1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 39 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

O Pessoal do Ceará e a Minha Praia Lírica

MEU CORPO, MINHA EMBALAGEM, TODO GASTO NA VIAGEM

O PESSOAL DO CEARÁ: EDNARO, RODGER E TETHY

 

Mona Gadelha

 

exercício de partir, m over-se, seguir a estrada, desbravar, avistar outros m ares, vislum brar horizontes achados e

 

O perdidos, dobrar o desafio, ir em frente, ali, acolá, longe, m uito longe – Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem. Este é o título inicial do LP, na frase genial de Augusto Pontes (1936-2009), um dos com positores do disco, que se tornaria conhecido com o “Pessoal do Ceará”, lançado em 1973, pela gravadora Continental com Ednardo, Rodger Rogério e Teti (grafado com o Tethy ), e reeditado m ais duas vezes com capas e títulos diferentes do original (Ednardo e o Pessoal do Ceará, em 1976; e Ednardo e o Pessoal do Ceará − Ingazeiras, em 1983). Os sons do sentim ento de partir, m as tam bém retornar, com partilhar, celebrar, espalhar a boa nova na cidade, se fazer ouvir em outras terras e agrupar m ais gente – “Eu venho das dunas brancas / D’aonde eu queria ficar” em “Terral”, de Ednardo, que logo depois tam bém cantaria “E vou voltar em videotapes e revistas supercoloridas / Pra m enina m eio distraída / Repetir a m inha voz / Que Deus salve todos nós” − continuando a narrativa do êxodo na parceria com Augusto Pontes, em “Carneiro” (Do LP O Romance do Pavão Mysteriozo, RCA, 1974).

Assim , na m igração da cidade, da aldeia-aldeota, dos verdes m ares bravios de m inha terra natal, se fez o LP, que com o toda grande obra, agrega referências e depois torna-se um a tam bém . Diz-se que a denom inação “Pessoal do Ceará” surgiu de form a m uito espontânea, um j eito de cham ar o grupo de artistas que chegava a São Paulo (“A prim eira vez que eu vi São Paulo / Fiquei um tem pão parado / Esperando que o povo parasse / Enquanto apreciava a pressa da cidade / A Praia de Iracem a veio toda em m inha m ente / Me banhando na saudade / Me afogando na m ultidão”, de “Água grande”, outra canção de Ednardo e Pontes, tam bém do LP solo de 74). Um pouco m ais tarde, essa vontade de agrupar, de fazer j unto, coletivam ente, reuniria de novo Ednardo, Augusto Pontes – os m entores – e Rodger (na coordenação m usical) no proj eto Massafeira, fechando a década, em 1979, com os shows no Theatro José de Alencar, que prom overam o encontro de dezenas de artistas veteranos, e os que surgiam pós-Pessoal, resultando no álbum duplo de m esm o nom e, lançado pela CBS em 1980, e reeditado em 2010, em CD e livro, pela Sony.

Voltando o olhar para os anos 70, a im portância desse período na m úsica cearense, na MPB, se agiganta, e tenta-se com preender, não sem um bocado de dificuldade, um certo vácuo que se estabelece nos anos seguintes. A dispersão das

aves de arribação 1 .

Entrevistados por Julio Lerner (1939-2007), j ornalista que com andava o program a Proposta na TV Cultura, os cearenses encantaram o produtor Walter Silva (1933-2009), diretor artístico da Continental, e o próprio Lerner, que os desafiava a com por im provisadam ente sobre tem as diversos – foi desse exercício que nasceu a clássica “Ingazeiras” (“É ouro, é pó / é ouro em pó / que reluz / o sul, a sorte, a estrada / m e seduz”), faixa que abre o disco, com arranj o épico, em que se ouve a síntese perfeita do pop-sertão. A m úsica (“Nasci pela Ingazeiras / Criado no oco do m undo / Meu sonho descendo ladeiras / Varando cancelas / Abrindo porteiras”) foi feita para o artista cearense Aldem ir Martins e virou hino tam bém .

Os três eram então os porta-vozes desse m ote da viagem , “pé na estrada” em busca do “Sul m aravilha”, e representavam ali toda um a geração de cantores, autores, letristas e m úsicos. Cada um com sua narrativa particular, um m odo de cantar que vai do acalanto (com o bem disse a escritora cearense Natércia Pontes a respeito de Rodger), ao lirism o de Ednardo; a beleza do tim bre de Teti, que nos rem ete im ediatam ente ao sentim ento telúrico, ao acolhim ento da terra do nordeste – “Meus olhos parados / no m eio do m undo”, canta em “A m ala” (Rodger e Augusto Pontes), acom panhada no LP pelos teclados do m aestro e arranj ador, Hareton Salvanini (1945-2006).

Teti se reserva a outros m om entos sublim es, com o em “Dono dos teus olhos” (Hum berto Teixeira) e “Curta m etragem ” (“Não há nada pra ser feito / está tudo tão direito... A vida é m esm o norm al”, de Rodger e José Evangelista. Um a voz bela, tanto nas tonalidades m ais altas, assim com o nas graves, que é a grande referência da voz fem inina no Ceará. Musa do Pessoal, sem pre convidada para dividir os vocais nos discos, com o em “Lupíscinica” (Ednardo e Augusto Pontes), do LP Ednardo (CBS, 1979).

Artistas reunidos por esses laços do destino que não com preendem os m uito bem , m as que deixam sem pre o rastro de um a m isteriosa conspiração a favor da beleza. Esses encontros iam dos bares do Anísio, na Avenida Beira-Mar, ao cam pus da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará, de program as televivos locais com o o Show do Mercantil (alusão ao superm ercado São José, patrocinador do program a) ao Show de Irapuã Lima (este, o Chacrinha do Nordeste) ou no noturno Porque Hoje é Sábado. Foi lá que vi Belchior cantar pela prim eira vez “Hora do alm oço” (“No centro da sala / diante da m esa...Cada

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um guarda m ais o seu segredo”) . Percebi que a TV desem penhava cada vez m ais um papel im portantíssim o na construção da m em ória m usical cearense, que infelizm ente foi se arrefecendo, se afastando do Pessoal e do lirism o alencarino. Essa im agem , associada à praia, nosso habitat e identidade, ponto de partida e chegada, e ao rom ancista José de Alencar, m e levou a produzir o álbum Praia Lírica, um Tributo à Canção Cearense dos Anos 70, todo dedicado a essa geração de com positores, com arranj os de Fernando Moura para voz e piano, lançado em 2011, selo Brazilbizz. Desse LP de 1973, gravei “Terral”.

Na época, prim eiros anos da década de 70, a nova m úsica do Ceará ocupava espaço. Eu era a m enina, que saía da infância de um bairro distante para o Centro, o outro lado da cidade, aos 13 anos, j á encantada com a “Beira-m ar” de Ednardo, um a “canção-suíte”, com seus m ovim entos que narram a partida − introdução com os vocais ao m odo de um lullaby de Teti e do m aestro Salvanini e o desfecho m elancólico: “Eu fugindo de você / outra vez m e lastim ando / é a vida, é a vida / sim plesm ente / nada m ais”. Inspirada em sua m usa na época, Marta Pinheiro, com o ele j á revelou, “Beira-m ar” foi gravada tam bém por Eliana Pittm an, presença constante em Fortaleza, m ostrando na TV os versos transform ados em um de nossos hinos.

A letra localiza a avenida na orla, o m ovim ento de ir-e-vir diário, o cartão postal da cidade e de nossa m em ória afetiva. “Eu m e perco de você, eu m e perco de você”, assim , repetidos duas vezes, deixando a im pressão sem pre da

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despedida inevitável, a nostalgia de nossa “praia lírica” . É um a das suas grandes com posições, com audição sem pre im pactante nos shows. Além de um a canção de am or, (“Você nem viu a lua cheia que eu guardei / a lua cheia que esperei / você nem viu”), é declaração sua à cidade, ao lugar onde nos (re)encontram os, da Praia de Iracem a ao Mucuripe (com o não lem brar im ediatam ente de m ais um m om ento de adeus quando vam os todos em bora, no verso de Fagner e Belchior: “Vida vento vela / Leva-m e daqui”).

O LP é m esm o pródigo de hinos, entoados pelo público, com o se viu na gravação do DVD de 40 anos de Ednardo no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em 27 de j ulho de 2013. “Terral” transform a Ednardo no trovador da

“cearensidade”, aquele que, segundo Gilm ar de Carvalho 4, é a voz que caracteriza, que define, em suas com posições, esse espírito do Pessoal. “Ele foi de todos quem m elhor m ergulhou neste m undo do Ceará. Foi fundo nas tradições e encontrou um m odo de processá-las para o contexto da cultura de m assas. Fez isso com a com petência do m úsico que em ociona quando toca e quando canta. É um Ceará que se abre para o m undo”, afirm a Gilm ar. Ednardo saiu das “dunas brancas”, onde queria ficar: “Eu sou a nata do lixo / eu sou do luxo da aldeia / eu sou do Ceará”. Mais um a vez a necessidade de partir, m as j á olhando para trás, para a volta no tem po e nos valores de m em ória e preservação, que vão m arcar toda a sua obra, com o olhar lírico para sua/nossa Fortaleza, com o m ostra em : “Longarinas”: “Faz m uito tem po que eu não vej o o verde desse m ar quebrar / nas longarinas da ponte velha que ainda não caiu”. (Do LP Berro, RCA, 1976, CD BMG, 2001).

O disco, com dez faixas, tão bem traduzido e tecido (rendas de bilro da prim eira capa) na produção de Walter Silva – o produtor que tom ou um “susto” ao se deparar com o esplendor do talento dos j ovens que chegavam do nordeste e logo tratou de levá-los para a Continental e para a televisão (program a Mixturação, TV Cultura). Assinando texto na capa interna da prim eira edição, Silva, o “Pica-pau”, relem bra que “era um sábado à tarde, e a rádio m ostrava um a das m ais inteligentes entrevistas. Nela Júlio Lerner m ostrava ao público de São Paulo um novo grupo. Com o não havia um a m arca para o grupo, ele era designado a cada intervalo com o Pessoal do Ceará. No dia seguinte j á m oravam nos ouvidos da gente a nova inform ação e o quase susto que as com posições e interpretações nos passaram ”.

Rodger Rogério era professor de física na Universidade de São Paulo, notório por sua tim idez que o im pediu de conhecer Nara Leão, Elis Regina e Roberto Carlos (passagens pitorescas da traj etória que ele conta, rindo de si m esm o e sem lam entação), então casado com Teti, com quem lançaria logo depois outro disco im portantíssim o de nossa discografia, Chão Sagrado (RCA, 1974). Teti tam bém fez o belo Equatorial (CBS, 1979), produzido por Fagner.

Do susto de Silva à inquietante e bela canção “Susto” (“O que nos im porta que se feche a porta / Por esse cam inho ninguém quer passar / É m uito grande a dor / O sofrim ento enorm e / Um susto”), faixa de Rodger, tam bém ator – alguém j á disse dele, e foi Caio Napoleão Braga Nunes, dono do Cantinho, o bar que reinventa a partir de 2013, em Fortaleza, um certo am biente de “encontros” com a geração Pessoal do Ceará, em que Rodger canta com o Lou Reed. É cortante, certeira e única a sua entoação nos versos de “Falando da vida”, dele e de José Evangelista (Dedé) – “Meus olhos de olhar / de olhar querem ver o que há”. Um hino de am or à vida, à boem ia. “Se a m orte chegar / Ela sabe que estou entre am igos / Falando da vida / E bebendo num bar.”

O LP apresentou ao Brasil a m úsica dos três e ao m esm o tem po tem o m érito de m ostrar com positores-chave na linha evolutiva da m úsica cearense, com o Ricardo Bezerra e Fagner em “Cavalo ferro” (“Vou achar o m eu cam inho de volta / pode ser certo / pode ser direto / cam inho certo / sem perigo fatal”), gravado com partes solo de cada um .

É sim bólico que sej a um disco coletivo, que inicie um a década de ouro, abrindo um cam inho palm ilhado por todos nós, artistas cearenses que se identificavam ali, que j á entoavam suas canções líricas na Fortaleza am ada, e que hoj e, fazendo o m ovim ento do eterno retorno, 40 anos depois, continuam os a descobrir pistas, m ensagens cifradas e tom am os um susto – no bom sentido − com o quem se depara com um tesouro escondido em casa.

 

Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo G asto na Viagem (Continental − SLP 10.094)

Direção de Produção: Walter Silva

Técnico de Som e Mixagem : Luiz Roberto Marcondes

Fotos da Capa: Sérgio Segall / Kim ihiko Kato

Fotos Internas: Dirceu Côrte-Real Direção de Arte das Capas: Oscar Paolilo

Gravação e Mixagem : Estúdio Scatena

São Paulo, SP − Novem bro de 1972

Músicos:

Arranj os e Regências: Hareton Salvanini

Sobre ideias de arranj os m usicais de Ednardo e Rodger Rogério

Violões: Ednardo e Rodger Rogério

Viola e Guitarra: Heraldo do Monte

Piano e Sintetizador: José Hareton Salvanini

Program ador do Sintetizador: Aloísio de Paula Jr.

Contrabaixo: Gabriel Jorge Bahlis

Bateria: Antonio de Alm eida (Toniquinho)

Tum badoras e Ritm os: Rubens de Sousa Soares

Ritm os: Mário Alves de Oliveira

Flauta e Sax Tenor: Isidoro Longano (Bolão)

Flauta e Sax Alto: Dem etrio Santos Lim a

Piccolo: Rosário Dom enico Giuseppe de Carla

Oboé e Trom pa: Francesco Pezzela

Pistons: Sebastião José Gilberto (Botina) e Geraldo Aurieni

Trom bones: Severino Gom es da Silva, Renato Cauchioli e Arlindo Bonadio

Trom bone Baixo: Iran Fortuna

Violino Spala: Elias Sion Violinos: Jorge Gisbert Izquierdo, Caetano Dom ingos Finelli, Mario Tom assoni, Dorisa Aparecida T. de Castro Soares, Jorge Salim Filho, Antonio Felix Ferrer, Germ an Waj nrot, Alfredo Paulo Lattaro e Joel Tavares

Violas: Michel Verebes e Yoshitam e Fukuda

Violoncelos: Ezio Dal Pino e Flabio Antonio Russo

Copista: Ricardo Morato de Carvalho

Lado A

1. Ingazeiras (Ednardo)

Intérprete: Ednardo

2. Terral (Ednardo)

Intérprete: Ednardo

3. Cavalo Ferro (Fagner e Ricardo Bezerra)

Intérpretes: Ednardo, Tethy e Rodger Rogério

4. Curta Metragem (Rodger Rogério e Dedé)

Intérprete: Tethy

5. Falando da Vida (Rodger Rogério e Dedé Evangelista)

Intérprete: Rodger Rogério

Lado B

1. Dono dos Teus Olhos (Hum berto Teixeira)

Intérprete: Tethy

2. Palmas Pra Dar Ibope (Ednardo e Tânia Araúj o)

Intérprete: Ednardo

3. Beira Mar (Ednardo)

Intérprete: Ednardo

4. Susto (Rodger Rogério)

Intérprete: Rodger Rogério

5. A Mala (Rodger Rogério e Augusto Pontes)

Intérprete: Tethy

 

1.Aves de Arribação, título de livro de Antônio Sales, escritor cearense, um dos integrantes do grupo Padaria Espiritual, hom enageada por Ednardo na m úsica “Artigo 26”.

2.“Hora do alm oço” (Belchior, gravadora Copacabana, com pacto, 1973)

3.Praia Lírica, um Tributo à Canção Cearense dos Anos 70 (Mona Gadelha e Fernando Moura, gravadora Brazilbizz, 2011).

4.Gilm ar de Carvalho, escritor, pesquisador, autor de um a vasta obra, que inclui ensaios e rom ance.