1973: O Ano que Reinventou a MPB
A Mente Livre de Hermeto Paschoal
A MÚSICA LIVRE DE HERMETO PASCHOAL − HERMETO PASCOAL
André Cananéa
ascido na roça, ouvindo o canto dos pássaros e o estouro da boiada, Herm eto Pascoal, m úsico autodidata, estudou com
N afinco todo instrum ento que passava pelas suas m ãos: acordeão, flauta, piano, sax etc. “Faço m úsica 100% intuitiva. Nem 99%, nem 98%; 100% intuitiva”, afirm ou o m úsico alagoano.
Ele j á tinha percorrido um a longa trilha m usical quando,
em j aneiro de 1973, entrou no estúdio Eldorado, em São Paulo, para conceber A Música Livre de Hermeto Paschoal. Aos 37 anos de idade, o m úsico de Olho d’Água j á tinha ido de Lagoa da Canoa a Recife, de lá a Caruaru, m orando três anos em João Pessoa até chegar a São Paulo (depois de um a breve passagem pelo Rio de Janeiro), de onde só sairia para o exterior.
Nos Estados Unidos, onde gravara seus prim eiros discos, conheceu Miles Davis (1926-1991). Davis estava para revolucionar o j azz m ais um a vez. Pelas m ãos de Airto Moreira, seu antigo com panheiro no lendário grupo Quarteto Novo, Herm eto chegou a Miles. Ou seria o contrário?
Miles teria se encantado com a m aneira original de Herm eto tocar. Convidou o “crazy albino” para um a turnê no Japão, afinal, queria ter dois pianistas em sua banda – ele e o tarim bado Keith Jarrett. Mas Herm eto não conseguiu em barcar (porque a docum entação atrasou) e voltou para casa disposto a m ostrar que, ao contrário do “free” am ericano, livre m esm o era a m úsica brasileira. A m úsica de Herm eto Paschoal, com “ch”, com o ainda grafava na época.
“Eu disse a Miles: eu vou form ar o que eu cham o de ‘m úsica universal m ais im portante do m undo’ e eu vou fazer isso no Brasil”, lem brou Herm eto. “E eu não penso no m eu país no sentido de m úsica brasileira, porque para m im , a m úsica não tem pátria. É com o o vento, as estrelas... não pertencem a um país.”
Miles deu de om bros e disparou: “Tudo bem ! Já que você não quer, eu vou fazer o m aior grupo de rock do m undo, então.” E assim nasceu a fase fusion do jazzman, que tem com o m arco a obra-prim a Bitches Brew (1970).
Miles Davis perdeu um pianista, m as o Brasil ganhou a prim eira gravação nacional da carreira solo de Herm eto. Acom panhado por um a banda de seis m úsicos e um a orquestra de aves, m am íferos e outros bichos, além de “instrum entos” não convencionais, com o um a bacia d’água, o bruxo de Alagoas concebeu A Música Livre de Hermeto Paschoal com seis faixas, quatro no Lado A e duas no Lado B.
Desse repertório, quatro m úsicas eram dele e as outras duas, releituras. Da prim eira leva, “Bebê”, “Plin”, “Sereiarei” e “Gaio da roseira”, esta creditada a Seu Paschoal (Paschoal José da Costa) e Dona Divina (Vergelina Eulália de Oliveira), os pais do m úsico. Da segunda, dois clássicos da MPB: “Carinhoso” (Pixinguinha e João de Barro) e “Asa branca” (Luiz Gonzaga e Hum berto Teixeira).
JAZZ NORDESTINO
Ao chegar n’A Música Livre de Hermeto Paschoal, o alagoano j á tinha sido banhado nos riachos da m úsica regional brasileira e nos chuveiros crom ados do j azz e de outros gêneros urbanos. Aprendeu, dessa form a, a criar um a m úsica com sotaque próprio, rica em harm onias com plexas, m elodias instigantes e im provisações surpreendentes, que conquistaram o paladar de m estres com o Miles Davis.
Para Herm eto, o j azz que era feito nos Estados Unidos não era de todo livre. “O problem a dos Estados Unidos é j ustam ente as escolas, principalm ente a Berklee (fam osa escola de m úsica am ericana)”, pontuou Herm eto. “Quando eles falam em tocar ‘livre’, é um a coisa até ensaiada. Quando eu cheguei lá, eu estranhei, porque m inha m ente está liberada, ela não está prem editando nada. Ela está aberta.”
O prim eiro LP de Herm eto Pascoal made in Brasil, portanto, era um a resposta ao que era ser “free” nos Estados Unidos.
