1973: O Ano que Reinventou a MPB
A Resenha de uma Amizade
1º ACTO − ZÉ RODRIX
Tavito
onheci Zé Rodrix quando ele ainda era José Rodrigues – o que determ ina que isso não pode ter acontecido há m enos de
C quarenta anos. Para ser exato, foi em 1969. Escolhem o-nos com o parceiros e irm ãos de fé num tem po controverso e com plicado, eivado de políticas espúrias e ações de rara violência contra o ser hum ano – e, paradoxalm ente, cheio de m anifestações de entendim ento, sim plicidade e benquerença de uns pra outros. Eu e Zé passam os por experiências únicas de alegria e m edo, várias pela prim eira vez, com panheiros vida afora num som que se dizia im aginário, m as que era tão consistente e palpável quanto o bronze de um sino de igrej a. Desfizeram -se sonhos, vieram outros, aos borbotões, cada vez com m ais m úsica na m úsica e m ais poética na poética. Abriram -se portas incríveis na publicidade, no teatro, nas esquinas, nos botecos, brindam os convívios preciosos com artistas de todos os credos e tendências. Os anos de 70, 71 e 72 foram assim , avassaladores, com direito à form ação do genial grupo Sá, Rodrix e Guaraby ra, cuj a explosão descontrolada nos legou duas preciosidades inteiras, os álbuns Passado, Presente e Futuro e o m agnífico Terra; à ascensão do bom rock progressivo pelas m ãos de dezenas de grupos tipo malucos, porém centrados, com o o próprio Som Im aginário, que se estendia além de si m esm o, trazendo a percepção de um m ercado vibrante que ressurgia depois da era dos festivais, vicej ando dos escom bros, das dores e êxtases de um tem po único. Nossos cabelos cresciam a toda brida, engolindo as orelhas, o pescoço, os om bros, as costas e, por vezes até os glúteos. A porrada com ia, m as isso era bom – pois enchia os corações da m oçada de ideais um tanto heroicos – ideais não apenas pátrios, m as pessoais e intransferíveis. E, segundo rezava o m om ento rodrixiano, totalm ente enfastiado de associações, ideais indivisíveis tam bém . Era 1973, e um Zé Rodrix recém -saído do com prom isso do trio Sá/Zé/Gut m udara-se para São Paulo a m eu convite, para criar jingles bem pagos no Estúdio do José Scatena, capo italiano de boa cepa que hoj e ocupa um as trinta páginas do livro do Boni. Lá tínham os um salário de cinco m il dinheiros e trabalhávam os com o gosto de crianças que provam um a guloseim a desconhecida feita à base de ópio. Foi quando o diretor artístico m ais elegante de todos os tem pos, o célebre Milton Miranda, da Odeon, convocou m eu am igo para seu prim eiro voo solo da carreira. E o disco que nasceu desse convite, o 1º Acto é o verdadeiro m otivo e assunto dos escritos que desfio aqui.
Zé Rodrix, José Rodrigues Trindade de batism o e que se autoapelidara assim graças às historietas dos geniais Goscinny e Uderzo, os criadores de Asterix, sem pre teve um a energia absurda de corpo e pensam ento aliada à absoluta ausência de vergonha de si m esm o e de suas ideias, graças a um traço genético raro e às aulas de teatro que, a duras penas, pagara do próprio bolso nos idos do Colégio Aplicação. Zé Rodrix dobrou discutidores ferozes às m ancheias ao longo de sua vida, sem dó nem piedade. O cara tinha m esm o gosto pela coisa. Várias faixas desse álbum foram dissecadas até as tripas em discussões acaloradas, ainda que irm ãs. Lem bro-m e bem de um a delas, acerca do rock assustado “Eu não quero”. A letra dizia assim : “Eu não quero ser um núm ero e um a im pressão digital / você não quer ser um núm ero e um a im pressão digital (...) então porque que todo m undo é apenas um núm ero e um a im pressão digital?” Confesso que essa ideia toda parecia-m e estranha, e o tem po provou que eu tinha e não tinha razão algum a. Digo isso porque, na reavaliação do disco, percebo que essa faixa condensa todo o Zé Rodrix que interessa, em seus notáveis pruridos e espasm os de pura futurologia energética. Os form atos expostos nesta canção são com pletam ente inusitados para a época, com binando um a linguagem coloquial quase irresponsável com alicerces lógicos extrem am ente convincentes e, por que não, agressivam ente poéticos, com o poucas vezes vi.
