início ao fim desse rock cheio de balanço.

Num ano em que se contam nos dedos os lançam entos do rock brasileiro (entre eles Terço, Novos Baianos F. C. e Secos & Molhados), A Bolha de fato dava um passo à frente ao trazer à tona um a sonoridade basicam ente inexplorada na seara do rock underground no Brasil. Sem dúvida, na evidente dicotom ia de Um Passo à Frente, é sua porção ou vertente progressiva o seu ponto alto. No entanto, naquele cenário desprestigiado e de pouca visibilidade, a banda pouco pôde fazer para divulgar o disco. Sem acesso aos program as de TV, ao dial das rádios, à im prensa mainstream conservadora e, consequentem ente, ao grande público, Um Passo à Frente acabou relegado ao esquecim ento.

 

Um Passo à Frente (Continental − SLP 10.102) Pedro Lim a: guitarra acústica, guitarra solo, harm ônicos e vocal

Renato Ladeira: órgão Ham m ond, farfisa, vocal e guitarra (solo em “Tem pos Constantes”)

Lincoln Bittencourt: baixo e vocal

Gustavo Schroeter: bateria e vocal

Diretor de produção: Ram alho Neto

Produção artística: Fabian Ross

Arranj os: A Bolha

Arranj os vocais: A Bolha e Maurício Maestro

Técnico de gravação: Walter de Oliveira

Estúdio: Áudio Vídeo (RJ)

Fotos: Alair Gom es

Am bientes fotográficos: Luis Carlos Ripper

Teatro Ipanem a – Rio de Janeiro, RJ

Participações especiais:

Luiz Eça: piano elétrico em “Um Passo à Frente”

Ion Muniz: flauta e sax

Tom ás Im prota: piano

Grupo Lodo

Maurício Maestro

Lado A

1. Um Passo à Frente (Pedro Lim a, Renato Ladeira, Gustavo

Schroeter e Lincoln Bittencourt)

2. Razão de Existir (Pedro Lim a)

3. Bye My Friend (Pedro Lim a)

4. Epitáfio (Pedro Lim a, Renato Ladeira, Gustavo Schroeter

e Lincoln Bittencourt)

Lado B

1. Tempos Constantes (Pedro Lim a)

2. A Esfera (Pedro Lim a)

3. Neste Rock Forever (Carlos Maciel, Wolf e Pedro Lim a)