Gravado nos últim os dias de j aneiro de 1973 e lançado pela extinta Com panhia de Discos Phonogram (m ais tarde, Poly gram e, hoj e, Universal Music), alguns m eses depois, A Música Livre de Hermeto Paschoal contou com a produção de Rubinho Barsotti, baterista do fam oso Zim bo Trio. Não foi um a escolha de Herm eto, m as um a “sugestão” da gravadora, por interm édio do falecido Paulo Rocco.
“Rubinho é um m úsico m uito perceptivo, um grande m úsico”, elogia. “E tam bém m uito acessível. Do Zim bo Trio, era o que m ais falava com igo.” Coube ao produtor, por exem plo, segurar a peteca quando a gravadora quis reduzir o tem po de estúdio dos m úsicos e isso quase fez Herm eto desistir do disco.
“Missão bonita e positiva a que recebi, quando fui cham ado a produzir e dirigir este disco”, escreveu Rubinho no encarte do LP. “Durante os períodos de gravação, tive a felicidade de conhecer com m ais profundidade, este m úsico que vence qualquer barreira com o seu talento, m usicalidade e sensibilidade”, acrescentou.
DÁDIVA
A prim eira banda que Herm eto form ou com a disposição que havia prom etido a Miles Davis não teve fôlego para chegar ao estúdio. Lanny Gordin e Macum binha (1951-1977), am bos no violão, Alberto no baixo e Toninho “Cabeleira” na bateria form avam o tim e. Mas o grupo só fez um show e tchau! Cada um foi seguir seu próprio cam inho – com exceção de Alberto, que perm aneceu com Herm eto.
“O grupo era um a dádiva”, classificou Herm eto sobre a banda que form ou, na sequência, para gravar o disco. A escalação contava com : Mazinho (sax alto, sax tenor); Ham leto Stam ato (sax tenor, flauta); Bola (sax tenor, flauta); Alberto (contrabaixo), Nenê (bateria e piano) e Anunciação (percussão, bateria). Mas, logo após o lançam ento do LP, a banda tam bém com eçou a debandar.
O prim eiro a sair foi o baiano Antônio Ferreira da Anunciação, o percussionista, responsável por todos aqueles sons “estranhos” que acom panham os geniais arranj os de corda e piano do álbum . “Logo depois do lançam ento do disco, ele disse que queria voltar para Salvador. Quando a gente viu, ele j á estava dentro do ônibus”, recorda Herm eto. E Anunciação está em Salvador até hoj e, agora assinando “Annunciação”, com dois “n”.
Quarenta anos depois, Alberto, o “Beto Gordo”, e Ham leto, pai do pianista, arranj ador e produtor Ham leto Stam ato Junior, j á tocam em palcos celestiais. O grande saxofonista Mazinho segue excursionando Brasil afora. Recentem ente, em 2013, integrou o quinteto de Luiz Loy, que o retom ou depois de quase 50 anos inativo. De Bola, não se tem notícias.
O gaúcho Realcino Lim a Filho, o baterista “Nenê”, havia se apresentado com Herm eto no Quarteto Novo. Reapareceu para gravar A Música Livre (onde assum e o piano em algum as faixas) e ficou até o antológico Ao Vivo em Moutreaux (1979). Nos anos 1990, ainda excursionou com o bruxo alagoano pela Europa e hoj e, além da carreira solo, dá aulas em um a universidade.
ACORDES DISSONANTES
Dos prim eiros acordes do contrabaixo e do piano da bela “Bebê” ao final de “Gaio da roseira”, num a colagem de vozes dissonantes, A Música Livre de Hermeto Paschoal é um a lição de j azz sem am arras, barreiras e conceitos pré-definidos, com ênfase nos instrum entos de sopro.
A bela “Bebê” foi escrita por Herm eto quando estava para nascer o filho caçula, Flávio. Foi feita nos intervalos dos shows que fazia na boate Stardust, em São Paulo. Durante a tem porada de concertos, ele tinha um a hora de intervalo, que aproveitava para estudar flauta. Foi aí que a m úsica foi sendo criada.
“Eu im aginava com o é que ele (o bebê) vinha. Im aginava que, quando ele tivesse seus três, quatro m eses, estaria com a chupetinha na boca, querendo cantar, fazendo m i-m i-m i-m i”, lem bra Herm eto, que além de tocar piano, faz o solo de flauta na gravação.
Foi de um a tentativa de rearranj ar o clássico “Ovo de codorna”, com posta por Severino Ram os e eternizada por Luiz Gonzaga (1912-1989), que nasceu “Plin” − segundo Herm eto, esse é o barulho que o ovo (de codorna) faz ao cair no chão.
Na verdade, “Plin”, de apenas 2m in34s e repleta de efeitos, foi desenvolvida apenas com a introdução da releitura que ele fez para o forró gravado por Gonzagão. “Eu achei o arranj o todo bonito, m as com o a m inha proposta não era nada com ercial, era fazer o que tava na m inha cabeça, resolvi brincar só com a introdução m esm o, sem entrar na m úsica de Luiz Gonzaga”, com entou.
Mas o velho Lua está lá, no disco. Parceria dele com Hum berto Teixeira (1915-1979), “Asa branca” com parece no form ato que Herm eto, provavelm ente, tinha pensado para “Ovo de codorna”. Com um a breve citação ao tem a central do clássico nordestino no início da faixa, ele faz um a longa introdução com o naipe de sopros para, aos 1m in32s, entrar na m elodia e desconstruir os arranj os com flautas, apitos, pianos e percussão.
Quem tam bém tem seu arranj o genialm ente refeito é o hino “Carinhoso”, de Pixinguinha (1897-1973) e João de Barro (o “Braguinha”, 1907-2006). Assim com o em “Asa branca”, é a flauta – pilotada por Herm eto, Ham leto e Bola − que delineia o novo arranj o, cabendo o piano ao baterista Nenê, enquanto Anunciação acum ula bateria e percussão. Mas quem se destaca m esm o é o solo m onum ental do sax de Mazinho, que surge nervoso e m uito im provisado em m eio ao suave tem a de Pixinguinha.
“Sereiarei” foi com posta por Herm eto Pascoal para a cantora Alaíde Costa defender na sétim a edição do Festival Internacional da Canção (FIC), no Rio de Janeiro, em 1972. A apresentação fora bastante conturbada, com o veto da participação “especial” de porcos e galinhas no palco.
Um ano depois, ele retom ou a canção e a transform ou em um com plexo em aranhado predom inantem ente instrum ental de pouco m ais de quatro m inutos, m isturando orquestra com toques regionalistas, solo de sax soprano e a participação de galo, galinhas, coelhos (?!), porcos, m arrecos e peru (gravados em sua casa, quando ainda m orava no Rio de Janeiro), com a intervenção de trechos da letra, cantados pelo próprio Herm eto.
E por fim , m as não m enos im portante, “Gaio da roseira”, a epopeia de 14m in31s inspirada na canção de dom ínio público que o pai de Herm eto, Seu Paschoal, cantarolava no roçado, quando o m úsico era pequeno. Ele com pôs a m úsica (e a creditou aos pais) a partir do verso “Gaio da roseira”, que repete indefinidam ente a partir da introdução dedilhada ao violão.
Dividida em duas partes, conta prim eiro com um solo de berim bau (de Anunciação) e um vocalise estranho, creditado a Herm eto. Depois, Herm eto retom a os versos “Gaio da roseira / Bela m enina / O gaio da roseira” acom panhado por todo o conj unto, com destaque para o fam oso “solo” de garrafas, sopradas com o se fossem flautas, seguida pelo trem endo solo de bateria de Nenê.
“Eu não quero falar do ‘som ’ desse disco, para não influenciar ninguém ”, escreveu Herm eto na contracapa do LP. “Fiquem à vontade, procurem entendê-lo, e tirem as suas próprias conclusões. O que seria se todos pensassem igual a m im , certo?”
Depois de todo esse tem po, ele diz que não ouve o disco, assim com o não costum a escutar nenhum a de suas obras, m as é capaz de solfej ar cada nota do repertório.
A Música Livre de Hermeto Paschoal foi catalogada sob o núm ero 1.906 na Com panhia de Discos Phonogram e relançada em vinil em 1985. Em 1990, teve sua prim eira (e até hoj e única) edição em CD. Todas esgotadas.
A Música Livre de Hermeto Paschoal (Sinter/Philips − 1906) Direção de produção: Rubinho Barsotti
Direção artística: Paulo Rocco
Técnico de gravação: Flávio Augusto Ferreira
Estúdio: Eldorado (16 canais) – São Paulo, SP
Arranj os e regência: Herm eto Pascoal
Mixagem : Flávio (técnico) + Herm eto + Rubinho
Fotografia: Silvia Tinoco
Arte: Zé Cruz
Lado A
1. Bebê (Herm eto Pascoal)
2. Carinhoso (Pixinguinha e João de Barro)
3. Plin (Herm eto Pascoal)
4. Serearei (Herm eto Pascoal)
Lado B
1. Asa Branca (Luiz Gonzaga e Hum berto Teixeira)
2. O G alho da Roseira (Herm eto Pascoal e Divina)