1973: O Ano que Reinventou a MPB
Um Projeto Especial
PHONO 73 (O CANTO DE UM POVO) − DIVERSOS ARTISTAS
Célio Albuquerque e Marcelo Fróes
projeto Phono 73 teve com o base um festival não com petitivo reunindo o cast da gravadora Philips/Poly gram , atual
O Universal, por três dias na capital paulista. Foi o prim eiro evento lá realizado. A aposta era reunir seus nom es, em diversos segm entos e criar duplas, com o a que reuniu Caetano Veloso e Odair José, e a m ais contundente delas, com Chico Buarque e Gilberto Gil. Sem pre que possível com apresentação de pelo m enos um a m úsica inédita por cada dupla. Gal e Bethânia lançaram “Oração da Mãe Menininha”, de ninguém m enos que Dorival Cay m m i. O espetáculo resultou em 32 tapes de quatro canais e foi editado em três LPs lançados im ediatam ente em seguida. O restante do m aterial continua inédito e entre as preciosidades m ais de duas horas com os Mutantes.
A m úsica m ais enigm ática do festival, “Cálice”, de Gilberto Gil e Chico Buarque, não entrou no LP. Apesar de ter sido anunciada na im prensa, não foi cantada na íntegra. Houve o episódio que os m icrofones foram desligados. Desde o início a dupla sabia que não poderia cantar. Todo repertório tinha antes que passar pela censura. E na censura foi previam ente proibida. Mas, não custava nada tentar. Os dois só iriam cantar a m úsica novam ente no show 20 Anos Luz, um proj eto de Gilberto Gil com Midani, que nunca foi editado.
Em 2005 o Projeto Phono 73, sob a batuta de André Midani, coordenação de Ricardo Moreira e áudio rem asterizado por Carlos Savalla, que tam bém trabalhou na gravação original das três noites, foi relançado de form a digital com dois CDs e um DVD. Os dois CDs continham o m aterial que estava nos três vinis. O DVD, de 35 m inutos de duração, é na verdade sobra das im agens feitas na ocasião por Guga de Oliveira. A ideia original seria algo m aior, m as Guga e a gravadora não chegaram a um acordo. O DVD é incom pleto sim , m as tem Chico e Gil tentando cantar “Cálice”. Só por isso o DVD j á vale sua existência. O pacote teve novo relançam ento em 2013.
Sobre as film agens, Pittigliani lem bra que “com o naquela época não tinha gravação em VT, eu convidei a Blim p, firm a do Guga, irm ão do Boni (Rede Globo), para film ar tudo em 35m m . Ele parece que não acreditou na im portância história do evento e só film ou alguns artistas.
“Depois, na hora de sentarm os à m esa para estudar o lançam ento do film e, tivem os um a desagradável surpresa. O que eles nos pediram pela gravação extrapolava financeiram ente nossas m ais pessim istas previsões para o lançam ento de um film e.
“Por outro lado, sem nossa autorização, eles não poderiam lançá-lo por conta própria. Resultado: essas gravações foram para o arquivo-m orte da Blim p e perm aneceram inéditas até os nossos dias. O pior de tudo é que essas film agens históricas do que aconteceu no Centro de Convenções do Parque Anhem bi foram aos poucos sendo m utiladas, fragm entadas e destruídas. Sendo que, parte do que sobrou foi doada a centros culturais e o que perm aneceu nos arquivos da BLIMP foi apenas um a pequena parte de tudo que tinha sido gravado.
“Um dano irreparável e um a perda incalculável para a nossa cultura. No entanto, o que restou, foi ‘garim pado’ pela equipe de André Midani, responsável pelo relançam ento dessa caixa. E apesar da precariedade e falta de cuidado no arm azenam ento das películas, ainda dá para se ter um a ideia da im portância e do valor que esse evento trouxe para a m em ória da nossa MPB.”
O proj eto inaugurou a sala de concerto e os cam arins do Palácio de Convenções do Anhem bi. A coordenação geral da em preitada coube a Arm ando Pittigliani. Jairo Pires, Roberto Menescal e Guilherm e Araúj o foram os responsáveis, individualm ente, por cada um a das três noites, que funcionaram m ais ou m enos com o noites tem áticas. O tim e para esse festival contou ainda com as colaborações de Márcio Mazzola, Paulo Tapaj ós e Guti Carvalho, responsáveis por gravar e levar as fitas de cada dia para o estúdio da com panhia no Rio. Sérgio de Carvalho, Edu Melo e Souza, Mazzola e Nelson Motta foram os responsáveis pela direção de estúdio e supervisão de m ixagem .
