1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 2 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

Prefácio

 

Nos prim eiros anos da década de 70, era m uito com um ver um adesivo que tinha a bandeira do Brasil ao lado da frase: “Brasil am e-o ou deixe-o”. Na ocasião m eu pai era o Sargento Cunha, da Aeronáutica brasileira. Em grande parte dos lares brasileiros de então, pouco se falava de política. Lá em casa não era diferente. Mas, por outro lado era com um volta e m eia um Pasquim circular em casa, assim com o as revistas Realidade e Planeta.

No dia em que m eu pai chegou com o adesivo em casa, sem alarde, ele pegou um a tesoura e cortou o “deixe-o”. E o tal adesivo ficou apenas “Brasil: am e-o”. Aquilo foi extrem am ente sim pático, m as a ficha só foi cair tem pos depois.

Na adolescência é que se traçam os gostos. Com igo não foi m uito diferente. Aos 12 anos fui apresentado por um prim o de segundo grau, Am ílcar Floreal, ao Clube da Esquina. Ele e seus am igos dissecavam os dois LPs com um prazer inenarrável. Pouco tem po depois eles surgiram cantando e rebolando, falando de um conj unto que im ediatam ente ocupou todos os espaços, um tal de Secos & Molhados. Foi lá em seu quarto que, m eio desorientado, m e deparei com a contundência do prim eiro disco de Gonzaguinha. Na m esm a época com ecei am izade com o então estudante de piano Fernando Merlino. Sua irm ã e seu cunhado, Rita e Zé Roberto Machado, e um am igo com um , Carlos Evandro Lordello, ouviam com o m esm o prazer o prim eiro disco de João Bosco e os discos do Yes (em especial o Close to the age) e Pink Floy d (The dark side of the moon). A variedade im perava. Eu e Nando (Merlino), da m esm a idade, ouvíam os de tudo um pouco, e ainda tinham os clássicos que ele ouvia e m ostrava com prazer, além do disco de Paul McCartney com os Wings, que tinha a m úsica do 007.

Entre 1972 e 1974 o cenário da m úsica brasileira era um a riqueza só. Grandes discos, verdadeiros clássicos, foram lançados nesse período, tais com o o disco do tênis, do Lô Borges; Acabou Chorare, dos Novos Baianos, Expresso 2222, de Gilberto Gil, e Elis & Tom. Mas, foi em 1973 que a m úsica brasileira, sob um recorte tem poral, se solta do passado, sem desgrudar-se dele, passeia pelo presente e salta para o futuro. 1973 − O Ano que Reinventou a MPB nasceu, de certa form a, dessa percepção.

Estávam os em 2012. Eu havia escrito um texto para o blog de Aim ée Louchard sobre o ano 1973. Tem pos m ais tarde, no início de 2013, conversando com Marcelo Fróes e diante do entusiasm o do produtor m usical André Agra, que nasceu em 1973, decidi, j unto com a assessoria de Fróes e o apoio da editora Sonora, que estava nascendo, desenvolver o livro sobre esse ano tão singular na m úsica popular do Brasil.

Conceber esse livro foi acim a de tudo um trabalho de arqueologia m usical e um a explosão de boas sensações derivadas da constatação de o quanto a m úsica é im portante na vida das pessoas.

Para este livro decidim os reunir, em capítulos especiais, títulos m arcantes lançados em 1973, nos m ais diversos segm entos. Mais ou m enos com o se fosse um disco para cada ano que se passou desde então. A seleção (assim com o as de futebol) será questionada, com certeza. Porém com o escreveu Tárik de Sousa, m esm o a lista m ais fam osa do ocidente é questionada (os dez m andam entos), então porque essa não seria? Sabem os disso.

Nós m esm os ficam os em dúvida sobre quais títulos teriam prioridade para estar presentes na obra. Mas, precisávam os lim itar esse universo. Além da relevância artística dos títulos selecionados estipulam os que cada autor do texto sobre os discos teria que ter intim idade, carinho e lem branças pessoais sobre ele. Pois, sabem os que a m úsica vai m uito além das setes notas m usicais. Há tam bém os silêncios. E tentam os respeitar isso, com o o som toca cada um a das pessoas de m odo particular. Praticam ente todos os discos aqui em destaque tiveram versões em CD, m as alguns apenas no exterior.

Além dos álbuns destacados, com entam os diversos títulos que poderiam estar na seleção e que tiveram algum a relevância. Tam bém optam os em incluir um artigo contextualizando o que foi o ano de 1973 política e econom icam ente, além de com por um texto especial sobre os m ateriais m usicais que foram produzidos e não lançados neste ano. Este ficou a cargo do Fróes, um arqueólogo da MPB. Eu e Marcelo tam bém tivem os um a conversa enriquecedora com André Midani e Roberto Menescal sobre o proj eto Phono 73, que de certa form a reforça a tese que sustentam os aqui: variedade e qualidade num ano de ouro em tem pos de chum bo.

1973 − O Ano que Reinventou a MPB é um livro feito de encontros. De encontros de gente dos m ais diferentes pontos do país, de gostos diversificados, que se identificam com o tem a e com os discos. Em cada resenha, os discos abordados possuem o carinho de seus autores. Alguns com histórias extrem am ente pessoais, de quem conviveu com o artista que está em foco. Outros não conviveram , m as se em ocionam com o se fossem íntim os. O livro que aqui apresentam os possui outros autores além daqueles que assinam os textos. Há tam bém m uitos outros que por diversos m otivos acabaram não em barcando nesse tapete m ágico. E há tam bém os que em barcaram , m as no m eio da viagem tiveram que pedir para saltar no porto seguinte. No entanto, todos podem se considerar coautores.

Num a época na qual os discos com o obras fechadas são cada vez m ais raros, o livro é um docum ento de um tem po. De um tem po em que convivíam os com agulhas de diam ante e abríam os em bevecidos capas de discos que íam os nas loj as com prar. De um tem po em que os discos tinham lado A e lado B... Tem po, lá nos arredores dos prim eiros anos 70, que em quase todos os discos que com právam os havia escrito “DISCO É CULTURA”. Mas esse livro foi pensado, não para ficarm os dizendo que naquele tem po as coisas eram m elhores... O m elhor tem po é hoj e. Pois, hoj e estam os aqui.

Contudo, voltar as luzes para o passado aj uda a entender o presente e pensar no futuro de um a form a m ais sensata, m as, nem por isso, m enos em otiva. Por outro lado, entrar nesse túnel do tem po e voltar 40 anos é um exercício instigante, que adoram os ter feito. Torcem os para que os leitores tenham sensações sem elhantes.

Alguns anos chaves j á entraram no im aginário com o 1964, 1968, 1984, 1808, 1822, 1958, 1967 e até 2001 e sua Odisseia no espaço. Agora é a vez de 1973.

Boa audição a todos. Ou m elhor, boa leitura!

 

Célio Albuquerque