Quando tínham os o repertório m ontado e escalonado, veio de lá a bom ba: a censura tinha cortado, de cabo a rabo, um a canção rom ântica que com puséram os especialm ente para a ocasião. A letra era de um a candura m elíflua à prova de lenços im perm eáveis. A burrice m arm órea e a m á fé proposital da censura (que se divertia com isso, hoj e sei) passou a borracha em nossas intenções de am or e delicadeza. Logo m e propus a eleger outra canção, em m eio às m ais de cinquenta disponíveis. O Zé resolveu colocar no lugar da dita cuj a um estranho instrum ental de m ais de quatro m inutos, feito às pressas, que se cham aria “Receita de bolo” – à m oda dos j ornais da época, que ocupavam seus espaços censurados com variações inverossím eis dos m ais diferente form atos, inclusive as fam osas receitas do tipo. O LP ficou então com nove canções irradiáveis e um incom preensível apêndice instrum ental.
“Casca de caracol” é um rock m estiço de grande im pacto. A m úsica originalm ente j á é tudo o que se espera de um hit radiofônico com pleto, paradoxalm ente sem casca algum a. Som ado ao arranj o espetacular, seu im pacto se m ultiplica e se diversifica num moto perpetuo de rara profundidade. Atinge todos os cantos do cérebro, e deixa o ouvinte à m ercê de suas sonoridades únicas. Zé Rodrix inaugura o disco com essa faixa, e essa escolha foi unânim e. Entretanto, erram os feio: essa canção não tocou nas rádios. Talvez seus versos lisérgicos não tenham im pressionado a m oçada de plantão: “... no tem po em que toda a rapaziada era algo de novo debaixo do sol / eu sem pre preferia esconder a m inha cara num a casca de caracol”. Ouçam o-la hoj e, no entanto: é im pressionante com o os trom petes estridentes com binados com os trom bones escuros im pactam , envolvem e encantam quem ouve. Talvez por apresentar um a tessitura criativa absolutam ente original – hoj e dem onstre seu vigor com m ais clareza, com essa antiga habilidade de interessar as pessoas enfim revelada. Com o preconiza o encarte original, “o tem po deu razão a quem de direito”. Nessa direção tam bém vai a esquisita “Essas coisas acontecem sem pre”, um im provável sequencial de baixos, m usicado e versificado a posteriori. Trata de um caso no m ínim o estranho – de um garoto que vivia feliz em sua bela casa, pai, m ãe, em pregados, carros bacanos e brinquedos à farta, quando, por razões não explicadas, topa com um a “fada nem boa, nem m á”. Sai pelo m undo de braço dado com a tal fada e aprende um a série de coisas novas, todas politicam ente corretas, m as de praticidade zero. Quando volta, é m uito m ais feliz – visto que j á não tem casa, pai, m ãe, em pregados, carros bacanos e brinquedos à farta; tem som ente a si m esm o, j á que a esquisita fada desaparece m isteriosa e conveniente no decorrer do processo. Passa a usar seu tem po “pra viver feliz, com pouca coisa pra chatear”; e coroa sua notável traj etória com um pensam ento algo inútil: “...essas coisas acontecem sem pre”. E dá-lhe de discussão com a produção para todo lado e teim osias esféricas. Com o sem pre, a canção m ostrou seu valor, sendo bem aceita e bastante executada; foi inclusive regravada pelo príncipe Ronnie Von, um am igo querido.
Essas considerações sobre as canções constantes do LP são para m ostrar a absoluta ausência de um a filosofia coesa de repertório, num m om ento onde o Sgt. Peppers dos Beatles j á tinha seis anos de lançado. Isto funcionava com o um a fuga da caretice lógica, com batida pelo underground sonoro da época com vigor; buscava o nada a princípio, m as o tudo num possível e afortunado resultado brilhante, ditado pela som atória de m om entos esparsos, desalinhavados, até m esm o irresponsáveis. Hoj e sei que se criaram novas e deliciosas estéticas a partir dessas brincadeiras sem lei e sem ordem . Já o fizéram os no Som Im aginário com bastante sucesso. Ali funcionávam os com o um grupo experim ental, apesar dos destinos pré-traçados. As sonoridades básicas eram todas sacadas na hora, pois dispúnham os de tem po e verba para fazer o que bem entendêssem os. Depois de passar pela severa lixa do tem po e das com parações de época, os resultados sonoros hoj e aparecem , cheios de personalidade e sabores inusitados.
Divertim ento puro foi a inclusão do prim eiro sam ba que vi Zé Rodrix com por, o “Xam ego da nêga”. Criam os no estúdio um am biente de bar, com m esinhas de botequim , cachaça Pitu e cervej a a rodo, convocam os convidados barulhentos, todas as nossas m ulheres, batucadores profissionais de tam pos de m esa, o indefectível Dazinho, o rei dos tocadores de caixa de fósforos (da m arca “Pinheiro”, aquela azul de rótulo am arelo feita de ripa de m adeira, a verdadeira e eterna sonoridade do sam ba); eu m esm o peguei um violãozinho sarapa que ficava na sala dos m úsicos. Ligam os os enorm es m icrofones Neum ann em posições estratégicas, capitaneados pelo querido Nivaldo Duarte e dem os início à gravação, violão + voz e zona – um a zona danada, na verdade. O resultado é surpreendente, a qualidade da gravação excepcional. O Zé inauguraria nessa noite um a segunda identidade nada secreta, o Zezinho do Tam bá, sam bista ferrado que voltaria a atuar dezenas de vezes no decorrer dos tem pos. Foi um a noite e tanto, que se prolongaria para outros bares de verdade e que provocaria um dia de folga, forçado pela excruciante ressaca da equipe. Um lem brete pertinente: o Zé j am ais tom ou um gole de álcool em toda a sua vida. Nem drogas. Dizia-se que ele, à m oda de Obelix, caíra no caldeirão quando bebê.
Um a das forças do rock rural, que recheara os dois LPs de Sá, Rodrix e Guaraby ra, era um a pontual “nostalgia do despertar da j uventude transgressora”. Zé Rodrix dá continuidade a esse tem a em “Cadillac 52”, na qual se transporta a um a realidade que não vivera por ser ainda m uito j ovem ; só os que tinham m ais de dezoito no final dos anos cinquenta para o com eço dos sessenta viveram as benesses e desvios da fam osa Juventude Transviada, do rock n’ roll de academ ia, dos topetes à Jam es Dean, dos roubos furtivos dos carrões paternos para deliciosas sessões de bolinagem , das brigas de gangues, dos blusões de couro e das Lam brettas m ulticores reunidas em enxam es nas portas das lanchonetes. No entanto, com a m esm a felicidade de suas incursões anteriores, desenhou um poem a m oderno, instigante e poderoso, em que diz à recatada donzela, alvo de seus anseios m enos nobres, que a levará para “m e conhecer com o eu sou de verdade”, confortavelm ente instalada no m acio couro dos bancos de um Cadillac 52, que ele surrupia habitualm ente da garagem de seu pai na calada da noite (“...o velho à noite nunca sai e eu aproveito”). E olha que éram os apenas bichos-grilos pregadores contum azes da paz, do am or livre e do sexo e das andarilhagens poeirentas do universo riponga de então, desde que servido por um a entourage técnica com banheiro lim po dotado de água quente e sabonete, desodorante de boa m arca e bom papel higiênico, de preferência daqueles que tem florezinhas estam padas. E calças de astracã da Krishna.
Um sentim ento com um a todos nós foi o m otivador da tem ática de um a outra estrela do repertório do 1º Acto, a canção “Quando você ficar velho”. Acho que o m edo da velhice se m anifesta durante toda a vida adulta, até m esm o quando, com o hoj e, j á nos tornam os velhos de fato. A tendência é pensar a respeito, ainda que disfarçando nossos reais m otivos com posturas falsam ente experientes, m uitas vezes além de nós m esm os, quase sem pre num tom didático, aquele que nossas viagens poéticas nos perm item . Passar a angústia reprim ida não é adm issível a nenhum a m assa j uvenil. A obrigação de ser feliz é m ais forte. “Quando você ficar velho” não passa de um a descrição velada das angústias de José Rodrigues acerca do tem a, calcadas em seu senso de observação e na facilidade de com por seus pensam entos no papel de form a inclusiva e j usta – ainda que m ortal com o um dardo envenenado.
O Zé tinha um pé em Cuba. Cantávam os m úsica cubana em casa, esguelávam o-nos num a sólida “Guantanam era” a três vozes e tínham os aquele vício do tem po que endeusava Castro, sua troupe revolucionária e, sem pre e principalm ente, Che Guevara. O fato é que, naquele 1973 controverso e cheio de alternativas, os ritm os caribenhos foram tom ando form a definida na construção do 1º Acto – se avolum aram e se transform aram num a enorm e m osca azul de quatro ferrões que acabou picando o Zé bem na parte posterior da cabeça. Haveria ali, naquele m om ento, um a reviravolta de estilo em toda a concepção rodrixiana, que detectou na onda latina um potencial portal para o esboço definitivo de seu sucesso industrial. E daí nasceu a m am bo/salsa/rock “Eu preciso de você pra m e ligar”. Qualquer produtor, m úsico ou arranj ador m edianam ente esperto perceberia de pronto as qualidades do conceito, não só pelo suingue irresistível, com o pelo saudável ineditism o. Aconteceu com o Zé; e a gravação dessa faixa (na m inha opinião um a das m elhores resultantes sonoras de todo o disco) detonou um processo que m oldou seu estiloso futuro próxim o, aquele que resultou na m udança de status do artista de “prestigioso” para “popular”, levando, alguns anos m ais tarde, a sua m úsica “Soy latino-am ericano” a todas as bocas do Brasil, de norte a sul. Cheia de sincopadas certeiras, sílabas am ontoadas, avanços e atrasos irresistíveis – e um ótim o refrão – a canção arrebatou a todos. O Zé sem pre foi um craque de bola.