O Projeto Phono 73 tinha com o subtítulo O Canto de um Povo, e j unto havia um m anifesto, que resum e de certa form a não apenas o m om ento da com panhia que lançava o proj eto em si, m as da m úsica popular que estava sendo produzida no período. Os trechos finais do m anifesto que reproduzim os aqui valem tam bém com o um docum ento de quem estava no centro da efervescência cultural daquele m om ento:
A Música Brasileira é hoj e, em sua
totalidade, um a das m ais fortes expressões das angústias, sonhos e em oções coletivas de nosso povo.
A inspiração brasileira: da m ais sim ples
m oda de viola à m ais elaborada harm onia.
Nós aceitam os todas porque negá-las seria
negar com unidades inteiras, com suas necessidades e suas form as de expressão.
Estam os abertos à m úsica que se faz no
Brasil. E se faz m uita m úsica no Brasil. Porque há m uita gente no Brasil querendo ouvir m úsica. Gente das m ais diversas sensibilidades, das m ais distantes classes sociais, dos m ais defasados níveis de consciência. E nós querem os que sem pre haj a um a m úsica enquanto houver alguém disposto a ouvi-la.
A PHONO 73 é a expressão viva de nossa
posição e disposição diante da m úsica que se faz hoj e no Brasil. Venha de onde vier, sej a feita por quem for, de que form a for. Canto aberto. Pra todos que quiserem ouvir. Para um país inteiro. Canto de um povo.
TRÊS NOITES DIVISORAS
Quarenta anos depois da gravação e do lançam ento do Phono 73, Marcelo Fróes (MF) e Célio Albuquerque (CA) foram ao encontro de dois com andantes dessa em preitada, André Midani e Roberto Menescal, para desvendar m ais um pouco esse m om ento ím par. Abaixo apresentam os a transcrição da entrevista realizada:
CA – COMO SURG IU O PROJETO PHONO 73?
André Midani – A im agem com pleta que eu tenho é a seguinte: um dia estávam os no apartam ento da Nara, e Erasm o Carlos estava lá, dizendo “festivais do j eito que estão sendo realizados a gente não quer m ais”. Mas o que a gente pode fazer para que os festivais não m orram , perguntava ele. Aí eu introduzi o Erasm o e o Ivan Lins que com eçaram a conversar buscando um a solução. Eu fiquei perplexo, intrigado. E levei isso ao grupo, que cham ávam os de Grupo de Trabalho que era com posto por pessoas inteligentíssim as, com o o Doritti, da Veja, Nilze da Silveira, Zuenir Ventura, Arthur da Távola, Hélio Pellegrino... Era um grupo de pessoas que a gente tinha escolhido para trabalhar j unto. O Beto (Menescal) e o Pittigliani (Arm ando) foram que construíram a base para esse grupo de trabalho. Era m aravilhoso, durou uns quatro anos.
A gente chegava para as reuniões, sem pre fora da com panhia, com um ciclo de perguntas, de sugestões. Era claro que tanto eu, com o Beto, bem com o outras pessoas da direção da com panhia não tinham direito de interferir m uito na dinâm ica do grupo. A gente ficava ouvindo.
Roberto Menescal – O Grupo de Trabalho era um grupo que atuava sobre os problem as da com panhia, m as não dentro da com panhia. A gente fazia questão de que a coisa fosse feita fora. Porque senão daqui a pouco eles estariam envolvidos com as coisas do dia-a-dia. A gente queria o contrário. Nem a com panhia com o um todo sabia disso. Era um grupo que tinha a visão de fora. Essa coisa de levar para um hotel toda terça-feira, ir lá...
CA – A PARTIR DO G RUPO DE TRABALHO VOCÊS CHEG ARAM À CONCLUSÃO Q UE FARIAM O PHONO 73?
Midani – Houve um as duas, três ou quatro reuniões. E num a frente unida disseram que podia ser um festival de sucessos, sem ser com petitivo. Dali, o Pittigliani, o Roberto e eu pegam os essa sugestão do grupo e m ontam os um a coisa que ficou assim : um artista entra cantando um a canção que todo m undo conhece, um a outra inédita, cham a um outro artista que canta j unto com ele, o prim eiro artista sai e outro continua. Então foi assim que ficou.
CA − O CONCEITO DE FESTIVAL NA VERDADE ERA O CONCEITO DE UMA G RANDE MOSTRA DE TALENTO? NESSA ESCOLHA Q UAL FOI O CRITÉRIO BÁSICO? TEM TAMBÉM AQ UELA FOTO Q UE TODOS COMENTAM Q UE TINHA TODO O CAST PRINCIPAL DA COMPANHIA COM UM TEXTO DIZENDO Q UE SÓ FALTA O REI.
