1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 21 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

Como um Passarinho

ÍNDIA − GAL COSTA

 

Marcos Sampaio

 

O ANTES

uem se espantou com a ousadia estam pada na capa do disco Índia, lançado por Gal Costa em 1973, talvez não tivesse

 

Q percebido ainda que a transgressão há tem pos corria naquelas veias j unto com um sangue m iscigenado pela m istura de m uitas raças. Natural de Salvador, m as j á instalada no Rio de Janeiro, a cantora havia cruzado a década anterior m ostrando a que veio, abusando de todos os seus dotes para deixar claro, enfim , o que é que a baiana tem .

Para Maria da Graça Costa Penna Burgos, a década de 1960 havia sido fundam ental para m oldar sua cam aleônica personalidade artística. Pelo m undo, os Beatles, Rolling Stones, Kinks e The Who davam início ao que ficou conhecido com o “invasão britânica”, ao m esm o tem po que o hom em chegava à lua. Enquanto o cinem a apresentava um a Am érica m arginal no film e Sem destino, a TV com eçava a lançar cores vivas na retina dos espectadores. Na contram ão, a política explodia em ditaduras, m anifestações, violência e guerras pelo m undo inteiro.

No Brasil, o clim a tam bém era de tensão. Com a chegada dos m ilitares ao poder, em 1º de abril de 1964, a caretice se im pôs com o sistem a político e regra de etiqueta. Toque de recolher, silêncio nas calçadas, m edo de encostar-se em algum m uro perdido para fum ar um cigarro que fosse. De um lado havia o m edo dos m ilitares e do outro o m edo do com unism o. Era um a época de sorrisos pálidos, m edrosos, de olhares de soslaio. Enquanto tudo parecia afronta e transgressão, os festivais de m úsica se tornaram o palco perfeito para quem queria inaugurar um m ovim ento ou orientar um carnaval. Os auditórios eram lotados, a audiência garantida e o público sem pre inflam ado.

E foi a esses elem entos que Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Mutantes e Gal Costa se uniram para realizar a revolução que ganhou o nom e de Tropicalism o. Liquidificando valores nacionais – Poesia Concreta, Vicente Celestino, Cinem a Novo, Carm en Miranda, Zé Celso Martinez, Hélio Oiticica e Roberto Carlos – com o rock e a psicodelia, os baianos m exeram nas estruturas culturais quando j untaram a tradição brasileira a todas as novidades que estavam aparecendo. Era um retorno à ideia antropofágica exposta por Oswald de Andrade na Sem ana de Arte Moderna de 1922. Roupas de plástico se confundiam com a m oda de viola. Guitarras explodiam enquanto m eninas sonhavam com um nam orinho de portão.

No entanto, a proposta apresentada por Caetano e Gil foi dem ais para ser absorvida naqueles tem pos bicudos e eles acabaram sendo “convidados” a deixar o país. No Brasil, coube a Gal Costa assum ir o posto de porta-voz daquela turm a. Mergulhou fundo no rock, soul e blues, lançando trabalhos cheios de peso, lisergia e clim as densos. O ponto m áxim o dessa ebulição aconteceu no disco/show A Todo Vapor. Aliada aos sons m ágicos de um trio de virtuoses que incluía o guitarrista Lanny Gordin, a cantora fervia num m esm o caldeirão os sons do folclore baiano, Geraldo Pereira, Novos Baianos, Luiz Gonzaga e Jorge Ben. De quebra, ela ainda apresentava os nom es ainda florescentes de Luiz Melodia e Jards Macalé.

Registrado em disco em 1971, o espetáculo que inaugurou o Theatro Tereza Raquel (RJ) era o auge do m ovim ento hippie no Brasil, que agora tinha sua própria m usa. Depois da praia, os cabeludos entravam no teatro para ver aquele furacão baiano em cena no A Todo Vapor. Encarnando um a Janis Joplin tupiniquim , Gal Costa balançava as cadeiras, tocava violão com as pernas abertas e, diante de dezenas de m alucos, provava que Ism ael Silva era o nosso Robert Johnson. Em m eio a tantas m ovim entações, ao longo de dez anos, ela saiu do com pleto anonim ato para assum ir o honroso posto de rainha tropical do desbunde, da alegria e do protesto.

O DURANTE

Para falar em guinada artística ao longo da carreira de Gal Costa é preciso se repetir em m uitos m om entos. Sem pre disposta a encarar um novo cam inho, a baiana estava com tudo em cim a naquele início de anos 70. Enquanto os m ilitares insistiam em não largar o osso do poder, ela preparava m ais um bofete na cara dos certinhos quando lançou, em 1973, o disco Índia.

Aos 28 anos, ela estava com a voz no auge da lim pidez e o corpo desenhado com curvas inspiradoras. E era j ustam ente nesse ponto que residia o prim eiro choque de Índia. Logo na capa, a foto de Antônio Guerreiro m ostrava um close revelador que subia da coxa e ia até o um bigo da cantora. Nas m ãos, um a peça de palha que, j unto com os colares de contas, j ustificava o título do álbum . No centro, um a m inúscula tanga verm elha desenhava as vergonhas de um a artista que não tinha m edo de se revelar. Na contracapa, um m am ilo escapava do figurino “índia de butique”. Para am aciar tanta ousadia, o disco teve que ser vendido dentro de um plástico azul fosco.