“Coisas pequenas” é um a canção de am or sincero. Muitos críticos deste disco a consideram a m ais perceptiva e fluida de todo o repertório. É um blues clássico, insinuante, com explosões em ocionais com alto teor de verdade: “Obrigado pelas coisas pequenas / que ainda bem você não esqueceu / obrigado pelos dias de chuva / em que você não deixou chover / e obrigado por estar no m undo / e obrigado por cuidar do que é m eu / m uito obrigado e não esqueça nunca / que eu continuo sendo sem pre seu.” É a palavra rasgada do apaixonado que nada tem a tem er, pois que o futuro é um a peça secundária na m ontagem da felicidade. O presente diz tudo, com pletam ente, e as im agens passadas apenas lhe servem de fiança e apoio.
No ano anterior, 1972, Zé e eu havíam os feito um jingle para Cam panha da Fraternidade, patrocinada pela CNBB. Depois de algum estudo, chegam os a um resultado criativo bem bacana: um a m archa inglesa com pom pa e circunstância, à Sir Edgard Elgar – influenciadíssim os pela trilha sonora do film e Laranja Mecânica, do Kubrick, hit de interesse daquele ano. Por m ais bizarro que pareça, essas coisas acontecem na propaganda m ais do que se pensa. Desde então, eu e Zé botam os na cabeça a ideia de com por algo assim para o m ercado. Quando aconteceu o convite para o disco, a oportunidade se criou sozinha e com pusem os o tem a com a finalidade específica de encerrar o LP, na m odalidade “Grand Finale”, pretensiosos que só, m as clássicos e certeiros na conceituação. “Vam os sonhar o sonho outra vez”, em resposta a o “The dream is over” proferido por Lennon e m isturando as bolas do “But for m e, it hasn’t even begun”, de Marlene Dietrich, com as do “The show m ust go on”. Hoj e, com os ouvidos am aciados com o paciente vagar pelo ribom bar dos sons, reconheço nela um tem a de singular qualidade; e sou grato a cada acorde, cada frase, cada m om ento vivido.
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“Eu não quero ver o ano 2000 debaixo de sete palm os / Você não quer ver o ano 2000 debaixo de sete palm os / Ninguém aqui quer ver o ano 2000 debaixo de sete palm os / Então por que que todo m undo fica sem pre quietinho debaixo de sete palm os?” (últim a estrofe do rock “Eu não quero”).
Zé Rodrix, segundo seus desej os expressos num divertidíssim o testam ento, foi crem ado e suas cinzas foram j ogadas ao m ar.
1º Acto (Odeon − SMOFB 3815)
Direção de produção: Milton Miranda
Produção: Tavito
Técnicos de som :Nivaldo, Dacy, Toninho
Sonoplasta: Ladim ar
Engenheiro de som : Z. J. Merky
Mixagem final: Jorge Teixeira
Arranj o: Tavito e Zé Rodrix
Fotos e program ação visual: Gang (SP)
Gravado nos Estúdios Odeon
Rio de Janeiro, RJ
Músicos:
Zé Rodrix e Em ílio Carsera: pianos, cravo e órgão Ham m ond
Johny Flarn: guitarra
Marcelo Frias: bateria
Willie Verdaguer: baixo
Tavito: violão
Lado A
1. Casca de Caracol (Zé Rodrix)
2. Coisas Pequenas (Zé Rodrix e Tavito)
3. Eu Não Q uero (Zé Rodrix)
4. Essas Coisas Acontecem Sempre (Zé Rodrix e Tavito)
5. Receita de Bolo (Zé Rodrix e Tavito)
Lado B
1. Cadillac 52 (Zé Rodrix)
2. Eu Preciso de Você Pra Me Ligar (Zé Rodrix)
3. Xamêgo da Nega (Zé Rodrix)
4. Q uando Você Ficar Velho (Zé Rodrix)
5. 2º Acto (Zé Rodrix e Tavito)