Midani – Essa fotografia é anterior ao Phono 73. Um pouco só.
MF – HÁ ALG UM EVENTO EM Q UE TODOS ESTAVAM JUNTOS?
Menescal – A história da foto é outra. Eu com ecei na com panhia em 1970. Foi um ano m uito bacana de realizações nossas. Quando term inou o ano o André falou: “vam os fazer um brinde de final de ano.” Aí ele diz: “cada um vai para casa, quando a gente voltar vam os refazer tudo isso que a gente fez.” Me deu um a frustração. Pô, a gente brigou pra caraca... Mas, depois fui entendendo a intenção disso. Porque na verdade era um cam inho novo, eram pessoas chegando, com nova cabeça e tal... Mas, a gente não conseguiu ter no prim eiro ano o resultado que queria. Elis era o m áxim o? Era. Mas, não vendia. Caetano era o m áxim o? Era. Mas não vendia disco. “Vam os para casa e vam os m udar tudo.” Lem bro que passei o réveillon assim triste, m as, ao m esm o tem po, ok. Quando voltam os era um novo ano, m esm o. A gente sabia que estava certo. Mas, não sabia onde estava errando. Foi aí que com eçou a surgir essa procura, que acaba resultando no Grupo de Trabalho. “A gente tá num a com panhia bacana. Vam os m ostrar isso.” Mas, com o? “A gente paga a página do m eio da Manchete que é dupla e faz um a foto show, com praticagem , ilum inação, com produtores, bem produzida.”
Na verdade a coisa foi m eio provocativa m esm o. Todas as outras com panhias ficaram m uito putas com aquela foto. Me lem bro do cara da RCA falando assim : “pô, m as colocam o Chico Buarque e não sei m ais quem , m as quem vende m esm o é Nelson Gonçalves” (que era da RCA). Era verdade. Mas era o fim de um a verdade. Aí vem o Grupo de Trabalho e com eça a colocar ordem assim ... Para com eça a nos dar elem entos para as ações. Lem bro que a gente pensava: “o que é que gente faz com Toquinho e Vinicius?” Um a puta de um a dupla. Toquinho e Vinicius é um a coisa popular. Vinicius é um grande poeta... A visão deles com o j ornalistas: vam os fazer um a cara popular. E acabar com essa coisa de super Classe A. Não. É sam ba popular. E foi, e acabou vendendo m uito. Eles nos traziam essa visão de fora. Então, o Phono, o Grupo de Trabalho... m ostrou que a Poly gram era m uito forte.
Midani – Esse tipo de ação m ostrava um a atitude diferente diante do trabalho. Percebíam os que algo estava m udando. A gente sabia o que achava m ais bacana, salvo pouquíssim as coisas. Mas, todos nós: o Jairo Pires, os assistentes do Jairo, o Beto, eu... Eu acho que a gente conseguiu naquela época j untar as experiências/esperanças de um m ontão de gente pensando j unto.
Menescal – Acho que teve um a m odernidade que foi m uito im portante. Tem coisa que a gente até nunca conversou. Tem que preparar a convenção, convenção artística, aí vem o cara da venda enquanto a gente está conversando... aí não dá... Aí o André veio com a proposta de acam par em Itatiaia para preparar a convenção. Montávam os as barraquinhas, os filhos dele, os m eus filhos... e a gente trabalhando no sol... Im agina se o pessoal da CBS ia fazer isso... Os caras são m alucos. Mas aí as coisas saiam bacanas porque a gente estava ali só para aquilo, não era perturbado pela coisa interna, a gente conseguia botar pra fora. Tam bém tem outra coisa. Na Holanda as m ulheres queriam usar calça com prida e não podia, o regulam ento dizia que não podia. Tem isso aqui? Tem m esm o? Aí a gente cham a o cara do DP. Por quê? Porque não fica bem ... A gente quebrou esse tabu. Você acaba m udando a m entalidade da com panhia e isso acaba resultando naquela m odernidade que pintou na época.
MF – A IDEIA DA COMPANHIA IR PARA A BARRA FOI UM REFLEXO DESSA MODERNIDADE?
Menescal – Foi
Midani – Outro dia o Erasm o chegou aqui em casa com um tij olo do estúdio da Barra. Ele disse que pegou três. Colocou assim dentro desse relicário e m e deu.
Menescal – Im agina a gente m udar para a Barra. Im agina o holandês lá. O cara via, pegava o m apa do Rio e falava assim : “Mas, o bom é pra aqui”. E a gente acaba m ostrando que ir para Barra era m elhor.
CA − O PHONO 73 NASCE COMO UMA RESPOSTA DE MERCADO OU PARA ATENDER UMA DEMANDA ARTÍSTICA?
Midani − Sem dúvida foi um ato de coragem em presarial. E de loucura pessoal. Eu acho que m ontar isso... Se alguém dissesse que ia fazer do j eito que a gente fez eu não acreditaria. Da gravação até o lançam ento foram dois, três dias.
MF – VOCÊS PAG ARAM TUDO DO EVENTO OU TEVE PATROCINADOR? FOI ALG O MUITO CARO NAQ UELA ÉPOCA. PAG AR HOTEL E PASSAG ENS PARA ESSA G ENTE TODA.
Midani – Mas, todo m undo cantou de graça, né? As pessoas com praram ingresso. Cada um dos três discos do festival vendeu cerca de 80 m il cópias em m édia. 240 m il no total.
Menescal – Foi coragem . Os artistas foram de graça. Mas, pagou-se os m úsicos que estavam gravando.
CA − VOCÊS TIVERAM A IDEIA E PROPUSERAM AOS ARTISTAS FAZER ESSA G RANDE MOSTRA, ESSE FESTIVAL, Q UAL FOI A REAÇÃO DOS ARTISTAS? Q UEM MAIS SE ENTUSIASMOU?
Midani – Aí eu acho que o Jairo Pires seria a pessoa m ais indicada para responder. Eu não cheguei a conversar de prim eira. Me lem bro que, tem endo o abandono dos baianos ao proj eto, fiz o seguinte: convidei o Guilherm e Araúj o para ser produtor de um a noite. O Beto produtor de outra noite e o Jairo de outra. Cada um dos três tinha seus pontos fortes e na retaguarda eu tinha os m eus pontos fortes.
CA − VOCÊS SEG MENTARAM CADA DISCO?
Midani – Não, cada noite e, consequentem ente, cada disco. Um a noite sobre a qual se falou m enos é a noite popular. O Jairo é que foi responsável. Tinha Odair José, Wanderléa...
Menescal – Tem um lance nisso que é m uito im portante. Eu estava vivendo m uito Elis, Chico, Caetano... Mas, num a reunião de produção Jairo se sentia um pouco inferior em núm ero de artistas. Mas, lem bro que o André bateu na m esa: pá! “O que foi? O que foi?”, perguntam os. E ele disse: “Quem paga nosso salário, paga o ‘não sei o quê’ é o Odair José, o Evaldo Braga... Não é o Chico, não é o Caetano...” Ali nós tom am os consciência disso. Quando tocavam os caras, a gente saia conversando. Não era nada contra os caras, m as a favor de outras coisas... Então, nós podem os fazer essas coisas por eles, o popular Poly dor. E devido a isso, quando chegou no show a gente j á tinha outra concepção do que era aquele popular todo da com panhia. Isso foi m uito im portante. Tinha a im agem da com panhia dos shows em São Paulo, do Dois na Bossa... Aquilo era bacana. A im agem da com panhia vem daí. Mas, quem m antinha era esse cast. Daí que vem a sugestão de fazer Caetano com Odair José e essas coisas todas, que tam bém foi um a quebrada bacana.
CA − NA VERDADE ESSA MISTURA DE CANTORES CANTANDO JUNTO COMEÇOU A SE SOLIDIFICAR NA MÚSICA BRASILEIRA A PARTIR DESSE PHONO 73.
MF – VEM UM POUCO DAQ UELA HISTÓRIA DE JAIR RODRIG UES E ELIS REG INA, MILTINHO E ELZA SOARES...
CA − ESSE ENCONTRO ENTRE CAETANO E ODAIR COMEÇA A Q UEBRAR ESSE PRECONCEITO, DESSES ENCONTROS...
Midani – Num dia na construção do novo estúdio na Barra (antes era no centro do Rio) passa na rua o Carlos Im perial. Aí ele chegou e m e disse: “Vocês são foda. Vocês tiraram o artista da cozinha...” E era m ais ou m enos isso. O Odair José era tão bem recebido por todos quanto seria a Elis.
Menescal – Isso realm ente foi um a inovação. Era m uito am or. Me lem bro que estava fazendo um show com a Elis em São Paulo, fiquei lá uns quatro m eses. Eu ficava pensando: “a com panhia tá tendo reunião e eu aqui”. A gente gostava m uito daquilo. Chegou a um ponto que esse m aluco (o André) foi m orar no prédio da com panhia no centro da cidade, na Cinelândia. Ele foi m orar m esm o. Ele dizia que estando por ali não perderia tem po... A gente realm ente tinha paixão por aquilo e estava vendo resultado.