O atrevim ento exposto na capa de Índia ia direto ao encontro de outros trabalhos que, na m esm a época, colocavam o corpo com o um instrum ento de forte expressão artística. Seria naquele m esm o 1973 que surgiria o trio Secos & Molhados, tendo Ney Matogrosso à frente com seu corpo m agro rebolando entre penas e m içangas. O grupo de teatro Dzi Croquetes chocava na m esm a proporção com 13 hom ens sem inus dançando, cantando e se assum indo orgulhosam ente gay s. Um ano antes, Caetano Veloso apareceria num recorte sem elhante ao de Índia na capa de Araçá Azul, seu trabalho m ais experim ental. De form a m enos intencional, até Robert Plant, vocalista do Led Zeppelin, abusava da libido enquanto surgia no palco de calças baixas e apertadas, longos cabelos louros e blusa aberta deixando o peito nu.

A equipe que acom panha Gal Costa em Índia tam bém m erece um a nota especial. O velho am igo e conterrâneo Gilberto Gil assum iu a direção artística e os violões, instrum ento do qual arranca um a ginga indescritível. Das Minas Gerais, Toninho Horta chega com sua guitarra aveludada reconhecida internacionalm ente. De Pernam buco veio Dom inguinhos, sanfoneiro discípulo do m estre Luiz Gonzaga. Na cozinha, o trio Luiz Alves (baixo), Roberto Silva (bateria) e Chico Batera (percussão e efeitos) tem peram tudo com pim enta e dendê.

Eram apenas nove faixas em m enos de 40 m inutos. No entanto, ali estava um a síntese do que Gal tinha vivenciado naqueles prim eiros seis anos de carreira. E m ais: toda a fúria, que antes explodia em som e guitarras, agora era expressa em conceito. A faixa-título, que abre o disco, era um a tradicional canção paraguaia que ganhou contornos dram áticos com o arranj o de flautas, m etais e percussão escrito por Rogério Duprat, o George Martin da Tropicália. Com postos, originalm ente, para um a interpretação m asculina, os versos ganham novos sentidos quando Gal sussurra “índia da pele m orena, sua boca pequena eu quero beij ar”. Partindo do tom contido, os gritos que encerram a canção se assem elham aos rasgos cortantes da guitarra de Lanny Gordin, seu m aestro em A Todo Vapor.

Colhida do folclore baiano, “Milho verde” é um a batucada lisérgica guiada pela m ão certeira do internacional Paulo Pereira D’Aquino, percussionista m ais conhecido com o Dom Chacal (1941 - 2011). Na sequência, Luiz Melodia cede a até então inédita “Presente cotidiano”, com o form a de retribuir a gravação de “Pérola negra” dois anos antes. Cadenciada com o um a m archinha, os versos do poeta do Estácio vão surgindo leves, desconexos e flutuantes no arranj o inspirado de Arthur Verocai. No entanto, a m úsica acabou tendo sua veiculação pública proibida por conta de trechos com o “quem vai querer com prar banana?” e “o corpo é natural da cam a”.

Agora peço um a pausa para falar de Francisco Tenório Cerqueira Júnior, convidado para fazer o piano em “Volta”, um dos grandes sucessos do disco. Dotes que j á havia dem onstrado em Embalo (1968), seu único disco solo, o m úsico carioca foi econôm ico e sutil nesta com posição do m estre da dor de cotovelo Lupicínio Rodrigues. Infelizm ente, três anos depois, Tenório Jr., um dos m ais requisitados m úsicos da época, iria protagonizar um a das m ais tristes e revoltantes histórias da m úsica brasileira. Excursionando pela Argentina com Vinicius e Toquinho, o pianista foi confundido com ativistas políticos e levado preso. Depois de nove dias sendo torturado, levou um tiro na cabeça. Um a história trágica que só seria esclarecida m uitos anos depois.

O lado B devolve a anim ação com o forrock “Relance”, de Caetano Veloso e Pedro Novis. Apontando para aquela turm a do desbunde, a canção chega puxada por um riffizinho buliçoso da sanfona de Dom inguinhos. Enquanto Gal Costa brinca com os prefixos, as palavras ganham novos sentidos – volte, revolte; clam e, reclam e; bata, rebata. Em seguida, a preguiçosa “Da m aior im portância”, tam bém da lavra de Caetano, balança com o as ondas do m ar da Bahia, repetindo as m esm as intenções m elódicas de “De noite na cam a”.