CA – DESSAS TRÊS NOITES O Q UE FICA MAIS NA CABEÇA DE VOCÊS? O Q UE FICA NA MEMÓRIA AFETIVA DE VOCÊS?
Midani – A noite em que a Elis é vaiada e o Caetano vai ao socorro dela, a Bethânia deu um beij o na Gal. Gil e Chico cantando... Sérgio Sam paio... Era um tem po que a gente abria a porta e chegava talento. E talento pronto, do ponto de vista que nós tínham os. O que a gente via era esse talento pronto. O que os com petidores viam eram esses m alucos... “O que vocês vão fazer com isso?”, perguntavam . Era realm ente o rom pim ento para um a m odernidade. A gente tinha viaj ado nesse percurso intensam ente, porque estávam os sem pre j untos. Modernidade era um pouco o que a gente ia vivendo. Quando eu saí do Brasil, eu tinha feito um a com panhia de discos, a Im perial, que vendia discos de porta em porta.
MF – ESSA O PESSOAL DO BAIXO G ÁVEA NÃO SABE, MAS ELE É MEIO Q UE O FUNDADOR DA ORQ UESTRA IMPERIAL.
Midani – Mas, eu saí daqui para fundar, instalar a Capitol Mexicana. E lá m e inspirei m uito na m aioria dos m eninos. O México era um a indústria m uito forte. Mas, entendi que era diferente. Quando voltei ao Brasil, se não tivesse tido o Roberto talvez não tivesse tido o sucesso que tive.
Menescal – Hum ...
Midani – É verdade, é verdade. Quando cheguei o Pitigliani era o diretor artístico. E j á tinha tido várias vitórias. Vitórias m uito grandes: Elis, Jair, Jorge Ben... Só esses três j á é o bastante. Só que quando cheguei, ele j á estava ultrapassado para os padrões nos quais eu pensava. Só que o filho da puta sem pre nos enchia de ideias para prom over os discos. Era criativo. Era isso que ele tinha: tesão de criar. Então, para eu poder botá-lo onde ele desej ava, m esm o inconscientem ente, onde ele tinha talento, eu tinha que ter um a retaguarda na direção artística, alguém ocupando aquele espaço. Se não tivesse tido Roberto eu teria m uito m enos sucesso.
MF – ELE MUDOU DE DEPARTAMENTO? TERIA IDO SER DIRETOR DE MARKETING ?
Midani – Um grande diretor de m arketing. Um doido! Um entusiasta.
MF – USAVA-SE ESSE TERMO, DIRETOR DE MARKETING ?
Menescal – Não, era departam ento de divulgação, rádio, j ornal. Seria o departam ento criativo.
MF – A PARTIR DOS 70 PASSOU A TER UM DIRETOR ARTÍSTICO DA PHILIPS E UM DA POLYDOR. ISSO FOI EM 1970?
Midani – Mais ou m enos. Quando a gente com eçou a m eter a m ão na m assa, toda a turm a tinha uns 150 artistas no cast, talvez cinco a m ais ou cinco a m enos.
Menescal – Num determ inado m om ento a gente tinha exatam ente 158 artistas. Variava um pouco. Mas, m e lem bro desse núm ero porque ele foi dito num a convenção.
Midani – Im possível. Tínham os o que naquele m om ento? Tínham os seis pessoas no departam ento artístico. Então, o prim eiro trabalho foi dim inuir de 158 para algum a coisa com o 50.
MF – TINHA MUITO ARTISTA CONTRATADO Q UE NÃO LANÇAVA DISCO, MAS
TINHA CONTRATO.
Menescal − Tinha, m as não era m uito não. Você tem que lem brar que na época tinha a possibilidade de fazer com pactos sim ples. Podia funcionar ou não...
Midani – Mas, o câncer da história era o cara que faz sucesso e fica na com panhia enchendo o saco de todo m undo para ver se faz sucesso... O que não faz sucesso e fica enchendo, dá trabalho para nada.
CA − DA MANEIRA Q UE VOCÊS LEVARAM A COMPANHIA E PRINCIPALMENTE ESSE FOCO DE VIRADA, DE REDIRECIONAMENTO DO PHONO 73, ACONTECERIA SE A EMPRESA NÃO FOSSE HOLANDESA, FOSSE AMERICANA?
Midani – Tinha um a coisa: um a das m ulheres am igas do presidente era am iga do Vinicius de Moraes, se conheciam desde o tem po de Los Angeles. Na Poly gram a gente não tinha m uito suporte através do m undo. Tínham os na França. Fora disso o am biente artístico j á era m ais tendendo para o tecnocrata. Isso era Phonogram . Na Poly gram era m uito m ais artístico do que na Phonogram , isso na Alem anha e Holanda. Aí tinha a com panhia que era m uito criativa, a CBS-Colum bia. Tinha a RCA... A Odeon tinha m edo de tudo, da sua som bra.
Menescal − Mas, André, você conseguiu seu em prego na Odeon (no período da Bossa Nova) no peito, falou que vinha de fora, que não sei o que, que era baterista... Foi lá procurar em prego e voltou dizendo que tava contratado.
CA – ESSES ARTISTAS Q UE TIVERAM SEUS PRIMEIROS DISCOS LANÇADOS NO PERÍODO DO PHONO 73, COMO É Q UE VOCÊS OS VIAM?
Midani – Raul, Sam paio... Esses m alucos eram com o Roberto, que é m aluco.
Menescal – Mas, acho que m ais m alucos éram os nós. Quer um exem plo? Eu quando contratei o Raul foi por feeling. Mas, o Raul usava terno e gravata. Eu disse: eu quero esse cara. Contratei. Aí falei para o André: “Acabei de contratar um cara. Você precisa ver”. Mas ele perguntou: “Pra quê?” Eu não sabia ainda. E falei para ele que não sabia se é para ser artista ou se é para produzir. Bom ... Ele disse:
“Procura Saber.”
Midani – Eu perguntei: “Você realm ente confia nesse cara?”
CA − A COMPANHIA FUNCIONAVA PELO FEELING, MÚSICA E A CONFIANÇA DE VOCÊS NAS PESSOAS...
Midani – Era m ais am or do lado deles do que do m eu. Era m istura. Eu tinha que ser m istura. Eu tinha que frear. Minha vida não era só a parte artística. Am anhã, 14 horas tem reunião...
Menescal − Ele tam bém poupava a gente dessa coisa. Com o a gente era am igo bem antes de estar trabalhando j unto eu não queria confundir as coisas nunca. A gente tinha um a coisa entre nós. Isso não pode. Eu perguntava: “Com o patrão ou com o am igo?” “Não. Essa é com o patrão. Essa é com o patrão: não pode.” Com o am igo a gente ia discutir. Tinha que fazer essa separação. Senão confunde m uito. “Essa é com o am igo.” “Então, vam os discutir.” Por outro lado, ele segurava todas as barras da gente dentro do orçam ento.
CA − UM DISCO TRIPLO DEPOIS DE UM FESTIVAL NÃO COMPETITIVO. COMO A MATRIZ VIU ISSO?
Midani − Na época era diferente. Quando entrei na Poly gram se fazia um orçam ento anual. No fim do ano se fazia a com paração entre a realidade e a expectativa. Quando sai da Poly gram e com ecei na Warner j á eram duas vezes por ano. Em alguns anos, por conta do acordo Tim e/Warner, passou a ser todo m ês. Com isso eu conheci a passagem de um a indústria basicam ente criativa para um a indústria convencional.
Menescal – Acho que é em 1981. Crise do Petróleo. Quando tem crise no petróleo surgem coisas com o: “não vam os fazer tudo isso que a gente está fazendo.” “Não pode experim entar tudo.” Aí você com eça a resolver. E quem vem para dirigir a com panhia são os controllers. Aí, fica barra pesada.
CA − COMO O EPISÓDIO DA CENSURA ESTEVE PRESENTE NO PHONO 73 E COMO VOCÊS LEMBRAM DESSE EPISÓDIO?
Midani – Eu não estava no Brasil. Estava na Holanda. Eu tinha que estar j unto ou viaj ar para m atriz para conseguir um estúdio para a com panhia. Achei que deixar o m eu pessoal, Pittigliani, o Jairo e, de um a outra m aneira, o Guilherm e Araúj o, que não era da gente, m as que era da gente. Achei que o assunto tinha sido tão conversado, tão organizado no papel, que eu tinha toda confiança que ia dar certo. Quanto ao caso da censura, tem que perguntar ao Roberto. Eu não estava presente na gravação do Phono 73. Tem gente que acha que eu tinha fugido. Coisa de censura é com o Roberto.
Menescal – Eu sou o censor (risos). A gente sabia do risco. Mas, o Chico disse: “Nós vam os cantar. Vam os tocar a coisa pra frente, ok?”. “Vai, que a gente vê o que faz”, eu respondi. Foi o que fiz. Era um segundo andar ou terceiro. A parte técnica ficava lá em cim a de onde dava para ver o palco do Anhem bi. Levam os as m áquinas, levam os tudo. E de lá a gente via e ouvia principalm ente isso. De repente entra um cara louco da censura na cabine gritando para que desligássem os o som . E dizia que nós sabíam os... Eu falei: “Não, a gente tá aqui gravando”. Aí tentei com eçar a levar no papo. “Desliga”, ele gritou. Aí eu tirei o som da sala. E o cara com eçou a discutir. E eu falei: “Cara, a gente tá gravando.” Mas, ele disse que daquele vez não podia. E de repente ele olha para frente e diz: “Eles tão cantando.” “Não, sei lá, é outra coisa, é o som da casa.” Aí o cara desce feito um louco e vai m andar cortar o som do PA. E depois o cara ainda queria levar todo m undo preso.
MF – Q UANDO VOCÊS FIZERAM A REEDIÇÃO Q UE SAIU COM O DVD NÃO MEXERAM NO SOM, ERA SÓ VÍDEO. SÃO 32 FITAS, EU OUVI TUDO HÁ 15 ANOS...
Menescal – Acabava cada show e eu ia direto para o aeroporto e pegava um avião direto para o Rio, direto para o estúdio. Ficava lá. Virava a noite m ontando, m ixando, depois levavam para fábrica de m otocicleta.
CA – TINHA CENSURA. TRÊS, Q UATRO DIAS DEPOIS CADA DISCO ESTAVA NA RUA. E A CENSURA?
Menescal − “Cálice” não entrou no repertório. Inclusive não tem no disco.
CA − FORA “CÁLICE”, ELES DEIXARAM TUDO?
Menescal – Porque na verdade j á estava tudo liberado. Tudo j á havia sido m andado para censura. Ela proibiu “Cálice”, m as tocam os o proj eto. Lem bro que a gente m andava antes. A gente fazia m uito truque. Aquela do disco do Chico e Caetano que diz “eu com o, eu com o, eu com o... você não está entendendo nada do que eu digo”. Escrito é um a coisa. Era um j ogo de gato e rato. “Cálice” estava censurada. Mas, eles disseram que iam tentar. “Canta.” Cantaram , m as não foi perm itido entrar no disco.
MF – IAM USAR O VÍDEO?
Midani – Em principio eu não sabia se na hora havia um registro em vídeo. Eu acho que o Arm ando m e disse que a gente havia feito um acordo com o Guga, irm ão do Boni, da TV Globo. Mas a coisa acabou não andando. Até que um tem po depois ele m e liga e diz que um a assistente que fez um a pequena m ontagem aleatória, de 21 m inutos, m as que tem “Cálice” lá, tem o beij o da Bethânia na Gal, tem a vaia para a Elis e a reação do Caetano, tem o Jorge cantando enlouquecido com Caetano beij ando o chão... Então, são poucos m inutos, m as intensos.
CÁLICES DE HISTÓRIAS
“Cálice”, de Gilberto Gil e Chico Buarque, com posta para o Phono 73, foi um sucesso em 1973. Mas, um sucesso “m udo”. Pois, todos sabiam da m úsica e que ela não havia sido tocada no festival da gravadora, que os m icrofones haviam sido desligados... Mas, ouvir m esm o, poucos ouviram . Ela só foi lançada oficialm ente, liberada pela censura, em 1978, quando ganhou três gravações. Um a com Maria Bethânia, um a com Bebel Gilberto e Miúcha e a m ais contundente e a que ficou no im aginário dos ouvintes com Chico Buarque e Milton Nascim ento. O registro de Chico e Gil cantando (ou tentando cantar) “Cálice” só pôde ser visto m uitos anos depois quando foi lançada a versão em CD do proj eto, que tinha com o bônus algum as im agens captadas durante o festival.
Mas m uita gente ouviu a canção antes de sua gravação oficial, antes dela ser im pressa nos acetatos da vida. Um a das vezes foi ainda em 1973. Motivados pelo desaparecim ento de um de seus colegas, o j ovem Minhoca, estudante de Geologia da USP, os universitários pensam em organizar m anifestações e convidam Gilberto Gil para se apresentar no auditório da escola Politécnica. Claro que a estudantada pediu para ele cantar “Cálice”. Mas Gil pediu desculpas, pois não sabia toda a letra, afinal boa parte foi escrita por Chico. De repente surgiram várias cópias da letra. Um estudante segurava a letra enquanto Gil cantava. Claro que o show durou bem m ais que os 30 m inutos que ele disse que poderia fazer e a m úsica foi “bisada” no final. A apresentação foi gravada e chegou a circular na Internet. Boa parte desta história, com outros detalhes está no livro Cale-se, escrito pelo j ornalista Caio Túlio Costa, publicado em 2003 pela editora Girafa.
Phono 73 – O Canto de um Povo (Phonogram) Direção de Estúdio: Mazolla, Sérgio, Edu e Nelson Motta
Capa: Ilustração de Benício
Gravado ao vivo no Palácio das Conveções
Parque Anhem bi – São Paulo, SP
Maio de 1973
Disco 1, Lado A
1. Regra Três (Toquinho e Vinicius de Moraes)
Intérpretes: Toquinho e Vinicius
2. Samba de Orly (Chico Buarque e Vinicius de Moraes)
Intérpretes: Toquinho e Vinicius
3. Orgulho de um Sambista (Gilson de Souza)
Intérprete: Jair Rodrigues
4. Sou da Madrugada (Gilson de Souza e Wando)
Intérprete: Jair Rodrigues
5. Hino ao Senhor (Tony Osanah)
Intérprete: Wilson Sim onal
6. Rock da Barata (Jorge Mautner)
Intérprete: Jorge Mautner
Disco 1, Lado B
1. Tudo Se Transformou (Paulinho da Viola)
Intérprete: Caetano Veloso
2. Vou Tirar Você Desse Lugar (Odair José)
Intérpretes: Odair José e Caetano Veloso
3. Vai Depressa (William Verdaguer)
Intérprete: Ronnie Von
4. Loteria da Babilônia (Raul Seixas e Paulo Coelho)
Intérprete: Raul Seixas
5. Me Acende Com Teu Fogo (Roberto Carlos e Erasm o Carlos)
Intérprete: Erasm o Carlos
6. Sentado à Beira do Caminho (Roberto Carlos e Erasm o Carlos)
Intérpretes: Wanderléa e Erasm o Carlos
7. Foi Assim (Juventude e Ternura) (Renato Corrêa e Ronaldo
Corrêa) Intérprete: Wanderléa
8. Festa de Arromba (Roberto Carlos e Erasm o Carlos)
Intérprete: Erasm o Carlos
Disco 2, Lado A
1. É Com Esse Q ue Eu Vou (Pedro Caetano)
Intérprete: Elis Regina
2. Ladeira da Preguiça (Gilberto Gil)
Intérpretes: Elis Regina e Gilberto Gil
3. Filhos de G handi (Gilberto Gil)
Intérprete: Gilberto Gil
4. Mas Q ue Nada (Jorge Ben)
Intérprete: Jorge Ben
5. É de Manhã (Caetano Veloso)
Intérprete: Jorge Ben
6. Zumbi (Jorge Ben)
Intérprete: Jorge Ben
Disco 2, Lado B
1. Não Tem Perdão (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Barros)
Intérpretes: Ivan Lins e MPB4
2. Pesadelo (Maurício Tapaj ós e Paulo César Pinheiro)
Intérprete: MPB4
3. A Alegria Continua (Mauro Duarte e Vilela)
Intérprete: MPB4
4. Baioque (Chico Buarque)
Intérprete: Chico Buarque
5. Manera Fru Fru, Manera (Raim undo Fagner e Ricardo
Bezerra) Intérprete: Fagner
6. Jazz Potatoes (Jorge Ben)
Intérpretes: Jorge Ben e Gilberto Gil
Disco 3, Lado A
1. Diz Q ue Fui Por Aí (Zé Kéti e H. Rocha)
Intérprete: Nara Leão
2. Q uinze anos (Naire e Paulinho Tapaj ós)
Intérprete: Nara Leão
3. Movimento dos Barcos (Jards Macalé e Capinam )
Intérprete: Jards Macalé
4. Trem das Onze (Adoniran Barbosa)
Intérprete: Gal Costa
5. Sebastiana (Rosil Cavalcanti)
Intérprete: Gal Costa
Disco 3, Lado B
1. Oração da Mãe Menininha (Dorival Cay m m i)
Intérpretes: Gal Costa e Maria Bethânia
2. Preciso Aprender a Só Ser (Gilberto Gil)
Intérprete: Maria Bethânia
3. Trampolim (Caetano Veloso e Maria Bethânia)
Intérprete: Maria Bethânia
4. A Volta da Asa Branca (Luiz Gonzaga e Zé Dantas)
Intérprete: Caetano Veloso