O m úsico e m édico legista Tuzé de Abreu, m ilitante da cena popular baiana, apresenta a m editativa “Passarinho”, um a ode ao ofício de cantar. No fim , Gal im provisa cantos de pássaros e urros agudos. Voltando ao desbunde, “Pontos de luz” é um soul funkeado de Jards Macalé e Wally Salom ão. A letra, totalm ente solar, é de um a alegria tão insistentem ente hedonista, que parece m ais um a provocação naqueles duros anos de Ditadura Militar. Em seguida, encerrando o disco, “Desafinado” é clássico de Tom Jobim e Newton Mendonça que se conecta à estreia bossa-novista de Gal Costa e Caetano Veloso no disco Domingo (1967). Mais um a vez, Dom inguinhos arrem ata tudo com seu acordeom .

O DEPOIS

Índia foi para Gal Costa com o Rubber Soul foi para os Beatles, o anúncio de um novo m om ento que estava chegando. Am ansando a pegada roqueira e acelerando a bossa, a baiana abriu cam inho para que sua carreira fosse ficando cada vez m ais popular. O disco que veio em seguida foi ainda m ais fundo nesse cam inho e ganhou o nom e de Cantar (1974), entregando logo de cara suas reais intenções. Canções sim ples, assobiáveis, m elodiosas e doces. Em bora traga m uitas sem elhanças, Cantar m ostrava um a cantora ainda m ais “j oãogilbertiana” do que em Índia.

Além disso, as m udanças não se davam apenas no plano m usical. Na década seguinte, outra Gal Costa, m ais fem inina, sensual e com ares de diva iria surgir. Ela seguiu à risca os conselhos do produtor Guilherm e Araúj o, abandonando de vez o visual hippie, para tom ar m ais consciência da própria beleza, usando isso em benefício próprio. Cantando frevos, boleros e sam bas, sua voz iria se espalhar por todo o país, em endando um sucesso em outro.

Depois dessa virada, pouca coisa de Índia voltou a ser revisitada. A faixa-título foi regravada pela própria Gal m ais duas vezes, um a em 1979 e outra em 2001, am bas sem o m esm o im pacto sonoro de 1973. “Presente cotidiano” voltou com o faixa-bônus em um proj eto ao vivo de Luiz Melodia, lançado em 2003 sob o carim bo de um canal de TV fechado. “Da m aior im portância” foi escolhida para abrir a turnê Recanto, responsável por um a nova guinada da artista, dessa vez em direção aos sons eletrônicos. Já “Desafinado” recebeu dezenas de releituras ao longo desses 40 anos, de Gal Costa e de m uitas outras pessoas.

Com o fim do governo m ilitar, os anos 1980 trouxeram para a m úsica brasileira o som do rock, novas form as de protesto, ídolos j ovens e m uito placebo fabricado em escritório. Nesse cenário, Gal Costa foi m antendo seu nom e vivo e fazendo conexões com a nova MPB. Lulu Santos, Cazuza e Marina Lim a principalm ente. Anos depois, outras cantoras beberiam naquela fonte tropical, m oderna e brasileira, com o Marisa Monte, Tulipa Ruiz e Silvia Machete, que se reconhecem influenciadas pela história da m usa baiana. Daquela índia nua, ficou o registro de um a época onde ser feliz era perigoso e onde era preciso sem pre estar atento e forte. Medo de tem er a m orte é que não cabia.

 

Índia (Philips − 6349 077)

Direção de produção: Guilherm e Arauj o

Direção de estúdio: Edu Mello e Souza

Direção m usical: Gilberto Gil

Técnico de som : Luigi (Rio) e Marcus Vinicius (S. Paulo)

Mixagem : Ary e Luigi (Rio) e Marcus Vinicius (S. Paulo)

Estúdios: Phonogram (8 canais, Rio) e Eldorado (16 canais, S. Paulo)

Foto: Antonio Guerreiro

Capa: Waly Sailorm oon

Palavras destaque: Waly Sailorm oon

Músicos:

Gilberto Gil: violão, violão de 12 cordas

Dom inguinhos: acordeom

Toninho Horta: guitarra

Luiz Alves: contrabaixo

Roberto Silva: bateria

Chico Batera: percussão e efeitos

Participações:

Rogério Duprat: recriação de Índia

Arthur Verocai: arranj os e regências em “Pontos de Luz” e “Presente Cotidiano”

Mario Tavares: regência das cordas em “Índia”

Tenório Jr.: órgão em “Volta”

Roberto Menescal: violão em “Desafinado”

Wagner Tiso: órgão em “Ponto de Luz” e “Presente Cotidiano”

Chacal: percussão em “Milho Verde”

Lado A

1. Índia (José Asunción Flores e Manuel Ortiz Guerrero, versão

José Fortuna)

2. Milho Verde (tradicional, adapt. Gilberto Gil)

3. Presente Cotidiano (Luiz Melodia)

4. Volta (Lupicínio Rodrigues)

 

Lado B

1. Relance (Caetano Veloso e Pedro Novis)

2. Da Maior Importância (Caetano Veloso)

3. Passarinho (Tuzé de Abreu)

4. Pontos de Luz (Jards Macalé e Waly Salom ão)

5. Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça)